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Clínica MédicaReumatologia

Vasculites sistêmicas: o protocolo cobre duas, a prova cobra o resto

Reconhecer o fenótipo, confirmar com ANCA e biópsia quando possível, estratificar gravidade e induzir remissão sem atrasar o tratamento.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 58 anos apresenta há 3 semanas cefaleia temporal nova, dor à palpação do couro cabeludo, claudicação de mandíbula e episódio de amaurose transitória no olho direito. Ao exame: PA 134x82 mmHg, FC 80 bpm; artéria temporal direita endurecida e dolorosa. Exames: VHS 92 mm/h, PCR muito elevada. Além de solicitar biópsia de artéria temporal, qual é a conduta imediata mais adequada?

02

Como esse tema cai

Vasculite é a palavra que a prova usa para separar quem estudou por doença de quem estudou por síndrome. O enunciado clássico entrega um paciente de meia-idade com sintomas constitucionais que duram semanas, alguma queixa de via aérea superior que já passou por dois otorrinolaringologistas, e um exame de urina que ninguém tinha pedido. Quando a creatinina aparece subindo e o sedimento vem ativo, a questão deixa de ser sobre sinusite e passa a ser sobre qual órgão está sendo perdido enquanto o candidato pensa.

Este capítulo trabalha o grupo que o Brasil regulamentou por escrito e as vizinhanças que a prova cobra junto. O eixo é a vasculite associada aos anticorpos anticitoplasma de neutrófilos, com as duas doenças que o protocolo federal cobre — granulomatose com poliangiite e poliangiite microscópica —, mais a terceira que a mesma norma nomeia na abertura e exclui na página seguinte. Em volta ficam as vasculites que aparecem nas alternativas de todo enunciado do tema: poliarterite nodosa, arterite de células gigantes, arterite de Takayasu e as crioglobulinêmicas.

O que se desenvolve aqui é o que separa uma da outra e o que cada documento manda fazer: o calibre do vaso, o padrão de acometimento por órgão, a sorologia que dá nome ao grupo, a biópsia que confirma, os dois escores que medem coisas diferentes com o mesmo intervalo de tempo, e a indução de remissão como está escrita na norma nacional e como está escrita na recomendação da sociedade de especialidade.

Fica de fora, com dono declarado nesta coleção. A vasculite por imunoglobulina A da criança, com a púrpura palpável de nádegas e a dor abdominal em cólica, é do capítulo de púrpura de Henoch-Schönlein da apostila de Hematologia Pediátrica, e é de lá que vêm os critérios formais e a escada terapêutica pediátrica. A doença de Kawasaki é da apostila de Infectologia Pediátrica. A arterite de células gigantes como cefaleia de alarme do paciente acima de cinquenta anos já é ensinada no capítulo de cefaleias secundárias da apostila de Neurologia, e aqui ela entra apenas onde muda a classificação por calibre de vaso.

Fica de fora também, com número devolvido ao vizinho. A investigação da síndrome nefrítica rapidamente progressiva pertence ao capítulo de síndrome nefrótica e síndrome nefrítica da apostila de Nefrologia, que já ensina o essencial — complemento normal aponta vasculite associada ao ANCA ou doença por anticorpo antimembrana basal, e a biópsia continua urgente. O que faltava lá e entra aqui é o desfecho: a doença renal terminal alcança cerca de 30% desses pacientes em cinco anos, mesmo com o tratamento moderno, e a positividade da biópsia depende de qual tecido foi puncionado.

03

O que muda decisão

A clínica: uma desce pelo ar, a outra sobe pelo rim

A granulomatose com poliangiite se apresenta de cima para baixo. O nariz produz crostas, rinorreia e epistaxe, e evolui para perfuração de septo e para o nariz em sela; some o olfato. Os seios da face inflamam e o osso erode. A boca traz úlceras e a gengiva em morango. O ouvido faz otite serosa ou purulenta e granuloma de ouvido médio, com perda auditiva neurossensorial. A região subglótica estenosa. A órbita ganha massa retro-orbitária, com proptose, diplopia, esclerite necrotizante e, no extremo, isquemia do nervo óptico.

Descendo, o pulmão dessa doença faz nódulos múltiplos e bilaterais que cavitam, infiltrados e hemorragia alveolar — e a norma registra o dado que muda a conduta de rastreio: um terço dos pacientes com acometimento pulmonar é assintomático. O rim faz glomerulonefrite necrosante segmentar e focal, extracapilar, pauci-imune. Completam o quadro artralgia e artrite, febre e perda de peso, neuropatia periférica ou craniana, paquimeningite hipertrófica, púrpura palpável com necrose digital, e miocardite ou pericardite.

A poliangiite microscópica se apresenta de dentro do rim para fora. O rim é o órgão mais acometido e a glomerulonefrite necrosante segmentar e focal costuma vir acompanhada. O pulmão participa de duas maneiras opostas: capilarite com hemorragia alveolar, que é aguda e mata, ou doença pulmonar intersticial, que é arrastada e cujo padrão mais comum é o de pneumonia intersticial usual. O trato gastrointestinal faz vasculite com dor, sangramento, angina mesentérica e perfuração. A pele faz púrpura palpável, nódulos, úlceras e livedo reticular. O nervo faz mononeurite múltipla e polineuropatia.

A frase que o avaliador gosta de cobrar por escrito está na norma: a poliangiite microscópica é a principal causa de síndrome pulmão-rim. Diante de hemoptise com creatinina subindo, ela abre a lista do grupo, seguida pela granulomatose — e o diferencial que não pode faltar é a doença por anticorpo antimembrana basal glomerular, ao lado de lúpus, síndrome antifosfolípide e leptospirose.

O anticorpo que dá nome à doença e que a norma diz não ter

A classificação sorológica separa os que reagem contra a proteinase 3 dos que reagem contra a mieloperoxidase. Na prática de prova, a primeira especificidade acompanha a granulomatose e a segunda acompanha a poliangiite microscópica, com sobreposição suficiente para que nenhuma das duas feche diagnóstico sozinha. A norma reconhece que a apresentação clínica típica de vasculite de pequenos vasos somada a essa sorologia pode apoiar o diagnóstico mesmo sem histologia — e, na frase seguinte, diz que esses exames não estão disponíveis no Sistema Único de Saúde e não são preconizados por ela.

A mesma norma volta ao assunto na seção de monitoramento, com o veredito invertido. Ali, a pesquisa por imunofluorescência indireta ou por ensaio de fase sólida é descrita como útil para estimar risco de recidiva quando o anticorpo persiste positivo ao fim da indução, quando volta a positivar, ou quando o título dobra. E fecha, de novo, dizendo que esses exames não estão disponíveis no Sistema Único de Saúde. O mesmo teste é rejeitado numa seção e recomendado na outra, com a mesma justificativa de indisponibilidade nas duas.

O calendário explica o desencontro e vale como aula sobre o sistema. O teste para proteinase 3 tem registro na Anvisa desde 16 de janeiro de 2023; o de mieloperoxidase, desde 5 de agosto de 2024 — 567 dias depois. O protocolo foi assinado em 1º de julho de 2025, quase onze meses após o segundo registro, e ainda assim declarou os dois indisponíveis. Em outubro de 2025 o comitê competente da Conitec recomendou por unanimidade a incorporação dos dois ensaios, a pedido da própria secretaria do ministério e em razão da atualização do protocolo.

A lição transferível é que registro sanitário não é incorporação: aprovação da agência significa que o produto pode ser vendido no país, não que o sistema público o oferece. E o relatório que recomendou a incorporação registra, com honestidade que a prova raramente reproduz, que nenhum estudo comparou os ensaios com a biópsia renal ou pulmonar — o que existe é desempenho medido em pacientes já diagnosticados, com especificidade acima de 95%.

Duas armadilhas sorológicas fecham a seção, e ambas estão escritas na norma. A endocardite bacteriana subaguda simula vasculite associada ao ANCA, inclusive com sorologia falso-positiva — tratar essa como aquela é imunossuprimir quem tem bacteriemia. E o usuário de cocaína adulterada com levamisol faz lesões de linha média e púrpura retiforme, com falso-positivo para o anticorpo e para as duas especificidades.

A biópsia é padrão-ouro e é o que muitos pacientes não podem fazer

Os critérios de inclusão do protocolo pedem diagnóstico clínico e histopatológico — a conjunção é aditiva, não alternativa. Na seção diagnóstica, a positividade da biópsia do órgão acometido é descrita como altamente indicativa e tratada como critério padrão-ouro, com a biópsia renal cumprindo ainda o papel de separar atividade de dano permanente e de estimar prognóstico, pela classificação de Berden e pelo escore de risco renal.

Duas páginas depois, a mesma norma desmonta a exigência que acabou de fazer. Reconhece que a biópsia pode não ser viável quando o tecido é inacessível, como na massa retro-orbitária, ou quando o procedimento é arriscado, como no paciente anticoagulado. E publica os números que decidem: a biópsia de via aérea superior tem 30% de positividade e a transbrônquica, 12%. Recalculando pelo complemento, isso significa que a via aérea superior devolve resultado negativo em 70% das vezes e a transbrônquica em 88% — em pacientes que têm a doença.

A norma fecha as duas portas de confirmação e mantém aberta apenas a mais invasiva — e é por isso que a frase de salvação, também dela, precisa ser decorada: o início do tratamento não deve ser adiado pela espera do resultado histológico. Fica registrado o que não reconcilia: não há, no texto federal, regra que resolva o caso do paciente sem biópsia possível e sem sorologia disponível. Quem tenta harmonizar as duas frases inventa uma regra que a norma não escreveu; o que se pode afirmar é o que está nas duas — trate, e continue perseguindo a confirmação.

Vale separar o que a imagem faz e o que não faz. Tomografia e ressonância de tórax avaliam extensão, e a norma é explícita ao dizer que não confirmam nem afastam o diagnóstico; já a suspeita de glomerulonefrite se sustenta em hematúria dismórfica e cilindros hemáticos no sedimento, e a mononeurite múltipla exige confirmação eletrofisiológica.

Instrumentos de medida: dois escores e uma estratificação

A atividade é medida pela terceira versão do Birmingham Vasculitis Activity Score. O instrumento avalia manifestações de nove órgãos ou sistemas, com pontuação de 0 a 64. Remissão é definida como pontuação zero, e atividade como pontuação de um ou mais. Só entram itens atribuíveis à vasculite ativa: dano permanente e infecção ativa ficam de fora, o que impede que a sequela de ontem seja contada como doença de hoje. A norma manda aplicá-lo em todas as consultas, e registra que a pontuação depende de dois exames: urina I e creatinina sérica.

A janela temporal do escore tem dois valores, e é aqui que a leitura descuidada erra. Item novo ou item que piorou conta se estiver presente nas últimas quatro semanas. Item de atividade persistente conta com janela de três meses. Não são dois escores: é o mesmo escore com dois relógios, e o relógio depende de o achado ser novidade ou continuação.

O dano acumulado é medido por outro instrumento, o Vasculitis Damage Index. Ele é cumulativo — só sobe, nunca desce — e soma um ponto a cada novo item que dure três meses ou mais. Note a coincidência que a prova explora: três meses é, ao mesmo tempo, a janela em que um achado ainda conta como atividade persistente no primeiro escore e o prazo a partir do qual o mesmo achado passa a contar como dano permanente no segundo.

A consequência clínica é fina e cobrável. O mesmo achado, no mesmo paciente, pode ser lido como doença em atividade que pede intensificar imunossupressão ou como sequela que pede parar de intensificar, e o que decide não é a natureza do achado: é há quanto tempo ele está lá e se ele apareceu ou piorou. O escore de atividade governa a decisão de tratar; o escore de dano governa a conversa sobre prognóstico. Trocar um pelo outro é imunossuprimir sequela — o erro mais caro do acompanhamento dessas doenças.

A mesma norma estratifica a extensão em cinco degraus vindos do European Vasculitis Study — localizada, sistêmica não crítica, generalizada, grave e refratária —, e só os dois do meio têm âncora laboratorial. A âncora é uma conversão: quinhentos micromoles por litro de creatinina divididos por 88,4 dão 5,656 mg/dL, que arredonda para 5,7 e trunca para 5,6. O protocolo federal e a tabela de estratificação da recomendação brasileira escrevem 5,6; a tabela de redução de dose da ciclofosfamida, na mesma publicação da sociedade, escreve a faixa de 300 a 500 micromoles como 3,4 a 5,7 mg/dL — e 300 dividido por 88,4 dá 3,394, que arredonda para 3,4 sem discussão.

Os dois valores designam o mesmo limiar, e a diferença de 0,1 mg/dL não muda conduta em nenhum paciente real — muda o que o candidato reconhece como número correto quando a alternativa traz um e o enunciado citou o outro. Saber a conversão dispensa decorar qual versão a banca copiou.

Indução: quem recebe o biológico, e por que o critério não é clínico

A indução preconizada tem glicocorticoide — prednisona oral ou metilprednisolona intravenosa — mais ciclofosfamida ou rituximabe, ambos intravenosos. E a norma avisa, numa linha fácil de perder, que não inclui o tratamento de manutenção.

O acesso ao rituximabe é a parte cobrável, e ele não foi desenhado pela gravidade. A Portaria nº 44, de 27 de julho de 2023, incorporou o medicamento para duas situações, e o protocolo apenas as reproduz: paciente com 18 anos ou mais e diagnóstico recente em idade fértil com indicação de indução, ou diagnóstico de recidiva de doença ativa e grave. A ordem cronológica explica a rigidez — o medicamento foi incorporado antes de existir protocolo, e a elaboração correu em caráter emergencial justamente por causa disso, sem espaço para avaliar outras tecnologias.

Na consulta pública, alguém pediu exatamente o que a clínica pede: estender o biológico de primeira linha a pacientes fora da idade fértil, com forma grave e risco à vida ou à função de dois órgãos. A resposta foi recusa, com fundamento formal — a indicação incorporada é a da portaria. Fica então o condicional invertido que o capítulo precisa nomear: idade fértil não é critério de gravidade nem de resposta ao medicamento; é critério de preservação da fertilidade, porque a ciclofosfamida é gonadotóxica e categoria X na gestação. Quem tem fertilidade a perder ganha o biológico primeiro; quem já não tem recebe o alquilante e só alcança o biológico depois de falhar com ele.

A reedição pós-publicação acrescentou um deslocamento de sentido que muda quem entra: recidiva passou a ser considerada a refratariedade ao tratamento com ciclofosfamida. Clinicamente, recidivar é voltar a adoecer após remissão e ser refratário é nunca ter remitido — estados opostos que a norma igualou numa porta de entrada só.

As doses do alquilante são objetivas: 15 mg/kg por via intravenosa, três aplicações no primeiro mês com intervalo de duas semanas, depois a cada três semanas, por três a seis meses ou até a remissão, com ajuste pela contagem de linfócitos mantida em torno de 1.000 células por milímetro cúbico, e infusão de 60 a 120 minutos com antiemético profilático. A recomendação da sociedade ajusta por outro eixo — reduz 2,5 mg/kg por pulso entre 60 e 70 anos e 5,0 mg/kg acima de 70 anos, e reduz 2,5 mg/kg quando a creatinina está entre 3,4 e 5,7 mg/dL. Sobre 15 mg/kg, essas reduções valem 16,7% e 33,3% da dose; nenhuma delas está no texto federal.

Corticoide e rituximabe: tetos que aparecem numa página e somem na outra

A seção de esquemas do protocolo prescreve prednisona a 1 mg/kg/dia, sem teto. Páginas adiante, o parágrafo que descreve o uso combinado com o biológico prescreve a mesma prednisona a 1 mg/kg/dia sem exceder 80 mg/dia, com retirada tão rápida quanto a clínica permitir. A recomendação da sociedade brasileira escreve a faixa completa: 0,5 a 1,0 mg/kg/dia, máximo de 80 mg/dia, por uma a quatro semanas, antes da redução.

O teto de 80 mg não é detalhe cosmético: ele converte a regra em outra regra acima de certo peso. Um paciente de 100 kg recebe 0,8 mg/kg; um de 120 kg recebe 0,67 mg/kg — ambos dentro da faixa da sociedade e abaixo do valor pontual que o próprio protocolo escreve. A dose por quilo deixa de valer aos 80 kg, e o documento diz isso num parágrafo e não diz no outro.

A pulsoterapia repete o padrão. O protocolo prescreve metilprednisolona 1 g por dia, por até três dias, o que autoriza 3 g cumulativos; as duas coortes que ele cita como evidência usaram dose média de 1,5 g e regime de 5 a 10 mg/kg por três dias, ou seja, 1,05 a 2,1 g num adulto de 70 kg. O teto autorizado fica 43% acima do topo do regime estudado — e a norma reconhece, em voz alta, que não existe evidência robusta sobre via e dose inicial ótimas.

A recomendação da sociedade tem uma faixa que atravessa o próprio teto, e ela é o exemplo mais limpo do capítulo. O texto prescreve pulso de 15 mg/kg/dia ou 0,5 a 1,0 g/dia por um a três dias, e declara, na revisão que sustenta a recomendação, dose máxima por pulso de 1 g. Quinze miligramas por quilo alcançam 1.000 mg aos 66,7 kg. Para qualquer adulto acima desse peso, a regra por quilo ultrapassa o limite escrito no mesmo parágrafo — e o limite é que vale.

O rituximabe tem dois esquemas e um prazo que só serve a um deles. O principal é 375 mg/m² por semana durante quatro semanas; o opcional são duas infusões de 1.000 mg, no primeiro e no décimo quinto dia — quatorze dias de intervalo, exatamente as duas semanas que a recomendação da sociedade descreve. Para 1,73 m² de superfície corpórea, o semanal entrega cerca de 2.595 mg e o opcional entrega 2.000 mg, 23% menos; e o critério de interrupção fixa tempo de tratamento de quatro semanas, prazo que o esquema opcional cumpre em duas.

A infusão tem aritmética própria, útil na enfermaria e ausente das provas. Começa a 50 mg por hora e sobe 50 mg por hora a cada 30 minutos, até o máximo de 400 mg por hora — sete degraus, três horas e meia só para chegar à velocidade máxima. Nesse período são infundidos 700 mg; os 300 mg restantes de uma dose de 1.000 mg levam mais 45 minutos. Uma infusão de 1.000 mg leva cerca de quatro horas e quinze minutos quando nada dá errado.

Plasmaférese: o mesmo 5,8 mg/dL, dois vereditos

A recomendação da Sociedade Brasileira de Reumatologia, de 2017, indica plasmaférese com grau A para o paciente com glomerulonefrite rapidamente progressiva e creatinina acima de 5,8 mg/dL, porque o procedimento melhora a sobrevida renal quando associado a glicocorticoide e ciclofosfamida. Ela detalha o esquema: sete sessões em dias alternados, troca de 60 mL/kg por sessão, reposição com albumina a 5% e, ocasionalmente, plasma fresco congelado ao final para repor fatores de coagulação. E marca com grau D o vão honesto: para hemorragia alveolar, as evidências ainda não bastam.

O protocolo federal de 2025 cita a mesma metanálise, com o mesmo 5,8 mg/dL e o mesmo achado de benefício renal, e cita também o ensaio clínico randomizado que comparou plasmaférese inicial contra nenhuma plasmaférese, com todos recebendo ciclofosfamida ou rituximabe, e que não encontrou redução de morte nem de doença renal terminal. A conclusão que ele extrai é oposta: a plasmaférese não é recomendada como terapia de indução, nem no recém-diagnosticado nem na recaída.

O número sobreviveu inteiro e o veredito virou. O que mudou entre 2017 e 2025 não foi o limiar de creatinina: foi a entrada do ensaio randomizado, que testou o desfecho duro em vez do desfecho renal isolado. Quando a metanálise de estudos observacionais e o ensaio randomizado discordam, o documento mais recente escolheu o ensaio — e é essa a hierarquia que a prova cobra quando cita as duas fontes lado a lado.

Confira a conversão que aproxima os dois limiares sem igualá-los: 5,8 mg/dL correspondem a 512,7 micromoles por litro, 12,7 acima dos 500 que definem o degrau grave. Não são o mesmo corte e não vieram do mesmo lugar — um é definição de extensão, o outro é população de metanálise.

Antes de imunossuprimir, e a janela cega do acompanhamento

O protocolo é minucioso com o que vem antes da primeira dose, e essa minúcia cai em prova. Sorologias para vírus da imunodeficiência humana, hepatite B, hepatite C e sífilis; nos portadores crônicos dos dois primeiros, o biológico só com antiviral concomitante e parecer de infectologia. Vacinação preferencialmente antes da infusão, com ênfase em influenza anual, pneumococo e hepatite B. Imunoglobulinas séricas e contagem de linfócitos B antes e logo depois da administração.

A tuberculose tem roteiro próprio: radiografia de tórax para todos, independentemente de sintomas, para afastar doença ativa, e prova tuberculínica ou ensaio de liberação de interferona-gama para a forma latente. Tratamento da forma latente com prova tuberculínica de 5 mm ou mais, ou com ensaio reagente — e também diante de alteração radiográfica compatível com doença prévia não tratada ou contato próximo nos últimos dois anos, sem precisar de prova nenhuma. O biológico começa quatro semanas depois de iniciado esse tratamento, e quem já tratou a forma latente em qualquer momento da vida não repete, salvo nova exposição.

Uma parasitose fecha a lista, e é a mais esquecida. Doentes reumáticos sob imunossupressão adoecem gravemente de estrongiloidíase, que dissemina para fora do trato gastrointestinal — a norma manda avaliar e tratar helmintíases e protozooses antes de iniciar terapia imunossupressora ou biológica.

O acompanhamento tem uma janela cega entre aferições obrigatórias, e ela é aritmética. Em atividade, o paciente é avaliado mensalmente; nas fases iniciais de remissão, a cada dois a três meses; depois de dois anos em remissão, a cada três a seis meses. A imunoglobulina G, que identifica a hipogamaglobulinemia secundária ao rituximabe, é dosada antes da infusão e novamente após quatro a seis meses de cada dose. Um paciente em remissão pode, portanto, comparecer a duas ou três consultas regulares no intervalo em que sua imunoglobulina não é medida, e adoecer de infecção justamente ali.

O limiar dessa dosagem aparece duas vezes no mesmo parágrafo e em unidades diferentes. Primeiro como hipogamaglobulinemia grave com imunoglobulina G abaixo de 500 mg/L; três linhas depois, como persistência de níveis abaixo de 500 mg/dL. As duas escritas diferem por um fator de dez: 500 mg/dL equivalem a 5 g/L, que é o corte clínico habitual, enquanto 500 mg/L equivalem a 0,5 g/L, valor de agamaglobulinemia profunda. Não há como reconciliar as duas frases pelo texto — a unidade correta se reconhece pela clínica, não pela norma. Fica registrado como está: o mesmo número, com duas naturezas, na mesma página.

O que fica fora do protocolo e continua caindo

A granulomatose eosinofílica com poliangiite é a ausência mais cobrada: pertence ao grupo pela definição internacional, abre a norma e está excluída dos critérios de inclusão por decisão expressa — e o pedido de incorporar mepolizumabe para ela, feito na consulta pública, não foi acatado. Para a prova, o que a identifica é a tríade de asma, eosinofilia e vasculite, com anticorpo positivo numa minoria dos pacientes: sorologia negativa não a exclui.

A poliarterite nodosa é a vizinha de calibre. É vasculite de vasos de médio calibre, não faz glomerulonefrite e não tem o anticorpo; sua marca de prova é o aneurisma sacular na angiografia e a associação com hepatite B, que já é ensinada nos capítulos de hepatite B desta coleção. A norma a nomeia entre os diagnósticos diferenciais obrigatórios, ao lado da forma eosinofílica e da policondrite recidivante.

Os grandes vasos completam o mapa por calibre. A arterite de Takayasu atinge mulheres jovens, com assimetria de pulsos e de pressão entre os membros e sopros arteriais. A arterite de células gigantes atinge quem passou dos 50 anos, com cefaleia temporal nova, claudicação de mandíbula e risco de perda visual — eixo que já tem dono nesta coleção, no capítulo de cefaleias secundárias da apostila de Neurologia.

Fecham a lista as vasculites de pequenos vasos por imunocomplexos, que se separam do grupo pauci-imune exatamente pelo depósito: a vasculite por imunoglobulina A, com dono pediátrico nesta coleção, e a crioglobulinêmica, que anda com a hepatite C — cujo capítulo já registra a vasculite sistêmica entre as manifestações extra-hepáticas que qualificam para tratamento. Fecha o círculo: no grupo pauci-imune o alvo é a imunossupressão; na crioglobulinêmica associada a vírus, o alvo é o vírus.

A sigla promete três doenças, o protocolo entrega duas

A Conferência de Consenso de Chapel Hill, de 1994 e revista em 2013, é a régua internacional que organiza o grupo. Ela reúne sob o rótulo de vasculite associada ao ANCA a granulomatose com poliangiite, antes chamada doença de Wegener, a poliangiite microscópica e a granulomatose eosinofílica com poliangiite, antes chamada síndrome de Churg-Strauss, mais as formas restritas a um órgão, como a vasculite renal limitada. São doenças de vasos de pequeno calibre, com inflamação e necrose da parede e sem depósito significativo de imunocomplexos — daí o adjetivo que a histologia usa, pauci-imune.

O protocolo federal brasileiro abre citando exatamente essa lista de três, e depois estreita três vezes seguidas, em direções que não coincidem. A seção de códigos lista dois: granulomatose de Wegener e poliangeíte microscópica. Os critérios de inclusão listam três entidades: as duas anteriores mais a vasculite renal limitada. A elegibilidade ao biológico volta a duas, granulomatose com poliangiite e poliangiite microscópica. E uma nota fecha a porta da terceira doença de Chapel Hill com uma frase só: pacientes com granulomatose eosinofílica com poliangiite não estão incluídos, porque a fisiopatologia e o tratamento são distintos.

O resultado prático é uma itemização que não fecha com a manchete. O paciente com vasculite renal limitada satisfaz o critério de inclusão e não tem, na própria norma, código sob o qual ser registrado; o paciente com a forma eosinofílica carrega o anticorpo que dá nome ao grupo, está na definição internacional que a norma reproduz no primeiro parágrafo, e está fora do documento inteiro.

Tabela de quatro linhas por quatro colunas. Linhas: granulomatose com poliangiite, poliangiite microscópica, vasculite renal limitada e granulomatose eosinofílica com poliangiite. Colunas: definição de Chapel Hill, lista de códigos do protocolo, critérios de inclusão e elegibilidade ao rituximabe. As duas primeiras entidades estão presentes nas quatro colunas. A vasculite renal limitada aparece apenas na definição internacional e nos critérios de inclusão. A granulomatose eosinofílica com poliangiite aparece apenas na definição internacional.
A mesma norma lista três entidades nos critérios de inclusão, duas na tabela de códigos e duas na elegibilidade ao biológico, e deixa de fora a terceira doença da definição que ela própria reproduz.

O mesmo parágrafo da norma publica dois conjuntos de números. Da Argentina vêm incidências de 14 e 9 por milhão para poliangiite microscópica e granulomatose com poliangiite, e prevalências de 5,2 e 7,4 por cem mil. Da literatura internacional vêm incidências de 13,07 a 18,3 por milhão na Espanha, 19,8 no Reino Unido, 13,7 na Austrália e 20,9 na Suécia, e uma estimativa de prevalência entre 200 e 400 casos por milhão.

As prevalências estão em denominadores diferentes, e converter é obrigatório antes de comparar. Cinco vírgula dois por cem mil equivalem a 52 por milhão; sete vírgula quatro por cem mil equivalem a 74 por milhão. Somadas, as duas doenças argentinas dão 126 por milhão. O piso da estimativa internacional impressa quatro linhas abaixo é 200 por milhão. A série latino-americana fica, portanto, 37% abaixo do menor valor com que o próprio texto a coloca lado a lado. Uma segunda conta explica o desencontro: incidência anual somada de 23 por milhão contra prevalência somada de 126 implica duração média de doença de cinco anos e meio, curta demais para essas doenças sob tratamento moderno. A leitura honesta é a que a norma quase escreve — os dados vieram de prontuários de centros de referência, e prevalência levantada em centro de referência subestima, porque só enxerga quem chegou lá.

Para a prova, o que sobrevive é o intervalo internacional de 200 a 400 por milhão e a faixa etária de 50 a 70 anos. O que a comparação ensina, e vale mais que o número, é que prevalência de doença rara medida em serviço terciário não é prevalência populacional.

04

As réguas, lado a lado

Três tabelas resolvem quase toda questão do tema: quem o protocolo federal cobre, como a extensão é estratificada e o que cada documento prescreve na indução. A quarta coluna da primeira tabela é a que mais derruba candidato, porque a elegibilidade ao biológico é mais estreita que a entrada no protocolo.

  1. 1Reconheça o padrão: sintomas constitucionais arrastados mais um órgão que não fecha com infecção — via aérea superior que não cicatriza, nódulo pulmonar que cavita, sedimento urinário ativo, mononeurite múltipla, púrpura palpável.
  2. 2Peça o exame de urina e a creatinina antes de qualquer sorologia: são eles que definem se o caso é urgente, e são eles que o escore de atividade exige para ser pontuado.
  3. 3Separe por calibre antes de separar por anticorpo: pequeno vaso pauci-imune é o grupo do protocolo; médio calibre sem glomerulonefrite aponta poliarterite nodosa; grandes vasos apontam Takayasu ou arterite de células gigantes.
  4. 4Procure a biópsia do órgão mais acessível e mais rendoso, sabendo o rendimento de cada tecido — e não adie o tratamento esperando o resultado.
  5. 5Estratifique pela extensão europeia e defina se há risco à vida ou à função de órgão; é essa resposta, e não o subtipo, que decide a agressividade da indução.
  6. 6Monte a indução com glicocorticoide mais um dos dois: ciclofosfamida intravenosa, ou rituximabe se o paciente cumprir o critério de idade fértil ao diagnóstico recente, ou de recidiva com refratariedade à ciclofosfamida.
  7. 7Antes da primeira dose: sorologias virais e para sífilis, rastreio de tuberculose ativa e latente, tratamento de parasitoses, vacinação e dosagem basal de imunoglobulinas.
  8. 8No seguimento, pontue atividade em toda consulta e some dano separadamente — e não confunda um instrumento com o outro.

Três escopos numa norma só

EntidadeTem código listado na normaEntra nos critérios de inclusãoElegível a rituximabe pelo SUS
Granulomatose com poliangiiteSim (M31.3, sob o nome antigo)SimSim, se diagnóstico recente em idade fértil ou recidiva grave
Poliangiite microscópicaSim (M31.7)SimSim, nas mesmas duas situações
Vasculite renal limitadaNão constaSimNão mencionada
Granulomatose eosinofílica com poliangiiteNão constaExcluída por nota expressaNão

Extensão pela estratificação europeia, e onde a creatinina entra

DegrauDefiniçãoÂncora laboratorial
LocalizadaRestrita aos tratos respiratórios, sem envolvimento sistêmico nem sintomas constitucionaisNenhuma
Sistêmica não críticaÓrgão acometido, sem risco iminente de dano irreversível nem de morteNenhuma
GeneralizadaRisco iminente à função renal ou de outro órgãoCreatinina abaixo de 500 µmol/L, escrita como 5,6 mg/dL
GraveInsuficiência renal aguda ou disfunção de outro órgãoCreatinina acima de 500 µmol/L, escrita como 5,6 mg/dL
RefratáriaProgressão apesar de glicocorticoide e ciclofosfamidaNenhuma

Indução: o que cada documento prescreve

ItemProtocolo federal, 2025Recomendação da sociedade, 2017
Prednisona1 mg/kg/dia; teto de 80 mg/dia aparece só no parágrafo do biológico0,5 a 1,0 mg/kg/dia, máximo 80 mg/dia, por 1 a 4 semanas
Metilprednisolona1 g/dia por até 3 dias15 mg/kg/dia ou 0,5 a 1,0 g/dia por 1 a 3 dias, máximo de 1 g por pulso
Ciclofosfamida15 mg/kg IV, 3 doses no 1º mês a cada 2 semanas, depois a cada 3 semanas por 3 a 6 meses; ajuste por linfócitosReduzir 2,5 mg/kg dos 60 aos 70 anos, 5,0 mg/kg acima de 70, e 2,5 mg/kg se creatinina de 3,4 a 5,7 mg/dL
Rituximabe, esquema375 mg/m² por semana por 4 semanas, ou 1.000 mg no 1º e no 15º dia375 mg/m² por semana por 4 semanas, ou 1 g em duas infusões com 2 semanas de intervalo
Rituximabe, quem recebeDiagnóstico recente em idade fértil, ou recidiva definida como refratariedade à ciclofosfamidaAlternativa à ciclofosfamida na forma generalizada, sobretudo se há contraindicação, dose cumulativa alta, jovem em idade fértil sem prole estabelecida ou doença recorrente
PlasmaféreseNão recomendada na induçãoIndicada com grau A na glomerulonefrite rapidamente progressiva com creatinina acima de 5,8 mg/dL; 7 sessões em dias alternados, 60 mL/kg, albumina a 5%
ManutençãoFora do escopo do documentoFora do escopo destas recomendações, que tratam de indução

As conversões conferidas: 500 µmol/L de creatinina equivalem a 5,656 mg/dL, o que arredonda para 5,7 e trunca para 5,6 — as duas grafias circulam nos documentos e designam o mesmo limiar. E 300 µmol/L equivalem a 3,394 mg/dL, escritos como 3,4 sem controvérsia.

O limiar de 5,8 mg/dL da plasmaférese equivale a 512,7 µmol/L e não é o mesmo corte dos 500 µmol/L da estratificação: um veio da população de uma metanálise, o outro da definição de extensão.

As reduções de ciclofosfamida da sociedade, aplicadas sobre os 15 mg/kg do protocolo, valem 16,7% da dose entre 60 e 70 anos e 33,3% acima de 70 anos.

Os dois esquemas de rituximabe não entregam a mesma quantidade: para superfície corpórea de 1,73 m², o semanal soma cerca de 2.595 mg e o de duas infusões soma 2.000 mg, 23% a menos.

A rampa de infusão do rituximabe, de 50 mg/h subindo 50 mg/h a cada 30 minutos até 400 mg/h, leva três horas e meia para atingir a velocidade máxima e entrega 700 mg nesse período; uma dose de 1.000 mg termina em cerca de quatro horas e quinze minutos.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Plasmaférese na glomerulonefrite rapidamente progressiva com creatinina alta

Não recomendada na indução

O ensaio clínico randomizado que comparou plasmaférese inicial contra nenhuma plasmaférese, com todos recebendo ciclofosfamida ou rituximabe, não mostrou redução de morte nem de doença renal em estágio terminal. Por isso o procedimento não é recomendado como terapia de indução de remissão, nem no recém-diagnosticado nem na recaída com doença ativa e grave.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Vasculite Associada aos Anticorpos Anti-citoplasma de Neutrófilos, Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 5, de 1º de julho de 2025, item de tratamento não medicamentoso.

Indicada com grau A acima de 5,8 mg/dL

A metanálise de sete estudos mostrou melhora na sobrevida renal em pacientes com glomerulonefrite rapidamente progressiva e creatinina sérica acima de 5,8 mg/dL, quando a plasmaférese é associada a glicocorticoide e ciclofosfamida. O esquema é de sete sessões em dias alternados, com troca de 60 mL/kg e reposição com albumina a 5%. Para hemorragia alveolar, a mesma recomendação marca grau D e reconhece que a evidência ainda não basta.

Recomendações da Sociedade Brasileira de Reumatologia para a terapia de indução para vasculite associada a ANCA, Revista Brasileira de Reumatologia, 2017, recomendação 9.

Na prova

As duas posições citam o mesmo limiar de 5,8 mg/dL, então o número não distingue o recorte — a âncora do enunciado distingue. Quando aparecem as palavras protocolo, diretriz terapêutica, Ministério da Saúde ou Sistema Único de Saúde, o avaliador está cobrando o texto federal, e a resposta é que a plasmaférese não é recomendada na indução. Quando o enunciado descreve por extenso o quadro renal, cita creatinina acima de 5,8 mg/dL e menciona sobrevida renal sem invocar norma nenhuma, ele está cobrando a régua da sociedade de especialidade, e a resposta é que o procedimento está indicado com o esquema de sete sessões. O que decide não é a gravidade do paciente descrito: é se o enunciado invocou uma norma.

Quem recebe rituximabe como primeira escolha na indução

Idade fértil ao diagnóstico, ou recidiva

O medicamento foi incorporado para indução em paciente com 18 anos ou mais e diagnóstico recente em idade fértil, ou com diagnóstico de recidiva de doença ativa e grave, entendida após a reedição como refratariedade ao tratamento com ciclofosfamida. Na consulta pública, o pedido de estender a indicação a pacientes fora da idade fértil com risco à vida ou à função de dois órgãos foi recusado, porque a indicação incorporada é a da portaria.

Portaria SECTICS/MS nº 44, de 27 de julho de 2023, reproduzida nos critérios de inclusão do Protocolo de 2025; resposta à Consulta Pública nº 05/2024 no Relatório de Recomendação nº 895/2024.

Alternativa à ciclofosfamida por não inferioridade

O biológico é opção à ciclofosfamida na indução das formas generalizadas, com grau A, sobretudo em quem tem risco de dano permanente a órgão ou risco de vida. Está indicado quando há contraindicação ao alquilante, dose cumulativa alta acumulada, paciente jovem em idade fértil sem prole estabelecida, ou doença recorrente. A idade fértil aparece como uma entre quatro situações, e acompanhada da condição de não ter prole estabelecida.

Recomendações da Sociedade Brasileira de Reumatologia para a terapia de indução para vasculite associada a ANCA, Revista Brasileira de Reumatologia, 2017, recomendação 7.

Na prova

Este é o ponto em que a régua de financiamento e a régua clínica se separam de forma limpa, e o avaliador escolhe um lado de propósito. Se o enunciado disser que o paciente será tratado na rede pública, ou citar o protocolo, a portaria de incorporação ou o componente especializado, a resposta é o par restrito: diagnóstico recente em idade fértil, ou recidiva entendida como refratariedade à ciclofosfamida. Se o enunciado apenas descrever um paciente com forma generalizada, risco de dano permanente e contraindicação à ciclofosfamida, sem invocar norma, a resposta é a régua clínica, em que o biológico é alternativa ao alquilante por não inferioridade. Reconheça o recorte pela âncora, não pela gravidade descrita.

Dose inicial de glicocorticoide oral na indução

Valor pontual, com teto em um só parágrafo

A seção de esquemas prescreve prednisona a 1 mg/kg/dia conforme a manifestação, sem teto declarado. O parágrafo que descreve a combinação com o biológico prescreve a mesma dose sem exceder 80 mg/dia, com retirada tão rápida quanto a clínica permitir.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Vasculite Associada aos Anticorpos Anti-citoplasma de Neutrófilos, 2025, esquemas de administração.

Faixa com piso, teto e duração

Prednisona ou prednisolona em dose diária inicial de 0,5 a 1,0 mg/kg/dia, com máximo de 80 mg/dia, por uma a quatro semanas, seguida de redução gradual. A terapia com glicocorticoide precisa estar associada a um imunossupressor ou a um agente biológico em todo paciente com doença ativa.

Recomendações da Sociedade Brasileira de Reumatologia para a terapia de indução para vasculite associada a ANCA, Revista Brasileira de Reumatologia, 2017, recomendações 1 e 3.

Na prova

Aqui a divergência é de forma, não de substância, e o avaliador cobra a forma. Enunciado ancorado no protocolo federal pede o valor pontual de 1 mg/kg/dia; enunciado que descreve conduta ambulatorial sem citar norma aceita a faixa de 0,5 a 1,0 mg/kg/dia. O teto de 80 mg/dia é a peça que raramente aparece na alternativa e sempre aparece no comentário: saber que ele existe evita marcar dose por quilo em paciente obeso. Quando o enunciado trouxer peso acima de 80 kg, a conta muda de regra, e é isso que está sendo testado.

O que confirma o diagnóstico quando a biópsia não é possível

Só a histologia, dentro do sistema público

Os critérios de inclusão exigem diagnóstico clínico e histopatológico. A positividade da biópsia do órgão acometido é o critério padrão-ouro, ainda que a biópsia de via aérea superior renda 30% e a transbrônquica renda 12% de positividade. A sorologia específica para proteinase 3 e para mieloperoxidase pode apoiar o diagnóstico, mas não está disponível no Sistema Único de Saúde e não é preconizada pelo protocolo.

Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Vasculite Associada aos Anticorpos Anti-citoplasma de Neutrófilos, 2025, seções de diagnóstico e de critérios de inclusão.

O ensaio sorológico como complemento, recomendado para incorporação

O comitê competente recomendou por unanimidade, em outubro de 2025, a incorporação dos ensaios para mieloperoxidase e para proteinase 3, apontando a necessidade do teste para pacientes que não possam realizar biópsia. O relatório registra especificidade acima de 95% para confirmar quando o resultado é positivo, e registra também que nenhum estudo comparou os ensaios com a biópsia renal ou pulmonar. A consulta pública correu de 4 a 24 de novembro de 2025.

Relatório para Sociedade nº 585 da Conitec, outubro de 2025, sobre testes de ELISA para (MPO)-ANCA e (PR3)-ANCA.

Na prova

O enunciado que cita o protocolo, o Sistema Único de Saúde ou a rede pública cobra a resposta de 2025: a confirmação é histológica, a sorologia específica não é preconizada, e o tratamento não espera o resultado. O enunciado que descreve o caso por extenso, com sedimento ativo e sorologia positiva, e não invoca norma, cobra a régua clínica, em que a sorologia apoia o diagnóstico na ausência de histologia. Atenção à data embutida: qualquer enunciado que trate o ensaio sorológico como exame de rotina do sistema público está lendo um cenário posterior à recomendação de incorporação, e não o texto do protocolo.

06

Caso resolvido

Homem de 58 anos procura o pronto-socorro por dispneia progressiva há cinco dias e um episódio de hemoptise nesta manhã. Refere, nos últimos quatro meses, obstrução nasal com crostas e dois episódios de epistaxe, além de perda de 7 kg, febre vespertina e artralgia migratória. Passou por dois atendimentos otorrinolaringológicos, com diagnóstico de rinossinusite crônica e dois cursos de antibiótico, sem melhora. Ao exame: pressão arterial de 148 por 92 mmHg, frequência respiratória de 26 incursões por minuto, saturação de 91% em ar ambiente, crepitações difusas bilaterais, ausência de sopro cardíaco, púrpura palpável em pernas e depressão do dorso nasal. Exames: hemoglobina 8,4 g/dL, leucócitos 11.200/mm³ sem eosinofilia, plaquetas 402.000/mm³, creatinina 3,1 mg/dL (0,9 mg/dL há seis meses), urina I com hematúria dismórfica e cilindros hemáticos, proteinúria de 1,8 g em 24 horas. Tomografia de tórax com nódulos bilaterais, dois deles cavitados, e áreas de vidro fosco. Duas hemoculturas foram colhidas e estão em andamento.
Qual é a síndrome, antes de qualquer sorologia?
Síndrome pulmão-rim: hemorragia alveolar com glomerulonefrite. O sedimento com hematúria dismórfica e cilindros hemáticos, mais creatinina que triplicou em seis meses, define o componente renal; a hemoptise com vidro fosco difuso e queda da hemoglobina define o componente pulmonar. A partir daí a lista curta é vasculite associada ao anticorpo anticitoplasma de neutrófilos, doença por anticorpo antimembrana basal glomerular, lúpus, síndrome antifosfolípide e leptospirose.
O que o acometimento de via aérea superior acrescenta?
Desloca a aposta dentro do grupo. Crostas nasais, epistaxe de repetição e depressão do dorso nasal — o nariz em sela — compõem o padrão da granulomatose com poliangiite, que se apresenta de cima para baixo. Nódulos múltiplos e bilaterais que cavitam reforçam a mesma direção. A poliangiite microscópica, que é a principal causa de síndrome pulmão-rim, não faz o quadro nasal destrutivo nem os nódulos cavitados.
Por que as hemoculturas mudam a conduta imediata?
Porque a endocardite bacteriana subaguda simula este quadro por inteiro, inclusive com resultado falso-positivo do anticorpo — a norma diz isso com todas as letras. Antes de imunossuprimir alguém com febre arrastada, púrpura e glomerulonefrite, é preciso ter descartado bacteriemia. A ausência de sopro reduz a probabilidade, mas não a zera, e o custo do erro é alto nas duas direções.
Qual é o degrau de extensão e o que ele decide?
Creatinina de 3,1 mg/dL fica abaixo dos 500 micromoles por litro, isto é, abaixo dos 5,6 mg/dL que separam o degrau grave. Com risco iminente à função renal, o caso é doença generalizada. É esse degrau, e não o subtipo da doença, que indica indução agressiva com risco à vida e à função de órgão — e é ele que a norma manda avaliar tanto ao diagnóstico quanto a cada recidiva.
A biópsia atrasa o tratamento?
Não deve. A norma exige histologia para a entrada no protocolo e, na mesma seção, determina que o início do tratamento não seja adiado pela espera do resultado. A biópsia mais rendosa aqui é a renal, que além de confirmar separa atividade de dano e informa prognóstico; a biópsia de via aérea superior seria mais acessível e renderia 30% de positividade, e a transbrônquica, 12%.
Qual é a indução, e ele tem acesso ao biológico?
Glicocorticoide mais ciclofosfamida intravenosa a 15 mg/kg, três doses no primeiro mês com intervalo de duas semanas e depois a cada três semanas, com ajuste pela contagem de linfócitos. O rituximabe, no sistema público, exige diagnóstico recente em idade fértil ou recidiva entendida como refratariedade ao alquilante — este paciente, aos 58 anos e sem tratamento prévio, não cumpre nenhum dos dois. Antes da primeira dose: sorologias virais e para sífilis, radiografia de tórax e prova tuberculínica ou ensaio de interferona-gama, tratamento de parasitoses e vacinação.
E a plasmaférese, com hemorragia alveolar?
Pelo protocolo federal, não está recomendada como terapia de indução. A recomendação da sociedade brasileira a indica com grau A apenas na glomerulonefrite rapidamente progressiva com creatinina acima de 5,8 mg/dL — patamar que este paciente não alcança — e, para hemorragia alveolar especificamente, marca grau D, reconhecendo que a evidência não basta. Nas duas réguas, portanto, ela não é a resposta aqui.
07

Agora feche você

Mulher de 31 anos, sem comorbidades, com diagnóstico de poliangiite microscópica confirmado por biópsia renal há três semanas. Chegou com creatinina de 2,4 mg/dL, sedimento ativo e mononeurite múltipla confirmada por eletroneuromiografia; sem hemorragia alveolar. Está em indução com metilprednisolona intravenosa seguida de prednisona oral e ciclofosfamida intravenosa. Pesa 96 kg. A equipe pergunta três coisas: se ela poderia ter recebido o biológico em vez do alquilante, qual dose de prednisona oral ela deve estar recebendo, e o que precisa ser dosado antes e depois se o biológico entrar em algum momento.
Ela cumpre o critério de acesso ao biológico?
Verifique as duas portas do texto federal antes de responder, e note que elas não dependem da gravidade. A primeira é diagnóstico recente em idade fértil com indicação de indução. A segunda é recidiva, que a reedição do protocolo definiu como refratariedade ao tratamento com ciclofosfamida. Pergunte-se qual das duas se aplica a uma mulher de 31 anos, em primeiro tratamento, e o que isso diz sobre a natureza do critério.
Qual dose de prednisona ela recebe, com 96 kg?
Comece pelo valor por quilo que o protocolo escreve e depois procure o teto. Multiplique 1 mg/kg por 96 kg e compare o resultado com o limite de 80 mg/dia que aparece no parágrafo do biológico e na recomendação da sociedade. Depois calcule quanto isso representa em miligramas por quilo de fato administrados, e diga se o valor resultante ainda cabe na faixa que a sociedade recomenda.
O que precisa estar feito antes da primeira dose do biológico?
Monte a lista em três blocos: sorologias, rastreio de tuberculose e preparo imunológico. Lembre que o rastreio de tuberculose inclui radiografia de tórax para todos, independentemente de sintomas, que o corte da prova tuberculínica é o mesmo do imunossuprimido, e que existe um intervalo obrigatório entre o início do tratamento da forma latente e a primeira infusão. Não esqueça a parasitose que dissemina sob imunossupressão.
Que exame de seguimento vigia o efeito adverso mais silencioso?
Pense em qual classe de células o biológico depleta e qual proteína desaparece do soro como consequência tardia. Depois localize, no calendário do protocolo, quando essa proteína é dosada em relação à infusão, e compare esse intervalo com a frequência das consultas de quem está em remissão inicial. A diferença entre os dois intervalos é a resposta.
08

Onde a banca derruba

  1. 1Tratar sorologia negativa como exclusão do grupo A vinheta entrega quadro de pequenos vasos com sorologia negativa e a alternativa tentadora manda abandonar a hipótese. Erro: a forma eosinofílica tem anticorpo positivo numa minoria dos pacientes, e a própria norma reconhece que a apresentação clínica típica sustenta o diagnóstico quando a histologia não é viável. O que exclui é o padrão de acometimento, não o resultado do exame.
  2. 2Imunossuprimir endocardite achando que é vasculite Febre arrastada, perda de peso, púrpura, glomerulonefrite e anticorpo positivo formam um quadro perfeito de vasculite — e são também o retrato da endocardite bacteriana subaguda, que produz falso-positivo do anticorpo. A hemocultura vem antes da imunossupressão, sempre. A mesma armadilha vale para o usuário de cocaína adulterada com levamisol, com lesão de linha média e púrpura retiforme.
  3. 3Adiar o tratamento esperando o resultado da biópsia A norma exige histologia para a entrada no protocolo e, na mesma seção, manda não adiar o início do tratamento pela espera do resultado. Quem lê só a primeira frase deixa o paciente com creatinina subindo esperando uma biópsia que pode nem ser viável. Diante de risco à função de órgão, trata-se e persegue-se a confirmação em paralelo.
  4. 4Contar sequela como atividade no escore O escore de atividade pontua apenas o que é atribuível à vasculite ativa, e exclui explicitamente dano permanente e infecção ativa. Contar a insuficiência renal estabelecida ou a surdez residual como pontuação de atividade transforma sequela em indicação de imunossupressão. Dano tem instrumento próprio, cumulativo, que soma um ponto por item com três meses ou mais de duração.
  5. 5Confundir recidiva clínica com a recidiva do protocolo Depois de publicada, a norma foi reeditada para esclarecer que recidiva é considerada refratariedade ao tratamento com ciclofosfamida. Clinicamente, recidivar é voltar a adoecer após remissão e ser refratário é nunca ter remitido — estados opostos. Para efeito de elegibilidade ao biológico no sistema público, a norma os igualou, e a alternativa que separa os dois conceitos com rigor clínico pode estar errada dentro do recorte federal.
  6. 6Aplicar dose por quilo em paciente pesado Prednisona a 1 mg/kg/dia parece inequívoca até o paciente ter 110 kg. O teto de 80 mg/dia, que aparece num parágrafo do protocolo e na recomendação da sociedade, faz a regra por quilo deixar de valer acima de 80 kg. O mesmo raciocínio vale para o pulso: 15 mg/kg ultrapassa o limite de 1 g por pulso a partir de 66,7 kg, e é o limite que prevalece.
  7. 7Achar que a norma cobre a manutenção O protocolo declara, em uma linha, que não inclui o tratamento de manutenção — e na consulta pública o pedido de acrescentá-la foi recusado, porque a elaboração nasceu limitada ao escopo da portaria que incorporou o biológico. Enunciado que pergunte o que fazer depois da remissão citando o protocolo está pedindo justamente o reconhecimento desse limite.
  8. 8Esquecer a estrongiloidíase e a tuberculose latente antes da primeira dose Antes de qualquer imunossupressor ou biológico, a norma manda avaliar e tratar helmintíases e protozooses, porque a estrongiloidíase dissemina sob imunossupressão. E manda radiografia de tórax para todos, independentemente de sintomas, mais prova tuberculínica ou ensaio de interferona-gama, com tratamento da forma latente a partir de 5 mm ou de ensaio reagente, e início do biológico quatro semanas depois.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

O quadro é arterite de células gigantes com sintomas visuais (amaurose) — emergência que exige corticoide em altas doses IMEDIATO para prevenir cegueira irreversível, sem aguardar a biópsia (correta), pois a biópsia permanece positiva por dias após o início do corticoide. Aguardar a biópsia atrasa o tratamento e arrisca perda visual. AINE é insuficiente para vasculite de grande vaso. Anticoagulação não é o tratamento de base. AAS pode ser adjuvante, mas não substitui a corticoterapia urgente.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Sete dias depois, recupere de memória oito coisas. As três doenças que a definição internacional reúne sob o anticorpo, e quais duas o protocolo federal efetivamente cobre. O órgão que abre cada uma das duas — via aérea superior numa, rim na outra — e a frase de que a poliangiite microscópica é a principal causa de síndrome pulmão-rim. As duas positividades de biópsia que a norma publica, de via aérea superior e transbrônquica, e o que sobra de negativos em cada uma. Os cinco degraus da estratificação europeia e o único ponto em que a creatinina entra, com a conversão dos 500 micromoles. As duas janelas do escore de atividade, de quatro semanas e de três meses, e o prazo de três meses do escore de dano. As duas situações que dão acesso ao biológico no sistema público e por que a primeira delas não é um critério de gravidade. A dose da ciclofosfamida e o parâmetro laboratorial pelo qual o protocolo a ajusta. E o que precisa estar feito antes da primeira dose de imunossupressor.

em 30 dias

Trinta dias depois, refaça as contas em voz alta, sem consultar. Converta 500 micromoles por litro de creatinina para miligramas por decilitro e diga por que a mesma norma escreve 5,6 numa tabela e 5,7 na seguinte. Converta as prevalências latino-americanas de por cem mil para por milhão e compare com a estimativa internacional impressa ao lado. Calcule quanto rituximabe cada um dos dois esquemas entrega para 1,73 metro quadrado de superfície corpórea e qual a diferença percentual. Diga a partir de que peso a regra de 15 miligramas por quilo ultrapassa o limite de um grama por pulso. Calcule a dose de prednisona por quilo que um paciente de 100 kg efetivamente recebe sob o teto de 80 miligramas. E explique, em duas frases, por que o mesmo achado pode contar como atividade num instrumento e como dano no outro sem que nada tenha mudado no paciente.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Num ambulatório de doenças autoimunes, treine a sequência que os documentos desenham e que a pressa atropela. Diante de sintomas constitucionais arrastados, peça o exame de urina antes da sorologia: é o sedimento que decide se o caso é ambulatorial ou urgente, e é ele que o escore de atividade exige para ser pontuado. Classifique por calibre de vaso em voz alta antes de nomear a doença, porque é o calibre que separa a poliarterite nodosa do grupo pauci-imune e as arterites de grandes vasos das duas. Ao indicar biópsia, diga qual tecido e qual rendimento você espera dele, e diga na mesma frase que o tratamento não vai esperar o resultado. Ao prescrever corticoide por quilo, calcule a dose e depois confira o teto, sempre nessa ordem. E, antes de assinar a primeira dose de imunossupressor, percorra em voz alta a lista de rastreios: sorologias, radiografia de tórax, prova tuberculínica ou ensaio de interferona-gama, parasitoses e vacinas. É a lista que o paciente não percebe e que decide se ele vai adoecer de infecção nos próximos meses. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Vasculites sistêmicas: o protocolo cobre duas, a prova cobra o resto — Preparatório para provas | OsceLabs