Ginecologia e ObstetríciaPré-natal, rastreios e intercorrências clínicas da gestação

Infecção urinária na gestação

Infecção do trato urinário e bacteriúria assintomática na gestação

A gestação é o único cenário de rotina em que bacteriúria assintomática se rastreia e se trata. Quase toda questão do tema nasce dessa inversão — e das duas datas que a governam: a semana em que a nitrofurantoína sai e a contagem de colônias que muda de significado quando o germe é o estreptococo do grupo B.

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Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Primigesta de 25 anos, com 11 semanas de idade gestacional, comparece à unidade básica de saúde para a segunda consulta de pré-natal. Está assintomática, afebril, sem queixas urinárias. Traz urocultura de jato médio colhida no laboratório, com crescimento de Escherichia coli, 120.000 UFC/mL, sensível a nitrofurantoína, cefalexina e amoxicilina. A urina tipo I mostra leucocitúria, sem hematúria nem proteinúria. Qual é a conduta?

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Como esse tema cai

Fora da gestação, bactéria na urina de quem não tem sintoma é colonização, e a conduta é não pedir o exame. Na gestação a regra se inverte: a urocultura entra na rotina do pré-natal, a bacteriúria assintomática vira diagnóstico, e o antibiótico é obrigatório. Quase toda questão do tema nasce dessa inversão — e o distrator predileto é oferecer, para a gestante, a conduta correta da não gestante.

O motivo da inversão é quantificável. Segundo o parecer conjunto de quatro sociedades brasileiras, a bacteriúria assintomática não tratada evolui para pielonefrite em até 40% das gestações; tratada, a taxa cai para 3%. São 37 pontos percentuais de redução absoluta, o que corresponde a um número necessário para tratar de 3: a cada três gestantes com bacteriúria que recebem antibiótico, uma pielonefrite deixa de acontecer. Nenhum outro rastreio do pré-natal compra tanto com tão pouco.

O capítulo tem três eixos de erro, e todos são de calendário. O primeiro é a semana em que a nitrofurantoína sai — 37 semanas na régua vigente, e o documento da atenção básica de 2016 diz 36. O segundo é o trimestre em que a sulfametoxazol-trimetoprima é proscrita, que são dois trimestres opostos e por motivos opostos. O terceiro é a contagem de colônias que muda de significado quando o germe é o estreptococo do grupo B: cem mil colônias definem bacteriúria assintomática, mas para o estreptococo B qualquer contagem já é critério de profilaxia no parto.

Fica fora daqui, porque já está escrito: a escada completa da infecção urinária fora da gestação — bacteriúria assintomática, cistite, pielonefrite, urossepse, infecção associada a cateter — está no capítulo 'Infecção do trato urinário', em Nefrologia, e é lá que mora a lista de quem não se trata; a criança está em 'Infecção do trato urinário na criança'; o calendário completo de exames e o método de coleta estão em 'Exames do pré-natal' e em 'Rotina do pré-natal de risco habitual'; e o estreptococo do grupo B na rotura prematura de membranas e no trabalho de parto prematuro está nos capítulos com esses nomes. Aqui entra o que é da gestante: por que a régua muda, qual droga em qual semana, e o que a urocultura por estreptococo B faz com o parto.

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O que muda decisão

Por que a gestação inverte a regra: três mudanças, todas com número

O Protocolo Febrasgo n. 87 organiza a fisiologia em três blocos, e vale decorá-los nessa ordem porque cada um explica um achado diferente da prova.

Primeiro, o relaxamento. A prostaciclina e a progesterona relaxam a musculatura lisa do trato urinário, produzindo hipotonicidade, hipomotilidade e dilatação — hidronefrose e refluxo vesicoureteral que são fisiológicos na gravidez. É por isso que a bactéria que estaria confinada à bexiga sobe: o próprio protocolo diz que o relaxamento e a dilatação ureteral facilitam a ascensão das bactérias da bexiga para o rim, e é daí que vem a maior chance de a bacteriúria virar pielonefrite.

Segundo, a diluição. O fluxo plasmático renal e a taxa de filtração glomerular sobem 30% a 50%. O resultado é urina em maior volume, menos concentrada, alcalinizada, e com glicosúria e aminoacidúria — meio de cultura pronto. A urina da gestante não é apenas mais estagnada: é mais nutritiva.

Terceiro, a mecânica. A dextrorrotação uterina comprime o ureter direito. É a razão anatômica de a pielonefrite gestacional ser predominantemente à direita, e é um detalhe que a vinheta usa como pista: dor em flanco direito com Giordano positivo em gestante do segundo ou terceiro trimestre é pielonefrite até prova em contrário.

O preço clínico dessas três mudanças aparece nos desfechos. O Capítulo 34 do Manual de Gestação de Alto Risco lista, como complicações da infecção urinária na gravidez, aumento de anemia, prematuridade, baixo peso ao nascer, ruptura prematura de membranas, corioamnionite, sepse materna e neonatal e insuficiência renal. Estudos caso-controle citados pelo Protocolo Febrasgo n. 87 encontraram, em mulheres com infecção urinária na gestação, média de partos prematuros e mortalidade fetal 2,4 vezes maior. O mecanismo proposto para o parto prematuro é a produção bacteriana de fosfolipase A2, que leva a corioamnionite subclínica e ativa as prostaglandinas que deflagram o trabalho de parto.

Há uma ressalva que o próprio protocolo brasileiro faz e que a prova raramente cobra, mas que vale conhecer para não superinterpretar a vinheta: para a bacteriúria assintomática isoladamente, sem repercussão sistêmica, o documento afirma que a literatura ainda não tem dados de qualidade satisfatória demonstrando que ela, por si só, aumente a prevalência de trabalho de parto prematuro. O elo firme e quantificado da bacteriúria é com a pielonefrite; o elo com a prematuridade e o baixo peso é declarado como associação nos documentos brasileiros e é o que sustenta o texto que a Caderneta da Gestante entrega à mulher.

A pielonefrite, quando se instala, é doença grave. O Protocolo Febrasgo n. 87 estima que até 20% das mulheres com pielonefrite grave desenvolvam sepse, e reproduz uma série prospectiva de 440 casos de pielonefrite aguda em que as complicações foram anemia em 23%, bacteremia em 17%, insuficiência respiratória em 7% e insuficiência renal em 2%.

Ilustração do trato urinário de uma gestante em vista anterior: o útero rodado para a direita comprime o ureter direito, que aparece dilatado junto com a pelve renal direita, enquanto o lado esquerdo permanece estreito; setas ascendentes ao longo do ureter direito indicam o caminho da bactéria da bexiga para o rim.
As três mudanças em uma imagem: o relaxamento da musculatura lisa dilata a via urinária, a dextrorrotação uterina comprime preferencialmente o ureter direito, e a estase resultante abre o caminho ascendente da bexiga ao rim. É a explicação anatômica de a pielonefrite gestacional ser predominantemente direita.

Bacteriúria assintomática: a definição microbiológica, colônia por colônia

Bacteriúria assintomática é a presença de uma ou mais espécies de bactérias em multiplicação ativa no trato urinário, em quantidade significativa, na ausência de sinais e sintomas de infecção urinária e independentemente de haver piúria. A definição é microbiológica: quem faz o diagnóstico é a urocultura, não a fita reagente e não o sedimento.

O corte é maior que 100.000 unidades formadoras de colônia por mililitro, ou 10⁵ UFC/mL, em amostra de jato médio. Os três documentos brasileiros convergem nesse número. O Protocolo Febrasgo n. 87 acrescenta uma exigência que a prova gosta: deve ser a mesma bactéria, não flora mista — cultura polimicrobiana sugere contaminação da coleta.

O corte da amostra colhida por cateterismo vesical é onde os documentos brasileiros se separam. O parecer conjunto de 2020 adota 10² UFC/mL, o mesmo valor do documento norte-americano; o Protocolo Febrasgo n. 87 adota mais de 10.000 UFC/mL, isto é, 10⁴. São duas ordens de grandeza de diferença dentro da mesma federação, e a divergência está registrada no bloco próprio. Em prova, o corte de jato médio é o cobrado; o de cateterismo aparece raramente e, quando aparece, o enunciado costuma entregar qual documento invoca.

Quantas amostras? Esta é a pergunta que separa o Brasil do documento norte-americano, e é o item de divergência mais rentável do tema. O Protocolo Febrasgo n. 87 é explícito: um só exame positivo na gestação é suficiente para instituir a antibioticoterapia imediata. O parecer conjunto de 2020 define bacteriúria significativa por uma contagem, sem exigir repetição. Já a diretriz da Infectious Diseases Society of America de 2019 exige, para a mulher, duas amostras consecutivas de jato médio, colhidas de preferência com menos de duas semanas entre elas. Na vinheta brasileira, uma urocultura com cem mil colônias em gestante assintomática é diagnóstico fechado e mandato de tratamento — não se repete o exame antes de tratar.

Um detalhe de coleta que muda o resultado e cai em questão de laboratório: o parecer conjunto orienta colher no laboratório, de preferência a primeira urina do dia ou, na impossibilidade, com a urina retida na bexiga por pelo menos duas horas, e desaconselha aumentar a ingesta hídrica antes do exame — o excesso de líquido dilui a urina, derruba a contagem de colônias e produz falso-negativo.

A fita reagente não substitui a cultura. O Protocolo Febrasgo n. 87 dá a nitrito com esterase leucocitária sensibilidade de 77% e especificidade de 70%, e conclui que esses testes não definem conduta na gestante porque podem estar normais na vigência de infecção. O que a atenção básica faz com a urina tipo I é outra coisa: o quadro de interpretação dos Protocolos da Atenção Básica manda, diante de leucocitúria, realizar urocultura para confirmar; e, apenas se a urocultura não estiver disponível, tratar empiricamente.

Quando rastrear: duas uroculturas na régua vigente

A Caderneta Brasileira da Gestante, edição vigente, lista urina tipo I e urocultura com antibiograma em exatamente dois pontos da tabela de exames de rotina: no primeiro trimestre ou primeira consulta de pré-natal e no terceiro trimestre. Não há um terceiro momento na tabela — o segundo trimestre da Caderneta traz o teste oral de tolerância à glicose, o Coombs indireto de repetição, malária e toxoplasmose, e nenhum exame de urina.

Os documentos assistenciais dizem o mesmo com outras palavras. O parecer conjunto de 2020 recomenda rastrear no início do pré-natal e no começo do terceiro trimestre. O Protocolo Febrasgo n. 87 fecha suas recomendações finais com a mesma frase: uma urocultura na primeira consulta e outra no início do terceiro trimestre.

Quando o rastreio fica mais denso. O parecer conjunto manda considerar rastreio mais frequente em situações de risco aumentado de infecção, citando o diabetes mellitus. O Protocolo Febrasgo n. 87 propõe cultura mensal para pacientes com fatores de risco ou recorrência — e a mesma cultura mensal aparece no fluxograma de seguimento depois de uma pielonefrite. O Manual de Gestação de Alto Risco tem duas situações com regra própria e explícita: na gestação gemelar, recomenda avaliação de hemoglobina e de urocultura a cada trimestre; na doença renal crônica, chama de abordagem razoável a investigação de bacteriúria assintomática a cada trimestre.

Somando: a régua de base são duas uroculturas; risco, recorrência ou episódio prévio empurram para trimestral ou mensal. Enunciado que ofereça 'rastrear apenas na primeira consulta' erra por omissão do terceiro trimestre; enunciado que ofereça 'rastreio mensal para todas' erra por generalizar a exceção.

Tratamento da bacteriúria assintomática e da cistite: as tabelas e o que elas custam

Toda gestante com bacteriúria assintomática é tratada — o parecer conjunto faz disso uma recomendação numerada, e o Capítulo 34 do Manual de Gestação de Alto Risco escreve que na gravidez ela sempre deve ser tratada. A escolha do antimicrobiano segue o antibiograma e o perfil de segurança na gestação; a duração segue a droga, não o quadro.

A regra de duração é de três linhas e resolve metade das questões: fosfomicina trometamol em dose única; nitrofurantoína por 5 dias; betalactâmicos por 7 dias. É assim no Quadro 1 do Manual de Gestação de Alto Risco e na Recomendação 6 do parecer conjunto.

O Quadro 1 do Manual traz três esquemas para a bacteriúria assintomática — fosfomicina 3 g em dose única, nitrofurantoína 100 mg de 6 em 6 horas por 5 dias, e cefalexina 500 mg de 6 em 6 horas por 7 dias. O Quadro 2, da cistite, acrescenta amoxicilina com clavulanato 875/125 mg de 12 em 12 horas e cefuroxima 250 mg de 12 em 12 horas, ambos por 7 dias. O parecer conjunto acrescenta ainda a amoxicilina isolada, 500 mg de 8 em 8 horas ou 875 mg de 12 em 12 horas por 7 dias, com um comentário que reaparece adiante e é decisivo: amoxicilina é o tratamento de escolha para estreptococo do grupo B e para Enterococcus faecalis.

Quantos comprimidos é isso, na prática da receita? Nitrofurantoína, quatro tomadas por dia durante cinco dias, são 20 cápsulas. Cefalexina, quatro por dia durante sete dias, são 28 cápsulas. Amoxicilina 500 mg de 8 em 8 horas por sete dias, ou amoxicilina com clavulanato 500/125 mg no mesmo intervalo, são 21 comprimidos. Fosfomicina é um sachê. A conta importa porque adesão é desfecho: o parecer conjunto e o Protocolo Febrasgo n. 87 citam a dose única como argumento de adesão.

O que a farmácia pública tem. A Relação Nacional de Medicamentos Essenciais de 2024 carrega, no Componente Básico, nitrofurantoína 100 mg cápsula, cefalexina 500 mg, amoxicilina 500 mg e amoxicilina com clavulanato 500 mg + 125 mg — todas classificadas como Acesso na régua AWaRe da Organização Mundial da Saúde. A fosfomicina e a cefuroxima, que encabeçam as tabelas dos documentos assistenciais, não figuram na lista nacional; a régua que vale para o que se dispensa na unidade básica é a Rename, e nela o par de primeira linha viável é nitrofurantoína e cefalexina. Duas consequências de posologia decorrem disso: a apresentação de amoxicilina com clavulanato da lista nacional é a de 500 + 125 mg, que se toma de 8 em 8 horas — o esquema de 875/125 de 12 em 12 horas do Quadro 2 do Manual não tem apresentação correspondente; e a cefalexina existe em 500 mg, de modo que a dose profilática de 250 mg citada nos documentos se obtém fracionando ou trocando de apresentação.

Cistite. O quadro clínico é disúria, polaciúria, urgência miccional, dor suprapúbica, hematúria e urina de odor desagradável. O parecer conjunto faz uma observação semiológica útil: na gestante, a queixa que deve ser valorizada é a disúria, porque frequência e urgência urinárias existem na gravidez sem infecção, por compressão vesical. Os Protocolos da Atenção Básica dizem a mesma coisa do outro lado do fluxograma — gestante com queixa urinária sem sintomas de infecção recebe orientação de que o aumento do número de micções é comum na gestação.

O tratamento da cistite é ambulatorial, com urocultura colhida antes do antibiótico. Para disúria muito incômoda, o Manual e o parecer conjunto permitem fenazopiridina 200 mg de 8 em 8 horas por até 48 horas — droga que também não consta da Rename 2024. A exceção que interna é a cistite complicada: na presença de hematúria macroscópica franca, o Manual manda avaliar hospitalização e antibiótico parenteral, em abordagem semelhante à da pielonefrite; o Protocolo Febrasgo n. 87 define cistite complicada como os sintomas habituais somados a hematúria franca e/ou febre.

Controle de cura é obrigatório e é exclusividade da gestante. A regra geral do parecer conjunto é não pedir urocultura pós-tratamento em paciente assintomático — exceto na gestante. O prazo varia entre os documentos: 7 dias após o término no fluxograma do Protocolo Febrasgo n. 87, 7 a 10 dias nos Protocolos da Atenção Básica, 1 a 2 semanas no parecer conjunto e 2 semanas no Manual de Gestação de Alto Risco. Todos mandam repetir; se a cultura de controle voltar positiva, trata-se de novo, guiado pelo antibiograma.

Pielonefrite: internação obrigatória, ceftriaxona e o relógio das 48 horas

Pielonefrite é infecção do parênquima renal e das estruturas adjacentes. Acomete cerca de 1% a 2% das gestações segundo o Manual de Gestação de Alto Risco e 2% segundo o Protocolo Febrasgo n. 87, é mais frequente no segundo e no terceiro trimestres e tem como fatores de risco pielonefrite pregressa, anomalias anatômicas do trato urinário e cálculo renal.

O quadro é calafrios, dor lombar, anorexia, náuseas, vômitos e febre, com punho-percussão lombar dolorosa — o sinal de Giordano — ajudando a caracterizar. O laboratório mostra piúria significativa, hematúria frequente, urocultura positiva, leucocitose com desvio à esquerda, anemia e proteína C reativa elevada. Duas ressalvas do Protocolo Febrasgo n. 87 evitam a armadilha do exame normal: quando há obstrução da via urinária, a urina colhida pode vir estéril e sem leucocitúria, e a urocultura é negativa em até 10% dos casos. Pielonefrite é diagnóstico clínico; a cultura confirma e guia, não exclui.

A hospitalização é obrigatória. O Manual usa essa palavra. Interna-se para hidratação venosa, monitorização de sinais vitais e de diurese, e antibiótico parenteral imediato. Pedem-se hemograma, função renal e eletrólitos, e ultrassonografia das vias urinárias; havendo suspeita de sepse, amplia-se com gasometria, lactato, proteína C reativa, provas de função hepática e hemoculturas. O ultrassom serve a dois propósitos: excluir o diferencial de litíase obstrutiva, que também cursa com dor em flanco e Giordano positivo, e procurar complicação.

O esquema é ceftriaxona 2 g por dia, por via intravenosa. O Manual de Gestação de Alto Risco escreve que a preferência atual é por ceftriaxona 2 g ao dia durante 10 a 14 dias; o Protocolo Febrasgo n. 87 usa a mesma dose por 10 dias. Ambos permitem completar o curso fora do hospital: o Protocolo pede via intravenosa por pelo menos 24 a 48 horas e programa a alta para completar por via oral ou intramuscular, e o Manual diz que casos favoráveis podem completar em regime ambulatorial após alguns dias de internação, citando a cefuroxima oral como alternativa à ceftriaxona.

Na aritmética da farmácia hospitalar isso custa mais frascos do que parece: a Rename 2024 traz ceftriaxona em 250 mg, 500 mg e 1 g — sem apresentação de 2 g. A dose diária são, portanto, dois frascos de 1 grama, e um curso completo consome 20 frascos em 10 dias ou 28 frascos em 14 dias. A ceftriaxona é, ainda, o único antimicrobiano do esquema classificado como Alerta na régua AWaRe da Rename, o que reforça o descalonamento pelo antibiograma assim que ele chega.

Os parâmetros de melhora, na lista do Protocolo Febrasgo n. 87: curva térmica afebril, débito urinário e função renal satisfatórios, melhora dos sintomas, sinais vitais normais e ausência de complicações obstrutivas e infecciosas como abscessos.

O relógio. O Manual de Gestação de Alto Risco manda mudar o esquema antibiótico caso não ocorra franca melhora clínica em 48 horas, ou conforme o antibiograma. Os Protocolos da Atenção Básica usam a janela de 48 a 72 horas: sintomas que persistem nesse prazo, ou recorrência em poucas semanas, obrigam a reclassificar o quadro como complicado, repetir a urocultura e iniciar tratamento empírico com droga de outra classe. A leitura conjunta é a que a prova cobra: febre que não cede em 48 a 72 horas de antibiótico adequado não é falha de dose, é problema estrutural — e o que se procura é obstrução ou coleção. O Manual é direto ao dizer que exames de imagem podem ser necessários principalmente na suspeita de calculose e abscesso renal, e que avaliação especializada pode ser requerida. Trocar o antibiótico sem imagem, nesse ponto, é tratar o sintoma da falha.

Depois da alta, duas obrigações. Exames de controle de cura devem ser solicitados; e a profilaxia antibiótica até o parto, nas palavras do Manual, sempre deve ser instituída após o tratamento da pielonefrite. Não há pielonefrite gestacional que termine sem profilaxia. O fluxograma do Protocolo Febrasgo n. 87 acrescenta o encaminhamento ao pré-natal de alto risco, urocultura de controle 7 dias após o tratamento e urocultura mensal no seguimento.

Os antimicrobianos por trimestre: o que serve, o que é proscrito e por quê

A base de segurança é curta e vale memorizar como bloco. O Protocolo Febrasgo n. 87 lista, como as medicações mais seguras que preenchem os antigos critérios de categoria A e B da Food and Drug Administration para infecção urinária na gestante: penicilinas, cefalosporinas, nitrofurantoína, fosfomicina trometamol e monobactâmicos. Fora dessa lista, cada droga tem uma janela proibida e um motivo.

Nitrofurantoína — sai no fim. É droga de primeira escolha no Brasil, não associada a teratogênese, e serve do primeiro trimestre até o fim do terceiro, com um limite: o parecer conjunto, o Manual de Gestação de Alto Risco e o Protocolo Febrasgo n. 87 mandam não usar após 37 semanas. O motivo é hemólise no feto ou no recém-nascido com deficiência de glicose-6-fosfato desidrogenase, que se traduz clinicamente em icterícia neonatal — a expressão que o Manual usa. A janela fechada é curta: entre 37 semanas e o termo há cerca de três semanas, e é só nelas que a droga sai. Os Protocolos da Atenção Básica de 2016 antecipam o corte para a 36ª semana, uma semana antes; a divergência está registrada em bloco próprio, e a régua vigente dos três documentos mais recentes é 37.

Sulfametoxazol com trimetoprima — proscrita nas duas pontas, por motivos opostos. O Protocolo Febrasgo n. 87 é explícito ao dizer que, por apresentar efeitos adversos dependentes da idade gestacional, a associação passa a categoria D durante o primeiro trimestre e nas últimas semanas da gravidez. No primeiro trimestre o problema é o trimetoprima, antagonista do folato, com o protocolo listando alterações do tubo neural, cardiovasculares, do trato urinário e fenda palatina — é o período da organogênese, e a droga interfere na mesma via que o ácido fólico protege. Nas últimas semanas o problema é o sulfametoxazol, que desloca a bilirrubina da albumina: os efeitos listados são hemólise e kernicterus. Há ainda uma terceira razão, esta microbiológica e brasileira, para não usá-la de forma empírica em nenhum trimestre: na Tabela 3 do parecer conjunto, a sensibilidade da Escherichia coli à associação foi de 54,5% no estudo multicêntrico ARESC e de 62,5% a 63,3% nas séries brasileiras — perto de um isolado em cada dois não responderia.

Quinolonas — proscritas na gestação inteira. O Protocolo Febrasgo n. 87 as classifica como tóxicas para as cartilagens em desenvolvimento e registra a associação com alterações em cartilagens articulares de neonatos. O parecer conjunto vai além do argumento gestacional e faz uma recomendação numerada: fluoroquinolonas — norfloxacino, ciprofloxacino, levofloxacino — não devem ser usadas para tratar cistite não complicada em mulheres nem durante a gestação, tanto pela queda de sensibilidade quanto pelo perfil de eventos adversos graves que a Food and Drug Administration reuniu em 2016 sob o rótulo de incapacidade associada a fluoroquinolonas e que a Agência Europeia de Medicamentos restringiu em 2019. Detalhe de leitura de enunciado: o ciprofloxacino existe na Rename 2024, classificado como Alerta — estar na lista nacional não o torna opção na gestante.

Tetraciclinas — categoria D, gestação inteira. Levam a displasia e descoloração de ossos e dentes do concepto.

Aminoglicosídeos — evitar. A gentamicina aparece na tabela de categoria C e D do Protocolo Febrasgo n. 87 com posologia de 5 a 7 mg/kg a cada 24 horas e efeitos adversos de nefrotoxicidade e ototoxicidade; a classe deve ser evitada pelo possível efeito tóxico sobre o nervo vestibulococlear. Não se justificam como primeira escolha, mas o mesmo protocolo registra o estudo de 1998 com 179 gestantes com pielonefrite aguda antes de 24 semanas em que cefazolina intravenosa ou ceftriaxona intramuscular tiveram efeito equivalente a ampicilina com gentamicina — o que explica por que o esquema clássico ainda circula sem ser o preferido.

Cloranfenicol — categoria D no primeiro trimestre. Síndrome cinzenta e toxicidade da medula óssea.

A síntese operacional: cefalosporinas e penicilinas atravessam a gestação inteira; nitrofurantoína cobre tudo menos as últimas três semanas; sulfametoxazol-trimetoprima é proibida nas duas pontas e desaconselhada no meio por resistência; quinolonas e tetraciclinas estão fora do começo ao fim.

Profilaxia contínua: quem recebe, com o quê, até quando

A profilaxia da gestante não é o mesmo objeto que a profilaxia da não gestante, e a diferença é o limiar: aqui ela começa cedo, com um número pequeno de episódios, porque o desfecho que se evita é a pielonefrite.

Quem recebe. O Protocolo Febrasgo n. 87 dá a lista mais operacional, com cinco gatilhos, e basta um: história prévia de infecções urinárias recorrentes antes da gestação; um episódio de pielonefrite durante a gravidez; duas ou mais infecções urinárias baixas na gestação; uma infecção urinária baixa complicada por hematúria franca e/ou febre; e uma infecção urinária baixa associada a fatores de risco importantes para recorrência. O parecer conjunto formula a mesma ideia de outro jeito: profilaxia após o segundo episódio de bacteriúria assintomática ou de cistite, ou já após o primeiro se houver história de infecção urinária de repetição. E o Manual de Gestação de Alto Risco converge nos dois pontos que mais caem: a detecção de novo caso de bacteriúria assintomática, ou de repetição de cistite, favorece a profilaxia até o parto; e após pielonefrite ela sempre deve ser instituída.

Com o quê. Nitrofurantoína 100 mg ou cefalexina 250 a 500 mg, em dose única, à noite — o Protocolo Febrasgo n. 87 justifica o horário dizendo que é o período de maior estase urinária e de melhores resultados, e admite ainda amoxicilina 250 mg e nitrofurantoína a partir de 50 mg. O parecer conjunto oferece as mesmas duas drogas na Tabela 2 e admite regime contínuo ou pós-coito — este último para as pacientes cujos episódios se relacionam à atividade sexual. O ganho declarado é grande: o Protocolo Febrasgo n. 87 diz que a profilaxia com antibióticos reduz em até 95% a chance de nova infecção, e registra que a pielonefrite aguda recorre em 6% a 8% dos casos ao longo da gestação.

A troca das 37 semanas vale também para a profilaxia. O Manual de Gestação de Alto Risco é explícito: caso a profilaxia seja com nitrofurantoína, é recomendável substituir por cefalexina 250 mg após 37 semanas, pelo risco de icterícia neonatal. Quem esquece a troca deixa a gestante com nitrofurantoína no termo — que é exatamente a única janela em que ela não pode estar.

Até quando é o ponto em que os documentos divergem, e a divergência é substantiva. O Manual de Gestação de Alto Risco diz até o parto. O parecer conjunto diz até o fim da gestação. O Protocolo Febrasgo n. 87 estende: uma vez instituída, a profilaxia deve ser mantida até pelo menos 6 semanas pós-parto, porque nessa fase ainda persistem as alterações fisiológicas que favorecem a infecção. A resposta esperada em prova brasileira de residência é 'até o parto', que é a régua do documento do Ministério da Saúde; a extensão puerperal é posição de sociedade e está registrada no bloco de divergências.

Vale fazer a conta, porque ela dá dimensão ao que se prescreve. Uma gestante que inicia profilaxia às 20 semanas e vai até o parto com 40 toma 20 semanas, ou cerca de 140 noites de antibiótico. Respeitada a troca das 37 semanas, são 119 noites de nitrofurantoína seguidas de 21 noites de cefalexina. Se o serviço adotar a extensão do Protocolo Febrasgo n. 87, somam-se 42 noites de puerpério, totalizando cerca de 182 noites. É exposição longa, e é ela que justifica a exigência de que cada episódio seja documentado por urocultura antes de a profilaxia começar.

Os adjuvantes existem e têm peso menor. O Protocolo Febrasgo n. 87 discute o extrato de cranberry, cuja proantocianidina inibe em 80% a aderência das fímbrias da Escherichia coli ao urotélio, mas registra que a eficácia demonstrada em revisão sistemática de 2008 foi questionada na revisão de 2012, quando estudos maiores entraram; sugere 400 mg duas vezes ao dia e afirma que novos estudos ainda são necessários. Cita vitamina C 100 mg por dia, que reduziria em até 25% a recorrência, lembrando que a maioria dos polivitamínicos do pré-natal já contém essa quantidade. E é categórico contra os probióticos, que não são recomendados para terapia nem para profilaxia de infecção urinária. Nenhum desses adjuvantes consta da Rename 2024; a profilaxia que o sistema público dispensa é a antimicrobiana.

Estreptococo do grupo B: a urocultura que muda o parto

Este é o ponto do capítulo que a prova mais gosta, e o motivo é que ele quebra a regra da própria página anterior: para o estreptococo do grupo B, o corte de cem mil colônias não vale.

A frase está em caixa de atenção no Capítulo 39 do Manual de Gestação de Alto Risco: a urocultura positiva com qualquer contagem de unidades formadoras de colônia para estreptococo do grupo B é critério de antibioticoprofilaxia intraparto. Qualquer contagem. Dez mil, mil, cem — se o germe é Streptococcus agalactiae e a gestação é a em curso, a profilaxia no parto está indicada.

A Recomendação 4 do mesmo capítulo desdobra a consequência em três linhas, e as três caem: a gestante com infecção urinária por estreptococo do grupo B, sintomática ou assintomática, deve ser tratada conforme os padrões atuais de tratamento da infecção urinária na gravidez; não se realiza o rastreio de colonização entre 36 e 37 semanas — não é preciso colher a cultura vaginal e endoanal, porque a bacteriúria já caracteriza colonização maciça; e realiza-se antibioticoprofilaxia intraparto. Tratar a urina não dispensa a profilaxia no parto, e colher o swab depois de uma urocultura positiva para o germe é trabalho perdido.

O tratamento da bacteriúria por estreptococo B é o da bacteriúria em geral, com uma preferência: pela Tabela 1 do parecer conjunto, a amoxicilina é o tratamento de escolha para estreptococo do grupo B e para Enterococcus faecalis, na dose de 500 mg de 8 em 8 horas ou 875 mg de 12 em 12 horas por 7 dias. O mesmo documento registra que a nitrofurantoína também é ativa contra o estreptococo B — e que Proteus e Pseudomonas são intrinsecamente resistentes a ela, o que é o distrator simétrico.

O que a bacteriúria por estreptococo B não faz: não indica tratar a colonização vaginal fora do trabalho de parto. A Recomendação 1 do Capítulo 39 é explícita para a gestante com cultura vaginal e endoanal positiva — não tratar durante a gestação, isto é, não usar antibiótico para estreptococo B na grávida colonizada fora do trabalho de parto; a intervenção é intraparto. Bacteriúria é infecção urinária e se trata como tal; colonização vaginorretal não se trata.

A régua do rastreio de colonização, para as gestantes que não têm urocultura positiva para o germe: cultura de material vaginal e endoanal entre 36 0/7 e 37 6/7 semanas. O valor preditivo da cultura de terceiro trimestre fica entre 95% e 98% para quem a realizou até 5 semanas antes do parto — e essa janela de cinco semanas é justamente o que faz a coleta de 36 0/7 cobrir nascimentos até pelo menos 41 0/7 semanas. Na coleta, o swab entra cerca de 2 cm no terço inferior da vagina, sem espéculo, e cerca de 0,5 cm no canal anal, ultrapassando o esfíncter; a alergia materna à penicilina deve ser informada ao laboratório no pedido, porque muda o painel de sensibilidade solicitado. Na gestação gemelar o Manual antecipa a pesquisa: 32 semanas nas dicoriônicas e 30 semanas nas monocoriônicas.

As outras dispensas de swab. A parturiente cujo recém-nascido anterior teve sepse precoce por estreptococo B também não é rastreada entre 36 e 37 semanas: recebe profilaxia intraparto direto. E há uma dispensa de profilaxia que cai como pegadinha: na cesárea eletiva realizada em gestação a termo, antes do início do trabalho de parto e com membranas íntegras, não se prescreve antibioticoprofilaxia para estreptococo B, independentemente do estado de colonização — mantendo-se, porém, a antibioticoprofilaxia perioperatória da cesárea, que é outra coisa e tem outro objetivo. Ainda assim, a gestante com cesárea eletiva programada deve ser rastreada entre 36 e 37 semanas, porque o trabalho de parto ou a rotura de membranas podem se antecipar à data marcada.

O esquema intraparto. Primeira escolha, penicilina G por via endovenosa: dose inicial de 5 milhões de unidades internacionais e manutenção de 2,5 milhões de UI a cada 4 horas até o nascimento. Alternativa aceitável, ampicilina endovenosa, 2 g iniciais seguidos de 1 g a cada 4 horas. Considera-se o binômio adequadamente tratado quando o intervalo entre a dose e o parto é de quatro horas ou mais. Em alergia à penicilina, avalia-se o risco de anafilaxia: baixo risco — sem história de anafilaxia, angioedema, dificuldade respiratória ou urticária — recebe cefazolina 2 g e depois 1 g de 8 em 8 horas; alto risco com isolado sensível recebe clindamicina 900 mg de 8 em 8 horas; e com isolado resistente à clindamicina, ou com sensibilidade desconhecida, a única opção validada é a vancomicina, 20 mg/kg por via intravenosa a cada 8 horas, com máximo de 2 g por dose.

Na farmácia pública isso tem uma leitura própria. A Rename 2024 traz benzilpenicilina potássica 5.000.000 UI — que é exatamente a dose de ataque, um frasco — enquanto cada dose de manutenção de 2,5 milhões consome meio frasco. Um trabalho de parto de 12 horas após o ataque consome três manutenções, isto é, 7,5 milhões de UI, totalizando 12,5 milhões de UI, ou dois frascos e meio. As alternativas de alergia — cefazolina, clindamicina injetável na apresentação da profilaxia e vancomicina — e a própria ampicilina não constam da lista nacional de 2024; a droga que a régua nacional garante é justamente a de primeira escolha.

Por fim, a magnitude do problema, que a prova usa para montar enunciado: a colonização materna varia de 1,6% a 36% entre estudos e, no Brasil, de 14,1% a 27,6%; a transmissão vertical vai de 35% a 69%, e 1% a 2% dos recém-nascidos contaminados desenvolvem a doença; entre os que desenvolvem a forma precoce, até 20% evoluem para óbito, e a letalidade chega a 30% abaixo de 33 semanas. Noventa por cento dos casos de doença precoce se manifestam nas primeiras 24 horas de vida — motivo pelo qual a janela de intervenção é o parto, e não o berçário.

Infecção urinária de repetição na gestação e o que investigar

A definição que o parecer conjunto adota é a mesma da não gestante: três ou mais infecções urinárias em um ano, ou duas ou mais em seis meses, com sintomas de início agudo e bacteriúria de pelo menos 10² UFC/mL em cada episódio. O documento exige que todos os episódios sejam confirmados por urocultura e que o tratamento só comece depois da coleta — sem cultura documentada não se conta episódio, e sem episódio contado não se justifica profilaxia longa.

Os fatores de risco de recorrência na mulher jovem e pré-menopausada, na tabela do parecer conjunto, são atividade sexual, uso de espermicida, parceiro sexual novo, mãe com história de infecção urinária e história de infecção urinária na infância. O Protocolo Febrasgo n. 87 acrescenta os que importam no pré-natal: alterações anatômicas e malformações do trato urinário, bexiga neurogênica, refluxo vesicoureteral, urolitíase, diabetes mellitus, distopias urogenitais, imunossupressão — inclusive uso crônico de corticoide e infecção pelo vírus da imunodeficiência humana — e anemia falciforme.

Quando escalonar o cuidado. Os Protocolos da Atenção Básica trazem a regra mais concreta e é a que a vinheta de atenção primária costuma cobrar: na apresentação de um segundo episódio de bacteriúria assintomática ou de infecção urinária não complicada na gravidez, a gestante deve ser encaminhada para avaliação e acompanhamento médico. O mesmo documento manda referir imediatamente à maternidade diante de pielonefrite, e encaminhar ao pré-natal de alto risco a infecção urinária refratária ou de repetição.

O que investigar. A ultrassonografia das vias urinárias entra no pacote da pielonefrite e da recorrência, com dois alvos: litíase e abscesso. Diante de febre persistente por 48 a 72 horas apesar de antibiótico adequado, é ela — e não a troca cega de droga — que responde à pergunta. Investigação urológica mais extensa, com métodos que envolvam radiação ionizante ou contraste, é decisão individualizada e, na gestação, costuma ser adiada quando o quadro se resolve.

O seguimento da gestante que já teve um episódio tem três peças: urocultura de controle após cada tratamento, urocultura mensal enquanto durar a gestação, e profilaxia antimicrobiana noturna. É o único cenário do pré-natal em que uma cultura de rotina se repete mês a mês.

04

Régua da contagem, da semana e do trimestre

Quatro perguntas resolvem quase qualquer questão do tema, sempre nesta ordem. Primeira: há sintoma? — porque é o sintoma que separa bacteriúria assintomática de cistite, e nenhuma das duas de pielonefrite. Segunda: qual é o germe? — porque estreptococo do grupo B tem régua de contagem própria e consequência no parto. Terceira: qual é a idade gestacional? — porque duas drogas mudam de status por semana. Quarta: qual documento o enunciado invoca? — porque unidade básica de saúde, maternidade e prova de sociedade citam números diferentes para a mesma conduta.

  1. 1Leia primeiro se há sintoma urinário. Urocultura positiva em gestante sem disúria, dor suprapúbica ou urgência é bacteriúria assintomática — e na gestante ela se trata. Fora da gestação a mesma cultura seria colonização e não se trataria: essa inversão é o eixo do tema.
  2. 2Confira a contagem. O corte é maior que 100.000 UFC/mL em jato médio, da mesma bactéria. Cultura polimicrobiana sugere contaminação; peça nova coleta em vez de tratar flora mista.
  3. 3Verifique o germe antes de arquivar o resultado. Se a urocultura isolou estreptococo do grupo B, a contagem deixa de importar: qualquer contagem é critério de antibioticoprofilaxia intraparto, dispensa o swab de 36 a 37 semanas, e a infecção urinária em si é tratada normalmente.
  4. 4Não repita a cultura antes de tratar. Na régua brasileira, uma amostra positiva basta em gestante. A exigência de duas amostras consecutivas é do documento norte-americano e aparece na prova como distrator de rigor laboratorial.
  5. 5Havendo sintoma baixo — disúria, polaciúria, urgência, dor suprapúbica —, é cistite: colha urocultura antes do antibiótico e trate ambulatorialmente. Na gestante, valorize a disúria: frequência e urgência isoladas podem ser a compressão vesical da gravidez.
  6. 6Procure os sinais de que subiu. Febre, calafrios, náuseas, vômitos, dor lombar e punho-percussão dolorosa deslocam o quadro para pielonefrite — e pielonefrite na gestante interna, sem exceção prevista nos documentos brasileiros.
  7. 7Antes de escolher a droga, olhe a idade gestacional. Nitrofurantoína sai a partir de 37 semanas (icterícia neonatal por hemólise em deficiência de glicose-6-fosfato desidrogenase). Sulfametoxazol-trimetoprima é categoria D no primeiro trimestre (antagonismo do folato) e nas últimas semanas (kernicterus). Quinolonas e tetraciclinas estão fora do começo ao fim.
  8. 8Escolha a duração pela droga, não pelo quadro: dose única para fosfomicina, 5 dias para nitrofurantoína, 7 dias para betalactâmico. Bacteriúria assintomática e cistite compartilham essas durações.
  9. 9Se o germe for estreptococo do grupo B ou Enterococcus faecalis, prefira amoxicilina — é o tratamento de escolha nomeado pelo parecer conjunto brasileiro.
  10. 10Programe o controle de cura. Toda gestante repete urocultura após o tratamento — é a única exceção à regra de não pedir cultura pós-tratamento em assintomático. O prazo varia por documento entre 7 dias e 2 semanas.
  11. 11Na pielonefrite, monte o pacote de internação: hidratação venosa, hemograma, função renal, eletrólitos, ultrassonografia de vias urinárias, e ceftriaxona 2 g por dia por via intravenosa, com 10 a 14 dias de tratamento total.
  12. 12Marque o relógio em 48 a 72 horas. Sem franca melhora nesse prazo, a pergunta não é qual antibiótico trocar, e sim o que está obstruindo ou coletando: pense em cálculo e abscesso renal e peça imagem. A troca de esquema vem junto, guiada pelo antibiograma.
  13. 13Conte os episódios para decidir profilaxia. Um de pielonefrite basta; duas infecções baixas bastam; uma infecção baixa com hematúria franca ou febre basta; história de infecção de repetição antes da gravidez basta. E após pielonefrite a profilaxia é obrigatória.
  14. 14Prescreva a profilaxia à noite, em dose única — nitrofurantoína 100 mg ou cefalexina 250 a 500 mg —, e agende a troca das 37 semanas: quem estava com nitrofurantoína passa a cefalexina. Deixar nitrofurantoína no termo é o erro simétrico de suspender a profilaxia cedo demais.
  15. 15Ao responder 'até quando', escolha pelo documento: até o parto é a régua do Ministério da Saúde; a extensão até seis semanas de puerpério é posição do protocolo de sociedade.
  16. 16Antes de marcar a alternativa, confira se a droga existe onde a vinheta se passa. Em unidade básica de saúde, a lista nacional garante nitrofurantoína, cefalexina, amoxicilina, amoxicilina com clavulanato e, no injetável, ceftriaxona e benzilpenicilina potássica. Fosfomicina e cefuroxima, que abrem as tabelas dos protocolos, não estão nela.
Janela de uso por idade gestacional (semanas)1º tri2º tri3º triCefalexina / amoxicilinaNitrofurantoínaSulfametoxazol + TMPQuinolonas13283740037 semtermoliberadoevitar (resistência)proscrito

As duas datas que decidem a droga

Nitrofurantoína e sulfametoxazol-trimetoprima são as duas drogas cujo status muda com a idade gestacional, e mudam em pontas opostas da gestação. A nitrofurantoína cobre quase tudo e sai só nas últimas três semanas. A associação de sulfa é proibida exatamente no começo e no fim, e sobra o meio — onde a resistência brasileira, de cerca de 45% dos isolados de Escherichia coli, a tira do uso empírico de qualquer forma. Cefalosporinas e penicilinas atravessam a gestação inteira; quinolonas não entram em nenhum momento.

Régua 1 — tratar a bacteriúriaRégua 2 — profilaxia intraparto< 10⁵> 10⁵ UFC/mLqualquer contagemvale para qualquer germevale só p/ estreptococo do grupo BExemplo que cai:urocultura com 10.000 UFC/mL deStreptococcus agalactiaeRégua 1 → abaixo do corteRégua 2 → penicilina no parto

Duas contagens para a mesma urocultura

A mesma urocultura é lida com duas réguas diferentes, e a segunda é a que a prova esconde. Para decidir se há bacteriúria assintomática a tratar, o corte é maior que 100.000 UFC/mL em jato médio. Para decidir se há antibioticoprofilaxia intraparto, quando o germe isolado é o estreptococo do grupo B, não há corte: qualquer contagem serve, e ela ainda dispensa a coleta do swab vaginal e endoanal de 36 a 37 semanas. Uma urocultura com 10.000 UFC/mL de Streptococcus agalactiae não é bacteriúria assintomática pela primeira régua — e é indicação de penicilina no parto pela segunda.

O relógio das 48 a 72 horas

Gestante internada por pielonefrite que segue febril depois de 48 horas de ceftriaxona não tem problema de dose: tem problema de anatomia. O Manual de Gestação de Alto Risco manda mudar o esquema se não houver franca melhora em 48 horas; os Protocolos da Atenção Básica usam 48 a 72 horas para reclassificar o quadro como complicado, repetir a urocultura e trocar para droga de outra classe. Nos dois casos a conduta que muda o desfecho é a mesma e vem antes da troca: pedir imagem para procurar cálculo obstrutivo e abscesso renal. Trocar o antibiótico sem olhar o rim é tratar o sintoma da falha.

Bacteriúria assintomática e cistite na gestação — esquemas, duração e disponibilidade

DrogaDoseDuraçãoComprimidos do cursoConsta da Rename 2024?
Fosfomicina trometamol3 gdose única1 sachêNão
Nitrofurantoína100 mg 6/6 h5 dias20 cápsulasSim — 100 mg, Básico, AWaRe Acesso
Cefalexina500 mg 6/6 h7 dias28 cápsulasSim — 500 mg, Básico, AWaRe Acesso
Amoxicilina500 mg 8/8 h ou 875 mg 12/12 h7 dias21 ou 14 comprimidosSim — 500 mg, Básico, AWaRe Acesso
Amoxicilina + clavulanato500/125 mg 8/8 h ou 875/125 mg 12/12 h7 dias21 ou 14 comprimidosSim — apenas 500 + 125 mg
Cefuroxima250 mg 12/12 h7 dias14 comprimidosNão
Fenazopiridina (sintomático)200 mg 8/8 haté 48 h6 comprimidosNão

Antimicrobianos na gestação — janela proibida e motivo

Droga ou classeQuando é proscritaMotivo declarado nos documentos
NitrofurantoínaA partir de 37 semanas (36 nos Protocolos da Atenção Básica, 2016)Hemólise no feto ou recém-nascido com deficiência de glicose-6-fosfato desidrogenase, com icterícia neonatal
Sulfametoxazol + trimetoprima1º trimestre e últimas semanas (categoria D nos dois períodos)Início: antagonismo do folato — defeitos de tubo neural, cardiovasculares, do trato urinário e fenda palatina. Fim: hemólise e kernicterus por deslocamento da bilirrubina
Quinolonas (norfloxacino, ciprofloxacino, levofloxacino)Gestação inteiraToxicidade para cartilagem articular em desenvolvimento; somam-se os eventos adversos graves que motivaram restrição regulatória
TetraciclinasGestação inteira (categoria D)Displasia e descoloração de ossos e dentes do concepto
Aminoglicosídeos (gentamicina)Evitar; não é primeira escolhaToxicidade sobre o nervo vestibulococlear; nefro e ototoxicidade
Cloranfenicol1º trimestre (categoria D)Síndrome cinzenta e toxicidade da medula óssea
Penicilinas e cefalosporinasNão são proscritasCategorias A e B — atravessam a gestação inteira; a amoxicilina é a escolha quando o germe é estreptococo do grupo B ou Enterococcus faecalis

Os três quadros, lado a lado

Bacteriúria assintomáticaCistitePielonefrite
Frequência na gestação2% a 10% (Febrasgo 87 e parecer conjunto); 9% a 11% (Manual do MS)2% (Febrasgo 87 e parecer conjunto); 0,3% a 1,3% (Manual do MS)2% (Febrasgo 87); 1% a 2% (Manual do MS)
O que faz o diagnósticoUrocultura > 100.000 UFC/mL, sem sintoma, uma amostraClínica — disúria é a queixa que vale; urocultura antes de tratarClínica: febre, calafrios, dor lombar, Giordano positivo; urocultura confirma mas é negativa em até 10%
Onde trataAmbulatorialAmbulatorial (interna se hematúria macroscópica franca)Internação obrigatória
EsquemaFosfomicina dose única, nitrofurantoína 5 dias ou betalactâmico 7 diasMesmos esquemas; fenazopiridina se disúria intensaCeftriaxona 2 g/dia IV, 10 a 14 dias no total
Controle de curaSempre — 7 dias a 2 semanas após o términoSempreSempre, mais ultrassonografia e pré-natal de alto risco
Profilaxia depoisA partir do 2º episódio (ou do 1º se ITU de repetição prévia)A partir do 2º episódio; já no 1º se houve hematúria franca ou febreSempre, já no primeiro episódio

Estreptococo do grupo B — quem rastreia, quem dispensa, quem recebe profilaxia

SituaçãoRastreio com swab de 36 a 37 semanasAntibioticoprofilaxia intraparto
Urocultura positiva para estreptococo B na gestação em curso, qualquer contagemDispensadoIndicada — além de tratar a infecção urinária
Recém-nascido anterior com sepse precoce por estreptococo BDispensadoIndicada
Cultura vaginal e endoanal positivaJá realizadoIndicada, iniciando no diagnóstico do trabalho de parto ou após rotura de membranas
Cultura vaginal e endoanal negativa há 5 semanas ou menosJá realizadoNão indicada — mesmo com prematuridade ou bolsa rota há 18 horas ou mais
Sem cultura, com fator de risco intraparto (< 37 semanas, bolsa rota ≥ 18 h, temperatura ≥ 38 °C)Não realizadoIndicada — um fator basta
Cesárea eletiva a termo, antes do trabalho de parto, com membranas íntegrasDeve ter sido feito entre 36 e 37 semanasNão indicada — mantém-se apenas a profilaxia perioperatória da cesárea
Gestação gemelarAntecipado: 32 semanas na dicoriônica, 30 na monocoriônicaConforme o resultado e os fatores de risco

A conta do benefício, feita a partir dos percentuais do parecer conjunto brasileiro. Bacteriúria assintomática não tratada leva a pielonefrite em até 40% das gestações; tratada, em 3%. A redução absoluta é de 37 pontos percentuais e o número necessário para tratar é 1 ÷ 0,37, isto é, 2,7 — arredondado para 3 gestantes tratadas por pielonefrite evitada. O documento escreve 'até 40%', de modo que 3 é a estimativa mais favorável ao rastreio; com um valor de base menor, o número necessário para tratar sobe.

Erro de volume na bibliografia do documento do Ministério da Saúde. O Capítulo 34 do Manual de Gestação de Alto Risco cita o parecer conjunto das quatro sociedades como 'The Brazilian Journal of Infectious Diseases, Salvador, v. 4, n. 2, p. 110-119, Mar./Apr., 2020'. O volume correto do periódico em 2020 é 24; as páginas e o ano conferem. Quem procurar o volume 4 procura um fascículo de 2000.

Número sem unidade dentro do mesmo capítulo. No item 34.4 do Manual de Gestação de Alto Risco, a profilaxia é descrita como 'nitrofurantoína (100 mg ao dia) ou a cefalexina (250 diários)' — o 250 aparece sem unidade. O item 34.2, duas páginas antes, escreve 'cefalexina (250-500 mg diários)', o que resolve a leitura: são miligramas.

Prevalência implausível no protocolo de sociedade. O Protocolo Febrasgo n. 87 justifica evitar a nitrofurantoína no fim da gestação pelo risco de hemólise em conceptos com deficiência de glicose-6-fosfato desidrogenase, 'prevalente em 0,0004% dos conceptos'. Isso equivale a 4 casos por milhão de nascimentos, ordem de grandeza incompatível com uma enzimopatia que integra o painel ampliado da triagem neonatal brasileira justamente por ser frequente. A régua operacional não depende desse número: os três documentos mais recentes mandam suspender a nitrofurantoína a partir de 37 semanas, e o Manual do Ministério da Saúde ancora a recomendação no risco de icterícia neonatal.

Dois rótulos para os mesmos dois números. A Tabela 3 do parecer conjunto atribui ao estudo multicêntrico ARESC sensibilidade de 75,7% para cefuroxima e 78,7% para amoxicilina-clavulanato na coluna 'todas as espécies'; o Protocolo Febrasgo n. 87 apresenta exatamente 75,7% e 78,7% como a sensibilidade observada 'considerando somente as mulheres selecionadas no Brasil'. Um dos dois documentos rotula a coluna errada, e o par de números não pode significar as duas coisas.

Denominador que não fecha. O Protocolo Febrasgo n. 87 descreve o estudo multicêntrico como tendo avaliado '3.018 casos de infecção urinária em mulheres, sendo 2.823 gestantes, das quais 524 brasileiras' e, no período seguinte, escreve 'dos 3.018 casos de uroculturas positivas'. O mesmo N aparece como total de casos incluídos e como total de culturas positivas, o que não pode valer ao mesmo tempo; e o parecer conjunto, ao descrever o mesmo estudo, o apresenta como avaliação de etiologia e sensibilidade em cistite de mulheres no Brasil e em nove países europeus, sem coorte de gestantes.

Remissão interna quebrada no documento da atenção básica. O Fluxograma 14, de queixas urinárias da mulher (p. 59), orienta: 'Se gestante, ver Fluxograma 2 no protocolo de Pré-Natal'. O Fluxograma 2 do protocolo de pré-natal é 'O que fazer nos quadros de náusea e vômitos' (p. 95). O fluxograma correto é o Fluxograma 3 — O que fazer nas queixas urinárias (p. 96), que é o que traz o box de antibióticos para bacteriúria assintomática e cistite na gestante.

Faixa de dose ampla no quadro de medicamentos. O Quadro 9 dos Protocolos da Atenção Básica (p. 116) prescreve ceftriaxona para infecção urinária como '2-4 g/dia, EV (de 7 a 10 dias)'. O Manual de Gestação de Alto Risco e o Protocolo Febrasgo n. 87 convergem em 2 g ao dia, com 10 a 14 dias e 10 dias de duração respectivamente. Em prova, 2 g ao dia é a resposta; o teto de 4 g e a duração de 7 dias são do documento de 2016.

Associação escrita pela metade. O mesmo Quadro 9 e o box do Fluxograma 3 registram 'amoxicilina-clavulanato (500 mg)', omitindo o clavulanato da apresentação. A apresentação real, e a única que consta da Rename 2024, é 500 mg + 125 mg. Ler '500 mg' como dose total da associação subestima o que se prescreve.

Contradição interna no capítulo do estreptococo B. O Quadro 1 do Capítulo 39 do Manual de Gestação de Alto Risco lista seis fatores de risco — três anteparto (raça negra, recém-nascido anterior com sepse precoce pelo germe, e bacteriúria por estreptococo B na gestação em curso) e três intraparto. A Recomendação 2, no Quadro 3, reduz a lista aos três intraparto. Os dois fatores anteparto restantes reaparecem como recomendações próprias (a bacteriúria na Recomendação 4 e o recém-nascido anterior na Recomendação 5), mas o primeiro item some do documento sem reaparecer.

Título contraditório no mesmo quadro. O Quadro 9 do Capítulo 39 do Manual de Gestação de Alto Risco intitula-se 'Gestantes a termo (idade gestacional ≥ 37 semanas) com diagnóstico de ruptura prematura das membranas pré-termo)' — a termo e pré-termo na mesma linha, com um parêntese sobrando. O conteúdo do quadro trata da gestação a termo, e é assim que ele é usado.

A conta dos frascos, que nenhum documento faz. A pielonefrite recebe ceftriaxona 2 g por dia e a Rename 2024 traz apresentações de 250 mg, 500 mg e 1 g. São dois frascos de 1 grama por dia: 20 frascos em um curso de 10 dias, 28 em um de 14. Para a profilaxia intraparto do estreptococo B, a benzilpenicilina potássica da lista nacional vem em frasco de 5.000.000 UI, que corresponde exatamente à dose de ataque; cada manutenção de 2,5 milhões consome meio frasco, de modo que um trabalho de parto de 12 horas após o ataque consome dois frascos e meio.

Leitura rápida: assintomática = urocultura e tratamento oral; cistite = sintomas baixos sem febre; pielonefrite = febre/dor lombar e internação; recorrência = considerar profilaxia e revisar cultura de cura.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Quantas uroculturas positivas fecham o diagnóstico de bacteriúria assintomática na gestante?

Uma amostra basta — documentos brasileiros

O Protocolo Febrasgo n. 87 afirma que um só exame positivo na gestação é suficiente para instituir a antibioticoterapia imediata, com o objetivo declarado de reduzir as complicações maternofetais. O parecer conjunto das quatro sociedades brasileiras define bacteriúria significativa por uma contagem em amostra de jato médio, sem exigir repetição, e o Capítulo 34 do Manual de Gestação de Alto Risco descreve o diagnóstico como identificação de bactérias em urocultura acima de 100.000 unidades por mililitro, também sem falar em segunda amostra.

SANTOS FILHO, O. O.; TELINI, A. H. Infecções do trato urinário durante a gravidez. Protocolo FEBRASGO – Obstetrícia n. 87, 2018, seção Diagnóstico; e DE ROSSI, P. et al. Braz J Infect Dis, v. 24, n. 2, 2020, Recomendação 2 de bacteriúria assintomática na gestação.

Duas amostras consecutivas — Infectious Diseases Society of America, 2019

A atualização de 2019 define bacteriúria assintomática na mulher pela isolação do mesmo microrganismo em duas amostras consecutivas de jato médio, com contagens de pelo menos 10⁵ UFC/mL, colhidas de preferência com menos de duas semanas de intervalo, para demonstrar persistência. A exigência é da definição para mulheres em geral; a recomendação de rastrear e tratar a gestante é forte, com evidência de qualidade moderada, e a duração sugerida é de quatro a sete dias.

NICOLLE, L. E. et al. Clinical practice guideline for the management of asymptomatic bacteriuria: 2019 update by the IDSA. Clin Infect Dis, v. 68, n. 10, p. e83-e110, 2019, seções de definição e de gestação.

Na prova

Identifique a nacionalidade do enunciado antes de decidir. Prova brasileira de residência, cenário de pré-natal no Sistema Único de Saúde e uma urocultura com contagem significativa em gestante assintomática pedem tratamento imediato — a alternativa que manda repetir a cultura para confirmar é o distrator de rigor. Quando o enunciado cita explicitamente a diretriz norte-americana, ou quando fala em 'confirmar persistência da bacteriúria', o recorte é o outro. A duração de quatro a sete dias também vem do documento norte-americano; a régua brasileira separa a duração por droga, com cinco dias para nitrofurantoína e sete para betalactâmico.

Nitrofurantoína: quantos dias e até que semana?

Cinco dias, suspender a partir de 37 semanas — régua vigente

O Quadro 1 do Manual de Gestação de Alto Risco, a Tabela 1 do parecer conjunto das quatro sociedades e o esquema do Protocolo Febrasgo n. 87 convergem em 100 mg de 6 em 6 horas por cinco dias. Quanto ao limite, o parecer conjunto registra em nota de tabela que a droga não deve ser usada após 37 semanas de gestação, o Manual escreve que alguns recomendam não utilizá-la após 37 semanas pelo maior risco de icterícia neonatal, e o mesmo Manual manda, na profilaxia, substituí-la por cefalexina 250 mg após 37 semanas.

BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de gestação de alto risco, 2022, Quadros 1 e 2 e itens 34.2 e 34.4 (p. 354-355); e DE ROSSI, P. et al. Braz J Infect Dis, v. 24, n. 2, 2020, Tabelas 1, 2 e 5.

Dez dias, evitar após a 36ª semana — Protocolos da Atenção Básica, 2016

O box de antibióticos do Fluxograma 3, para bacteriúria assintomática e infecção urinária não complicada em gestantes, prescreve nitrofurantoína 100 mg, uma cápsula de 6 em 6 horas, por dez dias, com a ressalva de evitar após a 36ª semana de gestação; cefalexina 500 mg por sete a dez dias; e amoxicilina-clavulanato por sete a dez dias. O mesmo box manda repetir a urinocultura de sete a dez dias após o término do tratamento.

BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolos da Atenção Básica: Saúde das Mulheres, 2016, Fluxograma 3 — O que fazer nas queixas urinárias (p. 96).

Na prova

O cenário entrega o documento. Enunciado de unidade básica de saúde que cita os Protocolos da Atenção Básica, ou que ofereça 'dez dias' junto de 'evitar após a 36ª semana', está no recorte de 2016 — e os dois números andam juntos, o que ajuda a reconhecê-lo. Enunciado de maternidade, de pré-natal de alto risco, ou que mencione o Manual de Gestação de Alto Risco ou o parecer das sociedades, pede cinco dias e 37 semanas. Se nada for citado, a régua vigente é a dos documentos mais recentes: cinco dias, suspensão a partir de 37 semanas. Duplicar a duração é o erro caro, porque dobra a exposição de 20 para 40 cápsulas.

Até quando vai a profilaxia antimicrobiana da gestante?

Até o parto — Ministério da Saúde e parecer conjunto

O Capítulo 34 do Manual de Gestação de Alto Risco escreve que a detecção de novo caso favorece a indicação de antibioticoprofilaxia até o parto, e que após o tratamento da pielonefrite a profilaxia até o parto sempre deve ser instituída. O parecer conjunto das quatro sociedades formula a mesma ideia dizendo que a profilaxia é mantida até o fim da gestação, após o segundo episódio de bacteriúria assintomática ou de cistite, ou já após o primeiro se houver história de infecção urinária de repetição.

BRASIL. Ministério da Saúde. Manual de gestação de alto risco, 2022, itens 34.2, 34.4 e 34.5 (p. 354-356); e DE ROSSI, P. et al. Braz J Infect Dis, v. 24, n. 2, 2020, Recomendação 8.

Até pelo menos seis semanas de puerpério — Protocolo Febrasgo n. 87

O protocolo de 2018 é o único documento brasileiro que estende o horizonte: uma vez instituída a antibioticoprofilaxia, deve ser mantida até pelo menos seis semanas pós-parto, porque nessa fase ainda persistem as alterações fisiológicas que propiciam maior frequência de infecções urinárias. O mesmo documento é o que traz a lista de cinco gatilhos de profilaxia e afirma redução de até 95% na chance de nova infecção.

SANTOS FILHO, O. O.; TELINI, A. H. Protocolo FEBRASGO – Obstetrícia n. 87, 2018, seção Prevenção de recorrência das infecções urinárias na gravidez.

Na prova

A resposta esperada em prova brasileira, quando o enunciado não nomeia documento, é 'até o parto' — é a régua do documento do Ministério da Saúde e a que aparece nas duas formulações mais recentes. A extensão puerperal é posição de sociedade e reconhece-se pela justificativa fisiológica que a acompanha. A diferença é de 42 noites de antibiótico, o que a torna relevante quando a alternativa quantifica a duração. Em qualquer das duas leituras, a suspensão antes do parto está errada.

Qual o corte de colônias na urina colhida por cateterismo vesical?

10² UFC/mL — parecer conjunto brasileiro e diretriz norte-americana

O parecer conjunto das quatro sociedades define bacteriúria assintomática como pelo menos 10⁵ UFC/mL em amostra de jato médio ou pelo menos 10² UFC/mL em amostra colhida por cateterização uretral, independentemente da presença de piúria, e repete o par de valores na Recomendação 2 específica da gestante. É o mesmo corte da atualização norte-americana de 2019, que o documento brasileiro cita como referência.

DE ROSSI, P. et al. Braz J Infect Dis, v. 24, n. 2, 2020, seção Definition e Recomendação 2 de bacteriúria assintomática na gestação.

Mais de 10.000 UFC/mL — Protocolo Febrasgo n. 87

O protocolo de 2018 firma o diagnóstico pela presença de mais de 100.000 UFC/mL da mesma bactéria em cultura de jato médio de urina, ou mais de 10.000 UFC/mL em cultura de urina coletada com cateterismo vesical. São duas ordens de grandeza acima do corte adotado pelo parecer conjunto de 2020, cuja lista de autores inclui representantes da mesma federação.

SANTOS FILHO, O. O.; TELINI, A. H. Protocolo FEBRASGO – Obstetrícia n. 87, 2018, seção Diagnóstico.

Na prova

O corte cobrado é quase sempre o de jato médio, e nele os documentos concordam: mais de 100.000 UFC/mL. O de cateterismo aparece pouco e, quando aparece, o enunciado costuma nomear o documento ou reproduzir a expressão '10² UFC/mL', que é a do parecer conjunto e a mais recente. Diante de duas alternativas plausíveis para cateterismo sem citação de fonte, o valor do parecer conjunto de 2020 é o mais defensável por ser o documento posterior e por coincidir com a referência internacional.

Qual é a primeira linha da cistite na gestante?

Fosfomicina e nitrofurantoína — parecer conjunto, 2020

O parecer conjunto coloca fosfomicina trometamol em dose única e nitrofurantoína 100 mg de 6 em 6 horas por cinco dias como antimicrobianos de primeira linha da cistite, justificando pelos mecanismos de ação únicos, pelas baixas taxas de resistência, pelas altas concentrações urinárias e pela atividade contra bactérias produtoras de betalactamase de espectro estendido. Cefuroxima e amoxicilina-clavulanato ficam como segunda linha, e cefalosporinas ou amoxicilina são admitidas com maior chance de falha terapêutica.

DE ROSSI, P. et al. Braz J Infect Dis, v. 24, n. 2, 2020, Tabelas 4 e 5 e Recomendação 3 de cistite não complicada na mulher e na gestação.

Amoxicilina-clavulanato em primeiro lugar — Protocolo Febrasgo n. 87, 2018

A Figura 1 do protocolo, que trata da abordagem terapêutica das cistites na gravidez, ordena a antibioticoterapia por via oral por sete dias assim: primeira, amoxicilina-clavulanato; segunda, nitrofurantoína; terceira, cefuroxima; quarta, fosfomicina em dose única de 3 g, ou duas doses se recorrente. A ordem se apoia nos dados regionais que o próprio protocolo tabula, em que cefuroxima-axetil e amoxicilina-clavulanato lideraram a sensibilidade dos isolados orais.

SANTOS FILHO, O. O.; TELINI, A. H. Protocolo FEBRASGO – Obstetrícia n. 87, 2018, Figura 1 — Abordagem terapêutica das cistites na gravidez.

Na prova

As duas posições vêm de documentos referendados pela mesma federação, com dois anos de diferença, e a prova costuma se apoiar na mais recente. Quando o enunciado pede simplesmente 'o esquema de escolha', fosfomicina em dose única e nitrofurantoína por cinco dias são as respostas seguras. Quando o enunciado adiciona disponibilidade na rede pública, ou quando a alternativa com fosfomicina vem acompanhada de restrição de acesso, a leitura muda: a Rename 2024 não traz fosfomicina nem cefuroxima, e as opções que o sistema garante são nitrofurantoína, cefalexina, amoxicilina e amoxicilina com clavulanato. Note ainda a diferença de duração da cistite entre os dois documentos: sete dias na figura de 2018, cinco dias para nitrofurantoína no parecer de 2020.

06

Caso resolvido

Gestante de 26 anos, primigesta, com 12 semanas de idade gestacional pela ultrassonografia precoce, comparece à unidade básica de saúde para a segunda consulta de pré-natal trazendo os exames da primeira. Está bem, sem queixas urinárias, sem febre, sem dor lombar. A urina tipo I mostra leucocitúria; a urocultura, colhida em jato médio no laboratório, isolou Streptococcus agalactiae com 30.000 unidades formadoras de colônia por mililitro, e o antibiograma indica sensibilidade a ampicilina, amoxicilina, cefalexina e nitrofurantoína. Ela pergunta se precisa tomar remédio, já que não sente nada, e se isso vai atrapalhar o parto.
sintoma
Comece separando o quadro. Não há disúria, dor suprapúbica, urgência, febre nem dor lombar: não é cistite nem pielonefrite. O que está sobre a mesa é uma urocultura positiva em gestante assintomática — o território da bacteriúria assintomática, com a ressalva do germe, que virá adiante.
contagem
Aplique a primeira régua. O corte para bacteriúria assintomática é maior que 100.000 UFC/mL em jato médio, e o exame trouxe 30.000. Pela régua da contagem, isoladamente, este resultado não fecha bacteriúria assintomática. Quem parar aqui responde 'não tratar e repetir o exame' — e erra a questão.
germe
Leia o nome da bactéria antes de arquivar o laudo. Streptococcus agalactiae é o estreptococo do grupo B, e para ele existe uma segunda régua explícita no Capítulo 39 do Manual de Gestação de Alto Risco: a urocultura positiva com qualquer contagem de unidades formadoras de colônia é critério de antibioticoprofilaxia intraparto. A contagem de 30.000 deixa de ser 'baixa' e passa a ser suficiente.
tratar a urina
A Recomendação 4 manda tratar: gestante com infecção do trato urinário por estreptococo do grupo B, sintomática ou assintomática, deve ser tratada de acordo com os padrões atuais de tratamento da infecção urinária na gravidez. Trata-se, portanto, mesmo com o quadro assintomático e mesmo com a contagem abaixo do corte clássico — a presença do germe é que comanda.
escolher a droga
A escolha aqui não é indiferente. A Tabela 1 do parecer conjunto das quatro sociedades nomeia a amoxicilina como tratamento de escolha para estreptococo do grupo B e para Enterococcus faecalis: 500 mg de 8 em 8 horas ou 875 mg de 12 em 12 horas, por sete dias. Com 12 semanas, nenhuma janela de proscrição está aberta — a amoxicilina é categoria B e atravessa a gestação inteira. São 21 comprimidos no esquema de 8 em 8 horas, e a apresentação de 500 mg consta do Componente Básico da Rename 2024.
controle de cura
Programe a repetição da urocultura após o término do tratamento — entre sete dias e duas semanas, conforme o documento que o serviço adote. A gestante é a única situação em que se pede cultura pós-tratamento em paciente assintomático, e é uma regra explícita nos três documentos brasileiros.
dispensar o swab
Registre no cartão o que a urocultura já resolveu para o terceiro trimestre: esta gestante não fará a coleta vaginal e endoanal entre 36 e 37 semanas. A Recomendação 4 dispensa o rastreio porque a bacteriúria por estreptococo B caracteriza colonização maciça — o swab não mudaria a conduta, que já está definida.
marcar o parto
Anote a indicação que acompanha a gestante até a maternidade: antibioticoprofilaxia intraparto, iniciada ao diagnóstico do trabalho de parto ou após a rotura de membranas. Penicilina G endovenosa, 5 milhões de UI de ataque e 2,5 milhões a cada 4 horas até o nascimento; considera-se adequado o intervalo de quatro horas ou mais entre a dose e o parto. Tratar a urina agora não substitui a profilaxia no parto — são duas intervenções com objetivos diferentes.
o que não fazer
Não se prescreve antibiótico contra o estreptococo B no pré-natal com o objetivo de erradicar a colonização: a Recomendação 1 é explícita em não tratar a grávida colonizada fora do trabalho de parto. O que se trata aqui é a infecção urinária; a colonização se marca para o parto. E não se repete a urocultura antes de tratar: uma amostra positiva basta na régua brasileira.
seguimento
Mantenha o calendário: nova urocultura no terceiro trimestre, como manda a Caderneta da Gestante, além da cultura de controle deste episódio. Se surgir um segundo episódio de bacteriúria assintomática ou de cistite, entram duas coisas — o encaminhamento para avaliação e acompanhamento médico previsto nos Protocolos da Atenção Básica, e a profilaxia noturna até o parto, com a troca da nitrofurantoína por cefalexina caso ela seja a escolhida e a gestação alcance 37 semanas.
resposta à paciente
O que se diz a ela, em linguagem de consultório: há uma bactéria na urina que não está causando sintoma, mas que na gravidez precisa ser tratada porque pode subir para o rim; o remédio é seguro nesta fase; e essa mesma bactéria é a que se previne no parto com antibiótico na veia, motivo pelo qual ela não precisará do exame de secreção que outras gestantes fazem no fim da gravidez. É a tradução exata do que a Caderneta da Gestante já antecipa no item de infecção urinária.
07

Agora feche você

Gestante de 31 anos, secundigesta, com 33 semanas de idade gestacional, chega ao pronto-atendimento obstétrico com febre de 38,9 °C, calafrios, dor lombar à direita e dois episódios de vômito nas últimas doze horas. Refere disúria há três dias. Está taquicárdica, com punho-percussão lombar dolorosa à direita, útero sem contrações e batimentos cardiofetais normais. No cartão de pré-natal consta um episódio de cistite tratado com 22 semanas, com urocultura de controle negativa, e não há registro de profilaxia. A urocultura de rotina do terceiro trimestre ainda não foi colhida.
pergunta 1
Qual é o diagnóstico, onde esta paciente será tratada, e qual palavra os documentos brasileiros usam para essa decisão?
pergunta 2
Que exames se pedem na admissão, e qual deles responde à pergunta que a febre persistente fará daqui a dois dias?
pergunta 3
Escreva o esquema antimicrobiano com droga, dose, via e duração total — e diga quantos frascos da apresentação disponível na lista nacional isso consome.
pergunta 4
Passadas 48 a 72 horas, ela permanece febril. Qual é a conduta, e por que trocar o antibiótico sozinho é resposta incompleta?
pergunta 5
Ela recebe alta no oitavo dia, afebril. Que profilaxia se institui, com que droga e dose, até quando — e o que muda no esquema quando ela alcançar 37 semanas?
08

Onde a banca derruba

  1. 1Aplicar à gestante a regra de não tratar bacteriúria assintomática Atrai porque a abstenção é a resposta certa em quase toda a medicina interna, e o aluno que estudou infectologia recentemente vem treinado a não tratar cultura sem sintoma. Na gestante a régua se inverte: rastreia-se por rotina e trata-se sempre. O antídoto é ler a idade gestacional antes de ler a cultura.
  2. 2Exigir duas uroculturas antes de tratar a gestante Atrai porque a diretriz norte-americana realmente exige duas amostras consecutivas na mulher, e a alternativa soa rigorosa. Nos documentos brasileiros um só exame positivo basta e obriga a antibioticoterapia imediata. Repetir a coleta antes de tratar adia o tratamento numa condição cujo benefício é justamente evitar a progressão.
  3. 3Descartar a urocultura com estreptococo do grupo B por não atingir cem mil colônias É a armadilha mais rentável do capítulo. A régua de 10⁵ UFC/mL serve para decidir se há bacteriúria a tratar; para o estreptococo do grupo B, qualquer contagem já é critério de antibioticoprofilaxia intraparto. Uma urocultura com 10.000 unidades de Streptococcus agalactiae não fecha bacteriúria assintomática pela primeira régua e obriga penicilina no parto pela segunda.
  4. 4Colher o swab de 36 a 37 semanas em quem já teve urocultura positiva para estreptococo B Atrai porque o rastreio universal é regra e parece prudente confirmar. A Recomendação 4 do Manual de Gestação de Alto Risco dispensa explicitamente a cultura vaginal e endoanal nessa gestante: a bacteriúria já caracteriza colonização maciça, e o resultado do swab não mudaria a conduta, que é fazer a profilaxia. O mesmo vale para a mãe cujo filho anterior teve sepse precoce pelo germe.
  5. 5Tratar a colonização vaginal por estreptococo B durante o pré-natal Atrai por simetria com a bacteriúria, que se trata. A Recomendação 1 é explícita em não tratar durante a gestação a grávida colonizada fora do trabalho de parto — a intervenção é intraparto. A distinção é de sítio: urina positiva é infecção urinária e se trata; swab vaginorretal positivo é colonização e se marca para o parto.
  6. 6Deixar a nitrofurantoína correndo depois das 37 semanas Atrai porque a droga é primeira escolha, funcionou, e a paciente está bem. É exatamente na chegada ao termo que ela sai, pelo risco de hemólise e icterícia no recém-nascido. Vale tanto para tratamento quanto para profilaxia: o Manual manda substituir por cefalexina 250 mg após 37 semanas, e esquecer a troca é o erro mais comum de quem prescreveu certo no começo.
  7. 7Suspender a profilaxia porque a gestante 'já melhorou' É o erro simétrico do anterior. A profilaxia instituída após pielonefrite, ou a partir do segundo episódio de infecção baixa, vai até o parto — não até o desaparecimento dos sintomas nem até a urocultura negativar. A cultura negativa em vigência de profilaxia é o resultado esperado, não o critério de suspensão.
  8. 8Tratar pielonefrite gestacional em regime ambulatorial Atrai porque a pielonefrite não gestante de baixo risco pode ser ambulatorial, e alguns fluxogramas de adulto admitem isso. Na gestante o Manual usa a palavra obrigatória para a hospitalização. A alta precoce, depois de alguns dias e com critérios de melhora, é diferente de tratar em casa desde o início.
  9. 9Trocar o antibiótico e nada mais quando a febre persiste em 48 a 72 horas Atrai porque a troca é a resposta reflexa à falha terapêutica, e um dos documentos de fato manda mudar o esquema. Mas a falha nesse prazo, com droga adequada, aponta para obstrução ou coleção: a conduta que muda o desfecho é a imagem à procura de cálculo e de abscesso renal, e a troca vem junto, guiada pelo antibiograma.
  10. 10Dispensar o controle de cura porque a paciente ficou assintomática Atrai porque a regra geral, inclusive brasileira, é não pedir urocultura pós-tratamento em quem não tem sintoma. A gestante é a exceção nomeada em todos os documentos: repete-se a cultura após cada tratamento, entre sete dias e duas semanas do término. Cultura de controle positiva em assintomática é novo episódio e conta para a decisão de profilaxia.
  11. 11Escolher sulfametoxazol-trimetoprima porque o antibiograma mostrou sensibilidade Atrai porque o antibiograma parece autorizar. Duas travas independentes bloqueiam: a associação é categoria D no primeiro trimestre e nas últimas semanas, e no meio da gestação a sensibilidade brasileira da Escherichia coli fica entre 54,5% e 63,3%, o que a tira do uso empírico. Quando o antibiograma a libera e a idade gestacional permite, ela é opção de resgate, não de primeira linha.
  12. 12Ler frequência e urgência urinárias da gestante como cistite Atrai porque os sintomas coincidem com os do quadro clássico. A compressão vesical pelo útero produz polaciúria e urgência sem infecção — os Protocolos da Atenção Básica orientam explicitamente a tranquilizar a gestante nesse caso. A queixa que sustenta o diagnóstico é a disúria; sem ela, e com urocultura negativa, a resposta é orientação, não antibiótico.
  13. 13Confiar na fita reagente para excluir infecção na gestante Atrai porque nitrito negativo e esterase negativa parecem tranquilizadores e o exame está na mão. Com sensibilidade de 77% e especificidade de 70%, a fita não define conduta na gestante: pode estar normal na vigência de infecção. Quem decide é a urocultura, e é por isso que ela está no calendário de rotina do pré-natal.
  14. 14Prescrever fosfomicina numa vinheta de unidade básica de saúde Atrai porque a dose única encabeça as tabelas dos três protocolos assistenciais e é a resposta 'de livro'. A Rename 2024 não a carrega, nem à cefuroxima; a lista nacional garante nitrofurantoína, cefalexina, amoxicilina e amoxicilina com clavulanato. Quando o cenário é atenção primária e a alternativa cita disponibilidade, o par viável é nitrofurantoína ou cefalexina.
  15. 15Fazer profilaxia intraparto para estreptococo B em cesárea eletiva a termo com bolsa íntegra Atrai porque a gestante está colonizada e o reflexo é cobrir. A Recomendação 3 dispensa a profilaxia para o germe nessa situação específica — a termo, antes do trabalho de parto e com membranas íntegras —, mantendo-se a antibioticoprofilaxia perioperatória da cesárea, que tem outro objetivo. O rastreio de 36 a 37 semanas, porém, continua indicado, porque a data marcada pode não ser cumprida.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Urocultura de jato médio acima de 100.000 UFC/mL em gestante sem sintomas define bacteriúria assintomática, e na gravidez ela sempre se trata — é o único cenário de rotina em que a bacteriúria assintomática é rastreada e tratada, porque tratar reduz a progressão para pielonefrite de até 40% para 3%. A nitrofurantoína é primeira escolha, 100 mg de 6 em 6 horas por cinco dias, e está liberada nesta idade gestacional, muito antes do limite de 37 semanas; o controle de cura por nova urocultura é obrigatório e é a exceção nomeada à regra de não pedir cultura pós-tratamento em assintomático. A alternativa 1 aplica à gestante a conduta correta da não gestante e é o distrator central do tema. A alternativa 2 traz a exigência de duas amostras consecutivas da diretriz norte-americana, que os documentos brasileiros não adotam: um só exame positivo basta e obriga tratamento imediato. A alternativa 4 escolhe uma droga que é categoria D no primeiro trimestre por antagonismo do folato, com risco de defeito de tubo neural, além de ter sensibilidade da E. coli em torno de 55% no Brasil. A alternativa 5 usa quinolona, proscrita na gestação inteira por toxicidade sobre a cartilagem articular em desenvolvimento, e encaminha ao alto risco uma bacteriúria de primeiro episódio, que se resolve na atenção básica.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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Plano de revisão

em 7 dias

Os números, na ordem em que a prova os pede. Corte da bacteriúria assintomática: maior que 100.000 UFC/mL em jato médio, da mesma bactéria, uma amostra basta no Brasil. Rastreio: duas uroculturas, primeiro trimestre e terceiro trimestre; trimestral na gemelar e na doença renal crônica; mensal em risco ou recorrência. Duração pela droga: dose única para fosfomicina, 5 dias para nitrofurantoína, 7 dias para betalactâmico. Controle de cura em toda gestante, entre 7 dias e 2 semanas. Pielonefrite: internação obrigatória, ceftriaxona 2 g/dia intravenosa, 10 a 14 dias, reavaliação em 48 a 72 horas com imagem procurando cálculo e abscesso. Nitrofurantoína sai a partir de 37 semanas; sulfametoxazol-trimetoprima é categoria D no 1º trimestre e nas últimas semanas; quinolonas e tetraciclinas estão fora o tempo todo. Profilaxia: 1 pielonefrite basta, 2 infecções baixas bastam, à noite, até o parto, trocando nitrofurantoína por cefalexina às 37 semanas. Estreptococo do grupo B: qualquer contagem na urocultura indica profilaxia intraparto e dispensa o swab de 36 0/7 a 37 6/7 semanas; penicilina G 5 milhões de ataque e 2,5 milhões de 4 em 4 horas; adequado com 4 horas ou mais até o parto.

em 30 dias

Os porquês, que é o que sobra quando os números escapam. Por que a gestação inverte a regra da bacteriúria assintomática: progesterona e prostaciclina relaxam a via urinária, o fluxo renal sobe de 30% a 50% e produz urina diluída, alcalina e com glicose, e a dextrorrotação uterina comprime o ureter direito — estase e nutrientes tornam a ascensão provável, e é por isso que tratar reduz pielonefrite de até 40% para 3%, com número necessário para tratar de 3. Por que a nitrofurantoína sai só no fim: hemólise no recém-nascido com deficiência de glicose-6-fosfato desidrogenase, que se traduz em icterícia neonatal, e a janela fechada são apenas as últimas três semanas. Por que a sulfa é proibida nas duas pontas por motivos opostos: antagonismo do folato durante a organogênese no começo, deslocamento da bilirrubina com risco de kernicterus no fim — e no meio a resistência brasileira, com sensibilidade de cerca de 55%, a tira do empírico. Por que a febre que não cede em 48 a 72 horas pede imagem e não outra receita: droga adequada que falha aponta obstrução ou coleção, e rim obstruído não esteriliza. Por que o estreptococo do grupo B tem régua própria: a contagem mede densidade de bacteriúria, mas o que importa no parto é a presença do germe no trato genital — bacteriúria em qualquer título é marcador de colonização maciça, e é por isso que ela indica a profilaxia e dispensa o swab. E por que se trata a urina mas não se trata a colonização vaginal no pré-natal: erradicar a colonização antes do trabalho de parto não previne a doença neonatal, porque ela recoloniza — a única janela útil é o parto.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Gestante de 24 anos, primigesta, com 29 semanas de idade gestacional, procura a unidade básica de saúde referindo ardência para urinar há dois dias e vontade frequente de ir ao banheiro. Nega febre, calafrios e dor lombar. Traz a urocultura do primeiro trimestre, que veio negativa, e ainda não colheu a do terceiro. Está preocupada porque uma amiga foi internada com infecção urinária na gravidez e quer saber se vai acontecer o mesmo. Conduza o atendimento: separe o que é sintoma de infecção do que é compressão vesical da gravidez, decida quais exames colher e em que ordem, escolha o esquema com dose e duração considerando o que existe na farmácia da unidade, programe o controle de cura, e defina o que mudaria na sua conduta se a urocultura voltasse isolando estreptococo do grupo B. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Infecção do trato urinário e bacteriúria assintomática na gestação – Infecção urinária na gestação — Preparatório para provas | OsceLabs