Ginecologia e ObstetríciaPré-natal, rastreios e intercorrências clínicas da gestação

Rastreio de anomalias no primeiro trimestre: o mesmo 1:50, três condutas

Rastreio de anomalias e ultrassonografia obstétrica (translucência nucal, morfológico)

A janela medida em milímetros, as faixas de risco que não encaixam nas bordas e o preço, contado em agulhas, de descer o ponto de corte.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Gestante, 29 anos, primigesta, comparece à consulta de pré-natal com 12 semanas de idade gestacional confirmada por ultrassonografia de datação. A gestação evolui sem intercorrências e a paciente deseja iniciar o rastreamento de aneuploidias do primeiro trimestre por método de imagem. Segundo a técnica preconizada, a medida da translucência nucal, principal marcador ultrassonográfico do rastreio de primeiro trimestre, deve ser realizada dentro de qual janela de comprimento cabeça-nádega (CCN)? Qual é a faixa correta de idade gestacional / CCN para aferição da translucência nucal?

02

Como esse tema cai

Este capítulo trata do que a ultrassonografia obstétrica de primeiro trimestre faz depois de datar a gestação: medir a translucência nucal e os demais marcadores, transformar isso em um número de risco e decidir o que fazer com esse número. A datação em si, a regra de Näegele e a discussão sobre quantas ultrassonografias a rotina deve conter pertencem ao capítulo de diagnóstico de gravidez e idade gestacional, e não são repetidas aqui.

A questão de prova quase nunca pede a definição de translucência nucal. Ela entrega um risco calculado, uma medida em milímetros ou uma idade gestacional na borda da janela, e pede a conduta. O que separa quem acerta de quem erra é saber que o mesmo risco cai em faixas diferentes conforme o fluxograma que a banca tem em mente, que os valores exatos das bordas ficam órfãos entre as faixas, e que descer o ponto de corte compra detecção a um preço que se conta em procedimentos invasivos.

O rastreio da pré-eclâmpsia usa o mesmo exame, na mesma janela, e por isso aparece aqui na parte que é de imagem e cálculo de risco. A prevenção com ácido acetilsalicílico — dose, horário, semana de início e de suspensão — é assunto do capítulo de prevenção de pré-eclâmpsia, e este texto entrega a ele apenas o número que falta do lado do rastreio.

03

O que muda decisão

A janela é medida em milímetros, não em semanas

A frase que circula é que a translucência nucal se mede entre 11 e 13 semanas e 6 dias. É a tradução, não a regra. A regra operacional é o comprimento cabeça-nádega: o exame só serve para rastreio quando o feto mede entre 45 e 84 mm, e é isso que o ultrassonografista confere antes de tudo. A revisão da revista da federação brasileira escreve a equivalência nessa ordem — 45 a 84 mm, correspondendo a 11+0 e 13+6 semanas, respectivamente. A medida vem primeiro; a semana é consequência.

Essa inversão de ordem resolve uma ambiguidade que o capítulo de datação desta apostila deixa em aberto. Lá, os dois números aparecem juntos — mede-se a translucência nucal com comprimento cabeça-nádega entre 45 e 84 mm, e acima de 84 mm a medida deixa de ser confiável para datar — sem dizer de quem é cada extremidade. O teto de 84 mm é das duas regras. O piso de 45 mm é só do rastreio: abaixo dele a gestação continua perfeitamente datável, o que não se pode é medir a translucência e calcular risco. Uma gestante de 10 semanas não está fora da janela de datação; está fora da janela de rastreio.

A janela tem, portanto, 39 mm de largura. Na coorte brasileira que este capítulo usa como referência de campo, o comprimento cabeça-nádega mediano no dia do exame foi de 62,5 mm, com amplitude de 45,0 a 84,0 mm — praticamente o meio do intervalo, cujo ponto médio é 64,5 mm. É pouca folga: o intervalo inteiro dura três semanas, e o exame não é remarcável para depois.

A janela em milímetros resolve também a questão da normalidade da medida. A revisão brasileira é explícita: a translucência nucal aumenta com o comprimento cabeça-nádega e não há um valor fixo de normalidade. Considera-se aumentada a que está acima do percentil 95 para a idade gestacional. Quem decora um número em milímetros um número em milímetros como limite está usando uma régua que a própria fonte nega existir.

Os 3,5 mm e o valor que nenhuma faixa recolhe

Se o limite de normalidade é o percentil 95, de onde vem o 3,5 mm que todo mundo repete? Do percentil 99. A revisão brasileira de 2011 escreve a equivalência duas vezes: fetos com translucência nucal entre os percentis 95 e 99, e entre parênteses, 3,5 mm; e, na série sobre cardiopatias, translucência acima do percentil 95 e até 3,5 mm, com a mesma nota de que 3,5 mm é o percentil 99. Os 3,5 mm são o topo da faixa intermediária, não a entrada da faixa alterada.

Repare no que isso faz com o valor exato. A faixa seguinte da mesma série começa em 3,6 mm — não em 3,5. E a régua da federação define alterada a translucência maior que 3,5 mm ou maior que o percentil 99. Nas duas leituras, um feto de exatamente 3,5 mm fica de fora: o valor que dá nome ao limite é excluído pelo limite, e cai na faixa de baixo, cujo risco de malformação estrutural grave é 2,5%.

Não é preciosismo. Foi medido: em nenhum dos documentos brasileiros usados aqui aparece o sinal de menor ou igual. As comparações são todas maior que, menor que, acima de, abaixo de, superior a, inferior a. A única exceção é a faixa mais alta da série de 2011, escrita como maior ou igual a 6,5 mm — e é justamente a única borda do conjunto que não deixa valor órfão.

Há ainda um e/ou embutido na régua de 3,5 mm. Se 3,5 mm fosse sempre o percentil 99, a conjunção seria redundante. Ela existe porque não é: a translucência cresce com o comprimento cabeça-nádega, e o percentil 99 de um feto de 45 mm é menor que o de um feto de 84 mm. Um valor fixo de 3,5 mm dispara, num feto pequeno, acima do percentil 99; num feto grande, pode disparar abaixo dele. A conjunção faz trabalho real, e em direções opostas conforme o tamanho.

As faixas associadas à espessura, na série de 2011: malformação estrutural grave em feto sem anomalia cromossômica ocorre em cerca de 1,6% abaixo do percentil 95; 2,5% entre os percentis 95 e 99; 10% de 3,6 a 4,4 mm; 19% de 4,5 a 5,4 mm; 24% de 5,5 a 6,4 mm; 46% acima de 6,5 mm. O risco de óbito espontâneo sobe de 1,3% na faixa entre os percentis 95 e 99 para 19% acima de 6,5 mm.

O risco não é medido: é construído

O número que sai do exame não é uma medida, é um produto. Toda gestante tem um risco basal, chamado de risco a priori, determinado pela idade materna, pela história prévia de fetos com cromossomopatia e pela idade gestacional. Esse risco é então multiplicado pela razão de verossimilhança de cada marcador avaliado, e o resultado é o risco individual daquela gestação. É por isso que dois fetos com a mesma translucência nucal podem sair do mesmo exame com riscos que diferem por uma ordem de grandeza.

Um detalhe do risco basal rende questão: o risco de algumas aneuploidias aumenta com a idade materna e diminui com a idade gestacional. O segundo movimento não é intuitivo. Existe porque fetos aneuploides têm maior risco de óbito intrauterino — a cada semana, parte deles deixa de estar na população. A idade gestacional entra como fator de sobrevivência, não de maturação.

Quanto pesa cada componente? A coorte brasileira mediu, correlacionando quatro fatores do algoritmo com o risco final: coeficiente de 0,770 para a idade materna, contra 0,111 para a translucência nucal, 0,122 para a fração livre do beta-hCG e 0,163 para a proteína A plasmática, todos com p menor que 0,001. A idade materna correlaciona-se com o risco final cerca de sete vezes mais que a translucência nucal.

Aqui mora a primeira armadilha de leitura do tema. Esse número não diz que a translucência nucal é um marcador fraco. Diz que, naquele algoritmo, a idade materna é o que mais mexe no resultado — o que é esperado, porque a idade materna é o risco basal, e a translucência nucal é apenas um dos multiplicadores. Confundir peso no cálculo com valor diagnóstico é a leitura que a banca quer que o candidato faça.

A notação também inverte. Um risco de 1:10 é maior que um risco de 1:100, que é maior que 1:1.000: o denominador cresce quando o risco cai. Um enunciado que escreva "risco maior que 1:100" está falando de 1:50 e 1:20. É o erro de sinal mais barato do tema e um dos mais cobrados.

Marcador por marcador, e o que cada um compra

A translucência nucal isolada, associada à idade materna, identifica 75% a 80% dos fetos com aneuploidia para taxa de falso-positivo de 5%. É o piso do método. Tudo o que se acrescenta a partir daí é tentativa de comprar detecção sem comprar falso-positivo na mesma proporção.

O osso nasal é avaliado no mesmo plano da translucência nucal, com o transdutor paralelo ao nariz fetal. Está ausente ou hipoplásico em 60% a 70% dos fetos com trissomia do 21. Acrescentado ao rastreio combinado, leva a detecção da trissomia do 21 a cerca de 90%, com falso-positivo de 2,5%. Uma regra de leitura vale a pena guardar: no corte coronal, se um osso nasal ou ambos forem visualizados, classificam-se como presentes — a visualização de um só já descarta a associação com risco aumentado.

O ducto venoso é um shunt entre a veia umbilical e a veia cava inferior. A onda A ausente ou reversa aparece em 3% a 5% dos fetos euploides e em cerca de 70% dos fetos com trissomia do 21. Incorporada ao rastreio combinado, sua avaliação é reportada com detecção de 96%, 92%, 100% e 100% para trissomias do 21, do 18, do 13 e para a síndrome de Turner, com falso-positivo de 3%. A regurgitação da válvula tricúspide é reportada com detecção de 90% da trissomia do 21 e redução do falso-positivo de 5% para 2,5%. A frequência cardíaca fetal, que cai de cerca de 170 batimentos por minuto na 10ª semana para 150 na 14ª, entra com impacto pequeno.

Vale um contraponto honesto. Cada acréscimo é apresentado como aumentando a detecção e, ao mesmo tempo, reduzindo o falso-positivo — o que não é o comportamento geral de somar um teste a outro. E o próprio artigo move a linha de base enquanto descreve os acréscimos: na abertura, o rastreio combinado detecta cerca de 95% com falso-positivo inferior a 3%; páginas depois, a linha da válvula tricúspide diz que o falso-positivo cai "de 5% para 2,5%", o que só faz sentido se a base fosse 5%. Cada número vem de um estudo diferente, com população e desfecho diferentes, e a revisão os enfileira como degraus da mesma escada. O que se afirma com segurança é a direção, não a aritmética de somá-los.

Duas figuras, o mesmo artigo, duas faixas

A mesma revisão brasileira de 2023 traz dois fluxogramas de estratificação de risco, e eles não usam a mesma régua. O do rastreio combinado clássico tem duas faixas: maior que 1:100 é alto e vai para biópsia de vilo corial ou amniocentese; menor que 1:100 é baixo e segue para o morfológico de segundo trimestre. O do rastreio combinado com DNA fetal livre tem três faixas: maior que 1:10 é alto e vai direto ao procedimento invasivo; de 1:11 a 1:1.000 é intermediário e vai ao DNA fetal livre; menor que 1:1.000 é baixo.

O corte para indicar agulha fica, portanto, dez vezes mais estrito quando o DNA fetal livre está disponível. O artigo não afirma isso em nenhuma frase: as duas figuras simplesmente coexistem, com fontes bibliográficas diferentes. A lógica é limpa quando se percebe que, sem o teste de sangue, não há degrau intermediário — tudo acima de 1:100 precisa de cariótipo; com ele, o degrau absorve o volume e só o topo vai à agulha.

Faça a conta com um caso concreto. Uma gestante sai do exame com risco de 1:50 para trissomia do 21. Pelo primeiro fluxograma, 1:50 é maior que 1:100: risco alto, conduta é biópsia de vilo corial ou amniocentese. Pelo segundo, 1:50 é menor que 1:10 e está dentro de 1:11 a 1:1.000: risco intermediário, conduta é DNA fetal livre, e a agulha só entra se o resultado for positivo ou inconclusivo. O mesmo número, o mesmo artigo, duas condutas opostas — e é essa a questão que a banca escreve.

E as bordas de novo deixam órfão. A faixa alta do segundo fluxograma é "maior que 1:10" e a intermediária começa em "1:11". Um risco de exatamente 1:10 não está em nenhuma das duas. É a mesma falha de fechamento dos 3,5 mm, agora em notação de razão.

Dois fluxogramas de estratificação de risco comparados sobre um eixo vertical comum marcado em 1:10, 1:11, 1:50, 1:100 e 1:1.000. O fluxograma do rastreio combinado clássico tem duas faixas separadas em 1:100, com biópsia de vilo corial ou amniocentese acima e morfológico de segundo trimestre abaixo. O fluxograma com DNA fetal livre tem três faixas: acima de 1:10 vai a procedimento invasivo, de 1:11 a 1:1.000 vai ao DNA fetal livre e abaixo de 1:1.000 é risco baixo. Uma linha tracejada em 1:50 mostra os dois destinos opostos, e um círculo vazado em 1:10 marca o valor que não cabe em nenhuma faixa.
Um risco de 1:50 vai à agulha pelo fluxograma sem DNA fetal livre e ao exame de sangue pelo fluxograma com ele: o corte que indica procedimento invasivo fica dez vezes mais estrito.

Há ainda uma terceira régua no mesmo artigo, e ela usa "alto risco" para outra coisa. No rastreio de pré-eclâmpsia, é de alto risco a paciente com valores entre 1:1 e 1:100. Dois cortes chamados de alto risco convivem no mesmo texto — 1:10 para trissomia, 1:100 para pré-eclâmpsia —, separados por uma ordem de grandeza. Pergunte primeiro de que desfecho o risco fala.

O preço de descer o corte, contado em agulhas

A coorte brasileira publica os numeradores, e com eles dá para pagar a conta que os fluxogramas não mostram. Foram 2.748 gestações analisadas, com 21 aneuploidias — 0,76%. Ao corte de maior que 1:100, 62 mulheres (2,3%) foram positivas, com 9 aneuploidias dentro (42,9%). Ao corte de maior que 1:1.000, os positivos sobem a 217 (7,9%), com 15 aneuploidias (71,4%).

Traduzindo: descer o corte de 1:100 para 1:1.000 encontrou 6 aneuploidias a mais e produziu 149 falsos-positivos a mais. O preço é de cerca de 25 falsos-positivos por aneuploidia adicional. A conta fecha pelos dois caminhos: pela subtração dos percentuais, 7,4% menos 1,9% dá 5,5 pontos, que sobre as 2.727 gestações sem aneuploidia dão 150 mulheres; pela contagem direta, 202 menos 53 dá 149. As rotas concordam, e a diferença de uma mulher é arredondamento. A sensibilidade responde igual: 71,4% menos 42,9% dá 28,5 pontos, que sobre 21 aneuploidias dão 5,99 — os mesmos 6 casos.

O degrau seguinte é muito mais caro. Ao corte de 1:1.860, o grupo positivo sobe para 407 mulheres, com 17 aneuploidias: mais 2 detecções e mais 188 falsos-positivos, ou cerca de 94 falsos-positivos por aneuploidia adicional. Entre o primeiro degrau e o segundo, o preço por detecção quase quadruplica. É essa curva, e não a sensibilidade isolada, que decide onde um serviço põe o corte.

O que há dentro da faixa intermediária — a que o fluxograma com DNA fetal livre desvia da agulha — fecha o raciocínio. Entre 1:100 e 1:1.000 ficaram 155 mulheres, e nelas estavam exatamente 6 das 21 aneuploidias: uma a cada 26, ou 3,9%. Não é faixa vazia; é onde morava mais de um quarto de todas as aneuploidias da coorte. Desviá-la para o sangue evita, no mínimo, 155 procedimentos invasivos, e a introdução do artigo estima a perda gestacional total da biópsia de vilo corial e da amniocentese em 1,5% a 2,0% — entre 2 e 3 perdas evitadas.

Esse último número precisa de um contraponto honesto, e ele é grande. O artigo registra que o cariótipo foi feito apenas nas mulheres que manifestaram desejo e assinaram consentimento — não em todas as positivas. Portanto 155 é o teto de procedimentos evitáveis, não o número de procedimentos feitos, e as 2 a 3 perdas são um limite superior aritmético, não um dano observado. O estudo não publica quantos procedimentos invasivos foram executados.

Os valores preditivos completam o quadro e desmentem a intuição. O valor preditivo positivo cai conforme o corte desce: 14,52% em 1:100, 6,91% em 1:1.000, 4,18% em 1:1.860. Quanto mais sensível o rastreio, menor a proporção de positivos que realmente têm a condição. Todos esses números se reconstroem exatamente dos numeradores: 9 sobre 62 dá 14,52%; 15 sobre 217 dá 6,91%; 17 sobre 407 dá 4,18%.

A prosa acusa a idade; a aritmética absolve

A discussão do artigo brasileiro atribui o desempenho abaixo do esperado à composição etária: "nossos resultados provavelmente foram influenciados pela idade materna, porque 41,6% das mulheres tinham 35 anos ou mais". A frase é intuitiva e está errada de direção — e as próprias tabelas do artigo mostram por quê.

Primeiro, a estratificação por idade funcionou como o algoritmo prevê. Até 34 anos, 71 de 1.606 foram classificadas como risco intermediário ou alto — 4,4%. De 35 a 40, 77 de 969, ou 7,9%. De 41 em diante, 69 de 173, ou 39,9%. As razões de prevalência publicadas são 1,8 e 9,0, com intervalos de 1,3 a 2,5 e de 6,7 a 12,1. Confira as conversões: 7,9 dividido por 4,4 dá 1,80; 39,9 dividido por 4,4 dá 9,07. Ambas estão corretas. E os três grupos somam 217, exatamente o total de positivos ao corte de 1:1.000 — a soma fecha.

Os denominadores merecem atenção porque a prosa os descreve errado. O texto fala em grupos "abaixo de 34", "entre 35 e 40" e "acima de 41 anos", mas as contas só fecham com faixas fechadas nas bordas: 71 sobre 1.606 dá 4,42%, e 1.606 é o número de mulheres de 18 a 34 anos; 69 sobre 173 dá 39,88%, e 173 é o de mulheres com 41 anos ou mais. A aritmética recupera as bordas que a prosa perdeu.

Segundo, e decisivo: uma população mais velha não reduz a sensibilidade de um rastreio — ela aumenta a prevalência da condição rastreada, e prevalência mais alta eleva o valor preditivo positivo. A conta confirma. A trissomia do 21 ocorre em 1 a cada 800 nascimentos, e as trissomias do 18 e do 13 têm, no primeiro trimestre, um terço e um sétimo dessa frequência; somadas, esperam-se 1 aneuploidia a cada 542 gestações, ou 0,185%. A coorte observou 0,76%, cerca de 4,1 vezes o esperado — coerente com população encaminhada e envelhecida. Por duas rotas: 21 sobre 2.748 dá 0,764%; e 0,185% sobre 2.748 daria 5,1 casos esperados contra 21 observados, razão de 4,1. As duas concordam.

Terceiro, o próprio artigo aponta o culpado real na conclusão, e não é a idade: "pode sugerir que temos de considerar um ponto de corte diferente (1:610) como referência para a população atendida em nosso centro". A tabela mostra a mesma coisa sem precisar de argumento — a sensibilidade sobe de 42,9% para 81,0% sem que uma única mulher mude de idade, apenas movendo o corte. O que estava mal calibrado era a linha, não a população.

Há ainda um número que contraria a acusação de frente. A revisão brasileira de 2014 estima que um corte de risco maior que 1:100 selecione cerca de 3% da população de gestantes. Nessa coorte mais velha, o mesmo corte selecionou 62 de 2.748, ou 2,3% — menos, não mais. Vinte mulheres a menos que o esperado, ou 25% abaixo em termos relativos.

Os dois relógios do rastreio nunca marcam a mesma hora

O rastreio combinado precisa de duas coisas colhidas em momentos diferentes: a imagem e o sangue. A imagem exige comprimento cabeça-nádega entre 45 e 84 mm, ou seja, 11+0 a 13+6 semanas. O sangue tem outro calendário — e as fontes brasileiras não concordam sobre qual.

A revisão de 2023 diz que a fração livre do beta-hCG e a proteína A plasmática associada à gestação podem ser dosadas com boa taxa de detecção entre 9 e 10 semanas, mas que o desempenho é melhor com a proteína A feita às 9 semanas e o beta-hCG às 12. A coorte de 2018 registra a mesma tensão com outros números: a discriminação da proteína A é máxima às 10 semanas e declina depois, enquanto a do beta-hCG melhora até as 13.

Junte tudo e o problema aparece inteiro. Os dois marcadores bioquímicos do mesmo teste têm ótimos que correm em direções opostas, e o ótimo da proteína A — 9 ou 10 semanas, conforme a fonte — cai antes de a janela ultrassonográfica abrir, aos 11+0 e 45 mm. Não existe idade gestacional em que os três componentes estejam no seu melhor momento. A revisão de 2014 resolve isso propondo colher o sangue na décima semana, para que o resultado esteja pronto quando a imagem for feita, idealmente na 12ª — o que confirma que o rastreio combinado, feito bem, não é um exame, são dois atos separados por até duas semanas.

Isso muda a leitura de enunciado. Quando a vinheta diz que a gestante chegou com 12 semanas e a coleta foi feita no mesmo dia, o teste não está errado, mas está fora do melhor momento de um dos seus marcadores. E quando traz uma gestante de 10 semanas pedindo "o exame de rastreio", a resposta não é adiar tudo: é colher o sangue agora e agendar a imagem para a janela.

Sobra desse cruzamento uma divergência genuína sobre Doppler. A diretriz nacional de 2020 recomenda, com grau A, que por razões de segurança o Doppler não seja usado no exame de rotina de primeiro trimestre — o argumento não é dano conhecido, e sim segurança não demonstrada num período vulnerável. Mas o algoritmo que o rastreio combinado brasileiro efetivamente usa inclui Doppler de ducto venoso e, no braço de pré-eclâmpsia, Doppler de artérias uterinas, exatamente nessa janela. As duas convivem porque o rastreio conta como indicação clínica e não como rotina — mas a leitura tem de ser feita, porque as duas linhas estão lado a lado com o mesmo grau.

O que o segundo trimestre ainda tem de fazer

Nenhuma das fontes trata o exame de primeiro trimestre como substituto do morfológico de segundo. A revisão de 2011 quantifica: a morfológica de primeiro trimestre detecta 51,8% do total das malformações diagnosticáveis no pré-natal, com amplitude de 18% a 68% entre os oito estudos reunidos, subindo para 81,7% quando complementada pela de segundo trimestre. O conjunto reúne 29.485 gestantes e 398 malformações.

Repare no que a amplitude faz com a média. Um intervalo de 18% a 68% em torno de 51,8% significa que, em algum dos centros incluídos, quatro de cada cinco malformações passaram batidas no primeiro trimestre. A média é do conjunto; o desempenho é do serviço.

A mesma revisão traz o único ensaio randomizado da série, e ele aponta para o outro lado. Saltvedt randomizou 39.572 gestantes para uma única ultrassonografia, de 12 a 14 semanas ou de 15 a 22. A detecção foi de 38% no primeiro grupo e 47% no segundo, com p igual a 0,06 — no desenho mais forte da revisão, o primeiro trimestre teve a estimativa pontual mais baixa, e a diferença não alcançou significância. Ainda assim, a revisão conclui que "parece coerente a incorporação do exame morfológico de primeiro trimestre na rotina obstétrica". Prosa e dado apontam para lados diferentes.

A diretriz nacional de 2020 registra a mesma dificuldade dentro de uma frase, repetida nas recomendações com grau A: o exame "identifica mais de 80% das principais malformações fetais não relacionadas a cromossomopatias, com sensibilidade entre 12,5 e 83,7%". A faixa atravessa o próprio teto: só o extremo superior alcança os 80% prometidos, e o inferior fica seis vezes abaixo. As duas metades da mesma sentença não descrevem a mesma coisa, e ambas carregam o mesmo grau.

A conclusão prática é que a comparação correta não é primeiro contra segundo trimestre, e sim primeiro mais segundo contra segundo sozinho — é assim que a revisão de 2011 apresenta o ganho, de 51,8% para 81,7%. O morfológico de segundo trimestre continua indicado depois de um rastreio de primeiro trimestre normal, e é essa a conduta que os dois fluxogramas de 2023 escrevem para a faixa de baixo risco.

Um último recorte. A lei federal de 2023 sobre exames em gestantes prevê ecocardiograma fetal e pelo menos duas ultrassonografias transvaginais no primeiro quadrimestre, observada a disponibilidade orçamentária. Quadrimestre não é trimestre: enunciado que use essa palavra ou cite número de lei testa a norma legal, não a janela de 45 a 84 mm.

As 775 que não voltaram

Todos os números da coorte brasileira usados acima repousam sobre uma amostra que perdeu um quarto de si mesma pelo caminho, e é honesto dizer o que isso faz com eles. Foram rastreadas 3.639 gestantes e analisadas 2.748. Saíram 116 gestações múltiplas e 775 mulheres perdidas de seguimento após o parto ou com gestação por doação de oócitos. As duas exclusões não têm a mesma natureza.

A exclusão das gestações múltiplas é de desenho: estava escrita nos métodos antes de o estudo começar, e tem razão técnica — em dicoriônicas o risco é calculado feto a feto e a bioquímica esperada é cerca do dobro, com detecção de 90% para falso-positivo de 6%; em monocoriônicas usa-se a média das medidas de translucência nucal e o falso-positivo é maior, porque translucência aumentada em um dos fetos pode ser manifestação precoce de transfusão feto-fetal. São 116 gestações, 3,2% do total.

As 775 são outra coisa. São 21,3% da coorte original, e saíram depois de o teste já ter sido feito, por não terem voltado. O grupo analisado não é o grupo rastreado: é o subconjunto que completou o seguimento. Isso é artefato de construção, não de desenho. Se uma mulher de alto risco interrompeu ou pariu em outro serviço, ela sai do numerador de aneuploidias sem sair da lista de rastreadas — e os próprios autores registram que pode ter havido erro com essas mulheres sem registro.

Há uma segunda camada, mais sutil e do mesmo tipo. O cariótipo foi feito por biópsia de vilo corial ou amniocentese nas mulheres que manifestaram o desejo e assinaram consentimento. Uma gestante de risco intermediário que recusou o procedimento e cujo recém-nascido nasceu sem fenótipo suspeito entra na coluna "sem aneuploidia" sem nunca ter sido testada. O grupo dos verdadeiros-negativos é, em parte, constituído pela recusa — e não pela verificação.

Nada disso invalida a coorte, e as duas exclusões somam 891 mulheres, ou 24,5% do total rastreado. O que muda é a forma de citar: os 71,4% de sensibilidade e os 7,4% de falso-positivo são o desempenho medido em quem completou o seguimento e, quando testado, consentiu. É um número real, brasileiro e útil — e menos firme que a promessa de 95% de detecção com falso-positivo inferior a 3% que abre a revisão de 2023. A distância entre os dois é o assunto inteiro deste capítulo.

04

A régua do rastreio, passo a passo

O caminho abaixo é o que os dois fluxogramas da revisão brasileira de 2023 desenham, com a aritmética da coorte de 2018 pendurada em cada degrau. O ponto em que os dois fluxogramas divergem está marcado.

  1. 1Confirme a janela pela medida, não pelo calendário: comprimento cabeça-nádega entre 45 e 84 mm. Abaixo de 45 mm, a gestação é datável mas não rastreável; acima de 84 mm, nem uma coisa nem outra por essa via.
  2. 2Meça a translucência nucal no plano sagital mediano, com o feto em posição neutra, imagem ampliada contendo apenas cabeça e tórax, distinguindo pele fetal de membrana amniótica, na máxima espessura entre a pele e o tecido que recobre a coluna cervical.
  3. 3Avalie o osso nasal no mesmo plano; no corte coronal, um osso visualizado já o classifica como presente.
  4. 4Avalie ducto venoso, fluxo na válvula tricúspide e frequência cardíaca fetal como marcadores adicionais, e o Doppler das artérias uterinas se o rastreio de pré-eclâmpsia estiver sendo feito.
  5. 5Dose a fração livre do beta-hCG e a proteína A plasmática associada à gestação — idealmente colhidas por volta da décima semana, antes da imagem.
  6. 6Deixe o software multiplicar o risco basal (idade materna, idade gestacional, história prévia) pelas razões de verossimilhança dos marcadores e emita o laudo com o risco individual.
  7. 7Sem DNA fetal livre disponível: risco maior que 1:100 vai a biópsia de vilo corial ou amniocentese; menor que 1:100 segue para o morfológico de segundo trimestre.
  8. 8Com DNA fetal livre disponível: risco maior que 1:10 vai direto ao procedimento invasivo; de 1:11 a 1:1.000 vai ao DNA fetal livre, e só vai à agulha se o resultado for positivo ou inconclusivo; menor que 1:1.000 segue para o morfológico de segundo trimestre.
  9. 9Em qualquer faixa de baixo risco, o morfológico de segundo trimestre continua indicado — o primeiro trimestre não o substitui.

O preço de cada degrau, reconstruído dos numeradores da coorte brasileira (2.748 gestações, 21 aneuploidias)

Ponto de cortePositivos (n, %)Aneuploidias detectadasFalsos-positivosValor preditivo positivoCusto do degrau
Maior que 1:10062 (2,3%)9 de 21 (42,9%)53 (1,9%)14,52%linha de base
Maior que 1:1.000217 (7,9%)15 de 21 (71,4%)202 (7,4%)6,91%+6 detecções ao custo de +149 falsos-positivos, ou ~25 por detecção
Maior que 1:1.860407 (14,8%)17 de 21 (81,0%)390 (14,3%)4,18%+2 detecções ao custo de +188 falsos-positivos, ou ~94 por detecção
Faixa intermediária isolada (1:100 a 1:1.000)155 (5,6%)6 de 21 (28,6%)1493,9%é a faixa que o fluxograma com DNA fetal livre desvia do procedimento invasivo

Onde cada valor exato de borda cai, e onde fica órfão

BordaComo a fonte escreveOnde cai o valor exato
3,5 mm de translucência nucalPercentil 99; faixa seguinte começa em 3,6 mm; régua alternativa fala em 'maior que 3,5 mm'Fica na faixa de baixo (entre os percentis 95 e 99), cujo risco de malformação grave é 2,5%
Risco de 1:10Faixa alta é 'maior que 1:10'; a intermediária começa em '1:11'Órfão — não está em nenhuma das duas faixas do fluxograma com DNA fetal livre
Risco de 1:100 (trissomias, fluxograma sem DNA fetal livre)Alto é 'maior que 1:100'; baixo é 'menor que 1:100'Órfão — as duas faixas usam desigualdade estrita
Risco de 1:100 (pré-eclâmpsia)Alto é 'entre 1:1 e 1:100'; baixo é 'menor que 1:100'Cai no alto risco — a faixa é fechada na borda
Risco de 1:1.000Intermediário é '1:11 a 1:1.000'; baixo é 'menor que 1:1.000'Cai no intermediário — a faixa é fechada na borda
Translucência nucal de 6,5 mm'Maior ou igual a 6,5 mm'Cai na faixa mais alta — é a única borda do conjunto escrita com 'maior ou igual'

Desempenho declarado por fonte brasileira: mesma janela, réguas diferentes

Fonte e anoO que medeDetecçãoFalso-positivo
Revisão da revista da federação, 2023Translucência nucal isolada com idade materna75% a 80%5%
Revisão da revista da federação, 2023Rastreio combinado (frase de abertura)cerca de 95%inferior a 3%
Revisão da revista da federação, 2023Combinado com osso nasal, para trissomia do 21cerca de 90%2,5%
Revisão da revista da federação, 2023Combinado com ducto venoso, para trissomia do 2196%3%
Coorte brasileira, 2018 (corte 1:1.000)Rastreio combinado medido em campo71,4%7,4%
Revisão narrativa brasileira, 2011Morfológica de 1º trimestre, malformações51,8% (18% a 68%)não reportado
Ensaio randomizado citado na revisão de 2011Uma única ultrassonografia, 12 a 14 semanas38% (contra 47% de 15 a 22 semanas, p=0,06)não reportado
Diretriz nacional, setembro de 2020, grau AMalformações não cromossômicas no 1º trimestre'mais de 80%', com sensibilidade entre 12,5% e 83,7%não reportado

A faixa intermediária não é uma zona cinzenta sem importância. Na coorte brasileira ela concentrou 6 das 21 aneuploidias, mais de um quarto do total, em 155 gestações — cerca de 1 a cada 26.

Valor preditivo positivo e sensibilidade correm em direções opostas quando se mexe no corte. Descer o corte aumenta a sensibilidade e derruba o valor preditivo positivo, porque o denominador de positivos cresce mais rápido que o numerador de verdadeiros.

Notação de razão inverte a intuição: 1:10 é risco maior que 1:100, que é maior que 1:1.000. Enunciado que diz 'risco maior que 1:100' está falando de 1:50, 1:20, 1:10.

A palavra 'alto risco' aparece com dois cortes diferentes na mesma revisão de 2023 — maior que 1:10 para trissomias no fluxograma com DNA fetal livre, e entre 1:1 e 1:100 para pré-eclâmpsia. Identifique o desfecho antes de aplicar a régua.

O DNA fetal livre é rastreio, não diagnóstico. Resultado positivo ou inconclusivo leva ao procedimento invasivo; a falha do teste ocorre em cerca de 3% das gestações e é mais frequente nas trissomias do 18 e do 13, por menor fração fetal, além de estar associada a obesidade materna e placenta de pequena massa.

O rastreio de pré-eclâmpsia usa o mesmo exame e a mesma janela, mas outro conjunto: características maternas, pressão arterial média, índice de pulsatilidade das artérias uterinas e fator de crescimento placentário. O Doppler de artéria uterina alterado isoladamente detecta 48% das pré-eclâmpsias de início precoce com 8% de falso-positivo; a história clínica isolada, 39% das precoces e 34% das a termo com 10% de falso-positivo. A conduta preventiva que se segue à triagem positiva é assunto do capítulo de prevenção de pré-eclâmpsia.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

A ultrassonografia de primeiro trimestre deve ser exame de rotina para todas as gestantes?

Não há razão para fazê-la de rotina na ausência de fator de risco

A diretriz nacional de 2020 lista, entre as recomendações com grau A, que não existe razão para a realização da ultrassonografia de primeiro trimestre como exame de rotina apenas para confirmação da gestação, na ausência de qualquer fator de risco, e que, quando indicada, deve ser realizada entre 11 semanas e 13 semanas e 6 dias. A busca bibliográfica que sustenta a diretriz foi encerrada em agosto de 2019.

Associação Médica Brasileira, Projeto Diretrizes — Ultrassonografia no primeiro trimestre da gravidez, elaboração de setembro de 2020, seção Recomendações.

É ferramenta central e deve ser solicitada no período adequado, de forma completa

A revisão publicada na revista da federação brasileira em 2023 trata a ultrassonografia morfológica de primeiro trimestre como ferramenta importante de rastreio, descreve o exame completo com todos os seus itens — marcadores de cromossomopatias, Doppler de ducto venoso, válvula tricúspide e artérias uterinas, medida transvaginal do colo e emissão de laudo com determinação do risco fetal — e o apresenta como o que deve ser solicitado no período adequado.

Femina. 2023;51(2):105-13, seção sobre a solicitação e o conteúdo do exame.

Na prova

O marcador do recorte é o vocabulário do enunciado. Frase que fale em 'exame de rotina', 'ausência de fator de risco' ou que cite grau de recomendação com letra sinaliza a diretriz nacional. Enunciado que descreva o exame por seus componentes — translucência nucal, osso nasal, ducto venoso, comprimento do colo — ou que peça a conduta a partir de um risco calculado sinaliza a revisão da federação. E enunciado que fale em 'primeiro quadrimestre', em ecocardiograma fetal para todas ou que cite número de lei está no terceiro mundo, o da norma legal, que não usa janela em semanas nem em milímetros.

Qual o risco a partir do qual se indica procedimento invasivo

Maior que 1:100, com duas faixas apenas

O fluxograma do rastreio combinado clássico, reproduzido na revisão de 2023 a partir de fonte de 2018, divide a população em duas faixas: risco maior que 1:100 é alto e segue para biópsia de vilo corial ou amniocentese; risco menor que 1:100 é baixo e segue para a ultrassonografia morfológica de segundo trimestre. Não há degrau intermediário.

Femina. 2023;51(2):105-13, figura de estratificação de risco e conduta durante rastreio combinado para cromossomopatias do primeiro trimestre (fonte citada: Santana EF et al., 2018).

Maior que 1:10, com faixa intermediária levada ao DNA fetal livre

O fluxograma do rastreio combinado com pesquisa de DNA fetal livre, na mesma revisão, divide a população em três faixas: maior que 1:10 é alto e segue direto para biópsia de vilo corial ou amniocentese; de 1:11 a 1:1.000 é intermediário e segue para a pesquisa de DNA fetal livre, indo ao procedimento invasivo apenas se o resultado for positivo ou inconclusivo; menor que 1:1.000 é baixo e segue para o morfológico de segundo trimestre.

Femina. 2023;51(2):105-13, figura de estratificação de risco e conduta durante rastreio combinado utilizando pesquisa de DNA fetal livre no sangue materno (fontes citadas: Santorum M et al., 2017; Gil MM et al., 2017).

Na prova

O que decide não é a preferência da banca, é a disponibilidade descrita na vinheta. Enunciado que mencione oferta de DNA fetal livre, custo, rastreio contingente ou 'teste de segunda linha' está no fluxograma de três faixas, e nele um risco de 1:50 é intermediário. Enunciado que não mencione o teste de sangue e ofereça apenas cariótipo por procedimento invasivo está no de duas faixas, e nele o mesmo 1:50 é alto risco com indicação direta de agulha. Identificar em qual fluxograma o enunciado se move resolve a questão antes de olhar as alternativas.

Uso de Doppler no exame de primeiro trimestre

Não indicado no exame de rotina, por precaução de segurança

A diretriz nacional recomenda, com grau A, que por razões de segurança o Doppler não seja indicado durante o exame de rotina de primeiro trimestre, e que exames com Doppler sejam usados apenas se clinicamente indicados. O argumento declarado não é a existência de dano conhecido, e sim a ausência de demonstração de segurança num período considerado particularmente vulnerável da vida fetal, somada à maior produção de energia quando aplicado a uma pequena região de interesse.

Associação Médica Brasileira, Projeto Diretrizes — Ultrassonografia no primeiro trimestre da gravidez, setembro de 2020, seções sobre segurança do Doppler e Recomendações.

Doppler de ducto venoso e de artérias uterinas integram o exame completo na mesma janela

A revisão de 2023 lista, entre os itens do exame de primeiro trimestre solicitado de forma completa, o Doppler colorido de ducto venoso, a avaliação do fluxo na válvula tricúspide e o Doppler das artérias uterinas, este último realizado entre 11+0 e 13+6 semanas, quando o comprimento cabeça-nádega mede entre 45 e 84 mm. A própria diretriz nacional, na mesma lista de recomendações graduadas, endossa o rastreio combinado de pré-eclâmpsia incluindo Doppler de artéria uterina.

Femina. 2023;51(2):105-13, seção sobre o conteúdo do exame e sobre rastreio de pré-eclâmpsia; e Projeto Diretrizes, setembro de 2020, recomendação sobre rastreio combinado de pré-eclâmpsia.

Na prova

As duas posições convivem porque a diretriz separa rotina de indicação clínica, e o rastreio conta como indicação. O que a banca cobra é a leitura da palavra 'rotina' no enunciado: se a vinheta descreve uma gestante sem fator de risco fazendo o exame para 'ver se está tudo bem', a régua da diretriz vale e o Doppler não entra; se a vinheta descreve cálculo de risco para trissomia ou para pré-eclâmpsia, o Doppler é parte do método e a régua da precaução não se aplica.

06

Caso resolvido

Gestante de 36 anos, primigesta, comparece ao serviço de medicina fetal para o exame de primeiro trimestre. Ao ultrassom, feto único com comprimento cabeça-nádega de 68 mm, batimentos presentes, translucência nucal de 2,4 mm, osso nasal presente, ducto venoso com onda A positiva. Bioquímica colhida na mesma manhã. O software emite risco de 1:50 para trissomia do 21. O serviço dispõe de pesquisa de DNA fetal livre no sangue materno e de biópsia de vilo corial. A gestante pergunta se o bebê tem síndrome de Down.
Janela
O comprimento cabeça-nádega de 68 mm está dentro de 45 a 84 mm, portanto entre 11+0 e 13+6 semanas, e um pouco acima da mediana de 62,5 mm observada na coorte brasileira. O exame é válido para rastreio, e a medida — não a data da última menstruação — é o que autoriza isso.
Leitura dos marcadores
A translucência nucal de 2,4 mm não tem leitura isolada: não existe valor fixo de normalidade, e a referência é o percentil 95 para aquele comprimento cabeça-nádega. Osso nasal presente e onda A do ducto venoso positiva são razões de verossimilhança que empurram o risco para baixo. O que sobra para explicar um risco de 1:50 é o risco basal — 36 anos de idade materna, o componente que, na coorte brasileira, teve correlação de 0,770 com o risco final, contra 0,111 da translucência nucal.
Onde 1:50 cai
1:50 é um risco maior que 1:100 e menor que 1:10. Pelo fluxograma sem DNA fetal livre, seria alto risco com indicação de biópsia de vilo corial ou amniocentese. Pelo fluxograma com DNA fetal livre, é risco intermediário, e a conduta é a pesquisa de DNA fetal livre no sangue materno. Como o serviço dispõe do teste, é essa a régua aplicável.
Conduta
Solicitar pesquisa de DNA fetal livre. Se positiva ou inconclusiva, seguir para biópsia de vilo corial ou amniocentese para cariótipo; se negativa, seguir para a ultrassonografia morfológica de segundo trimestre. Registrar no laudo que a paciente está na faixa intermediária e explicar que o procedimento invasivo não foi descartado, foi adiado por um degrau.
O que responder à pergunta dela
Não, o exame não diz que o bebê tem síndrome de Down, e também não a exclui. Um risco de 1:50 significa que, entre cinquenta gestantes com esse mesmo resultado, espera-se uma com a trissomia — as outras quarenta e nove não a têm. Na faixa intermediária da coorte brasileira, a proporção observada foi de 6 aneuploidias em 155 mulheres, cerca de 1 em 26. É rastreio: separa quem precisa de mais exame de quem não precisa, e não dá diagnóstico.
Ponta solta que não é solta
Se o serviço também estiver fazendo rastreio de pré-eclâmpsia nessa mesma consulta, a régua muda de número: para pré-eclâmpsia, alto risco é entre 1:1 e 1:100, e o cálculo usa características maternas, pressão arterial média, índice de pulsatilidade das artérias uterinas e fator de crescimento placentário. São dois riscos diferentes emitidos pelo mesmo exame, e o laudo precisa dizer qual é qual.
07

Agora feche você

Gestante de 27 anos chega à unidade básica com atraso menstrual e teste de gravidez positivo. Datação por comprimento cabeça-nádega de 32 mm em ultrassonografia feita ontem. Ela ouviu falar do 'exame do primeiro trimestre' e quer marcar tudo hoje. A unidade consegue agendar ultrassonografia de medicina fetal em três semanas e tem coleta de sangue disponível na própria unidade.
Primeiro
Diga se um comprimento cabeça-nádega de 32 mm inviabiliza a datação, e por qual regra você responde isso.
Segundo
Diga se ela está dentro da janela de rastreio hoje, e qual das duas bordas — 45 mm ou 84 mm — está em jogo.
Terceiro
Decida se o sangue deve ser colhido hoje ou no dia da ultrassonografia, e justifique pelo momento de melhor desempenho de cada marcador bioquímico.
Quarto
Calcule se o agendamento em três semanas ainda cabe na janela, partindo do comprimento cabeça-nádega de hoje.
Quinto
Diga o que muda na conduta se, no dia do exame, o risco vier 1:1.000 exatos, considerando o fluxograma com DNA fetal livre.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Ler 1:1.000 como risco maior que 1:100 Atrai porque mil é maior que cem. Na notação de razão o denominador cresce quando o risco cai, de modo que 1:10 é o risco mais alto da série e 1:1.000, o mais baixo. Um enunciado que diga 'risco calculado de 1:80' está descrevendo alguém acima do corte de 1:100 em qualquer dos dois fluxogramas. O erro derruba a questão inteira porque inverte a conduta, mandando ao segundo trimestre quem deveria ir ao aconselhamento.
  2. 2Tratar 3,5 mm como o limite de normalidade da translucência nucal Atrai porque 3,5 mm é o número que circula. Ele é o percentil 99, não o percentil 95, e o limite de normalidade é o percentil 95. Além disso, a medida não tem valor fixo de normalidade: ela cresce com o comprimento cabeça-nádega, e o mesmo 2,8 mm pode estar acima do percentil 95 num feto de 45 mm e dentro da normalidade num de 84 mm. Distrator clássico oferece um valor absoluto sem informar o comprimento cabeça-nádega.
  3. 3Achar que o feto de 3,5 mm exatos entra na faixa alterada Atrai porque o número é o do limite. A faixa seguinte da série brasileira começa em 3,6 mm, e a régua alternativa fala em 'maior que 3,5 mm'. Nas duas leituras o valor exato fica de fora e cai na faixa entre os percentis 95 e 99, cujo risco de malformação estrutural grave é 2,5% e não os 10% da faixa de cima. É o mesmo defeito de fechamento do risco de 1:10, que não está nem em 'maior que 1:10' nem em '1:11 a 1:1.000'.
  4. 4Concluir que translucência nucal muito aumentada significa feto malformado Atrai porque a associação existe e é forte. Mas a direção não se inverte: mesmo acima de 6,5 mm, a prevalência de malformação estrutural grave em feto sem anomalia cromossômica é de 46% — ou seja, 54% não têm nenhuma. A afirmação que a fonte sustenta é a inversa: translucência abaixo do percentil 95 acompanha 1,6% de malformação grave, e nessa direção o teste tranquiliza. Vale para o achado normal excluir; não vale para o alterado confirmar.
  5. 5Marcar que descer o ponto de corte melhora o exame Atrai porque a sensibilidade sobe de fato — de 42,9% para 71,4% e depois para 81,0% na mesma coorte. O que sobe junto é o número de mulheres encaminhadas a procedimento invasivo: 62, depois 217, depois 407. E o valor preditivo positivo desaba de 14,52% para 6,91% e 4,18%. Alternativa que diga que o corte mais baixo é melhor 'porque aumenta a sensibilidade' está certa na premissa e errada na conclusão.
  6. 6Atribuir o desempenho ruim de uma coorte à idade materna alta Atrai porque a frase aparece na discussão do próprio artigo. População mais velha aumenta a prevalência da condição rastreada — na coorte brasileira, 0,76% contra 0,185% esperados pelas prevalências de base, ou 4,1 vezes mais — e prevalência mais alta eleva o valor preditivo positivo. A conclusão do próprio artigo aponta para o ponto de corte, não para a idade, e a tabela mostra a sensibilidade subindo de 42,9% para 81,0% sem que nenhuma mulher mude de idade.
  7. 7Tomar o rastreio combinado como exame de um dia só Atrai porque tudo é chamado de 'exame de primeiro trimestre'. A imagem exige comprimento cabeça-nádega de 45 a 84 mm, isto é, 11+0 a 13+6 semanas. O melhor momento da proteína A plasmática associada à gestação é 9 ou 10 semanas conforme a fonte, ou seja, antes de a janela abrir, e o da fração livre do beta-hCG é 12 ou 13 semanas. Colher tudo no mesmo dia é possível e é o que se faz, mas coloca ao menos um marcador fora do seu melhor momento.
  8. 8Tratar resultado inconclusivo de DNA fetal livre como exame não feito Atrai porque 'inconclusivo' soa como ausência de informação. A falha ocorre em cerca de 3% das gestações, por fração fetal reduzida, e é mais frequente justamente nas trissomias do 18 e do 13 — além de se associar a obesidade materna e placenta de pequena massa. Por isso a conduta é repetir a coleta ou, na presença de marcador ultrassonográfico de alto risco, seguir para o procedimento invasivo. No fluxograma, positivo e inconclusivo levam ao mesmo lugar.
  9. 9Substituir o morfológico de segundo trimestre pelo exame de primeiro Atrai porque o de primeiro trimestre é mais precoce e mais completo do que era. A detecção de malformações no primeiro trimestre é de 51,8%, com amplitude de 18% a 68%; complementada pelo segundo trimestre, sobe para 81,7%. No único ensaio randomizado da série, com 39.572 gestantes, uma única ultrassonografia de 12 a 14 semanas detectou 38% contra 47% de uma única de 15 a 22 semanas, com p de 0,06. Os dois fluxogramas de 2023 mandam a faixa de baixo risco para o morfológico de segundo trimestre.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Correta: a translucência nucal deve ser medida entre 11 semanas e 13 semanas e 6 dias, o que corresponde a um comprimento cabeça-nádega (CCN) de 45 a 84 mm — janela padronizada pela Fetal Medicine Foundation e adotada nas diretrizes brasileiras. Antes disso a estrutura ainda não é adequadamente mensurável e depois a coleção linfática tende a se resolver, reduzindo a acurácia. 20-44 mm / 8-10 sem: precoce demais, fora da janela. 85-110 mm / 14-16 sem: tardio, a TN perde valor após 14 semanas. 15-25 mm / 7-8 sem: muito precoce, embrião ainda sem TN mensurável. 100-140 mm / 18-20 sem: corresponde ao morfológico de segundo trimestre, não à TN.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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10

Plano de revisão

em 7 dias

Sete dias depois, recupere de memória sete coisas. A janela em milímetros (45 a 84) e a que semanas ela corresponde. Qual das duas bordas pertence só ao rastreio e por quê. O que é o percentil 95 e o que é o percentil 99 na translucência nucal, e em qual deles moram os 3,5 mm. Os dois fluxogramas de 2023 e onde cai um risco de 1:50 em cada um. Os três números da coorte brasileira ao corte de 1:1.000: 217 positivos, 15 aneuploidias, 6,91% de valor preditivo positivo. O preço em falsos-positivos de cada degrau: cerca de 25 no primeiro, cerca de 94 no segundo. E o que a faixa intermediária guardava: 6 das 21 aneuploidias em 155 mulheres.

em 30 dias

Trinta dias depois, resolva cinco cenários em voz alta antes de conferir. Gestante com comprimento cabeça-nádega de 40 mm que quer o rastreio hoje. Feto com translucência nucal de 3,5 mm exatos e comprimento cabeça-nádega de 80 mm. Risco de 1:50 em serviço sem DNA fetal livre disponível. Risco de 1:10 exatos em serviço com o teste disponível. E resultado de DNA fetal livre inconclusivo em gestante com obesidade e translucência nucal acima do percentil 95. Em cada um, diga qual régua você está usando e qual valor de borda decidiu.

11

Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Numa consulta de pré-natal, treine a sequência que o laudo exige: confira primeiro o comprimento cabeça-nádega, depois a translucência nucal contra o percentil e não contra um número decorado, depois o risco emitido e em qual faixa ele cai no fluxograma que o seu serviço pode cumprir. E treine a frase que a gestante realmente precisa ouvir — que o número é uma probabilidade, não um diagnóstico, e que a maioria das mulheres com resultado alterado tem um feto sem alteração alguma. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Rastreio de anomalias e ultrassonografia obstétrica – Rastreio de anomalias no primeiro trimestre: o mesmo 1:50, três condutas — Preparatório para provas | OsceLabs