Ginecologia e ObstetríciaPré-natal, rastreios e intercorrências clínicas da gestação

Toxoplasmose na gestação

A prova quase nunca pergunta o que é toxoplasmose. Pergunta o que fazer com um par IgG/IgM numa idade gestacional específica — e é a idade gestacional, não a sorologia, que decide qual remédio entra.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Gestante de 31 anos, 12 semanas, assintomática, realiza exames de rotina. Sorologia para toxoplasmose: IgG reagente e IgM reagente. Teste de avidez de IgG resulta ALTA avidez. Nega quadro febril ou linfadenopatia recente. Qual é a interpretação e conduta mais adequada?

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Como esse tema cai

Toxoplasmose na gestação é um tema de decisão, não de descrição. A gestante é quase sempre assintomática, o diagnóstico é inteiramente laboratorial e a prova entrega o caso já resolvido do ponto de vista clínico: uma idade gestacional, um IgG, um IgM e, às vezes, uma avidez. O que se pede é o passo seguinte.

Existe uma diretriz nacional específica: a Nota Técnica nº 100/2022 do Ministério da Saúde, que é a régua do SUS para conduta, diagnóstico e tratamento da toxoplasmose adquirida na gestação e da toxoplasmose congênita. Ela organiza tudo em três situações — primeira sorologia até 16 semanas, primeira sorologia depois de 16 semanas e sorologias subsequentes numa gestante que começou suscetível. Reconhecer em qual das três o enunciado colocou a paciente já resolve metade das questões.

Três números carregam quase todo o peso: 16 semanas é o limite de utilidade do teste de avidez de IgG e é o marco a partir do qual o esquema tríplice pode ser usado; 18 semanas é o piso da amniocentese, que ainda precisa respeitar um intervalo mínimo de 4 semanas desde a provável infecção materna. Quem decora esses três números acerta a maioria das vinhetas sem raciocinar mais nada.

O outro eixo do tema é a relação inversa entre transmissão e gravidade. Quanto mais precoce a infecção materna, menor a chance de o feto ser infectado e maior o estrago quando é. Quanto mais tardia, mais fácil transmitir e mais leve o quadro. Essa inversão explica por que o tratamento no primeiro trimestre é profilático e o do terceiro trimestre é terapêutico, e é o gancho preferido dos enunciados que querem separar quem entendeu de quem decorou.

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O que muda decisão

O que a sorologia realmente informa

O diagnóstico da toxoplasmose materna é sorológico porque a doença aguda é, na esmagadora maioria das vezes, silenciosa. Quando dá sintoma, é febre baixa e curta, mialgia, cefaleia, faringite, exantema maculopapular não pruriginoso. A manifestação mais característica é a linfonodomegalia cervical bilateral e simétrica, com linfonodos pequenos, em geral menores que 3 cm, sem flutuação, que pode durar semanas. Linfonodomegalia generalizada aparece em 20 a 30% dos casos sintomáticos. Nada disso é específico o bastante para dispensar exame.

A cinética dos anticorpos é o que torna o par IgG/IgM interpretável. A IgM começa a ser produzida 1 a 2 semanas após a infecção aguda e atinge o pico em 1 a 2 meses. O problema é a descida: em muitas mulheres a IgM permanece reagente em títulos baixos — a chamada IgM residual — por 18 meses ou mais. A IgM tem sensibilidade alta e especificidade que varia muito conforme o kit, o que produz falso-positivos com frequência incômoda. A consequência prática é a regra que a prova adora cobrar: IgM reagente não é sinônimo de infecção aguda.

A IgG aparece cerca de 2 semanas depois da positivação da IgM, com pico em 2 a 3 meses, e cai devagar, podendo persistir em títulos baixos por toda a vida. Um aumento de duas vezes ou mais no título de IgG em duas amostras colhidas com 3 semanas de intervalo, no mesmo laboratório e pela mesma técnica — a ressalva do mesmo laboratório e da mesma técnica é obrigatória — sugere infecção recente. A IgA se comporta como a IgM, é detectável em cerca de 80% dos casos agudos e permanece reagente por 3 a 6 meses.

O teste de avidez de IgG é o desempate temporal, e tem prazo de validade dentro da gestação. Avidez alta significa que os anticorpos foram produzidos há mais de 4 meses. Se essa amostra foi colhida até 16 semanas de gestação, a conta fecha: a infecção é anterior à concepção, e o caso é descartado. Colhido a partir de 16 semanas, o mesmo resultado alto não distingue mais infecção pré-gestacional de infecção adquirida no começo da gravidez — 4 meses antes de 20 semanas ainda cai dentro da gestação. Por isso a avidez só é solicitada, e só é útil, até 16 semanas.

Avidez baixa não é o espelho da alta. Ela é fortemente sugestiva de infecção adquirida na gestação quando vem acompanhada de títulos elevados de IgG e IgM, mas pode persistir baixa por muito tempo: até 15% das pacientes com infecção antiga mantêm avidez baixa, às vezes por cerca de um ano. Avidez indeterminada segue a mesma conduta da baixa. Os pontos de corte percentuais dependem do kit comercial e não há valor padrão nacional — quando a prova cobra avidez, ela cobra a leitura alta/baixa e a janela de 16 semanas, não o percentual.

Rastreio: universal, repetido e sem alta até o pós-parto

No Brasil o rastreio é universal. IgG e IgM anti-Toxoplasma gondii são solicitados na primeira consulta de pré-natal, preferencialmente no primeiro trimestre, para todas as gestantes. Há uma exceção que economiza exame: se existe sorologia anterior à gestação com IgG reagente, independentemente do IgM, não se pede nova sorologia — aquela mulher já é imune e o risco fetal é considerado insignificante. Se a sorologia prévia mostrava IgG e IgM não reagentes, ou se não existe sorologia prévia, o rastreio segue normalmente.

A gestante suscetível — IgG e IgM não reagentes — é a que dá mais trabalho, porque ela precisa ser retestada durante toda a gravidez. A diretriz nacional de 2022 pede repetição pelo menos a cada 3 meses, idealmente a cada mês, e mais uma coleta no momento do parto. Se ela chegar soronegativa ao fim, ainda se colhe uma última sorologia de 2 a 4 semanas após o parto: a infecção no fim da gestação pode não ter tido tempo de virar anticorpo antes do nascimento, e essa amostra tardia é o que resgata o caso.

A sorologia do parto tem uma função específica que costuma ser mal entendida. Ela não serve para tratar a mãe — serve para identificar quais recém-nascidos precisam ser investigados. A triagem neonatal em papel-filtro, disponível apenas em alguns estados, pesquisa IgM por captura, é muito sensível e por isso dá falso-positivo, e dá falso-negativo justamente nas infecções fetais do primeiro trimestre e nos casos em que a mãe foi tratada por muito tempo. Não é exame diagnóstico e não substitui a investigação do berçário.

Gestantes imunodeprimidas ou vivendo com HIV têm regra própria: a triagem é oferecida de rotina, independentemente do perfil sorológico prévio. A imunidade prévia, que na imunocompetente encerra o assunto, aqui não encerra — a transmissão transplacentária por reativação é raríssima, mas teoricamente possível na imunossupressão, e nesse cenário a gestante deve ser tratada até o parto.

Vale registrar por que o Brasil rastreia todo mundo. Aqui a soroprevalência é alta, circulam cepas atípicas mais virulentas, a incidência de toxoplasmose congênita está estimada entre 5 e 23 casos por 10 mil nascidos vivos e o tratamento é fornecido pelo SUS. Em países de baixa prevalência, o mesmo rastreio universal produziria mais dano por falso-positivo, ansiedade e amniocentese desnecessária do que benefício.

Transmissão vertical e prevenção primária

A infecção humana ocorre em cerca de metade das vezes por ingestão de cistos teciduais em carne crua ou malcozida. O resto vem de oocistos eliminados nas fezes de gatos e presentes em solo, água e vegetais mal higienizados, além de transplante de órgão de doador infectado e da própria via transplacentária. O gato é o hospedeiro definitivo, mas não é o vilão prático: conviver com um gato doméstico não aumenta o risco de forma relevante desde que ele não seja alimentado com carne crua, não cace e a caixa de areia seja trocada diariamente, de preferência por outra pessoa, com luvas e pá.

A prevenção primária é orientada a toda gestante, independentemente do resultado da sorologia — inclusive à que já tem IgG reagente. A justificativa brasileira é a diversidade genética do parasito e a possibilidade teórica de reinfecção por outra cepa. Não cozinhar bem a carne é o item de maior peso: nenhum tipo de carne crua ou malpassada, incluindo aves, porco, peixe e frutos do mar, e nada de provar a carne durante o preparo. Também entram evitar embutidos curados em salmoura e defumados, não consumir leite e derivados não pasteurizados, higienizar frutas e verduras em água corrente e desinfetá-las em solução clorada, usar luvas ao manipular terra e evitar contaminação cruzada entre alimentos crus e cozidos.

O congelamento é citado com ressalva honesta pelo Ministério da Saúde. A recomendação é congelar a carne por vários dias a pelo menos 12 graus Celsius negativos, mas o próprio documento reconhece que esse não é o método mais confiável de inativar cistos teciduais, porque na prática o congelador da geladeira não atinge essa temperatura — só o freezer. Cozinhar até a carne perder completamente a cor avermelhada continua sendo a medida que funciona.

A taxa de transmissão ao feto, sem tratamento, é de 15 a 20% no primeiro trimestre, 25 a 30% no segundo e de 50 a 90% no terceiro. A gravidade caminha na direção oposta: a infecção precoce é a que produz as lesões devastadoras — hidrocefalia, calcificações intracranianas, microftalmia, morte fetal — enquanto a tardia costuma gerar recém-nascido aparentemente normal, com retinocoroidite que se manifesta meses ou anos depois. Só 10 a 30% das crianças infectadas têm alguma manifestação clínica ao nascimento ou no início da infância.

Uma pergunta que aparece em concurso e não tem resposta redonda na literatura: quanto tempo esperar para engravidar depois de uma toxoplasmose aguda. Como a parasitemia é curta e o encistamento é rápido na mulher imunocompetente, é improvável que haja transmissão fetal depois de 3 meses da infecção. A recomendação prática, ainda assim, é adiar a gestação por pelo menos 6 meses.

Ilustração com as três vias de infecção pelo Toxoplasma gondii — carne malcozida, oocistos do solo e das fezes de gato em vegetais e água, e passagem transplacentária — convergindo para a gestante e daí para o feto.
Metade das infecções humanas vem de cistos em carne crua ou malcozida; o restante, de oocistos em solo, água e vegetais. A via transplacentária é a que gera a toxoplasmose congênita.

As duas perguntas que organizam a conduta

Toda vinheta de toxoplasmose gestacional responde a duas perguntas em sequência. A primeira: a mãe se infectou durante esta gestação? A segunda: o feto já foi infectado? São perguntas independentes, com exames diferentes e, sobretudo, com tratamentos diferentes — e confundi-las é o erro que mais custa questão.

A primeira pergunta se responde com sorologia materna. A segunda, com PCR do líquido amniótico e ultrassonografia fetal. Enquanto a segunda pergunta está em aberto, o objetivo do tratamento é impedir que o parasito chegue ao feto. Depois que ela é respondida com sim, o objetivo passa a ser tratar um feto já infectado. São dois objetivos farmacológicos distintos, e é por isso que existem dois esquemas.

A espiramicina não atravessa a barreira placentária. Ela se concentra na placenta e reduz o risco de transmissão vertical, mas não trata infecção fetal já estabelecida. É o remédio da primeira pergunta ainda em aberto, e o único disponível antes de 16 semanas. O esquema tríplice — sulfadiazina, pirimetamina e ácido folínico — atravessa a placenta e trata o feto, mas a pirimetamina é um antagonista do ácido fólico com risco de teratogenicidade e por isso não pode ser administrada antes de 16 semanas de gestação.

Daí sai a regra que resolve a maioria das questões: infecção materna aguda com menos de 16 semanas começa com espiramicina; a partir de 16 semanas, começa direto com esquema tríplice. E há uma consequência importante do lado do tempo: quanto mais cedo o tratamento materno começar depois da infecção, idealmente em até 3 semanas, menor a taxa de infecção fetal. Por isso a diretriz manda iniciar espiramicina imediatamente diante de um IgM reagente, antes de ter avidez, antes de ter a segunda sorologia, antes de ter vaga no alto risco — e suspender depois, se o caso for descartado.

O encaminhamento ao pré-natal de alto risco também não espera confirmação. Toda gestante com suspeita ou diagnóstico de infecção adquirida na gestação é encaminhada, e o tratamento começa na atenção primária enquanto a vaga não sai. Se os exames subsequentes descartarem a suspeita, ela volta para o pré-natal de risco habitual. Situações que exigem avaliação em emergência, e não ambulatorial: gestante imunossuprimida com toxoplasmose aguda ou reativada, e qualquer gestante com lesão de órgão-alvo, como coriorretinite, miocardite, meningoencefalite, pneumonite ou miosite.

Amniocentese e PCR do líquido amniótico

A pesquisa do DNA do Toxoplasma gondii por PCR no líquido amniótico é o exame que responde à segunda pergunta. Ela tem dois pisos que precisam ser satisfeitos ao mesmo tempo: a partir da 18ª semana de gestação e depois de pelo menos 4 semanas da data estimada da soroconversão materna. Um enunciado que oferece amniocentese a uma gestante de 19 semanas cuja soroconversão foi documentada há 10 dias está testando o segundo piso, não o primeiro.

A sensibilidade da PCR em líquido amniótico é de aproximadamente 70%. Isso significa que PCR negativa não descarta infecção fetal — e essa é a razão pela qual o resultado negativo não interrompe o tratamento, apenas permite discutir a troca do esquema. Quando o feto foi infectado na primeira metade da gestação, PCR negativa com ultrassonografia normal autoriza voltar à espiramicina, mantida até o parto. Quando a infecção foi na segunda metade, e principalmente no último trimestre, mantém-se o esquema tríplice até o parto mesmo com PCR negativa e ultrassom normal.

No terceiro trimestre a amniocentese pode simplesmente ser dispensada. O raciocínio é econômico e está explícito na diretriz: a taxa de transmissão nos últimos meses é tão alta que, qualquer que seja o resultado da PCR, o feto vai ser tratado com esquema tríplice até o parto. Fazer o exame não muda a conduta, e um procedimento invasivo que não muda conduta não se justifica.

Quando a amniocentese não é possível — indisponibilidade, recusa, condição obstétrica — a saída é a mesma: substituir a espiramicina por esquema tríplice a partir de 16 semanas e manter até o parto. A ultrassonografia obstétrica mensal ou bimensal passa a ser o único monitor de infecção fetal e ganha peso proporcional.

Os achados ultrassonográficos que sugerem toxoplasmose congênita são calcificações intracranianas geralmente bilaterais e simétricas, dilatação ventricular e hidrocefalia, microcefalia, ascite e hidropisia, oligodrâmnio ou polidrâmnio, alteração da ecotextura hepática e esplênica, placentomegalia e restrição de crescimento. Achado ultrassonográfico compatível equivale, para efeito de conduta, a PCR positiva: mantém-se o esquema tríplice até o parto. Existe ainda uma janela rara e específica — infecção fetal confirmada por alteração ultrassonográfica no primeiro trimestre: antes de 14 semanas usa-se sulfadiazina isolada; a partir de 14 semanas inicia-se o esquema tríplice completo, ou acrescenta-se pirimetamina e ácido folínico à sulfadiazina já em curso.

Tratamento: doses, trocas e o que monitorar

A espiramicina é prescrita como 500 mg, 2 comprimidos, de 8 em 8 horas — 3 g por dia. O nome comercial que aparece em prescrição e às vezes em prova é Rovamicina, apresentada como comprimido revestido de 1,5 milhão de UI, equivalente a 500 mg. É bem tolerada; os efeitos adversos são náusea, vômito, diarreia e reações cutâneas, e não exige monitorização laboratorial.

O esquema tríplice é sulfadiazina 500 mg, 2 comprimidos de 8 em 8 horas ou 3 comprimidos de 12 em 12 horas, mais pirimetamina 25 mg, 2 comprimidos uma vez ao dia, mais ácido folínico 15 mg, 1 comprimido uma vez ao dia. Em gramas: 3 g de sulfadiazina e 50 mg de pirimetamina por dia. Uma vez indicado, é usado ininterruptamente até o parto.

Ácido folínico não é ácido fólico, e essa troca é a armadilha farmacológica clássica do tema. A pirimetamina bloqueia a di-hidrofolato redutase; o ácido fólico precisa dessa enzima para ser convertido em folato ativo e, portanto, não resgata a medula sob pirimetamina — além de poder competir com a droga. O ácido folínico já é a forma reduzida e cumpre o papel. Ele deve ser mantido por mais uma semana depois de suspensa a pirimetamina, porque a supressão medular não termina junto com a última dose.

A monitorização sob esquema tríplice é hemograma com plaquetas a cada quinze dias, porque a pirimetamina pode causar anemia, leucopenia e trombocitopenia. Náuseas, vômitos, dor abdominal, anorexia e gosto amargo na boca são comuns e não motivam suspensão. Reações cutâneas papulares, vesiculares ou bolhosas ocorrem em 2 a 3% dos casos; síndrome de Stevens-Johnson é muito rara. A sulfadiazina provoca hemólise em portadoras de deficiência de G6PD.

Existe esquema alternativo previsto para desabastecimento ou intolerância, e ele já foi objeto de nota técnica do Ministério da Saúde quando faltou sulfadiazina 500 mg na rede em 2020. As opções descritas são sulfadoxina com pirimetamina semanal e ácido folínico; sulfametoxazol-trimetoprima de 12 em 12 horas associado a espiramicina; e azitromicina com pirimetamina e ácido folínico. Para o primeiro trimestre não há alternativa à espiramicina — nenhuma outra droga foi estudada nesse período, e a azitromicina, embora segura no primeiro trimestre, não foi avaliada para toxoplasmose.

No recém-nascido, o tratamento está indicado em toda criança com infecção diagnosticada no primeiro ano de vida, inclusive assintomática, e dura um ano: sulfadiazina 100 mg/kg/dia de 12 em 12 horas por 12 meses; pirimetamina 1 mg/kg/dia por 2 a 6 meses e depois 1 mg/kg três vezes por semana até completar um ano de uso; ácido folínico 10 mg três vezes por semana, aumentado para 20 mg/dia se os neutrófilos caírem abaixo de 1.000/mm³ e com suspensão da pirimetamina se caírem abaixo de 500/mm³. Prednisolona 1 mg/kg/dia dividida em duas tomadas entra quando há retinocoroidite em atividade ou proteinorraquia igual ou superior a 1.000 mg/dL, sempre associada às outras duas drogas.

O recém-nascido: quando investigar e como confirmar

Todo recém-nascido de mãe com toxoplasmose aguda provável ou confirmada na gestação é investigado ainda na maternidade, sem esperar o resultado da triagem neonatal. Também entram na investigação a criança com sinais ou sintomas sugestivos de infecção congênita, a que tem alteração em exame fetal ou pós-parto, e a que teve teste do pezinho reagente para IgM. Recém-nascido de mulher coinfectada por HIV e Toxoplasma gondii que não fez profilaxia na gestação é avaliado da mesma forma.

A confirmação se apoia num detalhe imunológico simples: IgM e IgA não atravessam a barreira placentária. Se estiverem presentes no sangue do recém-nascido, a produção é dele — logo, infecção congênita. A IgG, ao contrário, atravessa e pode ser apenas materna, persistindo reagente no bebê por até 12 meses. Por isso o seguimento sorológico do primeiro ano é o que fecha ou exclui o diagnóstico: queda progressiva da IgG até negativar em duas amostras com intervalo mínimo de um mês exclui a toxoplasmose congênita; IgG estável, ascendente ou ainda reagente depois dos 12 meses confirma.

A avaliação inicial pede sorologia pareada de mãe e filho, exame de fundo de olho, avaliação auditiva com potenciais evocados de tronco encefálico, ultrassonografia transfontanelar ou tomografia de crânio sem contraste, hemograma e função hepática. Líquor entra quando há alteração neurológica clínica ou de imagem. Na criança sintomática, investiga-se em paralelo sífilis, citomegalovirose e rubéola — as infecções congênitas que se imitam.

As lesões oculares são as mais frequentes, respondendo por cerca de 70% das manifestações, com a retinocoroidite à frente. As neurológicas são as mais graves, e as mais encontradas são calcificações intracranianas e hidrocefalia. A associação clássica de retinocoroidite, hidrocefalia e calcificações intracranianas difusas é a que os enunciados usam para sinalizar toxoplasmose congênita e separá-la das outras infecções do grupo TORCH. Ainda assim, a apresentação mais comum é nenhuma: apenas 10 a 30% das crianças infectadas têm manifestação clínica ao nascimento ou no início da infância.

O tratamento está indicado em toda criança com infecção diagnosticada no primeiro ano de vida, inclusive na assintomática, e o objetivo é reduzir sequela visual e neurológica. Um ponto que costuma ser esquecido: a presença de retinocoroidite em atividade, ou proteinorraquia igual ou superior a 1.000 mg/dL, acrescenta prednisolona ao esquema, sempre associada à sulfadiazina e à pirimetamina, com retirada gradual depois de estabilizado o processo inflamatório.

Notificação e definição de caso

Toxoplasmose gestacional e toxoplasmose congênita são de notificação compulsória. Todo caso suspeito, provável ou confirmado de infecção adquirida na gestação vai para o Sinan sob CID O98.6; o caso suspeito de toxoplasmose congênita, sob CID P37.1. A notificação é do caso suspeito — se depois a infecção aguda for excluída, o caso é descartado no próprio sistema. Esperar confirmação para notificar é erro de vigilância, não zelo.

Caso suspeito é a gestante com IgM reagente ou indeterminado; ou com história clínica compatível com infecção adquirida após a concepção; ou com ultrassonografia obstétrica sugestiva de toxoplasmose congênita; ou identificada em situação de surto.

Caso provável é o caso suspeito com IgM e IgG reagentes e avidez de IgG baixa ou intermediária em qualquer idade gestacional; ou com títulos ascendentes de IgG em amostras seriadas com intervalo mínimo de 2 semanas e IgM reagente; ou com primeira sorologia após 16 semanas mostrando IgG em nível elevado, acima de 300 UI/dL ou conforme a metodologia usada, com IgM reagente.

Caso confirmado é aquele com soroconversão de IgG e IgM durante a gestação; ou com detecção de DNA do parasito em líquido amniótico, tecido placentário, fetal ou de órgãos; ou a mãe de criança com toxoplasmose congênita confirmada.

Caso descartado é o que tem IgG reagente mais de 3 meses antes da concepção, situação em que a IgM é residual e a infecção é crônica; ou avidez alta de IgG em amostra colhida até 16 semanas; ou duas amostras de IgG negativas com intervalo de 2 a 3 semanas apesar de IgM reagente, o que caracteriza falso-positivo de IgM e devolve a paciente à condição de suscetível.

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Da sorologia à conduta em cinco perguntas

O que segue reproduz a lógica da Nota Técnica nº 100/2022 do Ministério da Saúde. Cada pergunta elimina um ramo inteiro do fluxograma; respondidas em ordem, elas levam a uma conduta única.

  1. 1Existe sorologia anterior a esta gestação com IgG reagente? Se sim, não peça nada: infecção prévia, risco fetal insignificante, apenas prevenção primária.
  2. 2Qual a idade gestacional da PRIMEIRA sorologia — até 16 semanas ou depois? Isso define se o teste de avidez ainda serve e se o esquema tríplice já pode entrar.
  3. 3IgM reagente em qualquer combinação? Inicie espiramicina imediatamente e notifique no Sinan, antes da avidez e antes da segunda amostra.
  4. 4A infecção materna foi confirmada ou permanece provável? Até 16 semanas mantenha espiramicina; a partir de 16 semanas troque para o esquema tríplice e encaminhe ao pré-natal de alto risco.
  5. 5Dá para investigar o feto? Amniocentese com PCR a partir de 18 semanas e ao menos 4 semanas após a provável infecção, mais ultrassonografia mensal ou bimensal; sem amniocentese, esquema tríplice até o parto.

1º trimestre — transmite pouco, machuca muito

Transmissão vertical de 15 a 20% sem tratamento, a menor das três. Quando ocorre, é a forma mais grave: hidrocefalia, calcificações intracranianas, microftalmia, perda fetal. Antes de 16 semanas o único tratamento possível é espiramicina.

2º trimestre — a faixa intermediária

Transmissão de 25 a 30% sem tratamento, gravidade intermediária. É aqui que a maioria das decisões se concentra: a partir de 16 semanas cabe esquema tríplice, e a partir de 18 semanas cabe amniocentese com PCR.

3º trimestre — transmite muito, machuca pouco

Transmissão de 50 a 90% sem tratamento. O recém-nascido costuma nascer sem sinais, com retinocoroidite que aparece depois. Como o feto será tratado de qualquer forma, a amniocentese pode ser dispensada e o esquema tríplice vai até o parto.

IgGIgMInterpretaçãoConduta imediata
ReagenteNão reagenteInfecção há mais de 6 meses, anterior à gravidezNenhuma nova sorologia. Só prevenção primária. Pré-natal de risco habitual
Não reagenteNão reagenteGestante suscetívelRepetir sorologia a cada 1 a 3 meses e no parto; se persistir negativa, última coleta 2 a 4 semanas após o parto
ReagenteReagente, primeira sorologia até 16 semanasPossibilidade de infecção na gestaçãoIniciar espiramicina já, notificar no Sinan e pedir avidez de IgG na mesma amostra
ReagenteReagente, primeira sorologia após 16 semanasProvável infecção aguda; avidez não resolve maisIniciar esquema tríplice, notificar e encaminhar ao pré-natal de alto risco
Não reagenteReagenteInfecção muito recente sem IgG ainda, ou IgM falso-positivoIniciar espiramicina, notificar e repetir IgG e IgM em 2 a 3 semanas
Reagente novo em gestante antes negativaReagenteSoroconversão: infecção aguda confirmadaEspiramicina se até 16 semanas, esquema tríplice se a partir de 16 semanas; alto risco e ultrassom mensal

Esquemas de tratamento da gestante

SituaçãoEsquemaPor quêMonitorização
Menos de 16 semanas, ou infecção fetal já excluídaEspiramicina 500 mg, 2 comprimidos, 8/8 hNão atravessa a placenta: reduz o risco de transmissão, não trata o feto. É a única opção antes de 16 semanasNenhuma
16 semanas ou mais, infecção materna suspeita ou confirmadaSulfadiazina 500 mg, 2 comprimidos 8/8 h (ou 3 comprimidos 12/12 h) + pirimetamina 25 mg, 2 comprimidos 1x/dia + ácido folínico 15 mg 1x/diaAtravessa a placenta e trata infecção fetal. Pirimetamina é teratogênica antes de 16 semanasHemograma com plaquetas a cada 15 dias
Infecção fetal confirmada por ultrassom antes de 14 semanasSulfadiazina isolada, 500 mg, 2 comprimidos 8/8 hSituação rara. Permite atacar o feto sem expô-lo à pirimetamina no período de maior risco teratogênicoHemograma periódico
A partir de 14 semanas com infecção fetal confirmadaEsquema tríplice completo, ou acrescentar pirimetamina + ácido folínico à sulfadiazina em cursoA janela teratogênica da pirimetamina se fecha e o benefício de tratar o feto infectado passa a superar o riscoHemograma com plaquetas a cada 15 dias
Desabastecimento ou intolerância ao esquema padrãoSulfadoxina + pirimetamina semanal + ácido folínico; ou sulfametoxazol-trimetoprima 12/12 h + espiramicina; ou azitromicina + pirimetamina + ácido folínicoAlternativas previstas em nota técnica do Ministério da Saúde de 2020. No primeiro trimestre não há alternativa à espiramicinaConforme a droga usada

Os marcos de idade gestacional e o que cada um libera

MarcoO que muda neleConsequência prática
14 semanasFecha-se a fase de maior risco teratogênico da pirimetaminaSó importa no caso raro de infecção fetal confirmada no primeiro trimestre: antes, sulfadiazina isolada; a partir daí, esquema tríplice
16 semanasAcaba a utilidade do teste de avidez de IgG e libera-se o esquema trípliceAntes: avidez desempata o momento da infecção e o tratamento é espiramicina. Depois: avidez não discrimina mais e o tríplice é a droga da infecção aguda
18 semanasAbre-se a janela da amniocentese com PCR em líquido amnióticoAinda exige intervalo mínimo de 4 semanas desde a provável infecção materna; sem esse intervalo, o exame perde poder e o falso-negativo aumenta
Terceiro trimestreA transmissão vertical chega a 50 a 90%A amniocentese pode ser dispensada: o resultado não muda a conduta, porque o feto será tratado com esquema tríplice até o parto de qualquer modo

Ácido folínico e ácido fólico não são intercambiáveis. A pirimetamina bloqueia a di-hidrofolato redutase, enzima de que o ácido fólico depende para virar folato ativo; só o ácido folínico, já reduzido, protege a medula. Mantê-lo por mais uma semana após suspender a pirimetamina.

A conduta na atenção primária não espera vaga no alto risco: a espiramicina começa na primeira consulta em que o IgM aparece reagente, e a paciente é encaminhada em paralelo. O ganho de tratar em até 3 semanas da infecção é o que reduz a transmissão fetal.

PCR negativa em líquido amniótico não descarta infecção fetal — a sensibilidade é de cerca de 70%. Ela permite discutir a troca para espiramicina quando a infecção foi na primeira metade da gestação, mas nas infecções do último trimestre o esquema tríplice é mantido até o parto de qualquer forma.

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Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Rastreio sorológico universal de toda gestante

Rastreio universal, repetido a cada 1 a 3 meses até o parto

IgG e IgM para toda gestante na primeira consulta e repetição periódica na suscetível, mais coleta no parto e, se soronegativa, 2 a 4 semanas depois. Sustenta-se na soroprevalência alta, na circulação de cepas atípicas mais virulentas, numa incidência estimada de 5 a 23 casos de toxoplasmose congênita por 10 mil nascidos vivos e na oferta gratuita de espiramicina e do esquema tríplice pelo SUS.

Nota Técnica nº 100/2022-CGPAM/DSMI/SAPS/MS, Ministério da Saúde (2022), e TeleCondutas nº 22, TelessaúdeRS-UFRGS, 4ª ed. (2025).

Sem rastreio sorológico populacional; sorologia só para gestante de risco

A diretriz canadense afirma que a baixa prevalência na população e as limitações do diagnóstico e da terapia reduzem a eficácia de qualquer estratégia de rastreio, e por isso não recomenda triagem universal de rotina na gestante de baixo risco. A sorologia é oferecida apenas às consideradas em risco de infecção primária — em particular imunocomprometidas e mulheres vivendo com HIV, pelo risco de reativação — e diante de achado ultrassonográfico compatível com infecção congênita. O esforço se concentra na prevenção primária alimentar.

Society of Obstetricians and Gynaecologists of Canada, diretriz nº 285 — Toxoplasmosis in pregnancy: prevention, screening, and treatment (2018).

Na prova

A causa da diferença é epidemiológica e não de qualidade de evidência: o mesmo teste rende em população de alta prevalência com tratamento gratuito e não rende em população de baixa prevalência. Cenário de UBS, caderneta da gestante, pré-natal do SUS, sorologia por trimestre ou notificação no Sinan sinaliza o corpo brasileiro. Enunciado que cita nominalmente sociedade norte-americana ou canadense, ou que apresenta alternativas discutindo custo-efetividade e valor preditivo do IgM em baixa prevalência, sinaliza o corpo internacional. Prova oficial do MEC tende à conduta SUS.

Idade gestacional mínima para iniciar o esquema tríplice

16 semanas

A diretriz nacional de 2022 já usa 16 semanas em todas as situações: soroconversão a partir de 16 semanas começa direto com sulfadiazina, pirimetamina e ácido folínico, e a impossibilidade de amniocentese autoriza trocar a espiramicina pelo tríplice a partir de 16 semanas. O TeleCondutas alinhou-se a esse corte na 4ª edição, de 2025, registrando a mudança de forma explícita.

Nota Técnica nº 100/2022-CGPAM/DSMI/SAPS/MS (2022); TeleCondutas nº 22, 4ª ed. (2025), no quadro de mudanças da versão.

18 semanas

O corte anterior amarrava o início do tríplice ao momento da amniocentese, que só é possível a partir de 18 semanas. Era o número da 3ª edição do TeleCondutas, de 2022, e continua circulando em material didático e em protocolos municipais derivados dela.

TeleCondutas nº 22, 3ª ed., TelessaúdeRS-UFRGS (2022), superada pela 4ª edição de 2025.

Na prova

Documento brasileiro contra documento brasileiro, com três anos de distância. O 18 vem de uma amarração ao calendário da amniocentese; o 16 vem da janela de teratogenicidade da pirimetamina, que é o critério farmacológico. Quando o enunciado cita a diretriz nacional do Ministério da Saúde, ou descreve uma gestante de 16 ou 17 semanas em que a amniocentese não será feita, o recorte é o do corpo de 2022 em diante. Alternativas que oferecem 18 semanas junto com a amniocentese no mesmo item denunciam material anterior a 2025.

Suspender a sulfadiazina perto do parto

Manter o esquema tríplice ininterrupto até o parto

A 4ª edição do TeleCondutas, de 2025, afirma que não há necessidade de suspender a sulfadiazina um mês antes do parto e descreve o esquema tríplice como de uso ininterrupto até o nascimento. A diretriz nacional de 2022 também manda manter o esquema até o parto em todas as situações em que ele está indicado, sem prever interrupção programada.

TeleCondutas nº 22, 4ª ed. (2025), quadro 5 e quadro de mudanças da versão; Nota Técnica nº 100/2022-CGPAM/DSMI/SAPS/MS (2022).

Suspender a sulfadiazina cerca de um mês antes do parto

A orientação anterior interrompia a sulfa no fim da gestação pelo receio de deslocamento da bilirrubina da albumina no recém-nascido, com risco de kernicterus, mecanismo descrito para sulfonamidas em geral. Era a conduta da 3ª edição do TeleCondutas, de 2022, e continua reproduzida em muito material de revisão.

TeleCondutas nº 22, 3ª ed., TelessaúdeRS-UFRGS (2022), revisada na 4ª edição de 2025.

Na prova

A mudança é recente e ainda não chegou a todo material didático, então o tema aparece nas duas versões conforme a idade da questão. O vocabulário entrega o recorte: quando o enunciado ou as alternativas trazem kernicterus, deslocamento de bilirrubina ou interrupção programada no oitavo mês, o item foi escrito sobre o corpo anterior a 2025; quando falam em uso ininterrupto até o parto e em hemograma quinzenal, foi escrito sobre o corpo atual.

06

Caso resolvido

Primigesta de 24 anos, 11 semanas de gestação pela ultrassonografia precoce, comparece à primeira consulta de pré-natal na UBS. Assintomática. Nunca fez sorologia para toxoplasmose. O resultado sai com IgG reagente e IgM reagente. Ela mora com um gato adotado há dois anos e relata comer carne malpassada com frequência.
achado
IgG e IgM reagentes na primeira sorologia, colhida com 11 semanas — portanto dentro da janela de utilidade do teste de avidez, que vai até 16 semanas.
conduta imediata
Iniciar espiramicina 500 mg, 2 comprimidos de 8 em 8 horas, na mesma consulta. Não se espera avidez, segunda amostra ou vaga no alto risco: o ganho está em tratar nas primeiras semanas após a infecção. Notificar o caso suspeito no Sinan sob CID O98.6.
exame que desempata
Teste de avidez de IgG, de preferência na mesma amostra já colhida. Se não for possível, nova coleta o mais rápido possível, sempre antes de 16 semanas.
se avidez alta
Provável infecção anterior à gestação, caso descartado. Suspender a espiramicina, não repetir sorologia, manter pré-natal de risco habitual na UBS e reforçar prevenção primária — que continua indicada mesmo em quem já tem IgG.
se avidez baixa ou intermediária
Possibilidade de infecção adquirida na gestação. Manter espiramicina, encaminhar ao pré-natal de alto risco, programar ultrassonografia mensal ou bimensal e amniocentese com PCR a partir de 18 semanas, respeitado o intervalo mínimo de 4 semanas desde a provável infecção.
armadilha do caso
O gato não é o dado relevante. Metade das infecções vem de carne malcozida, e conviver com gato doméstico não muda a conduta. O que decide aqui é o par sorológico e as 11 semanas.
07

Agora feche você

Secundigesta de 31 anos, 26 semanas de gestação, em pré-natal regular na UBS. As sorologias da primeira consulta, com 9 semanas, mostravam IgG e IgM não reagentes. Na coleta trimestral de rotina, agora com 26 semanas, o resultado vem IgG reagente e IgM reagente, ambos em títulos francamente elevados. Ela está assintomática e a ultrassonografia obstétrica de 24 semanas era normal.
achado
Soroconversão documentada entre 9 e 26 semanas: IgG e IgM que eram negativos tornaram-se reagentes. Isso é infecção aguda confirmada, sem necessidade de teste de avidez — que, aliás, com 26 semanas já não teria utilidade.
por que a avidez não entra
O teste de avidez só distingue infecção pré-gestacional de gestacional quando colhido até 16 semanas. Além disso, aqui existe uma sorologia negativa prévia na própria gestação, que é prova temporal melhor do que qualquer avidez.
conduta
investigação fetal
08

Onde a banca derruba

  1. 1Tratar como infecção aguda toda gestante com IgM reagente A IgM pode permanecer reagente em títulos baixos por 18 meses ou mais depois de uma infecção antiga, e a especificidade dos kits varia bastante, gerando falso-positivos. IgM reagente inicia espiramicina e notificação, mas não fecha diagnóstico: quem fecha é a avidez colhida até 16 semanas, a soroconversão documentada ou a elevação de títulos de IgG em amostras seriadas no mesmo laboratório.
  2. 2Pedir teste de avidez de IgG depois de 16 semanas Avidez alta significa anticorpos produzidos há mais de 4 meses. Colhida com 26 semanas, uma avidez alta ainda é compatível com infecção adquirida com 10 semanas — ou seja, dentro da gestação. O exame não distingue mais nada e atrasa a decisão. Depois de 16 semanas, a pergunta deixa de ser quando a infecção ocorreu e passa a ser se o feto foi infectado.
  3. 3Trocar ácido folínico por ácido fólico A pirimetamina bloqueia a di-hidrofolato redutase, exatamente a enzima de que o ácido fólico precisa para virar folato ativo. Prescrever ácido fólico não protege a medula e ainda compete com a droga. O ácido folínico já é a forma reduzida, é o correto, e precisa continuar por mais uma semana depois que a pirimetamina for suspensa.
  4. 4Achar que espiramicina trata o feto A espiramicina se concentra na placenta e não atravessa a barreira placentária. Ela reduz o risco de o parasito passar, não trata infecção fetal estabelecida. Diante de PCR positiva em líquido amniótico ou de ultrassom com calcificações e ventriculomegalia, manter espiramicina é subtratar: o esquema tríplice é que é terapêutico para o feto.
  5. 5Descartar infecção fetal com PCR negativa em líquido amniótico A sensibilidade da PCR no líquido amniótico é de cerca de 70%. Resultado negativo com ultrassom normal permite discutir a troca do esquema tríplice pela espiramicina quando a infecção foi na primeira metade da gestação, mas não encerra o seguimento nem dispensa a investigação do recém-nascido. Em infecção do último trimestre, o tríplice é mantido até o parto mesmo com PCR negativa.
  6. 6Prescrever pirimetamina antes de 16 semanas A pirimetamina é antagonista do ácido fólico e tem risco de teratogenicidade no período de organogênese; por isso o esquema tríplice não entra antes de 16 semanas. A única exceção prevista é a infecção fetal confirmada no primeiro trimestre por alteração ultrassonográfica, situação rara em que se usa sulfadiazina isolada antes de 14 semanas e se completa o tríplice a partir de 14 semanas.
  7. 7Culpar o gato e liberar a carne malpassada Cerca de metade das infecções humanas vem de cistos teciduais em carne crua ou malcozida. Conviver com gato doméstico não acrescenta risco relevante desde que ele coma ração, não cace e a caixa de areia seja trocada diariamente por outra pessoa, com luvas. Orientar a gestante a doar o gato é conduta errada; orientar a não provar carne durante o preparo é a que muda desfecho.
  8. 8Esperar a confirmação para notificar Toxoplasmose gestacional é de notificação compulsória do caso suspeito, no Sinan, sob CID O98.6 — e a toxoplasmose congênita suspeita, sob CID P37.1. Se a infecção aguda for depois excluída, o caso é descartado no próprio sistema. Notificar só o confirmado subestima o problema e é o oposto do que a diretriz pede.
  9. 9Dar alta sorológica à gestante suscetível IgG e IgM negativos no primeiro trimestre não encerram o rastreio, abrem-no. A suscetível repete sorologia a cada 1 a 3 meses e no parto, e, se persistir soronegativa, ainda colhe uma última amostra de 2 a 4 semanas após o parto — porque a infecção do fim da gestação pode não ter tido tempo de gerar anticorpo detectável antes do nascimento.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

IgG e IgM reagentes com teste de avidez de IgG ALTA no primeiro trimestre indicam infecção adquirida há mais de 3-4 meses, portanto provavelmente anterior à concepção, com baixo risco de transmissão vertical — conduta expectante, sem tratamento. Alta avidez afasta infecção aguda recente, tornando desnecessárias espiramicina/amniocentese. Não há dados de reinfecção. Não se trata de falso-positivo. Suscetibilidade (IgG negativo) exigiria repetir sorologias, mas aqui a IgG é reagente.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Três números: 16 semanas é o limite da avidez de IgG e o piso do esquema tríplice; 18 semanas é o piso da amniocentese, que ainda exige 4 semanas desde a provável infecção. Menos de 16 semanas: espiramicina 500 mg, 2 comprimidos 8/8 h, que não cruza a placenta. A partir de 16 semanas: sulfadiazina 500 mg 2 comprimidos 8/8 h + pirimetamina 25 mg 2 comprimidos 1x/dia + ácido folínico 15 mg 1x/dia, que cruza a placenta e trata o feto.

em 30 dias

Transmissão sobe e gravidade desce ao longo da gestação: 15 a 20% no primeiro trimestre, 25 a 30% no segundo, 50 a 90% no terceiro. IgM reagente não é diagnóstico — pode ser residual por mais de 18 meses ou falso-positivo — mas já inicia espiramicina e notificação no Sinan. Gestante suscetível repete sorologia a cada 1 a 3 meses, no parto e 2 a 4 semanas depois. PCR em líquido amniótico tem sensibilidade de cerca de 70%: negativa não descarta. Ácido fólico nunca substitui ácido folínico.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Gestante de 28 anos, 13 semanas, chega à UBS com o resultado da primeira sorologia do pré-natal: IgG reagente e IgM reagente. Está assintomática e ansiosa porque leu na internet que precisaria interromper a gestação. Conduza a consulta: explique o que os exames significam, decida o que prescrever hoje e o que pedir a seguir. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Toxoplasmose na gestação — Preparatório para provas | OsceLabs