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Clínica MédicaReumatologia

Artrite reumatoide: o protocolo nacional, lido pelas bordas

Da suspeita clínica ao treat-to-target: critérios, atividade, metotrexato, segurança e leitura crítica do PCDT de 2026.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 30 anos queixa-se de rigidez matinal nas mãos com duração de mais de 1 hora há 4 meses, com dor e edema simétricos em articulações metacarpofalângicas e punhos. Ao exame: PA 118/74 mmHg, FC 78 bpm, T 36,7 °C, sinovite bilateral em MCFs. Fator reumatoide e anti-CCP positivos. Qual o diagnóstico mais provável?

02

Como esse tema cai

Artrite reumatoide é das poucas doenças em que o aluno de prova sabe a vinheta de cor e erra a régua. A vinheta é sempre a mesma: mulher entre trinta e cinquenta anos, poliartrite simétrica de metacarpofalângicas e interfalângicas proximais, punhos incluídos, interfalângicas distais poupadas, rigidez matinal acima de uma hora, mais de seis semanas. Essa parte não separa candidato. O que separa é o que vem depois da vinheta: quantos pontos valem os anticorpos, a partir de que múltiplo o título é alto, qual número classifica a atividade como moderada, quanto tempo de tratamento da tuberculose latente precede o biológico, e qual dose de antimalárico o Sistema Único de Saúde autoriza.

Esse capítulo lê o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da artrite reumatoide vigente — o aprovado em janeiro de 2026 — pelas bordas dos seus quadros, e coloca ao lado dele as duas diretrizes de 2013 da Sociedade Brasileira de Reumatologia, que continuam sendo a régua citada por boa parte das bancas. Onde os dois documentos concordam, o assunto está resolvido e o capítulo passa rápido. Onde discordam, ou onde o próprio protocolo discorda de si mesmo entre uma página e outra, o capítulo para e mostra o número exato, porque é exatamente ali que a questão nasce.

03

O que muda decisão

O que sobra de sólido, e como usar na prova

Descontadas as bordas, o esqueleto do protocolo é firme e é ele que a maioria das questões cobra. O metotrexato em monoterapia é a primeira escolha. Em caso de toxicidade ao metotrexato oral, tenta-se fracionar a dose em pelo menos duas tomadas no mesmo dia, ou passa-se ao injetável, antes de trocar de fármaco. Impossibilitado o metotrexato, usa-se leflunomida ou sulfassalazina, preferencialmente em monoterapia, ficando registrado que antimalárico isolado é pouco efetivo. Para reduzir toxicidade, ácido fólico cinco miligramas uma vez por semana, trinta e seis horas depois do metotrexato.

Falha de primeira linha é persistência de atividade após três meses de tratamento otimizado — dose máxima tolerada e adesão adequada. A segunda etapa, com biológico ou alvo específico, só se abre depois de pelo menos dois esquemas da primeira etapa, com no mínimo três meses cada. O biológico deve ser associado ao metotrexato, salvo contraindicação. O rituximabe fica reservado a quem tem contraindicação absoluta aos demais. Tofacitinibe e upadacitinibe podem ir em monoterapia ou combinados a sintéticos; baricitinibe, em monoterapia ou com metotrexato.

Do lado diagnóstico, os números que a prova usa são estes: fator reumatoide com sensibilidade de setenta e cinco por cento e especificidade de oitenta e cinco por cento; anti-CCP com sensibilidade de setenta e cinco por cento e especificidade de noventa e cinco por cento. O protocolo não torna o anti-CCP obrigatório e o posiciona, na rede, como exame de dúvida diagnóstica, geralmente reservado aos casos em que o fator reumatoide é negativo. Essa é a lógica que sustenta o enunciado clássico de poliartrite típica com fator reumatoide negativo pedindo o próximo exame.

Duas coisas fora da articulação valem memorização por serem desproporcionalmente cobradas. A subluxação atlantoaxial manifesta-se por dor irradiada para a região occipital, perda da lordose cervical e resistência à movimentação passiva; com parestesias ou perda de controle esfincteriano, o protocolo registra mortalidade de cinquenta por cento em um ano. E a lista de mau prognóstico: tabagismo, início precoce, anticorpos em títulos elevados, provas inflamatórias altas, manifestações extra-articulares e erosões precoces.

A pergunta que a banca faz e o protocolo responde de lado

O protocolo abre o capítulo de diagnóstico com uma advertência que vale a leitura inteira: os critérios do American College of Rheumatology de 1987 e os critérios conjuntos com a European League Against Rheumatism de 2010 não são diagnósticos, e sim classificatórios. Foram construídos para montar populações homogêneas de pesquisa e só depois passaram a auxiliar a clínica. Quem trata isso como checklist diagnóstico vai errar duas vezes: vai deixar de tratar quem tem a doença e menos de seis pontos, e vai tratar quem soma seis pontos por outro motivo.

A advertência está na p. 4 e é o melhor parágrafo do documento. O que vem logo em seguida é o problema. O texto informa, corretamente, que uma pontuação maior ou igual a seis classifica o paciente como tendo artrite reumatoide. Três parágrafos abaixo, na mesma página, a regra reaparece assim: pacientes com uma pontuação menor que seis em dez articulações não podem ser classificados como tendo artrite reumatoide. O escore de 2010 vai de zero a dez pontos, e não conta dez articulações — a faixa de contagem articular vai de uma grande articulação até mais de dez articulações, e a maior pontuação dessa linha é cinco, não dez. O denominador dez é o total de pontos possíveis somando os quatro domínios.

O deslize é de unidade, e é o tipo que vira alternativa: oito pequenas articulações edemaciadas valem três pontos, não oito, e sozinhas não classificam ninguém.

A mesma frase aparece na edição de 2021 do protocolo, no mesmo formato, numa página com margens diferentes e numeração de tabela diferente. Cinco anos de revisão, uma renumeração de quadros inteira, e a unidade continuou trocada. Isso muda como o capítulo deve ser lido: não se trata de erro de digitação de uma edição, e sim de um trecho que atravessou revisão sem ser conferido.

O domínio de sorologia: a palavra que faltou e o comparador que mudou

O Quadro 1 da edição vigente reproduz os critérios de 2010 em quatro domínios. O domínio de sorologia tem três linhas. A segunda vale dois pontos e diz fator reumatoide ou anticorpo antipeptídeo citrulinado cíclico em baixos títulos. A terceira vale três pontos e diz o mesmo em altos títulos. A primeira vale zero ponto e diz, literalmente, fator reumatoide e anticorpos antipeptídeos citrulinados cíclicos.

Falta a palavra que dá sentido à linha. No critério original, essa é a linha do paciente com os dois anticorpos negativos, e a redação em português deveria ser fator reumatoide negativo e anti-CCP negativo. Como está impressa, a linha nomeia dois exames e atribui zero ponto a eles, sem dizer em que condição. Lida isoladamente, sem o rodapé, ela sugere que ter os dois exames vale zero — o que colide frontalmente com as duas linhas seguintes, que dão dois e três pontos aos mesmos dois exames.

O rodapé resgata o quadro, e resgata bem. Ele define teste negativo como valor em unidades internacionais menor ou igual ao limite superior da normalidade do laboratório; teste positivo baixo como valor maior que o limite superior e menor ou igual a três vezes o limite superior; e teste positivo alto como valor maior que três vezes o limite superior. Essas três definições cobrem a reta inteira, sem vão e sem sobreposição — cada número real cai em exatamente uma faixa. É disciplina de fronteira exemplar, e é a mesma página em que a linha de cima perdeu a palavra que a tornava operável.

O rodapé ainda antecipa a objeção mais brasileira possível. Muitos laboratórios da rede pública informam fator reumatoide apenas como reagente ou não reagente, sem título. O protocolo decide: quando o resultado vier somente como positivo ou negativo, considera-se o positivo como sendo de baixos títulos. É a escolha conservadora — dois pontos em vez de três — e está escrita antes de alguém precisar perguntar.

O que o rodapé fecha, porém, outra página reabre. Ali, alto título é o valor estritamente maior que três vezes o limite superior. Setenta e uma páginas adiante, na discussão que acompanha a questão sobre terapia tripla, o protocolo lista os fatores de pior prognóstico e escreve: fator reumatoide acima de duzentas unidades por litro ou anti-CCP em títulos maiores ou iguais a três vezes o limite superior da normalidade. O paciente com anti-CCP exatamente em três vezes existe, e a rede o produz o tempo todo, porque muitos laboratórios já reportam o resultado em múltiplos do valor de referência. Esse paciente não tem alto título para classificar, e soma dois pontos; ao mesmo tempo, é de pior prognóstico para tratar. O mesmo documento o empurra para lados opostos: menos pontos para classificar, mais agressividade para tratar.

Vale registrar o que o protocolo faz bem no mesmo trecho: ele converte risco relativo em aumento percentual de forma correta e consistente. Um risco relativo de um vírgula cinquenta e dois é apresentado como aumento de cinquenta e dois por cento, e um de um vírgula noventa como aumento de noventa por cento. Não é pouco — a conversão errada dessa grandeza é um dos erros mais frequentes em texto de diretriz.

O Quadro 2 e a faixa de atividade que não fecha

O Quadro 2 da p. 7 lista os pontos de corte dos três índices compostos de atividade de doença que o protocolo aceita. São nove células de faixa, três por índice, mais três células de remissão. Oito das nove faixas estão escritas do mesmo jeito: um limite inferior aberto, um travessão, um limite superior. O índice clínico de atividade de doença tem moderada como maior que dez e até vinte e dois. O escore de atividade em vinte e oito articulações tem moderada como maior que três vírgula dois e até cinco vírgula um.

A célula da atividade moderada do índice simplificado de atividade de doença está escrita como maior que onze, travessão, maior que vinte e seis. O sinal de maior aparece duas vezes na mesma célula, e a linha imediatamente abaixo, da atividade alta, é justamente maior que vinte e seis. Lida ao pé da letra, a faixa moderada termina onde a faixa alta começa e, pior, termina num limite que é ele próprio uma desigualdade aberta. Um paciente com índice simplificado de trinta satisfaz a linha da atividade alta e não sai da leitura literal da linha da atividade moderada.

A célula ocupa o bloco de coordenadas (442,54; 296,46) a (486,31; 307,48) na p. 7 da edição de 2026, e a mesma leitura sai da imagem rasterizada da página e da camada de texto. As duas células irmãs, no mesmo quadro e na mesma coluna, não têm o defeito. E a edição de 2021 traz a mesma célula, com o mesmo sinal duplicado, na sua Tabela 1B — que na revisão virou Quadro 2 sem que a célula fosse tocada.

Na prática assistencial o estrago é pequeno, porque quem usa o índice simplificado usa a tabela de referência do artigo original. Na prova, o estrago é outro: uma questão que peça a classificação de um índice simplificado de vinte e seis exato não tem resposta pelo quadro nacional, já que vinte e seis não é maior que vinte e seis nem está claramente dentro da faixa moderada. O aluno que decorou o quadro fica sem chão; o que entendeu a lógica das faixas responde moderada, porque é a única leitura que preserva a partição.

Remissão do escore em vinte e oito articulações, com três valores

A célula de remissão do escore de atividade em vinte e oito articulações, no Quadro 2, é menor ou igual a dois vírgula seis. Ela está no bloco (442,54; 401,00) a (465,55; 412,02) da p. 7. Guardado esse número, o leitor segue para a seção de evidências do mesmo documento e encontra, na p. 82, no bloco (56,64; 527,48) a (569,49; 538,50), a expressão escore menor que dois vírgula seis. A mesma expressão com sinal estrito reaparece nas p. 84, 109 e 112.

A diferença parece decorativa e não é. O valor dois vírgula seis exato é atingível e nada raro, porque o escore tem uma casa decimal na prática clínica. Pelo quadro, esse paciente está em remissão e a meta terapêutica foi atingida; pela seção de evidências, ele está fora da remissão e cai na faixa de baixa atividade. Como as etapas do protocolo escalonam tratamento por persistência da atividade da doença conforme avaliação por índice composto, o mesmo paciente muda de conduta dependendo de qual página do protocolo o prescritor consultou.

Há um terceiro valor. Na p. 86, nos blocos (84,98; 717,23) a (569,49; 728,25) e (56,64; 734,53) a (569,49; 745,55), o resumo de evidência da recomendação sobre glicocorticoide em baixas doses por longo prazo associado a antitumoral necrose informa que um estudo avaliou o escore de atividade de doença com ponto de corte para remissão de menor que um vírgula seis, e conclui que a adição não alterou o número de pacientes com escore menor que um vírgula seis.

Um vírgula seis não é ponto de corte do escore em vinte e oito articulações. É o ponto de corte de remissão do escore original, o de quarenta e quatro articulações. A diretriz de tratamento da Sociedade Brasileira de Reumatologia, de 2013, distingue os dois na mesma frase quando relata índices de remissão em períodos de doze a trinta e seis meses: trinta e sete por cento pelo escore de quarenta e quatro articulações abaixo de um vírgula seis, e cinquenta por cento pelo escore de vinte e oito articulações abaixo de dois vírgula seis. Ou seja: o um vírgula seis pertence a outro instrumento, e migrou de instrumento ao ser transcrito.

O mesmo desencontro de sinal atinge o índice clínico de atividade de doença. O quadro nacional dá remissão como menor ou igual a dois vírgula oito; a diretriz de sociedade, ao relatar remissão em doze meses, escreve escore menor que dois vírgula oito. Somando tudo, os dois documentos brasileiros que o candidato precisa conhecer põem em circulação quatro cortes de remissão diferentes para índices próximos, e a diferença entre eles é o sinal ou o instrumento, nunca a doença.

A hidroxicloroquina que perdeu o teto por peso no caminho

O esquema de administração da p. 16 lista metotrexato de sete vírgula cinco a vinte e cinco miligramas uma vez por semana, por via oral, subcutânea ou intramuscular. Logo abaixo, no bloco (229,73; 538,40) a (496,27; 549,42), aparece hidroxicloroquina por via oral, quatrocentos miligramas uma vez ao dia. E no bloco seguinte, (229,73; 556,16) a (484,03; 567,18), cloroquina por via oral, quatro miligramas por quilo por dia.

A assimetria é conspícua. O antimalárico com pior perfil oftalmológico — o difosfato de cloroquina — recebe dose por quilo. O antimalárico que o próprio protocolo manda preferir, dizendo que a hidroxicloroquina deve ser usada preferencialmente à cloroquina por ter melhor perfil de eficácia e segurança, recebe dose fixa, sem qualquer teto ponderal, e o único comprimido previsto na lista de apresentações, na p. 13, é o de quatrocentos miligramas.

A diretriz de tratamento da Sociedade Brasileira de Reumatologia de 2013 dá os dois tetos na mesma frase: dose máxima diária de quatro miligramas por quilo por dia para o difosfato de cloroquina e de seis miligramas por quilo por dia para o sulfato de hidroxicloroquina, considerando-se o peso ideal do paciente. O protocolo nacional preservou o primeiro número exatamente como está na diretriz, e substituiu o segundo por uma dose fixa. Quatrocentos miligramas por dia cruzam o teto de seis miligramas por quilo abaixo de sessenta e seis vírgula sete quilos de peso ideal. Para uma paciente de cinquenta e cinco quilos de peso ideal, o teto da sociedade é trezentos e trinta miligramas por dia, e a única apresentação que a farmácia dispensa é o comprimido de quatrocentos.

O ponto se fecha na célula de monitoramento. Na p. 34, o Quadro S4 manda fazer avaliação oftalmológica inicial e anual após cinco anos, ou anualmente se houver fatores de risco para maculopatia, como insuficiências renal ou hepática e doses eventualmente usadas acima da dose máxima, que não devem ser usadas. A célula usa a expressão dose máxima como gatilho de rastreio antecipado, mas o protocolo nunca informa qual é a dose máxima da hidroxicloroquina. A diretriz de sociedade, da qual essa mesma regra de rastreio veio quase palavra por palavra, informava também os dois limiares cumulativos que o protocolo deixou de fora: mil gramas para o sulfato de hidroxicloroquina e quatrocentos e sessenta gramas para o difosfato de cloroquina. Na dose fixa de quatrocentos miligramas por dia, mil gramas cumulativos chegam em torno de dois mil e quinhentos dias, cerca de seis anos e dez meses — ou seja, no segundo ano do rastreio anual que só começa depois do quinto ano.

Quatro semanas ou um mês: a carência da tuberculose latente

Antes de qualquer medicamento modificador do curso da doença biológico ou sintético alvo específico, o protocolo exige investigar tuberculose ativa e latente com anamnese, exame físico, radiografia de tórax e prova tuberculínica ou ensaio de liberação de interferon-gama. O gatilho para tratar a infecção latente é prova tuberculínica maior ou igual a cinco milímetros ou ensaio reagente, excluída a doença ativa; contato com caso de tuberculose pulmonar nos últimos dois anos dispensa até o exame.

O corpo do texto, na p. 19, no bloco (56,64; 127,11) a (569,46; 138,13), fixa a carência com clareza: recomenda-se o início do uso do biológico ou do alvo específico após quatro semanas do início do tratamento da infecção latente. É uma carência, contada a partir do começo do tratamento, e o protocolo remete explicitamente o esquema em si ao Manual de Recomendações para o Controle da Tuberculose no Brasil.

As células do Quadro S4 dizem a mesma coisa em outra redação, e a redação abre uma porta. Em pelo menos cinco células — entre elas o bloco (337,87; 681,35) a (560,81; 692,37) da p. 34 e o bloco (309,53; 300,42) a (545,06; 311,44) da p. 35 — a conduta impressa é tratar tuberculose latente por no mínimo um mês antes do início do uso desse medicamento. Aritmeticamente, quatro semanas e um mês são quase a mesma coisa, e escrever a mesma regra de dois jeitos não é defeito. O defeito é sintático: por no mínimo um mês antes se deixa ler como duração do tratamento — trate por um mês — e não como carência antes do biológico.

Essa leitura já circula. Uma questão viva do acervo, na trilha de acesso direto, traz no comentário que, sendo positivo o rastreio, inicia-se isoniazida geralmente por um mês antes do biológico. O gabarito da questão está certo — o rastreio obrigatório é mesmo o de tuberculose latente com prova tuberculínica ou ensaio de interferon mais radiografia — mas a duração informada no comentário confunde carência com curso. Nenhum dos dois documentos brasileiros aqui usados dá a duração do tratamento da infecção latente; ambos remetem ao manual próprio da tuberculose. O que o protocolo diz é quando começar o biológico, não por quanto tempo tratar.

As faixas de transaminase, e o valor que pertence a duas condutas

O Quadro S4, que ocupa as p. 33 a 37, declara no rodapé a própria origem: a portaria conjunta de dezembro de 2017, isto é, o protocolo de duas edições atrás. As faixas de transaminase que ele impõe são três, e estão escritas com fronteiras fechadas dos dois lados.

Elevação entre uma e três vezes o limite superior manda reduzir a dose em vinte e cinco a cinquenta por cento. Elevação entre três e cinco vezes manda suspender o medicamento até que as transaminases voltem a estar entre uma e três vezes o limite superior, reiniciando com metade da dose. Elevação acima de cinco vezes manda interromper. O valor três exato pertence às duas primeiras faixas ao mesmo tempo, e as condutas são diferentes: reduzir a dose ou suspender o medicamento. O valor cinco exato, por sua vez, pertence apenas à segunda, porque a terceira usa acima de cinco, estritamente. O documento fecha os intervalos de um jeito na primeira fronteira e de outro na última.

A regra de retorno tem um problema próprio, e mais consequente. Suspenso o medicamento por transaminase entre três e cinco vezes, ele deve ser reiniciado quando o valor estiver entre uma e três vezes o limite superior — que é a faixa em que a conduta prevista é justamente reduzir a dose. E o paciente cujas transaminases normalizam por completo, ficando abaixo do limite superior, não está dentro da janela de reinício escrita. Lido ao pé da letra, quem melhorou demais não tem regra.

Reta numérica de transaminases em múltiplos do limite superior da normalidade com três faixas: de 1 a 3, reduzir a dose em 25% a 50%; de 3 a 5, suspender e reiniciar com metade da dose; acima de 5, interromper. O valor 3 aparece pertencendo às duas primeiras faixas e o valor 5 apenas à faixa do meio. Uma seta liga a faixa de 3 a 5 de volta à faixa de 1 a 3 como janela de reinício, e a região abaixo de 1 aparece hachurada e sem conduta.
As três faixas de transaminase do quadro se tocam nas bordas: o valor de exatamente três vezes o limite superior tem duas condutas opostas, e o paciente que normalizou não cabe na janela de reinício escrita.

Nada disso é sutileza de prova apenas. As mesmas três faixas governam anti-inflamatórios, metotrexato e leflunomida no mesmo quadro, e o metotrexato é o medicamento que o protocolo manda usar em primeira escolha, com hepatotoxicidade e toxicidade gastrointestinal capazes de levar à suspensão em torno de trinta por cento dos casos — número que o próprio documento informa.

A aritmética do baricitinibe e o desfecho que ficou sem intervalo

Na p. 43, ao discutir o baricitinibe, o protocolo resume um ensaio com oitocentos e dezessete pacientes comparando baricitinibe e adalimumabe em artrite reumatoide estabelecida com falha ao metotrexato. A resposta de cinquenta por cento aos critérios do colégio americano foi de quarenta e oito vírgula nove por cento contra quarenta e dois vírgula um por cento, com risco relativo de um vírgula dezesseis e intervalo de confiança de noventa e cinco por cento de zero vírgula noventa e nove a um vírgula trinta e cinco.

Vale conferir antes de usar. Quarenta e oito vírgula nove dividido por quarenta e dois vírgula um dá um vírgula dezesseis: a razão fecha. O intervalo, porém, contém o valor um, e por isso o resultado não está estabelecido — e o protocolo diz exatamente isso, chamando-o de melhora não estatisticamente significativa em vez de vendê-lo como vantagem. A diferença absoluta é de seis vírgula oito pontos percentuais, o que corresponderia a um paciente a mais respondendo a cada quinze tratados; como o intervalo cruza o nulo, esse número de quinze é uma estimativa sem sustentação, e não um resultado.

A frase seguinte relata que a incidência de eventos adversos graves foi maior com o baricitinibe, sete vírgula oito por cento contra três vírgula nove por cento, com risco relativo de dois vírgula quarenta e nove e intervalo de um vírgula trinta e cinco a quatro vírgula cinquenta e nove. Aqui a conta não fecha: sete vírgula oito dividido por três vírgula nove dá exatamente dois. Para que a razão fosse dois vírgula quarenta e nove com controle em três vírgula nove por cento, o braço exposto teria de estar em nove vírgula sete por cento; para que ela fosse dois vírgula quarenta e nove com exposto em sete vírgula oito por cento, o controle teria de estar em três vírgula treze por cento. Na mesma frase, um par de percentuais reconcilia com o risco relativo impresso e o outro não.

O intervalo do dano não contém o valor um, então o dano está estabelecido: três vírgula nove pontos percentuais de diferença absoluta equivalem a um evento adverso grave a mais a cada vinte e seis pacientes tratados. A leitura honesta do parágrafo é essa assimetria — dano demonstrado a cada vinte e seis, benefício não demonstrado que, se existisse, seria de um a cada quinze. Ainda no mesmo trecho, as diferenças de média de dor e de avaliação global vêm com os limites do intervalo em ordem decrescente, escritos como de menos um vírgula trinta e três a menos oito vírgula oitenta e sete; a estimativa pontual cai dentro do intervalo, de modo que os valores estão certos e a ordem é que está trocada.

Um contraponto merece registro. O protocolo classifica essas diferenças de dor, estatisticamente significativas, como de magnitude pequena e significância clínica incerta. É desconfiar da própria medida numa escala visual analógica de zero a cem, e é a atitude certa: cinco pontos em cem não é o que muda a vida de ninguém.

Uma recomendação que não chegou e outra que veio em dobro

A parte de recomendações da edição de 2026 é organizada em questões numeradas, cada uma respondida por uma recomendação de mesmo número, com qualidade de evidência e força. A numeração vai de um a vinte e quatro, e falha em dois pontos verificáveis.

A questão nove, na p. 75, pergunta se devemos usar antitumoral necrose associado a metotrexato em vez de terapia tripla com sintéticos em artrite reumatoide estabelecida de moderada ou alta atividade que falhou aos sintéticos. Virada a página, a resposta vem rotulada como Recomendação 1: sugerimos usar terapia tripla com sintéticos em vez de antitumoral necrose associado a metotrexato, com qualidade de evidência muito baixa e recomendação fraca. O rótulo Recomendação 9 não aparece em nenhuma das cento e oitenta páginas.

O resultado é que o documento tem duas Recomendação 1 com conteúdos diferentes, sete páginas de distância. A primeira, na p. 69, no bloco (84,98; 303,42) a (569,49; 314,44), trata de artrite de início recente e sugere monoterapia com sintéticos em vez de combinação dupla, com qualidade moderada. A segunda, na p. 76, no bloco (84,98; 79,23) a (569,49; 90,25), trata de doença estabelecida e sugere terapia tripla antes do biológico, com qualidade muito baixa. Citar a Recomendação 1 do protocolo nacional, sem dizer a página, virou ambíguo.

O conteúdo da segunda merece atenção própria, porque é contraintuitivo e cai em prova. Comparada à terapia tripla, a combinação de antitumoral necrose com metotrexato não modificou a média do escore de atividade, não melhorou a resposta de cinquenta por cento aos critérios do colégio americano — risco relativo de um vírgula vinte, intervalo de zero vírgula noventa e um a um vírgula cinquenta e nove, que contém o valor um — e não modificou a progressão radiográfica. Em compensação, aumentou o risco de eventos adversos graves em cinquenta e dois por cento e o de infecções graves em noventa por cento, com intervalos que não contêm o valor um. Daí a orientação de tentar a tripla antes: metotrexato com sulfassalazina e hidroxicloroquina, considerando leflunomida como substituta em caso de intolerância.

04

As réguas, lado a lado

Três tabelas para separar o que o protocolo nacional vigente diz, o que a diretriz de sociedade de 2013 diz, e onde a fronteira entre faixas foi impressa de modo que um número real não sabe a que faixa pertence.

  1. 1Poliartrite de padrão inflamatório com mais de seis semanas: aplicar os critérios de 2010 sabendo que classificam, e não diagnosticam.
  2. 2Somar quatro domínios: acometimento articular de zero a cinco, sorologia de zero a três, prova inflamatória de zero a um, duração de zero a um. Total possível: dez pontos.
  3. 3Seis pontos ou mais classificam. Abaixo de seis, reavaliar — os critérios podem ser preenchidos cumulativamente ao longo do tempo.
  4. 4Classificar a atividade por um índice composto, e usar sempre o mesmo índice no mesmo paciente para permitir comparação.
  5. 5Primeira linha: metotrexato em monoterapia, com ácido fólico cinco miligramas por semana, trinta e seis horas depois.
  6. 6Sem resposta após três meses de dose otimizada e adesão adequada: troca simples de sintético, ou combinação dupla ou tripla.
  7. 7Após dois esquemas da primeira etapa, com no mínimo três meses cada, e atividade persistente: abrir a segunda etapa com biológico ou alvo específico, associado ao metotrexato.
  8. 8Antes do biológico ou do alvo específico: rastrear tuberculose ativa e latente e, se indicado tratar a latente, iniciar o biológico após quatro semanas do começo desse tratamento.

Critérios de 2010 como o protocolo nacional os imprime, e o que cada linha exige

DomínioLinha impressa no Quadro 1PontosObservação de leitura
Acometimento articular1 grande articulação0Ombros, cotovelos, quadris, joelhos e tornozelos
Acometimento articular2 a 10 grandes articulações1Distais das mãos e primeiras metatarsofalângicas ficam fora da contagem
Acometimento articular1 a 3 pequenas articulações2Pelo menos uma pequena; grandes podem acompanhar
Acometimento articular4 a 10 pequenas articulações3Oito pequenas articulações valem três pontos, não oito
Acometimento articularMais de 10 articulações5Pelo menos uma delas pequena
SorologiaFator reumatoide e anti-CCP0A palavra negativos não foi impressa; é a linha dos dois exames negativos
SorologiaFator reumatoide ou anti-CCP em baixos títulos2Maior que o limite superior e até três vezes o limite superior
SorologiaFator reumatoide ou anti-CCP em altos títulos3Estritamente maior que três vezes o limite superior
Prova inflamatóriaVelocidade de hemossedimentação e proteína C reativa normais0Pelo menos um resultado é necessário
Prova inflamatóriaVelocidade de hemossedimentação ou proteína C reativa alterada1Normal ou anormal segundo o laboratório
DuraçãoSintomas por menos de 6 semanas0Contada pelo relato do paciente, independentemente de tratamento
DuraçãoSintomas por 6 semanas ou mais1Total de seis pontos classifica

Cortes de atividade e de remissão: o que cada documento imprime

Índice e estadoProtocolo nacional vigenteDiretriz de sociedade de 2013O que o número redondo faz
Escore em 28 articulações, remissãoMenor ou igual a 2,6Menor que 2,6O valor 2,6 exato é remissão num e não é no outro
Escore em 28 articulações, baixaMaior que 2,6 até 3,2Relatado como menor que 3,2 em desfecho de ensaioCoerente entre os dois
Escore em 28 articulações, moderadaMaior que 3,2 até 5,1Sem faixa própria declaradaCoerente
Escore em 28 articulações, altaMaior que 5,1Sem faixa própria declarada5,4 é atividade alta pelos dois
Escore em 28 articulações, remissão citada em evidênciaMenor que 1,6 na p. 861,6 é o corte do escore de 44 articulaçõesNúmero migrou de instrumento
Índice clínico, remissãoMenor ou igual a 2,8Menor que 2,8Mesmo desencontro de sinal
Índice simplificado, moderadaMaior que 11 – maior que 26Sem faixa própria declaradaLimite superior impresso como desigualdade aberta
Índice simplificado, altaMaior que 26Sem faixa própria declaradaSobrepõe-se à leitura literal da faixa moderada

Antimaláricos: dose, teto e rastreio oftalmológico

ItemProtocolo nacional vigenteDiretriz de sociedade de 2013Consequência prática
Difosfato de cloroquina4 mg/kg/diaMáxima de 4 mg/kg/dia, por peso idealNúmeros idênticos
Sulfato de hidroxicloroquina400 mg, uma vez ao diaMáxima de 6 mg/kg/dia, por peso idealA dose fixa ultrapassa o teto abaixo de 66,7 kg de peso ideal
Apresentação disponívelComprimido de 400 mgNão especificadaSem comprimido menor, não há como ajustar por peso
Preferência entre os doisHidroxicloroquina, por eficácia e segurançaHidroxicloroquina, por perfil oftalmológicoO preferido é o que ficou sem teto ponderal
Rastreio oftalmológicoInicial e anual após 5 anos, ou anual se houver riscoInicial e anual após 5 anos, ou anual desde o princípio se houver riscoRegra herdada quase palavra por palavra
Fator de risco por doseDoses acima da dose máximaDose cumulativa acima de 1.000 g de hidroxicloroquina ou 460 g de cloroquinaO protocolo cita a dose máxima sem informar qual é

As coordenadas de bloco citadas ao longo do capítulo referem-se ao arquivo de 180 páginas da edição vigente, e foram conferidas tanto na camada de texto quanto na imagem rasterizada da página.

A célula do índice simplificado com o sinal duplicado aparece igual na edição de 2021, então não é artefato de uma renderização nem de uma edição.

A frase que troca pontos por articulações também aparece nas duas edições, em páginas e margens diferentes.

O quadro de monitoramento de eventos adversos declara como fonte a portaria conjunta de dezembro de 2017, o que explica a idade das faixas de transaminase.

Quando um enunciado disser que segue o protocolo do Ministério da Saúde, vale conferir a data: a edição vigente é a de janeiro de 2026, e a anterior é de novembro de 2021.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Glicocorticoide em dose baixa associado a sintético na artrite reumatoide de início recente

Não adicionar

A Recomendação 3 do protocolo nacional sugere não adicionar glicocorticoides em doses baixas por longos períodos aos medicamentos modificadores sintéticos em pacientes com artrite reumatoide de início recente de moderada ou alta atividade, com qualidade da evidência baixa e recomendação fraca. A posição se repete para a doença estabelecida, com sintéticos e com antitumoral necrose, e se estende à dose alta por curto prazo em surto agudo.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Artrite Reumatoide, Portaria Conjunta SAES/SCTIE/MS nº 33, de 19 de janeiro de 2026, Recomendações 3, 22, 23 e 24.

Adicionar por 12 a 24 meses

A diretriz de tratamento da Sociedade Brasileira de Reumatologia registra que o uso de corticosteroide na artrite reumatoide em fase inicial, sobretudo prednisona diária associada a modificador do curso da doença, principalmente metotrexato, por doze a vinte e quatro meses, traz benefício clínico e radiológico, com a ressalva de abreviar tempo e dose ao mínimo possível. Cita esquema de prednisona doze vírgula cinco miligramas ao dia por duas semanas e seis vírgula vinte e cinco miligramas ao dia por doze meses, com metotrexato quinze miligramas por semana, em doença com menos de doze meses.

Mota LMH et al. Diretrizes para o tratamento da artrite reumatoide. Rev Bras Reumatol. 2013;53(2):158-183, Sociedade Brasileira de Reumatologia.

Na prova

Repare na data e no autor que o enunciado invoca. Banca que escreve segundo o protocolo do Ministério da Saúde está apontando para a régua de 2026, que desaconselha o corticoide associado; banca que escreve conforme a estratégia de tratar por alvo, ou que descreve corticoide como ponte até o início de ação do metotrexato, está na tradição da diretriz de sociedade e da literatura internacional. Repare também no escopo: as recomendações do protocolo falam de dose baixa por longo prazo e de dose alta por curto prazo em surto. A ponte curta em dose baixa na doença recém-diagnosticada não é objeto de nenhuma delas — é vão de cobertura, e não contradição.

Dose máxima da hidroxicloroquina e como monitorar retina

Dose fixa

O protocolo nacional prescreve hidroxicloroquina por via oral, quatrocentos miligramas uma vez ao dia, sem teto por quilo, e lista como única apresentação o comprimido de quatrocentos miligramas. Mantém dose por quilo apenas para a cloroquina, em quatro miligramas por quilo por dia. A célula de monitoramento cita doses acima da dose máxima como fator de risco para maculopatia, sem declarar qual é essa dose máxima.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Artrite Reumatoide, edição de janeiro de 2026, esquemas de administração na p. 16, apresentações na p. 13 e Quadro S4 na p. 34.

Teto por peso ideal

A diretriz de sociedade fixa dose máxima diária de seis miligramas por quilo por dia para o sulfato de hidroxicloroquina e de quatro miligramas por quilo por dia para o difosfato de cloroquina, ambas calculadas sobre o peso ideal, e nomeia os limiares cumulativos que disparam rastreio oftalmológico anual desde o princípio: mil gramas de hidroxicloroquina ou quatrocentos e sessenta gramas de cloroquina.

Mota LMH et al. Diretrizes para o tratamento da artrite reumatoide. Rev Bras Reumatol. 2013;53(2):158-183, Sociedade Brasileira de Reumatologia.

Na prova

Enunciado que informe o peso da paciente está sinalizando que quer a régua ponderal, e a conta a fazer é dividir a dose diária pelo peso ideal para comparar com seis miligramas por quilo. Enunciado que não informe peso e cite o protocolo nacional quer a dose fixa de quatrocentos miligramas. O detalhe que denuncia a régua é a presença ou ausência do peso na vinheta, não o nome do medicamento.

Momento de iniciar o biológico depois de identificada tuberculose latente

Quatro semanas de carência

O corpo do protocolo recomenda iniciar o medicamento biológico ou alvo específico após quatro semanas do início do tratamento da infecção latente, e remete o esquema em si ao Manual de Recomendações para o Controle da Tuberculose no Brasil. Para tuberculose ativa, admite início concomitante ou após quatro semanas, a critério da equipe assistente.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Artrite Reumatoide, edição de janeiro de 2026, p. 19.

No mínimo um mês de tratamento antes

As células de conduta do quadro de monitoramento do mesmo protocolo, replicadas para cada biológico e cada alvo específico, imprimem a regra como tratar tuberculose latente por no mínimo um mês antes do início do uso do medicamento. A redação admite ser lida como duração do tratamento da infecção latente, e não como carência antes do biológico.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Artrite Reumatoide, edição de janeiro de 2026, Quadro S4, p. 34 a 37.

Na prova

As duas redações dão o mesmo intervalo, e nesse ponto não há o que decidir. O que muda é o que o intervalo mede. Se a alternativa afirmar que o tratamento da infecção latente dura um mês, ela está transformando carência em curso e o candidato deve recusá-la: nem o protocolo da artrite nem a diretriz de sociedade fixam duração de tratamento da latente, e ambos remetem ao manual da tuberculose. Se a alternativa disser que o biológico começa quatro semanas depois de iniciado o tratamento da latente, está fiel ao corpo do protocolo.

06

Caso resolvido

Mulher de 41 anos, escriturária, com dor e edema simétricos em punhos, metacarpofalângicas e interfalângicas proximais há onze semanas, rigidez matinal de noventa minutos. Interfalângicas distais poupadas, sem lesão cutânea, sem fenômeno de Raynaud. Ao exame, sinovite palpável em ambos os punhos e em seis metacarpofalângicas. Exames: fator reumatoide não reagente, anti-CCP em três vezes o valor de referência, proteína C reativa 26 mg/L com referência abaixo de 5, velocidade de hemossedimentação 44 mm/h. Radiografia de mãos sem erosões. Peso 54 kg, altura 1,62 m. Sem hepatopatia, sem doença pulmonar, sem desejo gestacional.
Somar os domínios
Acometimento articular: oito pequenas articulações, faixa de quatro a dez pequenas, três pontos. Sorologia: anti-CCP em exatamente três vezes o valor de referência — pelo rodapé, alto título exige estritamente maior que três vezes, então é baixo título, dois pontos. Prova inflamatória alterada, um ponto. Sintomas há onze semanas, um ponto. Total: sete pontos. Classifica.
Registrar o que muda se o comparador for lido errado
Se o candidato ler o anti-CCP como alto título, soma oito. Como oito e sete classificam igualmente, o erro não aparece aqui. Ele aparece na pergunta seguinte: pelo critério de mau prognóstico do próprio protocolo, que usa maior ou igual a três vezes, esta paciente é de pior prognóstico, e isso justifica acompanhamento e reavaliação mais frequentes.
Escolher a primeira linha
Metotrexato em monoterapia, sete vírgula cinco a vinte e cinco miligramas uma vez por semana, com ácido fólico cinco miligramas uma vez por semana, trinta e seis horas depois. Sem contraindicação hepática, pulmonar ou gestacional, não há motivo para começar por leflunomida ou sulfassalazina, e antimalárico isolado é pouco efetivo.
Marcar a data da reavaliação
Três meses de tratamento otimizado, com dose máxima tolerada e adesão conferida. A meta é remissão ou, ao menos, baixa atividade, medida por um índice composto — e o mesmo índice deve ser repetido nas consultas seguintes, porque comparar escore em vinte e oito articulações com índice clínico não diz nada.
Decidir sobre o antimalárico, se ele entrar na combinação
Peso ideal em torno de cinquenta e sete quilos para 1,62 m. Pelo teto de seis miligramas por quilo da diretriz de sociedade, a dose diária máxima ficaria por volta de trezentos e quarenta miligramas. O protocolo nacional prescreve quatrocentos miligramas fixos, e o único comprimido previsto é o de quatrocentos. Se a combinação for necessária, essa é a paciente em que a discrepância entre as duas réguas tem consequência, e em que o rastreio oftalmológico merece ser antecipado.
Preparar a etapa seguinte antes de precisar dela
Se houver falha de dois esquemas da primeira etapa, com no mínimo três meses cada, abre-se o biológico associado ao metotrexato. Antes disso, rastreio de tuberculose ativa e latente com anamnese, exame físico, radiografia de tórax e prova tuberculínica ou ensaio de interferon; prova maior ou igual a cinco milímetros ou ensaio reagente indicam tratar a latente e iniciar o biológico quatro semanas depois do começo desse tratamento.
07

Agora feche você

Mulher de 58 anos, com artrite reumatoide há sete anos, em uso de metotrexato quinze miligramas por semana por via oral, ácido fólico cinco miligramas por semana e hidroxicloroquina quatrocentos miligramas ao dia há cinco anos. Pesa 52 kg, mede 1,58 m. Retorna com sete articulações dolorosas, cinco edemaciadas, rigidez matinal de cinquenta minutos e proteína C reativa 19 mg/L. O escore de atividade em vinte e oito articulações calculado na consulta é 2,6 exato. As transaminases vieram em três vezes o limite superior da normalidade. Ela nunca fez avaliação oftalmológica e pergunta se pode parar de vir tão seguido, já que se sente melhor.
Primeiro
Diga se o escore de 2,6 exato coloca esta paciente em remissão, e mostre por que a resposta depende de qual página do protocolo se consulta. Nomeie o quadro e a seção de evidências que discordam.
Segundo
Confronte o número do escore com o quadro clínico descrito — sete articulações dolorosas e cinco edemaciadas com proteína C reativa alterada — e diga o que isso sugere sobre a coleta do escore nesta consulta.
Terceiro
Decida a conduta com o metotrexato diante de transaminases em exatamente três vezes o limite superior, e explique por que essa decisão não é única pelo quadro de monitoramento do protocolo.
Quarto
Calcule a dose de hidroxicloroquina em miligramas por quilo de peso ideal e compare com o teto da diretriz de sociedade. Diga também a que dose cumulativa aproximada esta paciente já chegou em cinco anos.
Quinto
Responda ao pedido dela de espaçar as consultas, usando a regra de rastreio oftalmológico e os fatores de risco que a antecipam.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Contar articulações quando o critério conta pontos A frase pontuação menor que seis em dez articulações, impressa nas duas últimas edições do protocolo, convida ao erro. O escore de 2010 vai de zero a dez pontos somando quatro domínios; a contagem articular é apenas um deles e vale no máximo cinco. Oito pequenas articulações edemaciadas valem três pontos. Sem sorologia, sem prova inflamatória alterada e sem seis semanas, três pontos não classificam ninguém.
  2. 2Ler a linha de sorologia de zero ponto como se fosse dos dois exames feitos A linha impressa é fator reumatoide e anti-CCP, valendo zero, sem a palavra negativos. É a linha do paciente soronegativo nos dois. Confundir com ter feito os dois exames faria qualquer paciente investigado somar zero na sorologia, o que apagaria o domínio inteiro.
  3. 3Tratar três vezes o limite superior como alto título O rodapé do quadro exige valor estritamente maior que três vezes o limite superior para alto título; o valor exatamente igual a três vezes ainda é baixo título, e vale dois pontos. Mas o mesmo protocolo usa maior ou igual a três vezes ao definir mau prognóstico. O paciente que está exatamente no três muda de lado conforme a pergunta.
  4. 4Confundir carência com duração no rastreio de tuberculose Quatro semanas é o tempo entre o início do tratamento da infecção latente e o início do biológico. Não é a duração do tratamento da infecção latente, que nenhum dos dois documentos brasileiros de artrite reumatoide fixa — ambos remetem ao manual próprio da tuberculose.
  5. 5Aceitar risco relativo sem olhar se o intervalo contém o valor um Um risco relativo de um vírgula dezesseis com intervalo de zero vírgula noventa e nove a um vírgula trinta e cinco não estabelece benefício, por mais convidativa que a diferença de percentuais pareça. O protocolo faz certo ao chamar esse resultado de não estatisticamente significativo; quem transforma isso em número de pacientes a tratar está inventando precisão.
  6. 6Escalonar para biológico sem otimizar o metotrexato Falha de primeira linha exige dose máxima tolerada e adesão adequada por pelo menos três meses. Metotrexato quinze miligramas por semana não é dose máxima: o esquema vai até vinte e cinco miligramas por semana, e antes de trocar de classe cabe fracionar a tomada oral no mesmo dia ou passar ao injetável.
  7. 7Abrir a segunda etapa depois de um único esquema O protocolo exige pelo menos dois esquemas terapêuticos da primeira etapa, com no mínimo três meses cada um, antes do biológico ou do alvo específico. Um esquema falhado abre a troca simples ou a combinação dupla ou tripla, não a etapa seguinte.
  8. 8Achar que o antimalárico isolado resolve O protocolo registra que a terapia isolada com hidroxicloroquina ou cloroquina é pouco efetiva, e a coloca atrás de leflunomida e sulfassalazina como alternativa quando o metotrexato não pode ser usado. A diretriz de sociedade acrescenta que a hidroxicloroquina, isoladamente, não alterou a progressão radiográfica.
  9. 9Suspender metotrexato na primeira alteração de transaminase Elevação entre uma e três vezes o limite superior pede redução de vinte e cinco a cinquenta por cento da dose, não suspensão. Suspender é conduta da faixa entre três e cinco vezes, e interromper é acima de cinco vezes. O valor exatamente igual a três vezes está impresso nas duas primeiras faixas ao mesmo tempo.
  10. 10Esquecer o ácido fólico ou dá-lo junto com o metotrexato São cinco miligramas, uma vez por semana, trinta e seis horas depois do metotrexato. Dar no mesmo dia e na mesma hora anula parte do efeito que se quer, e a hepatotoxicidade e a toxicidade gastrointestinal do metotrexato levam à suspensão em torno de trinta por cento dos casos.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Poliartrite simétrica de pequenas articulações (MCF/punhos) com rigidez matinal prolongada (> 1h) e anti-CCP/FR positivos é o quadro clássico de artrite reumatoide. Osteoartrite acomete tipicamente interfalângicas distais, é de padrão mecânico (piora ao uso) e sem sinovite inflamatória exuberante nem anti-CCP. Gota costuma ser monoarticular aguda (podagra) e ligada a cristais de urato. Espondilite anquilosante afeta esqueleto axial/sacroilíacas com dor lombar inflamatória. Febre reumática cursa com artrite migratória de grandes articulações após faringoamigdalite estreptocócica.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Sete dias depois, recupere de memória sete coisas sem abrir o capítulo. Os quatro domínios do escore de 2010 e a pontuação máxima de cada um. O que a linha de zero ponto da sorologia realmente descreve. Os dois comparadores que o protocolo usa com o múltiplo três do limite superior, e para que serve cada um. Os quatro cortes de atividade do escore em vinte e oito articulações. O tempo entre o início do tratamento da tuberculose latente e o início do biológico. As duas condições que precisam ser verdadeiras para chamar de falha um esquema de primeira linha. E a diferença entre a dose de cloroquina e a de hidroxicloroquina como o protocolo nacional as imprime.

em 30 dias

Trinta dias depois, resolva cinco cenários em voz alta antes de conferir. Paciente com sinovite em três pequenas articulações, anti-CCP em duas vezes o valor de referência, provas inflamatórias normais e sintomas há quatro semanas: quantos pontos, e classifica? Paciente com escore em vinte e oito articulações de 2,6 exato: está em remissão? Paciente em metotrexato quinze miligramas por semana há doze semanas com atividade alta: escalona ou otimiza, e por quê? Paciente de cinquenta quilos em hidroxicloroquina quatrocentos miligramas ao dia: quantos miligramas por quilo, e o que fazer com o rastreio oftalmológico? Paciente com prova tuberculínica de oito milímetros que vai iniciar antitumoral necrose: trata o quê, e quando o biológico começa?

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Numa consulta de poliartrite, treine a sequência que separa o candidato do decorador: some os quatro domínios em voz alta antes de dizer o diagnóstico, diga qual índice de atividade você vai usar e comprometa-se a repetir o mesmo nas próximas consultas, marque a data da reavaliação em três meses no mesmo momento em que prescreve o metotrexato, e pergunte o peso antes de prescrever antimalárico. Se o paciente já usa hidroxicloroquina, pergunte há quanto tempo e quando foi a última avaliação oftalmológica — as duas perguntas custam dez segundos e decidem se o rastreio é anual desde já. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Artrite reumatoide: o protocolo nacional, lido pelas bordas — Preparatório para provas | OsceLabs