Ginecologia e ObstetríciaSíndromes Hipertensivas da Gestação

Síndrome HELLP

A gestante pode estar normotensa, sem proteinúria, e mesmo assim ter síndrome HELLP — quem fecha o diagnóstico é o laboratório. A prova cobra os três critérios com os cortes exatos, o que separa a HELLP das microangiopatias que a imitam e o que ela muda na hora e na via do parto.

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Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Uma primigesta de 25 anos, com 34 semanas de gestação, apresenta cefaleia, escotomas e dor epigástrica. PA 165x110 mmHg, FC 90 bpm. Exames: proteinúria de 24h 4,2 g, plaquetas 90.000/mm³, AST 120 U/L (VR até 40), LDH 700 U/L (VR até 250). Qual é o diagnóstico mais provável?

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Como esse tema cai

A vinheta da síndrome HELLP quase nunca começa pela pressão. Começa por uma gestante de terceiro trimestre com dor no andar superior do abdome, náusea e mal-estar, que já passou por um pronto-socorro e voltou para casa com diagnóstico de gastrite. Quando a banca entrega pressão de 170 por 110 mmHg e proteinúria de três cruzes, o caso é fácil e nem precisa deste capítulo. O caso que separa candidatos é o outro: pressão normal, proteinúria ausente e um hemograma que ninguém pediu.

Este capítulo trata do que fecha o diagnóstico — os três critérios laboratoriais, cada um com o número — e do que a síndrome muda na conduta em relação à pré-eclâmpsia com sinais de gravidade. Isso inclui o momento do parto, a via, a anestesia com plaquetopenia, a transfusão, as complicações que matam e um pós-parto que piora antes de melhorar.

O que fica de fora, porque tem capítulo próprio nesta apostila: os critérios diagnósticos da pré-eclâmpsia, a lista de sinais de gravidade, o tratamento anti-hipertensivo e a decisão de parto por idade gestacional estão no capítulo de pré-eclâmpsia — aqui entram apenas na fronteira. O sulfato de magnésio por extenso, com os esquemas de Pritchard e Zuspan, o preparo em mililitros, as três travas de segurança, a toxicidade e o gluconato de cálcio, está no capítulo de eclâmpsia. Aqui se diz apenas o que é próprio da HELLP: que ela recebe sulfato sempre, mesmo sem convulsão e mesmo sem hipertensão, e por quê.

A HELLP não é uma doença à parte. É a expressão hepato-hematológica da pré-eclâmpsia — a ISSHP escreve, em 2021, que a HELLP, completa ou parcial, é uma manifestação da pré-eclâmpsia e não um transtorno separado. Ela aparece em 10% a 20% das gestantes com pré-eclâmpsia grave ou eclâmpsia, e o que a torna um capítulo é o fato de o diagnóstico ser feito por três exames de sangue, e não pelo esfigmomanômetro.

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O que muda decisão

O eixo do capítulo: quem fecha o diagnóstico é o laboratório

O acrônimo diz a doença inteira: H de hemólise, EL de enzimas hepáticas elevadas, LP de plaquetas baixas. Por trás dos três está uma única lesão — a microangiopatia trombótica. O endotélio danificado deposita fibrina na microcirculação; as hemácias passam por essa malha e se fragmentam, o que gera anemia hemolítica microangiopática e joga esquizócitos e equinócitos no sangue periférico. A obstrução dos sinusoides hepáticos por microtrombos produz isquemia e necrose periportal, o que eleva as transaminases e distende a cápsula de Glisson. E as plaquetas, ativadas, aderem ao endotélio lesado e são consumidas mais rápido do que a medula repõe.

A consequência clínica dessa fisiopatologia é a razão de existir deste capítulo: nenhum dos três eixos passa pela pressão arterial. A hipertensão e a proteinúria estão presentes em cerca de 85% das pacientes com HELLP, segundo o protocolo da RBEHG de 2025 — o ACOG 222 escreve a mesma coisa pelo avesso, dizendo que até 15% não têm hipertensão ou não têm proteinúria. Uma em cada sete, portanto, chega sem o achado que todo mundo procura. A literatura de revisão trabalha com uma faixa de 10% a 20% para essa apresentação, e a variação vem justamente dos critérios diagnósticos adotados por cada série.

Some a isso o segundo dado incômodo: 30% dos casos se expressam pela primeira vez ou pioram no pós-parto, e a manifestação puerperal se concentra nas primeiras 24 a 48 horas. A vigilância laboratorial, portanto, não termina com o parto.

Daí sai a regra operacional que os três documentos brasileiros escrevem quase com as mesmas palavras, e que é a frase mais cobrável do tema: toda gestante com mais de 20 semanas que procura assistência com dor epigástrica e/ou em hipocôndrio direito, com ou sem vômitos, é elegível para o diagnóstico de síndrome HELLP e precisa ser investigada — independentemente de estar hipertensa. Investigar, aqui, quer dizer pedir hemograma com contagem de plaquetas, transaminases, desidrogenase láctica, bilirrubinas e creatinina. Não é uma triagem cara; é um exame de sangue.

Os três critérios laboratoriais, marcador por marcador

O primeiro eixo é a hemólise, e é o que tem mais marcadores. O protocolo da RBEHG de 2025 aceita a hemólise com um ou mais dos seguintes: desidrogenase láctica acima de 600 UI/L ou acima do dobro do valor de referência do laboratório; haptoglobina abaixo de 25 mg/dL; anemia grave, com hemoglobina de 8 g/dL ou menos; bilirrubina indireta de 1,2 mg/dL ou mais; presença de esquizócitos ou equinócitos no sangue periférico. O Manual do Ministério da Saúde, que reproduz os critérios de Sibai de 1986, lista o esfregaço com esquistocitose, anisocitose, equinocitose e poiquilocitose, bilirrubinas acima de 1,2 mg/dL e desidrogenase láctica acima de 600 U/L. Repare que a desidrogenase láctica sobe por duas vias ao mesmo tempo — a hemólise e a lesão do hepatócito —, o que a torna o marcador mais sensível e o primeiro a se mexer.

O segundo eixo é o comprometimento hepático, e é o mais simples de decorar: aspartato aminotransferase e/ou alanina aminotransferase acima de 70 UI/L, ou pelo menos duas vezes o maior valor do padrão do laboratório. Os dois documentos brasileiros escrevem 70 UI/L. O ACOG 222 dispensa o valor absoluto e usa só o critério relativo — transaminases acima do dobro do limite superior da normalidade. Na prática de prova, 70 é o número que aparece escrito.

O terceiro eixo é a plaquetopenia, e é onde se erra mais: contagem de plaquetas abaixo de 100.000/mm³. Esse é o corte da HELLP nos quatro documentos — Manual do Ministério, RBEHG, Febrasgo e ACOG. A armadilha é que o corte de plaquetas que fecha o diagnóstico de pré-eclâmpsia é outro: 150.000/mm³. A RBEHG dedica um parágrafo inteiro a esse ponto e recomenda, expressamente, confirmar a HELLP apenas com valores abaixo de 100.000/mm³, para evitar prematuridade iatrogênica.

Isso não significa ignorar quem está entre 100.000 e 150.000. A regra da RBEHG para essa faixa é de vigilância, não de rótulo: quedas maiores que 20% na contagem devem ser interpretadas com cautela, mesmo sem cruzar o corte. Uma paciente que sai de 140.000 para 108.000 em 24 horas não tem HELLP pelo número, mas tem uma trajetória que exige repetir os exames em seis horas. O que decide não é a fotografia; é a inclinação da curva.

Fechado o diagnóstico, pede-se coagulograma. A trombocitopenia é a alteração mais precoce e a mais importante; tempo de protrombina, tempo de tromboplastina parcial e fibrinogênio só se alteram em fase avançada — o Febrasgo e a RBEHG usam a mesma referência para dizer quando isso acontece: quando a queda das plaquetas ultrapassa 30.000/mm³. Nesse ponto o quadro é de coagulação intravascular disseminada, com hemorragia difusa — petéquias, sangramento gengival, hematúria, hematêmese, sangramento nos locais de punção — e o risco cirúrgico muda de patamar.

Mississippi e Tennessee: dois sistemas que respondem a perguntas diferentes

Os dois sistemas de classificação que a prova cobra não competem entre si: um define o que é HELLP, o outro gradua a gravidade da HELLP já definida. Confundir os dois é o erro que faz o candidato marcar classe onde se pedia critério.

O sistema de Tennessee, que vem da linhagem de Sibai, é diagnóstico. Chama de HELLP completa a paciente que tem os três eixos simultaneamente: plaquetas de 100.000/mm³ ou menos, aspartato aminotransferase de 70 UI/L ou mais, e desidrogenase láctica de 600 UI/L ou mais com evidência de hemólise. Chama de HELLP parcial quem tem apenas um ou dois dos três componentes.

O sistema de Mississippi, descrito por Martin, é de gravidade e classifica pela contagem de plaquetas — que é o parâmetro que melhor prevê desfecho. Classe I: plaquetas de 50.000/mm³ ou menos. Classe II: entre 50.000 e 100.000/mm³. Classe III: entre 100.000 e 150.000/mm³. As classes I e II exigem transaminases de 70 UI/L ou mais; a classe III, que é a mais leve, admite transaminases a partir de 40 UI/L. Nas três, a desidrogenase láctica é de 600 UI/L ou mais.

Qual documento brasileiro usa qual? O Manual de Gestação de Alto Risco do Ministério da Saúde usa os dois, e é explícito sobre a divisão de tarefas: a Tabela 1 traz os critérios diagnósticos com a fonte atribuída a Sibai, e a Tabela 2 traz a gradação com a fonte atribuída a Martin, sob o nome de classificação de Martin, com os três cortes de plaquetas idênticos aos de Mississippi. O protocolo Febrasgo de 2018 fecha o diagnóstico pelos critérios de Sibai e usa a nomenclatura de Martin quando precisa falar de gravidade — cita, por exemplo, a classe I de Martin ao discutir corticoide. O protocolo da RBEHG de 2025 não nomeia nenhum dos dois sistemas: usa os cortes de Sibai para o diagnóstico e afirma que os níveis de plaquetas são o que define a gravidade, sem rotular as classes.

Um cuidado com o termo HELLP parcial. Ele é um rótulo de Tennessee, mas a RBEHG de 2025 registra a objeção de que usá-lo em paciente com pré-eclâmpsia e uma ou duas alterações laboratoriais pode levar a condutas exageradas — antecipação do parto em qualquer idade gestacional e prematuridade iatrogênica — por tratar como síndrome completa o que ainda é pré-eclâmpsia com sinais de gravidade. A recomendação, nesses casos, é reavaliar em série antes de decidir. A ISSHP, por outro caminho, chega a um lugar parecido: completa ou parcial, a HELLP é manifestação da pré-eclâmpsia, e o que governa a conduta é a gravidade do quadro, não o nome.

A dor que vale mais que a pressão

O sintoma mais valioso da síndrome HELLP é a dor em hipocôndrio direito, sozinha ou associada a epigastralgia. Ela é valiosa por três motivos somados: é frequente, é precoce e é a única queixa que aponta diretamente para o órgão em sofrimento. O ACOG 222 registra dor em quadrante superior direito e mal-estar generalizado em até 90% dos casos, e náusea e vômito em 50%.

A dor tem explicação anatômica, e entender essa explicação é o que impede desvalorizá-la. A obstrução dos sinusoides hepáticos por microtrombos produz congestão, necrose periportal e focos hemorrágicos que distendem a cápsula de Glisson. A cápsula é inervada; o parênquima não. Portanto a dor não é dispepsia, não é refluxo e não é a compressão gástrica pelo útero gravídico — é a cápsula de um fígado que está sendo lesado sendo esticada por dentro. É por isso que ela é o sinal mais valioso: quando ela aparece, o dano hepático já está instalado e ainda é reversível.

Os outros sintomas são inespecíficos por definição, e é isso que faz a paciente ser dispensada: mal-estar pouco definido, náuseas, vômitos, cefaleia. A RBEHG chama atenção para o prurido intenso e para os vômitos excessivos associados a icterícia como pistas que valem investigação mesmo em gestante sem hipertensão. Icterícia, colúria e sangramentos espontâneos existem, mas são raros e, quando presentes, marcam quadros extremamente graves — não são o que se espera encontrar no caso que ainda dá para salvar.

A consequência de tudo isso é uma inversão de raciocínio que a prova adora: na pré-eclâmpsia, o médico mede a pressão e depois pede exames. Na HELLP, o médico ouve a dor e pede exames — a pressão pode estar normal, e isso não exclui nada. Uma gestante de 30 semanas com dor em hipocôndrio direito e pressão de 118 por 74 mmHg merece o mesmo painel laboratorial que uma gestante com 160 por 110 mmHg.

Corte do andar superior direito do abdome de uma gestante. O fígado aparece com a cápsula de Glisson distendida por uma coleção de sangue em meia-lua entre a cápsula e o parênquima; no parênquima, focos cuneiformes de necrose periportal e microtrombos de fibrina obstruindo os sinusoides. Ao fundo, a silhueta do útero gravídico e do gradil costal.
A dor em hipocôndrio direito da síndrome HELLP não vem do estômago. Vem da cápsula de Glisson — que é inervada — sendo distendida por um fígado congesto, com sinusoides obstruídos por fibrina e focos de necrose periportal. Quando essa distensão progride, forma-se o hematoma subcapsular; quando a cápsula se rompe, a hemorragia é catastrófica.

Diagnóstico diferencial: o que separa cada doença da HELLP

A lista de diferenciais é longa, mas só quatro doenças competem de verdade com a HELLP no laboratório, porque só elas produzem a combinação de plaquetopenia com hemólise ou disfunção hepática em gestante: a púrpura trombocitopênica trombótica, a síndrome hemolítico-urêmica atípica, a esteatose hepática aguda da gravidez e — no plano da plaquetopenia isolada — a trombocitopenia gestacional. As demais entram por semelhança clínica: hepatite viral aguda, colestase intra-hepática da gravidez, colecistite, pancreatite, lúpus em atividade, choque séptico ou hemorrágico e arboviroses.

A púrpura trombocitopênica trombótica compartilha com a HELLP a plaquetopenia grave, a anemia e a desidrogenase láctica alta. O que separa é o tempo e o rim. O tempo: a HELLP não ocorre antes de 20 semanas e a maioria dos casos é de terceiro trimestre, enquanto cerca de 12% das púrpuras ocorrem no primeiro trimestre, 56% no segundo e 33% no terceiro trimestre ou pós-parto. Plaqueta baixa antes de 20 semanas é púrpura até prova em contrário. O laboratório que decide é a atividade de ADAMTS13: valores de 5% ou menos indicam púrpura, e a hematologia entra no caso.

A síndrome hemolítico-urêmica atípica também traz plaquetopenia e hemólise, mas o rim domina o quadro e — o detalhe que decide — a lesão renal progride depois do parto, enquanto o fígado costuma estar poupado, com transaminases normais ou pouco elevadas. Há números para essa separação: creatinina sérica de 1,9 mg/dL ou mais, ou desidrogenase láctica de 1.832 U/L ou mais, funcionam como limiares discriminatórios, e a combinação de creatinina de 1,9 mg/dL ou mais com desidrogenase láctica de 600 U/L ou mais foi observada em 91% dos casos de síndrome hemolítico-urêmica contra 0% dos casos de HELLP.

A esteatose hepática aguda da gravidez é o diferencial mais difícil, e a RBEHG diz isso com todas as letras. A pista que a denuncia é metabólica: hipoglicemia importante e frequentemente refratária. Icterícia e colúria são mais comuns que na HELLP, o alargamento do tempo de tromboplastina parcial é a regra e não a exceção, a hiperamonemia é habitual e o óbito fetal é frequente. A paciente evolui rápido para falência hepática e encefalopatia. O manejo inicial é parecido — suporte e parto —, mas errar o diagnóstico significa não procurar a hipoglicemia que mata.

A trombocitopenia gestacional é o oposto: comum, autolimitada e benigna. Plaquetas entre 100.000 e 150.000/mm³, no fim da gestação ou no periparto, exame físico normal e nenhuma outra alteração laboratorial — sem hemólise, sem transaminase alta. É diagnóstico de exclusão e não muda conduta obstétrica.

As três restantes se resolvem por magnitude e por marcador. A hepatite viral aguda cursa com transaminases em outra ordem de grandeza, na casa dos milhares, muito acima do padrão da HELLP, com sorologias positivas e plaquetas habitualmente preservadas. A colestase intra-hepática da gravidez tem o prurido como sintoma dominante e ácidos biliares séricos elevados, mas plaquetas normais e sem hemólise. E o lúpus em atividade se distingue pela queda de complemento, pelo aumento dos títulos de anticorpo anti-DNA e pela associação com proteinúria e hematúria — a RBEHG acrescenta uma régua clínica útil: hipertensão acelerada de início agudo tem mais probabilidade de ser pré-eclâmpsia com HELLP do que exacerbação lúpica.

O tratamento é o parto — e a idade gestacional só compra 48 horas

Não existe tratamento da síndrome HELLP que não seja a resolução da gestação. A frase aparece nos três documentos brasileiros quase idêntica: no estágio atual do conhecimento, não é possível afirmar que existam medidas terapêuticas mais efetivas do que a realização do parto. O Manual do Ministério trata a síndrome como emergência obstétrica e indica a interrupção independentemente da idade gestacional, ressalvadas condições excepcionais.

As condições excepcionais têm contorno definido e prazo curto. Abaixo de 34 semanas, a RBEHG admite conduta expectante de forma excepcional, sem exceder 48 horas, e apenas com condições maternas e fetais estáveis. As duas únicas justificativas aceitas são objetivas: otimizar a assistência ao parto — o que quase sempre significa transferir a paciente para um centro terciário — e administrar corticoide para maturação pulmonar. O fluxograma da RBEHG desenha a janela entre 23 e 34 semanas: sulfato de magnésio e corticoide, reavaliação clínica e laboratorial em seis horas, e novo exame no dia seguinte se a estabilidade se mantiver. Qualquer piora clínica ou laboratorial nesse intervalo encerra a espera e leva ao parto.

Há um limite numérico que fecha a discussão e é muito cobrável: o Manual do Ministério da Saúde escreve, em nota, que não há razões aceitáveis para manter a gestação quando as plaquetas atingem valores inferiores a 100.000/mm³. Ou seja, a mesma contagem que fecha o diagnóstico também encerra a conduta expectante. O modelo fullPIERS pode ser usado como apoio à decisão abaixo de 34 semanas, mas o comportamento das plaquetas continua sendo o parâmetro essencial.

A partir de 34 semanas não existe discussão em nenhum dos documentos: o parto está indicado. E, em qualquer idade gestacional, a deterioração clínica ou laboratorial materna e o comprometimento da vitalidade fetal indicam a resolução imediata.

Enquanto se prepara o parto, quatro medidas correm em paralelo. Primeira: sulfato de magnésio para todas as pacientes com HELLP, independentemente de haver ou não clínica de iminência de eclâmpsia — a justificativa da RBEHG é que a HELLP é pré-eclâmpsia com sinais de gravidade e que pelo menos 15% dessas pacientes evoluem com eclâmpsia. O sulfato é mantido por 24 horas após o parto. Os esquemas, o preparo, as travas de segurança e o antídoto estão no capítulo de eclâmpsia. Segunda: controle pressórico com hipotensor de ação rápida, com a meta que o Manual do Ministério escreve para a HELLP — pressão diastólica abaixo de 100 mmHg e sistólica abaixo de 150 mmHg. Terceira: controle de volume, oferecendo soro fisiológico para manter diurese de pelo menos 30 mL/h e proteger a perfusão renal. Quarta: avaliação fetal com perfil biofísico e, quando disponível, Doppler; corticoide entre 24 e 34 semanas para maturação pulmonar e sulfato de magnésio para neuroproteção fetal entre 24 e 32 semanas.

Um detalhe de logística que é regra, não conselho: o parto deve ocorrer em centro terciário com unidade de terapia intensiva materna e neonatal. Quando a transferência é necessária, o tempo de espera precisa ser o mais curto possível — e a paciente sai com sulfato de magnésio em curso. O seguimento laboratorial se faz em intervalos individualizados de 6 a 24 horas, conforme a evolução.

Via de parto: vaginal é a preferência, e a cesárea tem indicações nomeadas

Síndrome HELLP não é indicação de cesárea. A via preferencial é a vaginal, e o motivo é direto: menos risco cirúrgico, sobretudo de sangramento, numa paciente que já tem plaquetopenia e pode ter coagulopatia. O Manual do Ministério é categórico — a indicação é obstétrica, e a melhor via será a vaginal para diminuir sangramento.

As indicações de cesárea são nomeadas, e vale decorá-las. Comprometimento da vitalidade fetal, incluindo alterações dopplervelocimétricas graves — diástole zero ou reversa na artéria umbilical, comprometimento do ducto venoso. Instabilidade clínica ou laboratorial materna, com sangramento espontâneo ou pressão de difícil controle, em que o tempo de preparo do colo e de indução compromete a segurança da mãe. Apresentação anômala em idade gestacional precoce. E, com destaque, o hematoma hepático: tanto o Manual do Ministério quanto a nota de rodapé do fluxograma da RBEHG indicam cesárea quando há hematoma hepático, porque o esforço expulsivo aumenta o risco de rotura.

Quando a via vaginal é possível e o colo é desfavorável, o preparo se faz com sonda de Foley ou misoprostol, seguido de indução com ocitocina — o mesmo caminho de qualquer indução, com a diferença de que aqui o relógio da mãe corre. Duas travas técnicas específicas: a episiotomia deve ser evitada pelo risco de hemorragia e hematoma, e o parto instrumental fica com indicações restritas. Quando o fórcipe é necessário, dá-se preferência à rotação manual do polo cefálico, com fórcipe de alívio em variedades anteroposteriores ou com pequenas rotações de 45 graus.

Na cesárea, a técnica muda em três pontos que a prova cobra. A incisão de pele: com plaquetopenia importante, a mediana infraumbilical é preferível à Pfannenstiel, porque evita descolamentos amplos e reduz o risco de hematoma de parede — e é indicação absoluta quando há coagulopatia instalada. Se ainda assim se optar por Pfannenstiel, o descolamento da aponeurose deve ser mínimo. A incisão uterina: em idades gestacionais precoces, a incisão de segmento corporal pode ser necessária para facilitar a extração e reduzir hemorragia. E o dreno: drenos cirúrgicos, preferencialmente de aspiração, são indicados para monitorar sangramento, e saem em 24 a 72 horas conforme a drenagem.

Duas prescrições fecham a sala. A atonia uterina é frequente nessas pacientes: o protocolo Febrasgo recomenda 10 UI de ocitocina, intramuscular ou endovenosa, imediatamente após a extração fetal, com misoprostol retal 600 microgramas se a atonia persistir e sutura de B-Lynch como recurso antes da histerectomia. E uma proibição que o Manual do Ministério escreve em caixa própria: em nenhuma hipótese se deve fazer exploração manual do fígado.

Anestesia e transfusão: os cortes de plaqueta que decidem

A contagem de plaquetas decide duas coisas na sala: que anestesia é possível e se a paciente precisa de hemocomponente antes de começar. São perguntas diferentes, com cortes diferentes, e é aí que a prova arma a pegadinha.

Na anestesia, a preferência é o bloqueio de neuroeixo — raquianestesia ou peridural —, porque evita as complicações da anestesia geral na gestante hipertensa: dificuldade de intubação por edema faringolaríngeo, resposta pressórica à intubação e o risco de acidente vascular encefálico que ela carrega. O problema é o hematoma peridural, e é aqui que os documentos divergem: o protocolo Febrasgo de 2018 contraindica raqui e peridural abaixo de 100.000/mm³ e manda fazer anestesia geral; a RBEHG de 2025 escreve que não há consenso mundial, considera contagens acima de 80.000/mm³ bastante seguras e registra que a maioria dos anestesistas concorda em realizar o bloqueio acima de 70.000/mm³; o ACOG 222 sustenta o corte de 70.000/mm³ com dados — uma coorte retrospectiva de 84.471 pacientes obstétricas de 19 instituições, somada a revisão sistemática, mostra risco de hematoma peridural excepcionalmente baixo, inferior a 0,2%, acima desse valor. O bloco de divergências detalha as posições.

O ACOG acrescenta quatro condições que precisam estar satisfeitas para que o corte de 70.000/mm³ valha: o nível de plaquetas tem de estar estável, não pode haver outra coagulopatia adquirida ou congênita, a função plaquetária tem de estar normal e a paciente não pode estar em uso de antiagregante ou anticoagulante. Numa HELLP em queda rápida, a primeira condição — estabilidade — é justamente a que costuma faltar, e é o que devolve a decisão ao anestesista.

Na transfusão, há um ponto de consenso absoluto e um de divergência. O consenso: trombocitopenia grave, abaixo de 20.000/mm³, indica transfusão de plaquetas sempre, mesmo sem sangramento e independentemente da via de parto planejada. Sangramento anormal também indica, em qualquer contagem. A divergência é o corte da cesárea: o Manual do Ministério da Saúde e o protocolo Febrasgo recomendam transfundir quando a contagem for menor que 50.000/mm³; a RBEHG de 2025 elevou esse corte para 70.000/mm³ antes do início do ato operatório.

A dose é a mesma em todos: uma unidade de concentrado de plaquetas para cada 10 kg de peso, ou o suficiente para alcançar níveis em torno de 100.000/mm³. Cada unidade eleva a contagem em cerca de 5.000 a 10.000/mm³ num adulto de 70 kg, e uma aférese de plaquetas corresponde a 6 a 8 unidades. E há uma consideração de realidade assistencial que a RBEHG registra: nem sempre há plaquetas disponíveis — diante de quedas abaixo de 100.000/mm³, o parto deve ser realizado em local seguro, o que na prática significa não deixar a paciente num serviço sem banco de sangue.

Corticoide: duas perguntas que a prova mistura de propósito

Existem duas perguntas sobre corticoide na síndrome HELLP, e elas têm respostas diferentes. A primeira é sobre maturação pulmonar fetal; a segunda é sobre tratar a doença materna. Misturá-las é o erro que a vinheta procura.

Maturação pulmonar não tem controvérsia: corticoide antenatal entre 24 e 34 semanas, como em qualquer risco de parto prematuro, e é justamente para isso que existe a janela excepcional de 48 horas da conduta expectante. Some a isso o sulfato de magnésio para neuroproteção fetal entre 24 e 32 semanas, que na HELLP já está correndo de qualquer maneira, porque a indicação materna de sulfato é independente. A trava é rígida e as recomendações finais da RBEHG a escrevem: o parto nunca deve ser postergado diante de situação materna grave, e a corticoterapia jamais será razão para aguardar o parto. Ciclo incompleto é um desfecho aceitável; deterioração materna esperando a segunda dose, não.

Tratar a HELLP com corticoide é outra coisa, e é onde as fontes discordam de verdade. A ISSHP de 2021 traz uma recomendação numerada e forte para não administrar corticoide com a finalidade de acelerar a resolução da síndrome. O Manual do Ministério da Saúde, no mesmo Quadro 4 da conduta, indica dexametasona para resgatar plaquetopenia e escreve que ela está sempre indicada antes de cesárea quando as plaquetas estão abaixo de 50.000/mm³, para otimizar o uso de anestesia condutiva — e a própria nota de rodapé do Manual esclarece o alcance dessa indicação: as evidências servem para melhorar as condições anestésicas e não alteram mortalidade materna ou perinatal.

A leitura correta do conjunto é que os dois documentos falam de finalidades diferentes. Um proíbe o corticoide como terapêutica da doença; o outro o usa como manobra pontual para viabilizar um bloqueio de neuroeixo numa paciente que iria para anestesia geral. Onde há plaqueta disponível no banco de sangue, transfundir resolve a mesma questão em menos tempo — e é por isso que o protocolo Febrasgo condiciona sua própria recomendação a paciente grave, com menos de 50.000/mm³, principalmente nos locais onde a disponibilidade de sangue e de plaquetas não é adequada. O bloco de divergências reúne as posições com o que cada uma sustenta.

As complicações que matam, e como suspeitar de cada uma

A síndrome HELLP mata por hemorragia, e o Manual do Ministério da Saúde traz a tabela de frequências que dá a dimensão do risco: eclâmpsia em 6% a 50% dos casos, descolamento prematuro de placenta em 5% a 26%, coagulação intravascular disseminada em 8%, edema agudo de pulmão ou ascite em 5%, condição fetal não tranquilizadora em 23%, insuficiência renal aguda em 5% a 15%, prematuridade em 10% a 50% e morte materna em 5%. Um estudo brasileiro de pacientes com HELLP admitidas em unidade de terapia intensiva obstétrica, reproduzido pela RBEHG, mostra o perfil de quem chega grave: oligúria em 47%, hemorragias em 34%, necessidade de hemotransfusão em 33%, insuficiência renal aguda em 20%, edema agudo de pulmão em 7% e óbito materno em 4%.

O hematoma hepático é a complicação mais temida e a mais específica do tema. Ocorre em cerca de 0,9% a menos de 2% dos casos de HELLP. A suspeita é clínica antes de ser radiológica: dor em hipocôndrio direito desproporcional, que não cede, muitas vezes com dor referida no ombro direito, náusea e vômito. Se a cápsula se rompe, o quadro vira hipotensão, choque hemorrágico e distensão abdominal aguda — e a mortalidade materna nessa situação é alta. O roteiro da RBEHG inclui, por isso, avaliar alterações hepáticas por exames de imagem, em especial quando há dor típica: a ultrassonografia é o exame de primeira linha pela disponibilidade, e tomografia ou ressonância confirmam quando há dúvida.

A conduta no hematoma depende da integridade da cápsula e da estabilidade hemodinâmica. Hematoma íntegro em paciente estável: suporte intensivo, correção de coagulopatia, hemocomponentes, imagem seriada e nenhuma manipulação. Hematoma roto com instabilidade: laparotomia, com empacotamento peri-hepático como manobra preferida sobre ressecções, ligadura arterial e drenagem; a embolização arterial hepática por radiologia intervencionista é alternativa em serviço que a tenha. Duas regras práticas atravessam todas as situações: quando há hematoma hepático, a via de parto é a cesárea; e em nenhuma hipótese se faz exploração manual do fígado, porque a manobra é o que rompe uma cápsula que estava contendo o sangramento.

A coagulação intravascular disseminada se anuncia pela contagem: quando a queda das plaquetas ultrapassa 30.000/mm³, tempo de protrombina, tempo de tromboplastina parcial e fibrinogênio se alteram, e aparecem petéquias, sangramento gengival, hematúria, hematêmese e sangramento nos locais de punção. O Manual do Ministério registra ainda que plaquetopenia abaixo de 50.000/mm³ está associada a coagulação intravascular disseminada e é forte indicador de complicações hemorrágicas.

A insuficiência renal aguda vem da hemólise, do acúmulo de bilirrubina e da hipotensão dos quadros hemorrágicos, e se manifesta por creatinina de 1,2 mg/dL ou mais com oligúria. O ponto de atenção é que ela pode não ser só HELLP: o quadro pode evoluir para síndrome hemolítico-urêmica atípica, em que a lesão renal progride depois do parto e a hemólise se intensifica. Completam a lista o descolamento prematuro de placenta, o edema agudo de pulmão por lesão dos capilares perialveolares e o comprometimento cerebral — edema e hemorragia cerebrais, que estão entre as principais causas de morbimortalidade nessas pacientes.

Pós-parto: os exames pioram antes de melhorar

O erro que mata no pós-parto é interpretar a piora laboratorial esperada como falha de conduta, ou interpretá-la como normalidade e mandar a paciente para o alojamento conjunto. As primeiras 72 horas são o período mais crítico, e a recomendação é vigilância em unidade de terapia intensiva, com alta apenas quando houver melhora evidente.

A curva é conhecida e tem números. Depois do parto, a contagem de plaquetas continua caindo — cerca de 40% ao dia — e o menor valor observado ocorre, em média, 23 horas após o parto. As transaminases tendem a subir no mesmo intervalo. A doença atinge o pico de intensidade nos dois primeiros dias, incluindo queda do hematócrito. Só a partir do terceiro dia a contagem de plaquetas passa a subir. O Manual do Ministério da Saúde registra a mesma dinâmica ao descrever piora transitória nas primeiras 24 horas de puerpério, mais acentuada quando o nascimento foi por cesariana.

Existe um prazo para desconfiar do próprio diagnóstico, e é o número mais cobrável desta seção: se a contagem de plaquetas continuar caindo e as transaminases continuarem subindo depois de quatro dias de pós-parto, a validade do diagnóstico inicial de HELLP deve ser reavaliada. O que se procura nesse momento é o diferencial que se comporta assim: síndrome hemolítico-urêmica atípica, cuja lesão renal progride justamente após o parto, e púrpura trombocitopênica trombótica — e é para essas duas doenças, não para a HELLP, que existe tratamento hematológico específico, com troca plasmática e terapia dirigida ao complemento. A HELLP que não melhora depois de quatro dias tem grande chance de nunca ter sido só HELLP.

A evolução favorável também tem prazo: com cuidado de suporte apenas, 90% das pacientes com HELLP têm contagem de plaquetas acima de 100.000/mm³ e reversão da tendência das enzimas hepáticas em até sete dias após o parto. Não é incomum um fenômeno de rebote, com plaquetas alcançando valores entre 400.000 e 871.000/mm³ — que assusta quem não o conhece e não indica nada. Os sinais de remissão que o Manual do Ministério lista para autorizar a saída da vigilância intensiva são objetivos: diurese espontânea acima de 25 mL/h, creatinina normal, queda da desidrogenase láctica e melhora nos níveis de plaquetas e transaminases.

O restante do cuidado puerperal segue a rotina da pré-eclâmpsia, com três lembretes próprios. O sulfato de magnésio é mantido por 24 horas após o parto. A pressão arterial piora a partir do terceiro dia de puerpério, quando a redistribuição do volume circulatório se completa, e isso acontece mesmo em quem estava com a pressão controlada — o alvo do controle na HELLP, escrito pelo Manual, é manter a pressão abaixo de 150 por 100 mmHg, e a RBEHG mira a diastólica em torno de 85 mmHg. Para o anti-hipertensivo oral do puerpério, a RBEHG indica enalapril como primeira escolha, seguido de anlodipino e atenolol, com uma ressalva importante: inibidores da enzima conversora devem ser evitados na insuficiência renal aguda, e nesses casos o tratamento começa pelo anlodipino. Diuréticos de alça têm lugar no comprometimento renal leve e nos quadros de edema agudo de pulmão. A diurese deve ser mantida acima de 25 mL/h.

Depois da alta: o que a HELLP deixa e o que se oferece na próxima gestação

O risco de recorrência da síndrome HELLP em gestação subsequente chega a 20%, e a paciente precisa sair da maternidade sabendo disso. A revisão internacional trabalha com um risco de pelo menos 20% de doença hipertensiva recorrente, com variação ampla entre séries — e o risco é maior em quem teve HELLP precoce.

A profilaxia da próxima gestação é a mesma da pré-eclâmpsia, e as doses estão escritas: ácido acetilsalicílico 100 mg por dia, iniciado até 16 semanas, e reposição de cálcio de 500 a 1.000 mg por dia — dose que o Manual do Ministério da Saúde mantém e que a RBEHG e a FEBRASGO deixaram de recomendar em março de 2026 —, com pré-natal em centro de referência e acompanhamento começando o mais cedo possível. Não existe prevenção primária específica da HELLP: a melhor prevenção continua sendo o diagnóstico precoce.

No longo prazo, a síndrome HELLP entra na mesma categoria da pré-eclâmpsia grave — um marcador de risco cardiovascular e renal para a vida inteira. O que se orienta é concreto: alimentação saudável, não fumar, reduzir álcool, atividade física e controle de peso, com acompanhamento periódico de pressão arterial e de função renal e hepática. A proteinúria residual é frequente e é fator de risco expressivo de progressão para dano renal definitivo.

Três providências fecham a internação e costumam aparecer em questão de conduta: relatório detalhado do que aconteceu, que servirá de base para as decisões de qualquer equipe futura; explicação sobre os próximos exames em curto e médio prazos, em linguagem que a paciente entenda; e oferta de contracepção efetiva e de longa duração, de preferência com inserção ainda na maternidade.

04

Do laboratório à sala de parto

O caminho inteiro, da suspeita clínica ao critério de alta da vigilância intensiva, está no fluxo. Os cards destrincham a única escala genuinamente ordinal do tema — a classificação por contagem de plaquetas, em que cada degrau muda o risco de complicação hemorrágica. A primeira tabela traz os três critérios laboratoriais com o corte de cada marcador; a segunda separa os dois sistemas de classificação, que respondem a perguntas diferentes; a terceira é a que a prova mais cobra, com o que distingue cada doença que imita a HELLP; e a quarta reúne todos os cortes de plaqueta que decidem alguma conduta, porque são cinco números diferentes e é fácil trocá-los.

  1. 1Suspeite pela dor, não pela pressão: toda gestante com mais de 20 semanas e dor epigástrica e/ou em hipocôndrio direito, com ou sem vômitos, é elegível para o diagnóstico de síndrome HELLP e deve ser investigada, ainda que esteja normotensa e sem proteinúria.
  2. 2Peça o painel: hemograma com contagem de plaquetas, aspartato e alanina aminotransferases, desidrogenase láctica, bilirrubinas, creatinina e esfregaço de sangue periférico. Fechado o diagnóstico, acrescente coagulograma.
  3. 3Feche o diagnóstico pelos três eixos: hemólise (desidrogenase láctica acima de 600 UI/L ou o dobro da referência, ou haptoglobina abaixo de 25 mg/dL, ou hemoglobina de 8 g/dL ou menos, ou bilirrubina indireta de 1,2 mg/dL ou mais, ou esquizócitos e equinócitos no esfregaço), transaminases acima de 70 UI/L ou o dobro da referência, e plaquetas abaixo de 100.000/mm³.
  4. 4Não use o corte de plaquetas da pré-eclâmpsia (150.000/mm³) para rotular HELLP. Entre 100.000 e 150.000, vigie: queda maior que 20% na contagem manda repetir os exames em seis horas.
  5. 5Percorra o diferencial antes de assumir o diagnóstico: plaqueta baixa antes de 20 semanas aponta púrpura trombocitopênica trombótica; hipoglicemia refratária com icterícia e coagulopatia aponta esteatose hepática aguda; rim dominante com fígado poupado aponta síndrome hemolítico-urêmica atípica.
  6. 6Estabilize: sulfato de magnésio para todas as pacientes com HELLP, com ou sem sinais de iminência; hipotensor de ação rápida para manter diastólica abaixo de 100 mmHg e sistólica abaixo de 150 mmHg; volume para manter diurese de pelo menos 30 mL/h; avaliação fetal com perfil biofísico e Doppler.
  7. 7Decida o parto. A partir de 34 semanas, resolução. Abaixo de 34 semanas, expectante apenas de forma excepcional, por no máximo 48 horas, com mãe e feto estáveis, para corticoide e transferência a centro terciário — com reavaliação clínica e laboratorial em seis horas e nova avaliação no dia seguinte. Qualquer piora encerra a espera. Plaquetas abaixo de 100.000/mm³ não autorizam prolongar a gestação.
  8. 8Escolha a via pela indicação obstétrica: vaginal é a preferência. Cesárea quando houver comprometimento da vitalidade fetal, instabilidade materna, apresentação anômala em idade gestacional precoce ou hematoma hepático. Sem episiotomia; fórcipe com indicação restrita.
  9. 9Planeje a hemoterapia antes de entrar na sala: transfusão de plaquetas sempre abaixo de 20.000/mm³, qualquer via; antes de cesárea, pelos cortes da tabela 4. Dose de uma unidade para cada 10 kg de peso, ou alvo em torno de 100.000/mm³.
  10. 10No pós-parto, espere a piora: nadir de plaquetas em média 23 horas após o parto, pico de intensidade nos dois primeiros dias, subida a partir do terceiro. Mantenha sulfato por 24 horas, vigie sangramento e diurese acima de 25 mL/h, e reavalie o diagnóstico se as plaquetas continuarem caindo e as enzimas subindo depois de quatro dias.

Classe I — plaquetas de 50.000/mm³ ou menos

A forma mais grave. Abaixo de 50.000/mm³, a plaquetopenia está associada a coagulação intravascular disseminada e é forte indicador de complicações hemorrágicas. É a faixa em que os dois documentos brasileiros discutem dexametasona para resgatar a contagem antes da cesárea e em que a transfusão de plaquetas entra em qualquer dos cortes usados. Exige transaminases de 70 UI/L ou mais e desidrogenase láctica de 600 UI/L ou mais.

Classe II — plaquetas entre 50.000 e 100.000/mm³

A faixa em que a maioria das pacientes fecha o diagnóstico, porque é a que fica logo abaixo do corte de 100.000/mm³. Exige, como a classe I, transaminases de 70 UI/L ou mais e desidrogenase láctica de 600 UI/L ou mais. É a faixa em que o corte de transfusão antes da cesárea separa os documentos: 50.000/mm³ no Manual do Ministério e no Febrasgo, 70.000/mm³ na RBEHG de 2025.

Classe III — plaquetas entre 100.000 e 150.000/mm³

A classe mais leve, e a que exige mais cuidado conceitual: essa faixa está acima do corte que fecha o diagnóstico de HELLP e dentro do corte que fecha o de pré-eclâmpsia. A RBEHG recomenda confirmar a síndrome apenas abaixo de 100.000/mm³, para evitar prematuridade iatrogênica, e vigiar quedas maiores que 20% nessa faixa. É também a única classe que admite transaminases a partir de 40 UI/L, e não 70.

EixoMarcadorO corte que contaOnde está escrito
HemóliseDesidrogenase láctica (DHL)Acima de 600 UI/L, ou acima do dobro do valor de referência do laboratórioRBEHG 2025; Manual do MS 2022; ACOG 222
HemóliseHaptoglobinaAbaixo de 25 mg/dLRBEHG 2025
HemóliseHemoglobina (anemia grave)8 g/dL ou menosRBEHG 2025
HemóliseBilirrubina indireta1,2 mg/dL ou maisRBEHG 2025; Manual do MS 2022 (bilirrubinas acima de 1,2 mg/dL)
HemóliseEsfregaço de sangue periféricoPresença de esquizócitos ou equinócitos (o Manual do MS acrescenta anisocitose e poiquilocitose)RBEHG 2025; Manual do MS 2022
Enzimas hepáticasAST (TGO) e/ou ALT (TGP)Acima de 70 UI/L, ou pelo menos duas vezes o maior valor do padrão do laboratórioRBEHG 2025; Manual do MS 2022; Febrasgo 2018
PlaquetopeniaContagem de plaquetasAbaixo de 100.000/mm³ — e queda maior que 20% na contagem exige repetir em 6 horas mesmo acima desse valorRBEHG 2025; Manual do MS 2022; Febrasgo 2018; ACOG 222
Coagulopatia (não é critério, é consequência)TP, TTPA e fibrinogênioSó se alteram quando a queda de plaquetas ultrapassa 30.000/mm³ — nesse ponto, o quadro é de coagulação intravascular disseminadaRBEHG 2025; Febrasgo 2018

Mississippi e Tennessee: dois sistemas, duas perguntas

SistemaPara que serveCategoriaPlaquetasEnzimas e hemólise
Tennessee (linhagem de Sibai)Definir se é HELLPCompleta100.000/mm³ ou menosAST de 70 UI/L ou mais e DHL de 600 UI/L ou mais, com hemólise
Tennessee (linhagem de Sibai)Definir se é HELLPParcialDepende de qual componente está presenteApenas um ou dois dos três componentes da tríade
Mississippi (Martin) — usado pelo Manual do MS 2022 como classificação de MartinGraduar a gravidade da HELLP já definidaClasse I50.000/mm³ ou menosAST/ALT de 70 UI/L ou mais; DHL de 600 UI/L ou mais
Mississippi (Martin)Graduar a gravidadeClasse IIEntre 50.000 e 100.000/mm³AST/ALT de 70 UI/L ou mais; DHL de 600 UI/L ou mais
Mississippi (Martin)Graduar a gravidadeClasse IIIEntre 100.000 e 150.000/mm³AST/ALT de 40 UI/L ou mais; DHL de 600 UI/L ou mais

Diagnóstico diferencial: o que separa cada doença da síndrome HELLP

DoençaO que chama atenção na clínicaO laboratório que separaO que muda na conduta
Púrpura trombocitopênica trombótica (PTT)Sintomas neurológicos e febre proeminentes; púrpura habitual; início mais precoce — 12% no primeiro trimestre, 56% no segundo, 33% no terceiro ou pós-partoPlaquetas frequentemente de 20.000/mm³ ou menos; DHL acima de 1.000 UI/L; anemia hemolítica sempre presente; atividade de ADAMTS13 de 5% ou menos; transaminases habitualmente normaisHematologia no caso; a doença tem tratamento próprio (troca plasmática) e o parto não a resolve. Plaqueta baixa antes de 20 semanas é PTT até prova em contrário — a HELLP não ocorre antes de 20 semanas
Síndrome hemolítico-urêmica atípica (SHU)Comprometimento renal domina o quadro; ocorre na gestação e, mais comumente, no puerpérioLesão renal grave e que progride depois do parto; transaminases normais ou pouco elevadas; DHL acima de 1.000 UI/L; creatinina de 1,9 mg/dL ou mais somada a DHL de 600 U/L ou mais aparece em 91% das SHU e em 0% das HELLP; ADAMTS13 usualmente baixoHematologia e nefrologia; terapia dirigida ao complemento. É o diagnóstico a procurar quando o pós-parto não melhora depois de quatro dias
Esteatose hepática aguda da gravidez (fígado gorduroso)Náusea, vômito e mal-estar; icterícia praticamente sempre presente, com colúria; evolução rápida para falência hepática e encefalopatia; óbito fetal frequenteHipoglicemia importante e refratária; alargamento do tempo de tromboplastina parcial como regra; hiperamonemia; distúrbio de coagulação em 50% a 100% dos casos; plaquetas geralmente acima de 50.000/mm³Suporte e parto, como na HELLP, mas com correção agressiva da hipoglicemia e da coagulopatia e vigilância de falência hepática — errar o diagnóstico é deixar de procurar a hipoglicemia
Trombocitopenia gestacionalAssintomática; exame físico normal; aparece no fim da gestação e no peripartoPlaquetas entre 100.000 e 150.000/mm³, sem hemólise, sem transaminase elevada, sem nenhuma outra alteraçãoNenhuma mudança obstétrica. É diagnóstico de exclusão e não antecipa parto
Hepatite viral agudaPródromo viral, febre, icterícia; contexto epidemiológicoTransaminases em outra ordem de grandeza, na casa dos milhares; sorologias virais positivas; plaquetas habitualmente preservadas; sem esquizócitosTratamento da hepatite e suporte; não indica antecipar o parto por si
Colestase intra-hepática da gravidezPrurido como sintoma dominante, sem lesão de pele primária; sem dor abdominal significativaÁcidos biliares séricos elevados; transaminases podem subir, mas plaquetas normais e sem hemóliseSintomático e programação de parto pela própria colestase; não é emergência hemorrágica
Lúpus eritematoso sistêmico em atividadeHistória prévia de lúpus; artrite, lesão cutânea; hipertensão presente, mas geralmente menos pronunciadaQueda de complemento e títulos altos de anti-DNA; proteinúria e/ou hematúria com creatinina elevada; trombocitopenia comum, hemólise menos característicaReumatologia e imunossupressão. Hipertensão acelerada de início agudo aponta mais para pré-eclâmpsia com HELLP do que para crise lúpica

Os cortes de plaqueta que decidem alguma coisa

A decisãoO corteO documentoO que ele significa
Fechar o diagnóstico de síndrome HELLPAbaixo de 100.000/mm³Sibai, reproduzido no Manual do MS 2022, na RBEHG 2025, no Febrasgo 2018 e no ACOG 222Abaixo disso, com hemólise e transaminases, o diagnóstico está feito
Fechar o diagnóstico de pré-eclâmpsiaAbaixo de 150.000/mm³RBEHG 2025; ISSHP 2021É critério de pré-eclâmpsia, não de HELLP — usar esse corte para rotular HELLP produz prematuridade iatrogênica
Repetir os exames em 6 horas mesmo sem cruzar o corteQueda maior que 20% na contagemRBEHG 2025O que decide não é a fotografia, é a inclinação da curva
Deixar de ser classe II e virar classe I de Mississippi50.000/mm³ ou menosMartin, no Manual do MS 2022Faixa associada a coagulação intravascular disseminada e forte indicador de complicação hemorrágica
Encerrar qualquer tentativa de conduta expectanteAbaixo de 100.000/mm³Manual do MS 2022, nota do Quadro 4Não há razões aceitáveis para manter a gestação com plaquetas abaixo desse valor
Realizar anestesia de neuroeixo70.000/mm³ ou mais (ACOG 222; RBEHG 2025) — abaixo de 100.000/mm³ contraindica (Febrasgo 2018)ACOG 222 (2020); RBEHG 2025; Febrasgo 2018Divergência registrada no bloco 05. Pelo ACOG, valem quatro condições: nível estável, sem outra coagulopatia, função plaquetária normal e sem antiagregante ou anticoagulante
Transfundir plaquetas antes da cesáreaAbaixo de 70.000/mm³ (RBEHG 2025) — abaixo de 50.000/mm³ (Manual do MS 2022; Febrasgo 2018)RBEHG 2025; Manual do MS 2022; Febrasgo 2018Divergência registrada no bloco 05
Transfundir plaquetas sempre, em qualquer via e mesmo sem sangramentoAbaixo de 20.000/mm³Manual do MS 2022; Febrasgo 2018; RBEHG 2025Consenso entre os três documentos brasileiros
Reconhecer coagulação intravascular disseminada instaladaQueda superior a 30.000/mm³ na contagemRBEHG 2025; Febrasgo 2018É quando TP, TTPA e fibrinogênio se alteram e aparecem sangramentos difusos

Dose de plaquetas, em qualquer dos cortes: uma unidade de concentrado para cada 10 kg de peso, ou o suficiente para alcançar níveis em torno de 100.000/mm³. Cada unidade eleva a contagem em 5.000 a 10.000/mm³ num adulto de 70 kg, e uma aférese equivale a 6 a 8 unidades.

O sulfato de magnésio é indicado para todas as pacientes com síndrome HELLP, com ou sem sinais de iminência de eclâmpsia, e mantido por 24 horas após o parto — pelo menos 15% evoluem com eclâmpsia. Os esquemas, o preparo, as travas de segurança e o antídoto estão no capítulo de eclâmpsia. Uma restrição vale lembrar aqui: a via intramuscular não deve ser usada na síndrome HELLP com plaquetopenia, pelo risco de hematoma e abscesso.

Corticoide tem duas indicações que não se confundem. Para maturação pulmonar fetal, entre 24 e 34 semanas, é consenso — e é a razão da janela de 48 horas. Para tratar a síndrome, é divergência (bloco 05). O parto nunca é postergado para completar ciclo de corticoide diante de situação materna grave.

Quando há hematoma hepático, a via de parto é a cesárea, porque o esforço expulsivo aumenta o risco de rotura. E em nenhuma hipótese se faz exploração manual do fígado durante a cirurgia.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Corticoide para tratar a síndrome HELLP (não para maturação pulmonar)

Não administrar corticoide para acelerar a resolução da HELLP — ISSHP

A recomendação 32 da ISSHP de 2021 é numerada, forte e de certeza moderada: não administrar corticoide com a finalidade de acelerar a resolução da síndrome HELLP. A justificativa que o documento registra é que os esteroides podem melhorar transitoriamente a contagem de plaquetas e outros valores laboratoriais, mas não demonstraram reduzir desfechos adversos, e têm efeitos adversos comuns — hiperglicemia e elevação adicional da pressão arterial.

ISSHP 2021 (Magee et al., Pregnancy Hypertension, 2022), recomendação 32.

Dexametasona para resgatar a contagem de plaquetas antes da cesárea — Ministério da Saúde e Febrasgo

O Quadro 4 do Manual de Gestação de Alto Risco indica dexametasona para resgatar plaquetopenia e escreve que ela está sempre indicada antes de cesárea quando as plaquetas estão abaixo de 50.000/mm³, para otimizar o uso de anestesia condutiva. A nota de rodapé do próprio Manual delimita o alcance: as evidências servem para melhorar as condições anestésicas e não alteram mortalidade materna ou perinatal. O protocolo Febrasgo de 2018 chega a formulação próxima e a condiciona ao contexto — razoável em paciente grave com menos de 50.000/mm³, principalmente nos locais onde a disponibilidade de sangue e de plaquetas não é adequada.

Manual de Gestação de Alto Risco (Ministério da Saúde, 2022), Quadro 4 e nota de rodapé; Protocolo Febrasgo – Obstetrícia n. 9 (2018).

Sem recomendação de rotina, com a evidência ainda inconclusiva — RBEHG e as revisões

O protocolo da RBEHG de 2025 registra que a revisão sistemática não identificou evidências suficientes para recomendação rotineira e que a metanálise mais recente encontrou aumento da contagem de plaquetas e melhora das enzimas hepáticas, com redução de tempo de internação e de necessidade de transfusão, sem redução de morbidade geral ou de mortalidade materna. Acrescenta que esses benefícios não se confirmaram em pesquisa brasileira com 105 puérperas tratadas com dexametasona 10 mg a cada 12 horas por quatro dias, que não achou diferença sequer na contagem de plaquetas. A Cochrane de 2010 (11 ensaios, 550 mulheres) não encontrou diferença em morte materna, morbidade materna grave ou morte perinatal, com efeito isolado sobre a contagem de plaquetas (diferença média padronizada de 0,67; intervalo de confiança de 95% entre 0,24 e 1,10); a metanálise de 2024 (15 ensaios, 821 mulheres) mantém a incerteza, com risco relativo de 0,77 (0,25 a 2,38) para morte materna e 0,64 (0,21 a 1,97) para morte perinatal.

Protocolo Síndrome HELLP (RBEHG, 2025); Cochrane CD008148 (2010), conforme resumida no ACOG 222; BMC Pregnancy and Childbirth (2024).

Na prova

O recorte se identifica pela finalidade escrita no enunciado e pelo cenário. Quando a alternativa diz corticoide para acelerar a resolução da síndrome ou para tratar a HELLP, o vocabulário é o do corpo internacional, e a ISSHP tem recomendação numerada e forte sobre exatamente essa frase. Quando o enunciado descreve uma cesárea iminente, plaquetas abaixo de 50.000/mm³ e a pergunta é sobre viabilizar anestesia condutiva, o vocabulário é o do Manual do Ministério e do Febrasgo. O cenário também denuncia: serviço sem banco de sangue ou sem disponibilidade de plaquetas é o contexto em que o documento brasileiro condiciona a indicação; centro terciário com hemocomponente disponível é o contexto em que a transfusão responde à mesma pergunta em menos tempo. E cuidado com a alternativa que apenas diz corticoide entre 24 e 34 semanas — essa é maturação pulmonar, tema sem divergência, e não entra nesta discussão. Prova oficial do MEC tende a conduta SUS; outras bancas dependem do que as alternativas revelam.

O corte de plaquetas para anestesia de neuroeixo

Contraindicada abaixo de 100.000/mm³ — Febrasgo 2018

O protocolo Febrasgo de 2018 é explícito: raquianestesia e peridural estão contraindicadas nos casos com menos de 100.000 plaquetas/mm³, pelo risco de hemorragia e hematoma nesses espaços, com possibilidade de sequela neurológica. Para essas circunstâncias, o documento indica anestesia geral.

Protocolo Febrasgo – Obstetrícia n. 9 (2018), seção de parto, anestesia e planejamento cirúrgico.

Aceitável a partir de 70.000/mm³, com quatro condições — ACOG 222 e RBEHG 2025

O ACOG 222 sustenta o corte com dado primário: uma coorte retrospectiva de 84.471 pacientes obstétricas de 19 instituições, somada a revisão sistemática, mostra risco de hematoma peridural excepcionalmente baixo, inferior a 0,2%, com contagem acima de 70.000/mm³ — desde que o nível esteja estável, não haja outra coagulopatia adquirida ou congênita, a função plaquetária esteja normal e a paciente não esteja em uso de antiagregante ou anticoagulante. A RBEHG de 2025 registra que não há consenso mundial, considera contagens acima de 80.000/mm³ bastante seguras para o bloqueio e afirma que a maioria dos anestesistas concorda em realizá-lo acima de 70.000/mm³.

ACOG Practice Bulletin n. 222 (2020), seção de considerações anestésicas; Protocolo Síndrome HELLP (RBEHG, 2025), aspectos anestésicos.

Na prova

Aqui a data do documento é o sinal mais forte, e é uma divergência em que a fonte brasileira mais recente se aproximou da internacional: 2018 escreve 100.000/mm³, 2020 e 2025 escrevem 70.000/mm³. Se o enunciado nomeia o protocolo Febrasgo, o recorte é o de 2018. Se a vinheta descreve contagem entre 70.000 e 100.000/mm³ e oferece bloqueio de neuroeixo entre as alternativas, ela está testando o corte novo — porque essa faixa só existe como pergunta se os dois números estiverem em jogo. As alternativas denunciam o mundo: uma opção que manda direto para anestesia geral com plaquetas de 85.000/mm³ pertence ao documento de 2018; uma opção que condiciona o bloqueio à estabilidade da contagem e à ausência de anticoagulante reproduz literalmente as quatro condições do ACOG. E há um detalhe clínico que atravessa as duas posições: na HELLP em queda rápida, a estabilidade da contagem — que é a primeira condição do ACOG — costuma ser justamente o que falta.

O corte de plaquetas para transfundir antes da cesárea

Transfundir abaixo de 50.000/mm³ — Ministério da Saúde e Febrasgo

O Manual de Gestação de Alto Risco recomenda transfusão de plaquetas quando a contagem for menor do que 50.000/mm³ em paciente que será submetida a cesariana, e o Quadro 4 resume a meta como manter plaquetas acima de 50.000/mm³ para cesárea e de 20.000/mm³ para parto normal. O protocolo Febrasgo de 2018 escreve exatamente os mesmos dois números nas recomendações finais.

Manual de Gestação de Alto Risco (Ministério da Saúde, 2022), itens 11.6.3 e 11.6.4; Protocolo Febrasgo – Obstetrícia n. 9 (2018), recomendações finais.

Transfundir abaixo de 70.000/mm³ — RBEHG 2025

O protocolo da RBEHG de 2025 eleva o corte: pacientes com plaquetas abaixo de 70.000/mm³ devem receber transfusão precedendo o início do ato operatório, e as recomendações finais escrevem manter plaquetas acima de 70.000/mm³ para cesárea e 20.000/mm³ para parto normal. O documento acrescenta a ressalva de realidade assistencial — nem sempre há plaquetas disponíveis, e diante de quedas abaixo de 100.000/mm³ o parto deve ser realizado em local seguro.

Protocolo Síndrome HELLP (RBEHG, 2025), conduta obstétrica e recomendações finais.

Na prova

Os dois números convivem em documentos brasileiros vigentes, e o que os separa é a data: 2018 e 2022 escrevem 50.000/mm³, 2025 escreve 70.000/mm³. O que não muda em nenhum deles, e por isso é o alvo mais seguro de uma questão bem construída, é o par que todos repetem: transfusão sempre abaixo de 20.000/mm³, mesmo sem sangramento e em qualquer via, e manter acima de 20.000/mm³ para parto vaginal. Se a vinheta traz contagem entre 50.000 e 70.000/mm³ com cesárea indicada, ela foi montada exatamente sobre a divergência, e o documento citado no enunciado — ou a nomenclatura usada nas alternativas — indica de qual lado a banca escreveu. Repare também no cenário: quando o enunciado descreve serviço sem disponibilidade imediata de hemocomponente, o texto que trata dessa hipótese é o da RBEHG.

Sulfato de magnésio na HELLP sem hipertensão e sem sinal neurológico

Sempre, para toda paciente com HELLP — RBEHG 2025 e Ministério da Saúde

A RBEHG de 2025 escreve que, uma vez diagnosticada a síndrome HELLP, o uso de sulfato de magnésio é mandatório para profilaxia de convulsões e deve ser mantido por cerca de 24 horas após o parto, e sustenta a indicação em dois argumentos: a HELLP é uma forma de pré-eclâmpsia com sinais de gravidade, e pelo menos 15% dessas pacientes podem evoluir com eclâmpsia. As recomendações finais repetem: administrar sulfato a todas as pacientes com síndrome HELLP, independentemente da clínica de iminência de eclâmpsia. O Quadro 4 do Manual do Ministério escreve a mesma coisa — sempre utilizar sulfato quando há diagnóstico de HELLP.

Protocolo Síndrome HELLP (RBEHG, 2025), aspectos terapêuticos e recomendações finais; Manual de Gestação de Alto Risco (Ministério da Saúde, 2022), Quadro 4.

Sem evidência para uso rotineiro em quem não está hipertensa nem tem sinal cerebral — Febrasgo 2018

O protocolo Febrasgo de 2018 faz a ressalva expressa de que nem todas as pacientes com HELLP se apresentam hipertensas ou com comprometimento cerebral sugestivo de eclâmpsia, e de que, nessas pacientes, não há evidências que apoiem o uso rotineiro de hipotensores ou de sulfato de magnésio. Reserva a indicação formal para as que exibem quadro clássico de emergência hipertensiva e sinais cerebrais, em que hipotensor de ação rápida e sulfato estão indicados.

Protocolo Febrasgo – Obstetrícia n. 9 (2018), aspectos terapêuticos.

Na prova

É a divergência mais fácil de identificar pelo perfil da vinheta, porque a pergunta só existe quando o enunciado faz questão de dizer que a pressão está normal e não há cefaleia, escotoma nem epigastralgia intensa. Se o enunciado não descreve a pressão, ele não está cobrando isto. O documento citado resolve o recorte: os textos brasileiros de 2022 e 2025 escrevem sulfato para todas as pacientes com HELLP; o texto de 2018 abre a exceção para a normotensa assintomática. As alternativas também denunciam — uma opção que ofereça sulfato apenas se surgir sinal de iminência reproduz a formulação de 2018, enquanto uma opção que prescreva sulfato junto com a indicação do parto reproduz as recomendações finais de 2025.

Conduta expectante na HELLP pré-termo

HELLP impede conduta expectante; o parto se indica independentemente da idade gestacional — ACOG

O ACOG 222 lista a síndrome HELLP no Quadro 4, entre as condições maternas que impedem a conduta expectante, ao lado de eclâmpsia, edema agudo de pulmão, acidente vascular encefálico e piora da função renal. E escreve, na seção de complicações agudas, que muitos autores concluíram que mulheres com síndrome HELLP devem ter o parto realizado independentemente da idade gestacional, acrescentando que a paciente longe do termo deve ser cuidada em centro terciário, com unidades de terapia intensiva neonatal e obstétrica disponíveis.

ACOG Practice Bulletin n. 222 (2020), Quadro 4 e seção de manejo das complicações agudas.

Janela excepcional de até 48 horas entre 23 e 34 semanas, com mãe e feto estáveis — RBEHG 2025 e Ministério da Saúde

A RBEHG de 2025 admite conduta expectante abaixo de 34 semanas de forma excepcional, sem exceder 48 horas, e apenas com condições maternas e fetais estáveis, com duas justificativas nomeadas: otimizar as condições de assistência ao parto, incluindo a remoção para centro especializado, e qualificar o prognóstico fetal com corticoide. O fluxograma reavalia em seis horas e repete os exames no dia seguinte; qualquer piora clínica ou laboratorial encerra a espera. O Manual do Ministério indica a interrupção independentemente da idade gestacional, a não ser em condições excepcionais, admite o modelo fullPIERS abaixo de 34 semanas e fecha a porta com um número: não há razões aceitáveis para manter a gestação quando as plaquetas atingem valores inferiores a 100.000/mm³.

Protocolo Síndrome HELLP (RBEHG, 2025), aspectos terapêuticos, fluxograma 1 e recomendações finais; Manual de Gestação de Alto Risco (Ministério da Saúde, 2022), item 11.6.3 e nota do Quadro 4.

Na prova

A idade gestacional da vinheta é o primeiro sinal: acima de 34 semanas não há divergência nenhuma, e qualquer alternativa que proponha esperar está errada nos dois mundos. A pergunta só é uma pergunta entre a viabilidade e 34 semanas. O segundo sinal é a estabilidade descrita — se o enunciado detalha pressão controlada, mãe assintomática, vitalidade fetal preservada e exames repetidos sem piora, ele montou o cenário exato em que o documento brasileiro admite a janela; se descreve qualquer piora clínica ou laboratorial, dor que não cede, sangramento ou plaquetas em queda, o próprio texto brasileiro encerra a espera e as duas posições coincidem. O terceiro sinal está nas alternativas: uma opção que fale em aguardar 48 horas para completar corticoterapia com reavaliação laboratorial em seis horas reproduz o fluxograma da RBEHG; uma opção que diga resolver a gestação independentemente da idade gestacional reproduz o Quadro 4 do ACOG. E vale reter o número que atravessa os dois: plaquetas abaixo de 100.000/mm³ tiram a expectante de cena em qualquer versão.

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Caso resolvido

Gestante de 29 anos, primigesta, 32 semanas e 4 dias por ultrassonografia de primeiro trimestre, chega ao pronto-socorro obstétrico com dor em hipocôndrio direito há 14 horas, contínua, sem relação com alimentação, acompanhada de náusea e dois episódios de vômito. Refere que esteve na unidade básica há dois dias com a mesma queixa e recebeu omeprazol. Pré-natal com sete consultas, sem intercorrências; pressões arteriais registradas no cartão entre 108 por 68 e 126 por 78 mmHg. Ao exame: consciente, orientada, corada, anictérica, pressão arterial de 128 por 82 mmHg aferida sentada em dois momentos com 15 minutos de intervalo, frequência cardíaca de 92 bpm, sem edema importante, dor à palpação do hipocôndrio direito sem sinal de Murphy, altura uterina compatível, batimentos cardiofetais de 142 bpm. Reflexos patelares normais, sem cefaleia, sem escotomas. Fita urinária sem proteinúria. Exames: hemoglobina 10,4 g/dL, plaquetas 78.000/mm³, TGO 168 UI/L, TGP 142 UI/L, desidrogenase láctica 890 UI/L, bilirrubina total 1,8 mg/dL com indireta de 1,5 mg/dL, creatinina 0,8 mg/dL, glicemia capilar de 88 mg/dL, esfregaço de sangue periférico com esquizócitos. Coagulograma com TP, TTPA e fibrinogênio normais. Cardiotocografia reativa, Doppler de artéria umbilical normal, feto no percentil 45.
achado
Os três eixos da síndrome HELLP estão presentes, e nenhum deles é a pressão. Hemólise: desidrogenase láctica de 890 UI/L (acima de 600), bilirrubina indireta de 1,5 mg/dL (1,2 ou mais) e esquizócitos no esfregaço — três marcadores, e bastava um. Comprometimento hepático: TGO de 168 e TGP de 142 UI/L, ambas acima de 70. Plaquetopenia: 78.000/mm³, abaixo de 100.000. O diagnóstico é HELLP completa pelos critérios de Tennessee e classe II de Mississippi, porque as plaquetas estão entre 50.000 e 100.000/mm³.
a armadilha da vinheta
Pressão normal e fita urinária sem proteinúria não excluem nada. Cerca de 15% das pacientes com HELLP chegam sem hipertensão ou sem proteinúria, e essa é exatamente a paciente que é dispensada com diagnóstico de gastrite — como já aconteceu há dois dias, com o omeprazol. A dor em hipocôndrio direito em gestante acima de 20 semanas é, por si só, indicação de investigar HELLP, independentemente da pressão.
o que não fazer
Não se pede proteinúria de 24 horas para decidir: o diagnóstico já está fechado pelo laboratório, e o resultado não mudaria a conduta. Não se repete o hemograma para confirmar antes de agir — a repetição serve para acompanhar, não para adiar. E não se indica cesárea automática porque o diagnóstico é HELLP.
estabilização
Sulfato de magnésio para todas as pacientes com HELLP, mesmo sem cefaleia, sem escotoma e com pressão normal — a paciente pertence ao grupo em que pelo menos 15% evoluem com eclâmpsia, e o sulfato serve também de neuroproteção fetal nesta idade gestacional. Não há indicação de hipotensor de ação rápida aqui, porque a pressão está abaixo de 150 por 100 mmHg. Volume para manter diurese de pelo menos 30 mL/h. Coagulograma já foi colhido e está normal, o que é coerente com uma queda de plaquetas que ainda não ultrapassou 30.000/mm³.
a decisão do parto
Idade gestacional de 32 semanas e 4 dias, com mãe estável e feto com vitalidade preservada, autoriza a única espera admitida: até 48 horas, para ciclo de corticoide e para garantir que o nascimento ocorra em centro terciário com unidade neonatal. Corticoide para maturação pulmonar está indicado nesta faixa. Os exames se repetem em seis horas e no dia seguinte; qualquer piora clínica ou laboratorial encerra a espera. O parto não é postergado para completar o ciclo se a mãe piorar.
via de parto e planejamento
A via é obstétrica, e a vaginal é a preferência — não há comprometimento de vitalidade fetal, não há instabilidade materna e não há hematoma hepático. Com colo desfavorável, faz-se preparo com sonda de Foley ou misoprostol seguido de indução com ocitocina, sem episiotomia e com indicação restrita de fórcipe. Reserva de hemocomponentes solicitada de forma antecipada; com plaquetas de 78.000/mm³ e curva estável, o bloqueio de neuroeixo é possível pelos cortes de 2020 e 2025.
diferencial percorrido
Idade gestacional acima de 20 semanas e ausência de sintoma neurológico ou febre afastam púrpura trombocitopênica trombótica como primeira hipótese. Creatinina normal e ausência de oligúria afastam predomínio renal de síndrome hemolítico-urêmica. Glicemia sem hipoglicemia, ausência de icterícia clínica e coagulograma normal afastam esteatose hepática aguda. Transaminases na casa das centenas, e não dos milhares, com esquizócitos presentes, não têm cara de hepatite viral.
puerpério
Sulfato mantido por 24 horas após o parto. Espera-se que as plaquetas continuem caindo e as transaminases subam nas primeiras 24 a 48 horas — o nadir médio é 23 horas após o parto — e que a curva vire a partir do terceiro dia. Vigilância em unidade de terapia intensiva nas primeiras 72 horas, com controle de sangramento e diurese acima de 25 mL/h. Se depois de quatro dias as plaquetas ainda estiverem caindo e as enzimas subindo, o diagnóstico inicial é reavaliado.
07

Agora feche você

Puérpera de 34 anos, quarto dia de pós-parto de cesariana realizada por síndrome HELLP com 33 semanas. No dia do parto, plaquetas de 61.000/mm³, TGO de 210 UI/L, desidrogenase láctica de 940 UI/L, creatinina de 1,1 mg/dL. Recebeu sulfato de magnésio por 24 horas após o parto e permanece em unidade de terapia intensiva. Está lúcida, sem dor abdominal significativa, sem sangramento pela ferida operatória nem por sítios de punção, pressão arterial de 148 por 94 mmHg em uso de anti-hipertensivo oral. A diurese está em 18 mL/h nas últimas oito horas. Exames de hoje, quarto dia: plaquetas de 44.000/mm³ (era 52.000 ontem e 61.000 no dia do parto), TGO de 98 UI/L (era 165 ontem), desidrogenase láctica de 1.980 UI/L (era 1.150 ontem), hemoglobina de 7,2 g/dL (era 8,9 ontem), creatinina de 2,6 mg/dL (era 1,4 ontem), bilirrubina indireta de 2,1 mg/dL, esfregaço com esquizócitos abundantes. Coagulograma com TP, TTPA e fibrinogênio dentro da normalidade.
achado
Quarto dia de pós-parto com plaquetas ainda caindo, desidrogenase láctica subindo para quase 2.000 UI/L, hemoglobina despencando com esquizócitos abundantes e creatinina que quase dobrou em 24 horas, com oligúria de 18 mL/h. A única coisa que está melhorando é a transaminase, que caiu de 165 para 98 UI/L.
o que a curva deveria estar fazendo
Na síndrome HELLP não complicada, a contagem de plaquetas atinge o menor valor em média 23 horas após o parto e passa a subir a partir do terceiro dia; a doença tem pico de intensidade nos dois primeiros dias e, com suporte apenas, 90% das pacientes têm plaquetas acima de 100.000/mm³ e reversão da tendência das enzimas em até sete dias. Aqui a curva está fazendo o contrário: no quarto dia, plaquetas em queda e hemólise em franca piora.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Exigir hipertensão para pensar em síndrome HELLP Atrai porque a HELLP é ensinada como complicação da pré-eclâmpsia, e pré-eclâmpsia começa com pressão alta. Só que hipertensão e proteinúria estão presentes em cerca de 85% das pacientes — até 15% chegam sem uma coisa ou outra. A régua escrita nos três documentos brasileiros não menciona pressão: gestante com mais de 20 semanas e dor epigástrica ou em hipocôndrio direito é elegível para investigação, ponto.
  2. 2Usar o corte de plaquetas da pré-eclâmpsia para fechar HELLP O erro é sutil e comum: 150.000/mm³ é o corte que fecha o diagnóstico de pré-eclâmpsia; 100.000/mm³ é o que fecha o de síndrome HELLP. Rotular de HELLP uma paciente com 132.000/mm³ produz antecipação de parto e prematuridade iatrogênica — é justamente o que a RBEHG pede para evitar ao recomendar confirmar a síndrome apenas abaixo de 100.000/mm³. O que se faz nessa faixa é vigiar: queda maior que 20% manda repetir em seis horas.
  3. 3Tratar a dor em hipocôndrio direito como dispepsia da gravidez É o erro que mais mata fora da prova, porque tem plausibilidade: pirose e desconforto epigástrico são comuns no terceiro trimestre e a paciente costuma estar sem outro sinal. Mas a dor da HELLP vem da cápsula de Glisson distendida por um fígado congesto — é dor de órgão lesado, não de refluxo. Prescrever inibidor de bomba de prótons e dar alta sem hemograma, transaminases e desidrogenase láctica é perder a única janela em que o dano ainda é reversível.
  4. 4Antecipar o parto com base no rótulo de HELLP parcial Uma ou duas alterações laboratoriais numa gestante com pré-eclâmpsia são achado comum, e chamar isso de HELLP parcial dá ao caso um peso que os números ainda não sustentam. A RBEHG registra exatamente esse risco: o termo pode levar a condutas exageradas, com antecipação de parto em qualquer idade gestacional e prematuridade iatrogênica. Nesses casos a recomendação é reavaliação seriada antes de decidir, com a paciente clinicamente controlada.
  5. 5Esperar completar o ciclo de corticoide com a mãe piorando Parece cuidado com o prematuro e é troca de risco na direção errada. A janela de até 48 horas abaixo de 34 semanas existe para mãe e feto estáveis, com reavaliação em seis horas — e qualquer piora clínica ou laboratorial a encerra. As recomendações finais da RBEHG escrevem que o parto nunca deve ser postergado diante de situação materna grave e que a corticoterapia jamais será razão para aguardar o parto. Ciclo incompleto é desfecho aceitável.
  6. 6Indicar cesárea automática porque o diagnóstico é HELLP A síndrome indica o parto, não a via. A via é obstétrica, e a vaginal é a preferência justamente porque a paciente tem plaquetopenia e o risco cirúrgico de sangramento é maior. Cesárea tem indicações nomeadas: comprometimento da vitalidade fetal, instabilidade clínica ou laboratorial materna, apresentação anômala em idade gestacional precoce e hematoma hepático. Fora delas, prepara-se o colo e induz-se.
  7. 7Prescrever corticoide como tratamento da síndrome A confusão nasce de o mesmo medicamento aparecer em duas indicações no mesmo caso. Entre 24 e 34 semanas, corticoide é maturação pulmonar fetal e não tem controvérsia. Como terapêutica da HELLP, a ISSHP tem recomendação numerada e forte para não administrá-lo com a finalidade de acelerar a resolução da síndrome, e a evidência acumulada mostra melhora de contagem de plaquetas sem redução de morte materna, morbidade materna grave ou morte perinatal. O uso brasileiro de dexametasona tem escopo estreito e declarado: resgatar plaquetas antes de cesárea, para viabilizar anestesia condutiva.
  8. 8Considerar o problema resolvido porque o parto aconteceu O parto é o tratamento, mas os exames pioram antes de melhorar: plaquetas caem cerca de 40% ao dia, o menor valor ocorre em média 23 horas após o parto e a doença atinge o pico de intensidade nos dois primeiros dias — pior ainda depois de cesariana. As primeiras 72 horas são as mais críticas, e as mortes maternas se concentram nesse período por complicação hemorrágica. Alta precoce e vigilância frouxa nesse intervalo são o erro.
  9. 9Insistir no diagnóstico de HELLP quando o pós-parto não melhora Depois de quatro dias de pós-parto com plaquetas ainda caindo e enzimas ainda subindo, a hipótese que precisa ser questionada é a inicial. As duas doenças que se comportam assim são a síndrome hemolítico-urêmica atípica — lesão renal que progride depois do parto, com fígado poupado — e a púrpura trombocitopênica trombótica, e ambas têm tratamento hematológico específico que a HELLP não tem. Continuar tratando como HELLP é deixar de tratar a doença que está em curso.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

A tríade hemólise (LDH elevado), enzimas hepáticas elevadas (AST) e plaquetopenia (<100.000) em gestante com pré-eclâmpsia grave define síndrome HELLP. Pré-eclâmpsia sem sinais de gravidade não cursa com plaquetopenia nem alteração hepática. Esteatose aguda cursa tipicamente com hipoglicemia, coagulopatia e insuficiência hepática franca. PTT não se associa a pré-eclâmpsia/proteinúria maciça e tem clínica neurológica flutuante. Hepatite viral não explica proteinúria e hipertensão.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Os números, na ordem em que a questão os usa. Critérios laboratoriais: hemólise com desidrogenase láctica acima de 600 UI/L ou o dobro da referência, haptoglobina abaixo de 25 mg/dL, hemoglobina de 8 g/dL ou menos, bilirrubina indireta de 1,2 mg/dL ou mais, ou esquizócitos e equinócitos no esfregaço; transaminases acima de 70 UI/L ou o dobro da referência; plaquetas abaixo de 100.000/mm³. Corte de plaquetas da pré-eclâmpsia: 150.000/mm³ (não é o da HELLP). Queda maior que 20% na contagem: repetir em 6 horas. Mississippi: classe I com 50.000/mm³ ou menos, classe II entre 50.000 e 100.000, classe III entre 100.000 e 150.000 (esta admite transaminases a partir de 40 UI/L). Tennessee: completa com os três eixos, parcial com um ou dois. Epidemiologia: 10% a 20% das pré-eclâmpsias graves; até 15% sem hipertensão ou sem proteinúria; 30% se expressam ou pioram no pós-parto, sobretudo nas primeiras 24 a 48 horas; dor em quadrante superior direito e mal-estar em até 90%, náusea e vômito em 50%. Coagulação intravascular disseminada quando a queda de plaquetas ultrapassa 30.000/mm³. Conduta: sulfato de magnésio para todas, mantido 24 horas após o parto; pressão diastólica abaixo de 100 e sistólica abaixo de 150 mmHg; diurese de pelo menos 30 mL/h; parto a partir de 34 semanas; expectante excepcional de até 48 horas entre 23 e 34 semanas com estabilidade, com reavaliação em 6 horas; plaquetas abaixo de 100.000/mm³ encerram a expectante. Anestesia de neuroeixo: 70.000/mm³ ou mais pelo ACOG 222 e pela RBEHG 2025, abaixo de 100.000/mm³ contraindicada pelo Febrasgo 2018. Transfusão: antes de cesárea abaixo de 70.000/mm³ pela RBEHG 2025 e abaixo de 50.000/mm³ pelo Ministério e pelo Febrasgo; sempre abaixo de 20.000/mm³ em qualquer via; dose de 1 unidade por 10 kg, cada unidade eleva 5.000 a 10.000/mm³, uma aférese equivale a 6 a 8 unidades. Complicações: eclâmpsia 6% a 50%, descolamento 5% a 26%, coagulação intravascular disseminada 8%, insuficiência renal aguda 5% a 15%, morte materna 5%; hematoma hepático em 0,9% a menos de 2%. Pós-parto: nadir de plaquetas em média 23 horas, queda de 40% ao dia, subida a partir do terceiro dia, 90% acima de 100.000/mm³ em 7 dias; se ainda cai depois de 4 dias, reavaliar o diagnóstico. Recorrência de até 20%; profilaxia com ácido acetilsalicílico 100 mg/dia até 16 semanas e cálcio de 500 a 1.000 mg/dia (dose do MS 2022; a RBEHG e a FEBRASGO deixaram de recomendar o cálcio em março de 2026).

em 30 dias

Os conceitos, que sobrevivem quando os números escorrem. Primeiro: a síndrome HELLP não é uma doença à parte — é a expressão hepato-hematológica da pré-eclâmpsia, e quem a fecha é o laboratório, não o esfigmomanômetro. Segundo: o sintoma que mais antecipa o diagnóstico é a dor em hipocôndrio direito, porque ela vem da cápsula de Glisson distendida por um fígado com sinusoides obstruídos por fibrina — não é dispepsia, e desvalorizá-la é o erro que mata. Terceiro: dois cortes de plaqueta diferentes coexistem no mesmo tema, 150.000 para pré-eclâmpsia e 100.000 para HELLP, e trocá-los produz prematuridade iatrogênica. Quarto: o diagnóstico é de exclusão parcial — quatro doenças competem no laboratório, e o que separa cada uma é objetivo (púrpura trombocitopênica trombótica pelo tempo e pelo ADAMTS13, síndrome hemolítico-urêmica pelo rim que piora depois do parto com fígado poupado, esteatose hepática aguda pela hipoglicemia refratária, trombocitopenia gestacional pela ausência de qualquer outra alteração). Quinto: o tratamento é o parto, e a idade gestacional compra no máximo 48 horas, e só com mãe e feto estáveis. Sexto: a síndrome indica o parto, não a via — a vaginal é a preferência, e a cesárea tem indicações nomeadas, entre elas o hematoma hepático. Sétimo: corticoide tem duas indicações que não se confundem, maturação pulmonar (consenso) e tratamento da síndrome (divergência), e o parto nunca espera pelo ciclo. Oitavo: o pós-parto piora antes de melhorar, e o prazo para desconfiar do próprio diagnóstico é de quatro dias. Nono: quem teve HELLP carrega risco de recorrência de até 20% e risco cardiovascular e renal para a vida inteira, e sai da maternidade com relatório, plano de exames e contracepção.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Gestante de 27 anos, 33 semanas, chega ao pronto-socorro obstétrico com dor em hipocôndrio direito há 12 horas, náusea e vômitos, pressão arterial de 124 por 78 mmHg e fita urinária sem proteinúria; foi dispensada há dois dias de outra unidade com diagnóstico de gastrite — pronto-socorro obstétrico de hospital terciário — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Síndrome HELLP — Preparatório para provas | OsceLabs