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Clínica MédicaReumatologia

Esclerose sistêmica e Sjögren: nove pontos, e o doente do ensaio soma oito

Esclerose sistêmica, Sjögren e outras colagenoses

Classificação, rastreio de órgão-alvo, crise renal e diferenciação da síndrome de Sjögren.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 34 anos procura atendimento por olhos e boca secos há 8 meses, associados a aumento intermitente e indolor das glândulas parótidas bilateralmente. Refere cáries dentárias de repetição no último ano. Exame físico: parótidas discretamente aumentadas, teste de Schirmer 3 mm/5 min em ambos os olhos (referência > 10 mm). Laboratório: FAN 1:640 padrão pontilhado fino, fator reumatoide positivo, anti-Ro/SSA positivo, anti-La/SSB positivo, hipergamaglobulinemia. Qual é o diagnóstico mais provável?

02

Como esse tema cai

Colagenose em prova de residência quase nunca é pedido de nome. O enunciado descreve dedos, pele, um anticorpo e um exame de imagem, e o que ele quer saber é se aquilo atravessa um corte numérico — porque o protocolo federal que rege a esclerose sistêmica no Brasil delega a classificação a um escore de oito itens com corte em nove pontos, e manda incluir no protocolo quem preencher esse escore.

É por isso que este capítulo soma antes de nomear. O item de abertura vale exatamente o corte, dois itens têm regra de maior pontuação que derruba quem soma tudo, um deles paga mais pela cicatriz que pela lesão ativa, e há um doente muito frequente na prática — e no ensaio clínico mais citado da doença — que para em oito.

A síndrome de Sjögren entra pelo lado oposto. Ela é o diagnóstico que os capítulos de acidose tubular renal, de lúpus e de hepatite C usam como dado de entrada sem nunca dizer como se chega até ele. Aqui a seta é devolvida: o que objetiva a secura, o que pesa na histologia e por que a régua brasileira dessa doença é de outra natureza que a da esclerose sistêmica.

03

O que muda decisão

Oito itens, nove pontos, e um item que vale o corte inteiro

O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Esclerose Sistêmica, aprovado pela Portaria Conjunta nº 16, de 10 de agosto de 2022, não inventa régua própria: manda classificar pelos critérios que o American College of Rheumatology e a European League Against Rheumatism publicaram em 2013, e escreve a condição em uma linha só — o paciente é classificado se somar nove ou mais pontos entre os oito itens do Quadro 1. Quem chega à prova sabendo o nome dos critérios e não os pesos não consegue responder nada, porque a pergunta de residência quase nunca é qual é o critério: é se este doente entra.

Os oito itens e o que cada um vale. Espessamento cutâneo dos dedos das mãos proximal às metacarpofalangeanas, nove. Espessamento cutâneo dos dedos considerando apenas a maior pontuação: distal às metacarpofalangeanas, quatro; edema de mãos, dois. Lesões de polpa digital, também só a maior: úlceras digitais, dois; microcicatrizes, três. Fenômeno de Raynaud, três. Autoanticorpos específicos — anticentrômero, anti-RNA polimerase III, anti-topoisomerase I, o velho anti-Scl70 —, três. Telangiectasias, dois. Capilaroscopia periungueal alterada, dois. Hipertensão arterial pulmonar ou doença intersticial pulmonar, dois.

A primeira coisa que salta é que o item de abertura vale exatamente o corte. O espessamento que sobe acima das metacarpofalangeanas fecha a classificação sozinho: nove contra nove, sem precisar de anticorpo, de capilaroscopia ou de Raynaud. É por isso que a mão é o exame físico que decide, e é por isso que a vinheta que descreve pele endurecida subindo pelo antebraço não está pedindo que você some nada — está entregando o diagnóstico e cobrando a conduta. Os outros sete itens, somados todos, chegam a dezenove.

Régua horizontal com oito barras de comprimentos diferentes; uma linha vertical de corte no nono ponto, alcançada apenas pela barra mais longa.
Os oito itens do escore de classificação desenhados na largura real. O corte está em nove pontos, e o primeiro item sozinho vale exatamente nove: encosta na linha sem precisar de nenhum outro. Os sete restantes somam no máximo dezenove.

A segunda coisa é um peso invertido dentro do mesmo item. A úlcera digital vale dois e a microcicatriz vale três — o achado dramático pesa menos que a cicatriz discreta. Não é descuido: a microcicatriz puntiforme da polpa é a úlcera que já fechou, prova de um episódio isquêmico passado e, portanto, de vasculopatia crônica; a úlcera aberta tem concorrência de trauma, infecção e doença arterial periférica. O critério paga pela especificidade, não pela gravidade aparente.

Vale conferir se o corte tem buraco, porque escore com pesos irregulares costuma ter. Aqui não tem: nove exato é alcançável por pelo menos dois caminhos sem o critério suficiente — microcicatriz mais Raynaud mais anticorpo dá nove; esclerodactilia mais microcicatriz mais telangiectasia também dá nove. Todo valor de nove em diante tem destino, e ninguém fica parado numa faixa sem instrução. O problema desta régua, como se verá, não é o corte: é quem chega perto dele.

Dedos edemaciados ou edema de mãos: o mesmo protocolo, dois nomes

O item de dois pontos do espessamento cutâneo aparece duas vezes no protocolo, com dois nomes diferentes. Na seção de diagnóstico clínico e laboratorial, o texto corrido descreve o quadro inicial assim: fenômeno de Raynaud, dedos edemaciados e sintomas de refluxo gastroesofágico geralmente estão presentes nas fases iniciais da doença. Quatro páginas adiante, no Quadro 1, o subitem que vale dois pontos está escrito como edema de mãos.

Não são a mesma coisa clínica. Dedos edemaciados é o inchaço fusiforme do quirodáctilo, que apaga as pregas cutâneas das interfalângicas e faz o anel apertar — um achado de dedo, com pouca concorrência diagnóstica. Edema de mãos é uma categoria muito maior, que recolhe insuficiência cardíaca, síndrome nefrótica, obstrução venosa, linfedema e o edema postural de quem dormiu com o braço pendurado. O critério original foi construído sobre o dedo, e é a leitura estreita que sustenta os dois pontos.

A consequência é aritmética e imediata. Lido como edema de mãos, o item fica disponível para quase todo paciente edemaciado; somado a Raynaud, que vale três, e a um anticorpo específico, que vale outros três, chega a dez e classifica. Lido como dedos edemaciados, o mesmo paciente não pontua ali e para em seis. A diferença entre classificar e não classificar cabe inteira na escolha de qual das duas frases do protocolo se lê.

Para a prova, a regra prática é ler o item pela versão restritiva sempre que a vinheta descrever o dedo, e desconfiar de alternativa que ofereça pontuação por edema de membro. E vale registrar a assimetria: o enunciado que descreve anel apertando, prega apagada e dedo em salsicha está falando do item de dois pontos; o que descreve edema de mãos e pés e ganho de peso está falando de outra doença.

O doente do ensaio soma oito

O relatório de recomendação nº 737, de março de 2022, que acompanha esse protocolo, encontrou um único ensaio randomizado de nintedanibe conduzido exclusivamente em esclerose sistêmica. Foram 576 adultos sorteados para 150 mg por via oral duas vezes ao dia ou placebo, seguidos por 52 semanas. Para entrar, o doente precisava de doença intersticial pulmonar em tomografia de alta resolução com fibrose acometendo pelo menos 10% dos pulmões, capacidade vital forçada de pelo menos 40% do predito e difusão de monóxido de carbono corrigida entre 30% e 89% do predito.

Repare no que esse critério de entrada é, dentro da régua da seção anterior: doença intersticial pulmonar é o oitavo item do Quadro 1 e vale dois pontos. Quem foi recrutado para o ensaio já carrega, por construção, dois dos nove pontos necessários para ser classificado. Some o fenômeno de Raynaud, que está presente na maioria absoluta dos doentes e vale três, e um anticorpo específico, que vale outros três.

oito. Um ponto abaixo do corte.

Duas colunas de blocos empilhados e uma linha tracejada de corte: a coluna da esquerda para logo abaixo da linha, a da direita a ultrapassa.
À esquerda, o doente que o ensaio do nintedanibe recrutou: doença intersticial pulmonar, fenômeno de Raynaud e anticorpo específico somam oito e param um ponto abaixo do corte. À direita, o mesmo doente depois de uma capilaroscopia periungueal alterada, que acrescenta dois.

Não há contradição aqui, e é importante não chamar isto de erro: são dois limiares fixados por gente diferente para finalidades diferentes — os 10% de fibrose que o ensaio exigiu para medir declínio de função pulmonar e os nove pontos que o critério exige para classificar — que por acaso se encontram no mesmo doente. O que existe é uma consequência prática, e ela morde: os critérios de inclusão do protocolo mandam incluir todos os pacientes que preencherem os critérios de 2013, e o doente com o fenótipo pulmonar mais tratável pode ficar de fora da porta administrativa por um ponto.

O ponto que falta é barato. Telangiectasias valem dois e se veem a olho nu na face e nas mãos. Capilaroscopia periungueal alterada vale dois e é um exame de consultório. Microcicatriz de polpa vale três e está na ponta do dedo do paciente. O exame que fecha a conta é justamente o que mais se deixa de pedir, e a razão é banal: capilaroscopia não é rotina de clínico nem de pneumologista, e o doente que chega pela dispneia costuma ser visto pelos dois antes de ser visto pelo reumatologista.

O que cada ferramenta compra

A capilaroscopia periungueal procura o padrão SD, o padrão esclerodérmico: alteração arquitetural, capilares dilatados, áreas de desvascularização, micro-hemorragias e neoangiogênese. O protocolo a coloca ao lado dos anticorpos como o que permite o diagnóstico precoce quando já existe suspeita clínica, e ela reaparece na seção de diagnóstico diferencial como um dos quatro achados que separam a esclerose sistêmica das condições que apenas endurecem a pele. Vale dois pontos.

Os anticorpos específicos são três — anticentrômero, anti-topoisomerase I e anti-RNA polimerase I ou III — e valem três pontos no total, não três cada um. Doente com dois deles positivos continua com três. É uma trava contra a inflação de escore por painel sorológico amplo, e é a mesma lógica que faz hipertensão arterial pulmonar e doença intersticial dividirem um único item de dois pontos: quem tem as duas não ganha quatro.

O escore de Rodnan modificado aparece no protocolo como o instrumento de avaliação do espessamento pela palpação, e é preciso ver onde ele entra e onde não entra. Ele mede extensão e gravidade cutânea, serve para acompanhar resposta e é o desfecho cutâneo dos ensaios citados no relatório — mas não é critério de entrada. Ninguém é classificado por Rodnan; classifica-se pelo Quadro 1 e acompanha-se pelo Rodnan.

O rastreio pulmonar tem uma ordem que a prova gosta de inverter. O protocolo manda pesquisar o acometimento intersticial precocemente por provas de função pulmonar com difusão e, apenas caso o resultado esteja alterado, realizar tomografia de alta resolução. A prova de função vem primeiro e é ela que abre a porta da imagem — a alternativa que oferece tomografia como rastreio inicial de todo paciente está fora da sequência do protocolo. Para hipertensão arterial pulmonar, o documento não fecha a conduta: remete ao protocolo específico do Ministério da Saúde para essa condição.

Crise renal: o mesmo comprimido em duas direções opostas

A crise renal esclerodérmica é onde o protocolo escreve a frase mais fácil de errar em prova, porque ela é um condicional invertido. Para tratar a crise instalada, os inibidores da enzima conversora da angiotensina são os medicamentos com melhores resultados, com o captopril como agente mais frequentemente utilizado, e o documento pede que os níveis prévios de pressão arterial sejam recuperados dentro de 72 horas. Quando a dose máxima não basta, entra terapia adicional com vasodilatador ou bloqueador de canal de cálcio. E o inibidor é mantido indefinidamente em quem teve a crise.

A frase seguinte diz o contrário para o mesmo remédio: não há indicação de uso desses medicamentos na prevenção da crise renal, porque isso tem sido associado a piores desfechos em estudos observacionais. Obrigatório depois, desaconselhado antes, e o evento que inverte o sinal é a própria crise. Quem decora a classe como nefroprotetora e transporta o hábito da nefropatia diabética marca a alternativa errada com convicção.

O outro lado do par também está no protocolo, e as duas metades costumam vir juntas no enunciado. Pacientes em uso de corticoide devem ser monitorados com cuidado quanto a função renal e pressão arterial, com dose e tempo de uso minimizados. A prednisona está na lista de medicamentos do próprio protocolo, e é o mesmo documento que manda encurtá-la — a vinheta clássica é a do doente que recebeu corticoide em dose alta por acometimento cutâneo e volta em duas semanas com pressão muito elevada e creatinina subindo.

Duas informações de prognóstico fecham o tema e derrubam a leitura fatalista. Terapia de substituição renal é necessária em cerca de 50% dos casos, e uma parte significativa desses pacientes recupera função renal em 12 a 18 meses. Diálise na crise renal esclerodérmica não é sentença: é um período, e por isso a decisão sobre transplante não se toma no primeiro mês.

Três medicamentos de fora, por três motivos diferentes

A ciclofosfamida é a primeira linha das manifestações pulmonares, sustentada por dois ensaios randomizados que mostraram efeito na função pulmonar, na incapacidade funcional e na qualidade de vida, com mais leucopenia que o placebo. A azatioprina fica como opção para quem tem hipersensibilidade à ciclofosfamida, e o ensaio que as comparou sugere que ela é inferior na redução do declínio da capacidade vital forçada. Nas manifestações cutâneas, o metotrexato é a primeira opção; nas vasculares, bloqueadores de canal de cálcio para o Raynaud.

O que rende questão é a lista do que ficou de fora, porque os motivos são diferentes e a prova cobra exatamente essa diferença. Os derivados do ácido micofenólico não mostraram diferença contra placebo na capacidade vital forçada e ficaram semelhantes à ciclofosfamida — mas o protocolo registra que o uso deles nas manifestações pulmonares da doença não consta nas indicações aprovadas em bula pela Anvisa, e é essa a razão declarada da exclusão.

O rituximabe é o caso mais desconfortável. Foram quatro estudos pequenos; dois não mostraram diferença; e um mostrou o rituximabe superior à ciclofosfamida na redução do declínio da capacidade vital forçada, sem diferença de eventos adversos. É o único resultado de superioridade em comparação direta de toda a seção pulmonar. Ainda assim ficou de fora, e pelo mesmo motivo do micofenolato: a indicação não consta em bula.

O nintedanibe é o inverso exato. Tem registro para doença intersticial associada à esclerose sistêmica e tem ensaio randomizado com desfecho primário positivo. Ficou de fora porque o risco de viés geral do estudo foi julgado alto para todos os desfechos avaliados. Ou seja: dois medicamentos saíram pela bula apesar da evidência, e um saiu pela evidência apesar da bula. Quem memoriza apenas não preconizado não responde à pergunta que cobra o porquê.

Os intervalos do relatório, quando se conferem

Vale abrir o resultado do nintedanibe, porque ele ensina a ler qualquer intervalo de confiança de prova. O grupo tratado teve maior redução do declínio anual da capacidade vital forçada: diferença de médias de 41,00 mL por ano, com intervalo de 95% de 2,9 a 79,9. O limite inferior encosta no zero, mas não o cruza. Em seguida, o relatório imputa de três maneiras diferentes os dados dos 56 e 31 pacientes que suspenderam o tratamento e dos 24 e 13 que se perderam no seguimento: as diferenças caem para 30,00, 32,93 e 33,86, e em nenhum dos três cenários o intervalo exclui o zero.

Conferir é simples, porque intervalo de diferença de médias é simétrico em torno da estimativa. Os três cenários fecham na segunda casa: o centro de −6,22 a 66,22 é 30,000; o de −3,19 a 69,06 é 32,935; o de −2,03 a 69,75 é 33,860. Desvios de zero, cinco milésimos e zero. Já o resultado principal, como impresso, tem centro 41,400 contra estimativa de 41,00 — um desvio de 0,400, oitenta vezes o pior dos três. O limite superior que devolve a simetria é 79,0, e a série inteira do documento diz que a convenção é simétrica. O que está trocado é um algarismo, e não a conclusão: com 79,0 ou com 79,9 o intervalo continua excluindo o zero.

O que decide de verdade é outra coisa. No resultado principal a estimativa é 41,00 contra meia-largura de 38,05, e sobrevive por 2,95. No melhor dos cenários é 33,86 contra 35,89, e falha por 2,03. Note que as meias-larguras encolhem de 38,05 para 35,89 quando se imputa, porque imputar acrescenta observações: os cenários não perdem por ficarem menos precisos, perdem porque a estimativa cai 7,14 mL por ano, 17,4% do efeito. O resultado positivo inteiro mora numa faixa de cerca de cinco mililitros por ano, e o que ocupa essa faixa é a decisão de como contar 124 pacientes que saíram.

Duas escalas ajudam a dimensionar. O declínio no placebo foi de 93,3 mL por ano; poupar 41,00 é evitar 43,9% dele, e poupar 33,86 é evitar 36,3%. E o desfecho irmão, expresso em porcentagem do predito, tem diferença de 1,2 com intervalo de 0,1 a 2,2: são 1,2 pontos percentuais do predito por ano, e não 1,2% a mais de coisa alguma. Confundir ponto percentual com porcentagem relativa é o erro que transforma um efeito modesto em um efeito grande.

O mesmo relatório traz um contraste que ensina a não inventar defeito. Num único parágrafo sobre o estudo de 18 pacientes que comparou prednisona mais ciclofosfamida contra ciclofosfamida, aparecem quatro intervalos, e os quatro centram exatamente na estimativa: −1,22 em −14,33 a 11,89; −0,46 em −13,66 a 12,74; 18,37 em 4,59 a 32,15; e −13,39 em −3 a −23,78. Este último é o único dos quatro cujos limites não sobem — estão impressos na ordem trocada — e a aritmética dele é exata. A ordem está invertida e o número está certo, e tratar isso como erro de estimativa seria inventar um defeito que não existe.

O contraste dentro da mesma série é o que permite decidir o caso seguinte. Sobre o ensaio de 162 pacientes de 2006, o relatório escreve, para o escore cutâneo de Rodnan, diferença de −3,06 com intervalo de −3,54 a −0,52 e p igual a 0,008. O centro desse intervalo é −2,03, não −3,06. Duas rotas independentes concordam: a simetria, e o próprio p. A meia-largura de 1,51 implica erro-padrão de 0,7704; com −2,03 isso dá z de −2,64 e p bilateral de 0,0084, que é o 0,008 impresso; com −3,06 daria z de −3,97 e p de 0,00007, que o documento teria escrito como menor que 0,001. O p impresso refuta a estimativa impressa, e a estimativa que fecha as duas contas é −2,03. Detalhe que não é pista: esse mesmo numeral aparece como limite inferior do terceiro cenário do nintedanibe, e são grandezas sem relação nenhuma.

Sjögren, a doença que se usa emprestada

A síndrome de Sjögren chega ao estudante quase sempre como causa de outra coisa, e em três lugares que não são o capítulo dela. Nos distúrbios ácido-base, é a causa secundária mais cobrada de acidose tubular renal distal no adulto, ao lado de anfotericina B, sulfametoxazol-trimetoprima, lítio e inalação de tolueno — a vinheta da mulher de quarenta e poucos anos com fraqueza dos quatro membros, potássio baixo, bicarbonato de 14 e creatinina normal. No rastreamento da hepatite C, está entre as manifestações extra-hepáticas que indicam testagem, conforme o protocolo daquela doença. E no lúpus, os anticorpos anti-Ro/SSA e anti-La/SSB, que são os dela, aprendem-se como o que se pesquisa quando o fator antinuclear é negativo e há lesão cutânea fotossensível, e como o que obriga vigilância de bloqueio cardíaco fetal na gestante.

O que raramente vem junto é a seta de volta: como se chega ao diagnóstico que todas essas vinhetas usam como dado de entrada. A síndrome se constrói sobre a secura objetivada — xerostomia e ceratoconjuntivite seca — somada a prova de função lacrimal, ao anticorpo e à histologia. O teste de Schirmer mede a produção lacrimal com fita de papel no fórnice inferior. A biópsia de glândula salivar menor procura infiltrado linfoplasmocitário, e o foco é definido como um agregado de 50 ou mais linfócitos por área de referência. Anti-Ro/SSA positivo e histologia compatível são as duas peças de maior peso em qualquer conjunto de critérios moderno.

A régua brasileira aqui é de natureza diferente da régua da esclerose sistêmica, e vale saber disso antes da prova. A esclerose sistêmica tem protocolo do Ministério da Saúde, portaria conjunta e relatório de comissão. A síndrome de Sjögren é orientada no país por recomendação de sociedade — as recomendações da Sociedade Brasileira de Reumatologia publicadas em 2015, cuja busca sistemática se encerrou em outubro de 2014, dois anos antes dos critérios de classificação de 2016. Enunciado que diz conforme o protocolo do Ministério só pode estar falando da primeira das duas doenças do título deste capítulo.

Do lado do tratamento sintomático, a recomendação brasileira é objetiva e cobrável. Agonistas muscarínicos são o eixo: pilocarpina 5 mg, duas a quatro vezes ao dia, com ajuste de dose e intervalo pela tolerância; a cevimelina, 30 mg três vezes ao dia, é descrita como o agonista mais seguro por ação mais seletiva, e o próprio documento registra que ela não está disponível no Brasil — recomendação nomeada e sem destino no país. O efeito colateral mais frequente da classe é a sudorese, e há atenção especial às contraindicações na asma e nas doenças cardíacas. Para quem não tolera, a N-acetilcisteína 200 mg até três vezes ao dia é a alternativa, com a vantagem de servir à secura de pele, vagina e vias aéreas.

Um detalhe de leitura de diretriz que a mesma recomendação oferece de graça: a recomendação sobre os agonistas muscarínicos carrega três graus de evidência numa frase só — nível A para a boca seca, nível A para o olho seco e nível D para o olho seco moderado a grave. Não é contradição, é estratificação: quanto mais estreito o subgrupo, mais fraca a evidência que o sustenta. Vale como aviso geral — o grau de recomendação acompanha o recorte da população, e citar o grau sem o recorte é citar metade.

Quando não é nenhuma das duas

O protocolo dedica uma seção inteira ao que endurece a pele sem ser esclerose sistêmica, e é dela que saem as questões de diagnóstico diferencial. A morfeia, sobretudo na forma panesclerótica, compromete grande parte da superfície corporal e ainda assim costuma poupar quirodáctilos, pododáctilos e mamilos — a poupança dos dedos é o discriminador, e ela é exatamente o contrário do que a esclerose sistêmica faz.

A fasciíte eosinofílica entra com início agudo e progressão rápida, edema e esclerose da fáscia e aspecto cutâneo de casca de laranja; o padrão-ouro é a biópsia profunda, que precisa alcançar músculo e fáscia. Biópsia cutânea superficial não fecha esse diagnóstico, e a alternativa que a oferece está errada por profundidade, não por indicação.

Completam a lista a doença enxerto versus hospedeiro e o escleromixedema, por depósito de mucina, além do grupo tóxico e epidérmico: síndrome do óleo tóxico, exposição ao triptofano, ao cloreto de vinil e à cocaína, e a fibrose sistêmica nefrogênica. O que separa a esclerose sistêmica de todas elas são os mesmos quatro achados que carregam ponto no Quadro 1 — fenômeno de Raynaud, acometimento de extremidades e de órgãos internos, anticorpos específicos e padrão SD na capilaroscopia. Nenhum dos mimetizadores tem os quatro.

Há ainda um vizinho ocupacional que costuma aparecer em prova de saúde do trabalhador e não em prova de reumatologia. A inalação de poeira com sílica se associa a silicose, doença pulmonar obstrutiva crônica, câncer de pulmão, insuficiência renal e aumento do risco de doenças do colágeno, entre elas a esclerodermia e a artrite reumatoide. Quem cobra a associação raramente cobra o critério; quem sabe o critério responde às duas. Diante do jateador de areia com Raynaud e dispneia, a conta de nove pontos é a mesma — e a capilaroscopia continua valendo dois.

04

Como decidir na vinheta

A pergunta útil quase nunca é qual doença é. É se este doente atravessa o corte de nove pontos, e com quais itens. Some antes de escolher a alternativa: quase toda vinheta de esclerose sistêmica é uma soma disfarçada.

  1. 1Procurar primeiro o espessamento cutâneo acima das metacarpofalangeanas. Se estiver descrito, a conta acabou: vale nove e classifica sozinho.
  2. 2Não estando, somar por itens e lembrar que dentro do item de pele e dentro do item de polpa digital só entra a maior pontuação, nunca as duas.
  3. 3Ler o edema com cuidado: dedo edemaciado com prega apagada pontua dois; edema de membro não é o mesmo achado.
  4. 4Contar microcicatriz de polpa como três e úlcera aberta como dois — a cicatriz pesa mais que a lesão ativa.
  5. 5Somar três pelo painel de anticorpos específicos, uma vez só, mesmo com dois positivos.
  6. 6Somar dois por hipertensão arterial pulmonar ou doença intersticial, uma vez só, mesmo com as duas.
  7. 7Se a soma parar em oito, procurar na vinheta telangiectasia, capilaroscopia ou microcicatriz antes de concluir que não classifica.
  8. 8Fechada a classificação, mudar de régua: o tratamento se escolhe pelo órgão acometido, não pela pontuação.
  9. 9Diante de crise renal, checar a direção do condicional: inibidor da enzima conversora para tratar e manter, nunca para prevenir.

Espessamento proximal às metacarpofalangeanas

Pele endurecida que sobe do dedo para o dorso da mão e o antebraço. Vale nove pontos, exatamente o corte: fecha a classificação sozinho, sem anticorpo e sem capilaroscopia.

Dedo edemaciado, não mão edemaciada

Inchaço fusiforme do quirodáctilo que apaga as pregas das interfalângicas. Vale dois. Edema de membro tem outra lista de causas e não é este item.

Microcicatriz vale mais que úlcera

A depressão puntiforme da polpa é a úlcera que fechou e prova vasculopatia antiga: três pontos. A úlcera aberta, com concorrência de trauma e isquemia arterial, vale dois.

Capilaroscopia com padrão esclerodérmico

Alças dilatadas, micro-hemorragias, áreas sem vaso e neoangiogênese desordenada. Dois pontos, exame de consultório — e o ponto que costuma faltar para chegar a nove.

Item do Quadro 1PontosDetalhe que a prova esconde
Espessamento proximal às metacarpofalangeanas9Sozinho já iguala o corte de nove
Espessamento dos dedos: distal às metacarpofalangeanas4Só a maior pontuação do item entra
Espessamento dos dedos: dedo edemaciado2O texto do protocolo chama de dedos edemaciados; o quadro, de edema de mãos
Lesão de polpa: microcicatriz3Pesa mais que a úlcera aberta
Lesão de polpa: úlcera digital2Só a maior pontuação do item entra
Fenômeno de Raynaud3Presente na maioria; sozinho não classifica nada
Autoanticorpos específicos3Teto de três, mesmo com dois positivos
Telangiectasias2Achado de inspeção, custo zero
Capilaroscopia periungueal alterada2O ponto mais fácil de deixar de somar
Hipertensão pulmonar ou doença intersticial2Item único: ter as duas não vale quatro

Por que cada medicamento ficou de fora, e o que isso cobra

MedicamentoMotivo declarado da exclusãoO que a questão testa
Micofenolato de sódio ou mofetilaUso pulmonar na doença não consta em bula aprovada pela AnvisaQue o obstáculo é regulatório, não de eficácia
RituximabeIndicação não consta em bula, apesar de um estudo com superioridade sobre a ciclofosfamidaQue existir evidência favorável não basta para preconizar
NintedanibeRisco de viés geral julgado alto para todos os desfechos do único ensaioQue aqui o obstáculo é a qualidade da evidência, e não a bula
PenicilaminaArrolada na versão de 2017 do protocolo e ausente da lista de 2022Que a lista de medicamentos muda entre versões do mesmo protocolo

O condicional invertido da crise renal esclerodérmica

MomentoInibidor da enzima conversoraO que mais entra
Antes da crise, como profilaxiaNão indicado; associado a piores desfechosMinimizar dose e tempo de corticoide, monitorar pressão e função renal
Na crise instaladaPrimeira escolha, captopril como agente mais usadoRecuperar a pressão prévia em até 72 horas
Pressão não controlada com dose máximaManter o inibidorAcrescentar vasodilatador ou bloqueador de canal de cálcio
Depois da criseManter indefinidamenteSubstituição renal em cerca de metade, com recuperação em 12 a 18 meses numa parte

A régua de classificação e a régua de tratamento são diferentes. Classifica-se pelo Quadro 1; trata-se pelo órgão acometido. Alternativa que escolhe droga pela pontuação está trocando de régua no meio do caminho.

A sequência do rastreio pulmonar é prova de função com difusão primeiro e tomografia de alta resolução apenas se houver alteração. Para hipertensão arterial pulmonar, o protocolo remete ao documento específico dessa condição.

O escore de Rodnan modificado mede extensão cutânea e serve para acompanhar; não é critério de entrada e não aparece no Quadro 1.

A justificativa da sildenafila para úlcera digital refratária é sustentada, no próprio protocolo, por um ensaio cujo desfecho foi a frequência média de ataques de Raynaud — a indicação é mais larga que o desfecho que a ancora.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Nintedanibe na doença intersticial pulmonar da esclerose sistêmica

Não preconizar

O grupo elaborador conduziu revisão sistemática própria e encontrou um único ensaio randomizado conduzido exclusivamente em esclerose sistêmica. O desfecho primário foi favorável, mas o risco de viés geral foi julgado alto para todos os desfechos, e em nenhum dos três cenários de imputação dos dados faltantes a diferença sobreviveu. Ao final da avaliação, não foram encontradas evidências suficientes para apoiar a incorporação.

Conitec, Relatório de Recomendação nº 737, março de 2022, questão 1 e resposta às contribuições da Consulta Pública nº 08/2022

Incorporar

Cartas com conteúdo técnico enviadas à consulta pública pediram a incorporação do medicamento e de fármacos sem indicação em bula, sustentando que as justificativas para não preconizá-lo não estavam claras. Vinte e seis anexos reproduziam a mesma carta da sociedade nacional e dois, a da sociedade estadual; oito artigos científicos enviados tratavam especificamente do medicamento.

Sociedade Brasileira de Reumatologia e Sociedade Paranaense de Reumatologia, cartas anexadas à Consulta Pública nº 08/2022, reproduzidas no Relatório nº 737

Na prova

O recorte do avaliador aqui é o motivo, não o veredito. Enunciado que pergunta se o medicamento está no protocolo cobra memória; enunciado que pergunta por que ele não está cobra a distinção entre exclusão por bula e exclusão por qualidade de evidência. Nesta, é por evidência — o registro existe. Guardar também que o pedido veio de sociedade médica e não mudou a recomendação: consulta pública com volume alto de contribuições contrárias não é, por si, sinal de que o texto vá mudar.

Qual lista de medicamentos vale, a de 2017 ou a de 2022

Versão de 2017

A versão anterior do protocolo arrolava a penicilamina entre os medicamentos do tratamento, com dezenove menções ao longo do documento, incluindo orientações de monitorização e o termo de esclarecimento assinado pelo paciente.

Conitec, Relatório de Recomendação nº 284, junho de 2017, e Portaria Conjunta nº 9, de 28 de agosto de 2017

Versão de 2022

A lista vigente traz azatioprina, anlodipino, captopril, ciclofosfamida, metotrexato, metoclopramida, nifedipino, omeprazol, prednisona e sildenafila. A penicilamina não aparece nenhuma vez, nem no protocolo nem no relatório que o acompanha.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Esclerose Sistêmica, Portaria Conjunta nº 16, de 10 de agosto de 2022, item 6.3

Na prova

Questão de banca costuma envelhecer mal em lista de medicamento. O sinal que identifica o recorte é a data citada no enunciado ou no comando: se o enunciado menciona o protocolo vigente, a lista é a de dez itens e a penicilamina é distrator. Vale a mesma regra para as seções de monitorização, que atravessaram as duas versões praticamente sem alteração — treze frases longas são idênticas nos dois documentos, cinco anos e dois grupos elaboradores depois.

06

Caso resolvido

Mulher de 46 anos procura o ambulatório por falta de ar aos esforços há sete meses e tosse seca. Conta que os dedos ficam brancos e depois arroxeados no frio desde os 30 anos, e que há dois anos usa omeprazol por azia diária. Ao exame, dedos com pele espessada até as articulações metacarpofalangeanas, sem espessamento no dorso da mão; polpas digitais com duas depressões puntiformes cicatriciais; estertores em velcro nas bases. Fator antinuclear positivo com padrão nucleolar e anti-topoisomerase I positivo. Prova de função pulmonar com capacidade vital forçada de 68% do predito e difusão reduzida; tomografia de alta resolução com faveolamento subpleural em cerca de 15% do parênquima. Pressão arterial 118 por 74 mmHg, creatinina 0,8 mg/dL.
somar antes de nomear
O espessamento para nas metacarpofalangeanas, então o item de nove pontos não se aplica e a conta é por partes. Espessamento distal às metacarpofalangeanas, quatro. Microcicatriz de polpa, três — e não se somam também os dois da úlcera, porque só a maior pontuação do item entra, e além disso não há úlcera aberta aqui. Fenômeno de Raynaud, três. Anti-topoisomerase I, três. Doença intersticial pulmonar, dois. Total de quinze, muito acima do corte de nove.
o que não somar
O padrão nucleolar do fator antinuclear não é item do quadro e não pontua sozinho; quem pontua é o anticorpo específico identificado. Não há telangiectasia nem capilaroscopia descritas, e nada obriga a inventá-las para fechar — a soma já passou. Se a capilaroscopia tivesse sido feita e mostrado padrão esclerodérmico, acrescentaria dois e o total iria a dezessete.
a ordem do rastreio já foi cumprida
A prova de função pulmonar com difusão veio alterada e só então a tomografia foi feita — exatamente a sequência que o protocolo determina. Se a vinheta tivesse trazido a tomografia sem a prova de função, a crítica correta seria à ordem, não ao achado.
escolher o tratamento pelo órgão, não pela pontuação
O órgão que decide aqui é o pulmão, e a primeira linha das manifestações pulmonares é a ciclofosfamida. Micofenolato e rituximabe não são preconizados por não constarem em bula para esta indicação, e o nintedanibe não é preconizado por risco de viés alto do único ensaio disponível — apesar de ter registro para ela. Nenhum dos três é a resposta.
o refluxo não é detalhe de cenário
A azia diária com omeprazol há dois anos é manifestação da doença, não comorbidade avulsa: o omeprazol está no próprio protocolo para prevenção de complicações do refluxo. Se houvesse empachamento e saciedade precoce, entraria a metoclopramida como pró-cinético.
o que vigiar a partir de agora
Pressão arterial e creatinina, com atenção redobrada se entrar corticoide, porque o protocolo pede dose e tempo minimizados justamente pelo risco de crise renal. E, se a crise vier, a direção do condicional: inibidor da enzima conversora para tratar, não antes para prevenir.
07

Agora feche você

Homem de 58 anos, jateador de areia por 22 anos, é encaminhado por dispneia progressiva há um ano. Refere que os dedos empalidecem no frio há cerca de três anos. Ao exame, algumas telangiectasias na face e no leito ungueal, sem espessamento cutâneo palpável em dedos ou mãos, sem lesões de polpa digital. Tomografia de alta resolução, solicitada após prova de função pulmonar alterada, mostra padrão intersticial em bases. Anticentrômero positivo. Capilaroscopia periungueal não realizada.
faça a soma com o que está descrito
Liste os itens presentes e atribua o peso de cada um, lembrando que o espessamento cutâneo está explicitamente ausente e que a capilaroscopia não foi feita. Chegue a um número antes de olhar o resto.
decida se ele atravessa o corte
Compare a soma com nove. Se ficar abaixo, identifique quais exames ou achados ainda disponíveis poderiam completar a conta, e quanto cada um acrescentaria.
resolva o vizinho ocupacional
A exposição à sílica muda a classificação? Decida se o antecedente entra na conta de pontos ou se ele pertence a outra pergunta.
diga o que pedir agora
Escolha o próximo exame, justificando pelo que ele acrescenta à decisão — e não apenas por ser o exame que faltou.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Somar as duas pontuações do mesmo item Tanto o item de espessamento dos dedos quanto o de lesão de polpa mandam considerar apenas a maior pontuação. Doente com esclerodactilia e edema não faz quatro mais dois; faz quatro. Doente com úlcera e microcicatriz não faz cinco; faz três. Esse é o erro que mais infla escore em prova e o mais fácil de cometer com pressa.
  2. 2Achar que anticorpo positivo em dobro vale o dobro Anticentrômero, anti-topoisomerase I e anti-RNA polimerase III dividem um único item de três pontos. Painel com dois positivos continua valendo três. A mesma trava vale para hipertensão arterial pulmonar e doença intersticial, que dividem um item de dois.
  3. 3Usar inibidor da enzima conversora para prevenir a crise renal É a inversão mais cobrada do capítulo. A classe é primeira escolha na crise instalada e se mantém indefinidamente depois dela, mas o protocolo diz expressamente que não há indicação de uso preventivo, por associação a piores desfechos em estudos observacionais. Quem transporta o hábito da nefroproteção do diabetes erra com convicção.
  4. 4Pedir tomografia de alta resolução como rastreio inicial A sequência do protocolo é prova de função pulmonar com difusão primeiro e tomografia apenas se houver alteração. Alternativa que oferece imagem para todo paciente no momento do diagnóstico inverte a ordem, e a inversão é o que a questão está medindo.
  5. 5Confundir ponto percentual com porcentagem no desfecho pulmonar A diferença de 1,2 na capacidade vital forçada expressa em porcentagem do predito é de 1,2 pontos percentuais por ano. Lida como 1,2% de melhora relativa, ou como 1,2% ao ano acumulando, ela vira um efeito que o estudo não mostrou. A mesma armadilha aparece sempre que o desfecho já é uma porcentagem.
  6. 6Fechar Sjögren pela boca seca isolada Secura relatada não é secura objetivada, e xerostomia tem causas muito mais comuns que a síndrome — anticolinérgico, antidepressivo, diurético, respiração bucal, radioterapia cervical. O que sustenta o diagnóstico é a combinação de secura objetivada com anticorpo anti-Ro/SSA ou histologia de glândula salivar menor com foco linfocitário.
  7. 7Tratar a poupança dos dedos como detalhe da morfeia Na morfeia panesclerótica, poupar quirodáctilos, pododáctilos e mamilos é justamente o discriminador contra a esclerose sistêmica, que começa pelos dedos. Quando a vinheta descreve grande área de pele endurecida com dedos livres, ela está dizendo qual é o diagnóstico, não descrevendo cenário.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

A tríade de xeroftalmia (Schirmer alterado), xerostomia com cáries de repetição e parotidomegalia, somada a anti-Ro/SSA e anti-La/SSB positivos, define a síndrome de Sjögren. LES pode cursar com anti-Ro, mas faltam critérios sistêmicos (artrite, nefrite, cutâneo) e o quadro seco domina. Sarcoidose causa parotidomegalia (síndrome de Heerfordt), mas cursa com adenopatia hilar/hipercalcemia e sem anti-Ro/La. Doença por IgG4 dá aumento glandular firme com IgG4 elevada, sem anti-Ro/La. Amiloidose causa infiltração glandular, mas não esse perfil autoimune.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Classificação de esclerose sistêmica: nove pontos entre oito itens. O espessamento cutâneo proximal às metacarpofalangeanas vale nove e fecha sozinho. Dentro do item de pele e do item de polpa digital entra só a maior pontuação: esclerodactilia quatro ou dedo edemaciado dois; microcicatriz três ou úlcera digital dois — a cicatriz pesa mais que a lesão aberta. Raynaud três, anticorpos específicos três com teto de três mesmo em painel duplo, telangiectasias dois, capilaroscopia periungueal alterada dois, e hipertensão pulmonar ou doença intersticial dois num item único. Doença intersticial mais Raynaud mais anticorpo dá oito e não classifica: falta um ponto, que telangiectasia ou capilaroscopia resolvem. Rastreio pulmonar é prova de função com difusão primeiro, tomografia depois. Crise renal: captopril para tratar e manter indefinidamente, nunca para prevenir; pressão prévia recuperada em 72 horas; diálise em cerca de metade, com recuperação em 12 a 18 meses numa parte.

em 30 dias

Tratamento por órgão: ciclofosfamida é primeira linha pulmonar, com azatioprina como alternativa para intolerantes e inferior a ela na capacidade vital forçada; metotrexato é primeira opção cutânea; bloqueador de canal de cálcio abre o tratamento do Raynaud, com sildenafila para úlcera digital refratária; metoclopramida e omeprazol para o trato digestivo. Ficaram de fora micofenolato e rituximabe por não constarem em bula, apesar de o rituximabe ter o único resultado de superioridade sobre a ciclofosfamida, e nintedanibe por risco de viés alto, apesar de ter registro. A consulta pública de 2022 recebeu 2.177 contribuições, 45% avaliando o documento como muito ruim, com cartas de duas sociedades pedindo nintedanibe, e a recomendação não mudou. Sjögren, por sua vez, é regida no país por recomendação de sociedade de 2015: pilocarpina 5 mg de duas a quatro vezes ao dia, cevimelina indisponível no Brasil, N-acetilcisteína 200 mg até três vezes ao dia; o diagnóstico se apoia em secura objetivada, anti-Ro/SSA e biópsia de glândula salivar menor com foco de 50 ou mais linfócitos. Diferenciais de pele dura: morfeia poupa os dedos, fasciíte eosinofílica pede biópsia profunda.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Mulher de 44 anos chega ao ambulatório com queixa de dedos que ficam brancos no frio e de dificuldade para engolir comida seca. Conta que a boca vive seca e que precisa de água para engolir pão, e que os olhos ardem no fim do dia. Traz um exame com fator antinuclear positivo feito por conta própria. Conduza a anamnese, decida quais achados de mão e de polpa digital precisa examinar, escolha os exames que somam ponto e explique a ela o que muda conforme a conta feche ou não. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Esclerose sistêmica, Sjögren e outras colagenoses – Esclerose sistêmica e Sjögren: nove pontos, e o doente do ensaio soma oito — Preparatório para provas | OsceLabs