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Cirurgia GeralTrauma

Choque hemorrágico no trauma

O C do ABCDE é onde o politraumatizado morre em minutos. A prova cobra três decisões: qual a classe, quanto de cristaloide e quando parar de repor soro e começar a repor sangue.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 62 anos é submetido a laparotomia por trauma com múltiplas lesões intestinais e grande contaminação. Durante a cirurgia apresenta pH 7,18, temperatura 34,5 °C e coagulopatia com sangramento difuso em lençol. Qual é a estratégia cirúrgica mais adequada diante desse cenário intraoperatório?

02

Como esse tema cai

O politraumatizado que morre nos primeiros minutos morre no C. As duas primeiras letras se resolvem com manobras que já foram tratadas nos capítulos anteriores desta apostila; o sangramento não se resolve com manobra nenhuma dentro da sala de emergência, ele se resolve com o relógio, com sangue e com a mão de quem vai fechar o vaso. Este capítulo é sobre reconhecer que o sangue está saindo, medir quanto já saiu, decidir com o que repor e saber a hora de parar de repor.

A prova cobra este tema em quatro perguntas que se repetem: em que classe está este paciente, quanto de cristaloide dar, quando trocar cristaloide por hemocomponente, e o que compõe o protocolo de transfusão maciça. Todas as quatro têm resposta numérica. É um dos raros temas de cirurgia em que decorar número rende ponto direto.

Um aviso desde já, porque muda a resposta certa: o volume inicial de cristaloide caiu de 2.000 para 1.000 mL, e a lógica por trás disso derrubou junto o velho reflexo de correr soro até a pressão subir. Material antigo ainda ensina o número velho. O capítulo marca onde as fontes divergem e qual delas as bancas seguem.

03

O que muda decisão

No trauma, o choque é hemorrágico até prova em contrário

O protocolo AT4 do SAMU 192 escreve essa frase com todas as letras: no atendimento pré-hospitalar, a conduta mais segura diante de um traumatizado em choque é considerar a causa como hemorrágica até prova em contrário. Isso não é preguiça diagnóstica, é estatística aplicada. As outras causas existem, são poucas, e cada uma tem um sinal que a entrega em segundos.

O choque hipovolêmico dá pele fria, úmida e pegajosa, coloração pálida ou cianótica, enchimento capilar acima de 2 segundos, frequência cardíaca aumentada e nível de consciência alterado. O choque neurogênico é o oposto quase ponto a ponto: pele quente e seca, coloração rosada, enchimento capilar normal abaixo de 2 segundos, frequência cardíaca diminuída e paciente alerta, lúcido e orientado. Essa é a tabela do AT4, e ela resolve sozinha uma família inteira de questões: bradicardia com pele quente em vítima de trauma raquimedular não é hemorragia, é perda de tônus simpático. Tamponamento e pneumotórax hipertensivo são as outras duas causas obstrutivas e foram tratados no capítulo de trauma torácico grave.

Feita a exclusão, a pergunta passa a ser onde o sangue está. O volume circulante do adulto gira em torno de 70 mL por quilo, ou seja, cerca de 5 litros em uma pessoa de 70 kg. Esse número não é decoração: é dele que saem os cortes da tabela das classes, porque 15% de 5.000 mL são 750 mL, 30% são 1.500 mL e 40% são 2.000 mL.

O sangue só pode estar em cinco lugares. No chão e nas roupas, visível. No tórax. No abdome. No retroperitônio e na pelve. E nos ossos longos, sobretudo no fêmur. As três cavidades e o compartimento pélvico escondem volume suficiente para matar sem exteriorizar uma gota, e é por isso que a avaliação circulatória do trauma nunca é só olhar o paciente: é exame físico mais imagem rápida, com FAST e radiografia, procurando o sangue nos lugares onde ele cabe.

Silhueta humana com cinco reservatórios destacados onde o sangue pode se acumular no trauma: cavidades pleurais, cavidade abdominal, retroperitônio e pelve, compartimentos das coxas ao redor dos fêmures, e uma poça no chão sob a figura.
No chão e mais quatro. O sangue perdido está sempre em um destes cinco lugares. Quatro deles não exteriorizam nada, e é por isso que o exame do C não termina em olhar o paciente: termina em FAST, radiografia e exame da pelve e dos fêmures.

Por que a pressão engana e a classe II é o ponto cego

O organismo defende a pressão arterial sistólica com unhas e dentes. Perdido o volume, a resposta simpática faz duas coisas: acelera o coração e fecha a periferia. A vasoconstrição eleva a pressão diastólica enquanto a sistólica ainda se sustenta, e o resultado dessa dissociação é o achado mais precoce e mais desperdiçado do choque hemorrágico: a pressão de pulso estreita. Quando a sistólica finalmente cai, já não se está no começo da história.

Isso cria o ponto cego da classe II. O paciente que perdeu entre 750 e 1.500 mL chega com pressão sistólica normal, frequência cardíaca entre 100 e 120, frequência respiratória entre 20 e 30, pressão de pulso já estreitada e uma ansiedade discreta que passa por nervosismo do acidente. Quem só olha a sistólica libera esse paciente para a radiografia sem acesso venoso. É exatamente essa a vinheta que a banca escreve.

Há um número que ajuda, e a diretriz europeia o recomenda formalmente: o índice de choque, que é a frequência cardíaca dividida pela pressão sistólica. No adulto saudável ele fica entre 0,5 e 0,7. A recomendação 5 da diretriz (grau 1C) manda usar o índice de choque e a pressão de pulso para estimar o grau de hipovolemia e a necessidade transfusional, e registra que valores a partir de 0,9 a 1,0 se associam a maior necessidade de transfusão maciça. O Colégio Brasileiro de Cirurgiões usa o corte de índice de choque maior que 1 como um dos critérios de acionamento do protocolo. Frequência 120 com pressão 100 dá índice 1,2: é choque, mesmo com a sistólica bonita no monitor.

Quatro situações estragam a leitura dos sinais vitais e caem em prova. Quem usa betabloqueador ou tem marcapasso não taquicardiza. O idoso tem hipertensão de base, e o CBC formaliza isso ao adotar o corte de pressão sistólica abaixo de 110 mmHg, e não 90, para maiores de 65 anos. O atleta jovem tem frequência basal baixa e compensa por mais tempo, chegando a despencar sem aviso. E a criança compensa de forma tão eficiente que a hipotensão é sinal tardio e pré-terminal.

Quando os sinais vitais não fecham, a bioquímica decide. A recomendação 10 da diretriz europeia (grau 1B) coloca o lactato como teste sensível para estimar e monitorar a extensão do sangramento e da hipoperfusão tecidual, com o déficit de base como alternativa na ausência de lactato. A décima edição do ATLS incorporou o déficit de base à própria tabela das classes, justamente por causa dessa fragilidade dos sinais vitais isolados.

As quatro classes: o que decorar e o que desconfiar

A tabela das classes I a IV é o coração deste capítulo e está no bloco de critérios, com os quatro cartões e a tabela completa. Ela é o idioma em que a prova conversa: quando o enunciado diz frequência 130, sistólica 85 e paciente confuso, ele está dizendo classe III sem escrever a palavra.

O raciocínio econômico é este. Classe I é a doação de sangue, e não precisa de nada além de observação. Classe II é o ponto cego, com pressão preservada e pressão de pulso estreitada, e responde a cristaloide. Classe III é a primeira em que a sistólica cai e a consciência se altera, e é a partir dela que sangue entra na conversa. Classe IV é o paciente que não tem minutos: ele vai para o centro cirúrgico com o protocolo de transfusão maciça já acionado.

Agora a ressalva honesta. A tabela é didática, não é uma lei da natureza. O grupo de Mutschler cruzou 36.504 pacientes do registro alemão de trauma com as classes do ATLS e encontrou que somente 9,3% deles preenchiam a combinação completa de critérios de alguma das classes. Traduzindo: nove em cada dez pacientes reais chegam com uma mistura, taquicardia sem hipotensão, ou hipotensão sem taquicardia, ou consciência preservada com déficit de base feio.

O que fazer com isso na prova é simples e vale escrever: decore a tabela, porque a banca a cobra literalmente, e não a use para tranquilizar. Se um único parâmetro aponta para uma classe mais grave que os demais, é essa classe que manda. Nenhum paciente foi prejudicado por ser tratado uma classe acima.

De 2.000 para 1.000 mL: o soro deixou de ser o tratamento

Durante décadas se ensinou a correr dois litros de cristaloide de imediato e repetir conforme a resposta, na lógica de que cada mililitro de sangue perdido exigia três de cristaloide, porque a solução se distribui pelo interstício. A conta era coerente e o resultado clínico, ruim. A décima edição do ATLS baixou o volume inicial do adulto de 2.000 para 1.000 mL de cristaloide isotônico aquecido, aposentou o termo ressuscitação agressiva e o substituiu por ressuscitação balanceada, registrando que volumes acima de 1,5 litro se associam a maior mortalidade.

Os motivos são cinco e todos derivam do mesmo erro conceitual, que é tratar perda de sangue com líquido que não é sangue. Primeiro, diluição: cristaloide não carrega hemoglobina, não carrega plaqueta e não carrega fator de coagulação, então cada litro infundido piora a coagulopatia que o trauma já criou. Segundo, hipotermia, porque volume frio esfria o paciente e enzima de coagulação trabalha a 37 graus. Terceiro, acidose, que a sobrecarga de cloreto agrava. Quarto, e o mais importante para a prova, pressão: subir a pressão antes de a fonte estar controlada arranca o coágulo que o próprio organismo formou e reinicia o sangramento. Quinto, edema, com síndrome compartimental abdominal e lesão pulmonar depois.

As fontes brasileiras e europeias concordam no essencial. O protocolo AT4 do SAMU manda repor com solução cristaloide isotônica preferencialmente aquecida a 39 graus, elegendo o Ringer lactato como primeira escolha e a solução salina 0,9% como segunda. A recomendação 15 da diretriz europeia (grau 1B) manda iniciar com salina 0,9% ou cristaloide balanceado, recomenda evitar soluções hipotônicas como o Ringer lactato no traumatismo cranioencefálico grave (grau 1B) e restringe o uso de coloides pelo efeito adverso sobre a hemostasia (grau 1C).

Se a estratégia restritiva de volume não atingir o alvo pressórico, a resposta não é mais volume. A recomendação 14 (grau 1C) manda associar noradrenalina aos fluidos para manter a pressão-alvo, e dobutamina na presença de disfunção miocárdica (grau 1C). E quando o sangue entra, a recomendação 16 (grau 1C) fixa a hemoglobina-alvo entre 70 e 90 g/L, isto é, entre 7 e 9 g/dL, e não o valor normal.

A frase que resume a seção inteira: cristaloide é ponte para o sangue, não substituto dele. O paciente que precisa de um segundo litro de soro está, quase sempre, dizendo que precisa de hemocomponente e de controle cirúrgico.

Hipotensão permissiva: até onde deixar a pressão baixa, e em quem não deixar

Hipotensão permissiva é a decisão deliberada de aceitar uma pressão abaixo do normal enquanto o sangramento não foi controlado. A lógica é direta: a única hemostasia que o paciente tem antes da cirurgia é o coágulo formado no vaso lesado, e o que desloca coágulo é pressão. Normalizar a pressão antes de fechar o vaso é desfazer a hemostasia e trocar um paciente hipotenso por um paciente exsanguinado.

Os números da recomendação 13 da diretriz europeia são os que a prova cobra. Na fase inicial, estratégia restritiva de reposição com alvo de pressão sistólica entre 80 e 90 mmHg, correspondendo a pressão arterial média entre 50 e 60 mmHg, até que o sangramento maior tenha sido controlado, na ausência de evidência clínica de lesão cerebral (grau 1B). O protocolo AT4 do SAMU trabalha com o mesmo espírito e adota o alvo operacional de manter a sistólica acima de 80 mmHg no pré-hospitalar.

A proibição é o traumatismo cranioencefálico, e a razão é de fisiologia elementar: a pressão de perfusão cerebral é a pressão arterial média menos a pressão intracraniana, de modo que hipotensão em cérebro traumatizado é lesão secundária garantida. A mesma recomendação 13 manda, no TCE grave com Glasgow igual ou menor que 8, manter pressão arterial média igual ou maior que 80 mmHg (grau 1C). O SAMU traduz isso para o pré-hospitalar mandando manter a sistólica acima de 90 mmHg no TCE. Se o enunciado tem trauma cranioencefálico, a alternativa que fala em tolerar pressão baixa está errada.

Três outras situações pedem cautela. A lesão medular também depende de pressão de perfusão. O idoso hipertenso crônico e o coronariopata perfundem mal em faixas que um jovem tolera. E o tempo importa: a estratégia é ponte até a hemostasia, não um regime de manutenção, de modo que transporte longo ou demora para o centro cirúrgico encurta a margem. Vale saber que a prática já está incorporada no Brasil: no survey do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, 84,3% dos profissionais relataram praticar hipotensão permissiva, com a exceção justamente do TCE.

Dois painéis do mesmo vaso lesado: à esquerda, fluxo sanguíneo lento e coágulo íntegro selando a rotura; à direita, fluxo intenso com o coágulo fragmentado e sangue escapando pela lesão reaberta.
A razão da hipotensão permissiva. O coágulo do painel esquerdo é toda a hemostasia que o paciente tem antes do centro cirúrgico. Normalizar a pressão antes de a fonte estar controlada produz o painel direito.

Transfusão maciça: acionar antes de conseguir contar

Existe uma armadilha lógica na própria definição de transfusão maciça, e ela explica por que o tema tem protocolo. A revisão de escopo brasileira que reuniu 36 artigos dos últimos dez anos mostra que a definição mais usada segue sendo 10 ou mais concentrados de hemácias em 24 horas, mas que convivem com ela definições mais precoces: o Critical Administration Threshold de 3 ou mais unidades em 1 hora, 4 unidades em 4 horas e 5 unidades em 4 a 6 horas. Todas elas são retrospectivas. Nenhuma serve para decidir na porta, porque no momento em que o paciente chega ninguém sabe quantas bolsas ele vai consumir.

Por isso a decisão é feita por gatilho, e não por contagem. O escore ABC, do inglês Assessment of Blood Consumption, é o mais cobrado por ser o mais simples: quatro itens binários, um ponto cada, avaliados na admissão. Mecanismo penetrante, FAST positivo, pressão sistólica igual ou menor que 90 mmHg e frequência cardíaca igual ou maior que 120 bpm. Dois ou mais pontos acionam o protocolo. O serviço de referência em trauma do Ceará descrito no periódico da ABHH usa exatamente esses dois gatilhos: choque hemorrágico classe IV ou escore ABC com 2 ou mais critérios.

O Colégio Brasileiro de Cirurgiões lista critérios adicionais que aparecem em enunciados: pressão sistólica abaixo de 90 mmHg, ou abaixo de 110 mmHg para maiores de 65 anos; índice de choque maior que 1; gás carbônico expirado abaixo de 26 a 28,5 mmHg; fratura pélvica; FAST positivo; lactato alterado. Todos apontam para o mesmo lugar: quem parece que vai precisar, precisa, e o protocolo é acionado antes da prova cabal.

O conteúdo do pacote é a segunda metade da questão. A proporção que a prova espera é 1:1:1, isto é, plasma, plaquetas e concentrado de hemácias em partes iguais. O ensaio PROPPR randomizou 680 pacientes de trauma entre 1:1:1 e 1:1:2 e encontrou mortalidade comparável, mas com melhor hemostasia e menos mortes por exsanguinação no braço 1:1:1, e foi esse resultado que consolidou a proporção como padrão. Na prática brasileira, o protocolo do Instituto Dr. José Frota libera pacotes na proporção 1:1 de plasma e hemácias universais em até 3 minutos, com plasma fresco descongelado disponível para liberação imediata.

A diretriz europeia é mais flexível do que a prova, e vale saber disso. A recomendação 25 oferece duas estratégias para a hemorragia maciça esperada: concentrado de fibrinogênio ou crioprecipitado associado a concentrado de hemácias (grau 1C), ou plasma fresco congelado em proporção de pelo menos 1:2 com as hemácias, conforme a necessidade (grau 1C), sugerindo em ambas manter alta a razão de plaquetas por hemácia. Se o enunciado não citar a diretriz europeia, marque 1:1:1.

Duas regras operacionais fecham a seção. Não se espera tipagem para transfundir o paciente que está sangrando: usa-se hemácia O sem prova cruzada, que é o que significa a expressão hemácias universais do protocolo cearense. E o protocolo precisa existir antes do paciente chegar, o que no Brasil ainda é a exceção: apenas 47,9% dos serviços do survey do CBC dispunham de protocolo de transfusão maciça, e apenas 18,2% usavam sangue total.

Ácido tranexâmico: 1 grama em 10 minutos, dentro de 3 horas

O trauma grave dispara fibrinólise, e o coágulo que o paciente acabou de formar começa a ser dissolvido justamente quando ele mais precisa dele. O ácido tranexâmico bloqueia os sítios de ligação do plasminogênio à fibrina e trava esse processo. É uma das intervenções mais baratas e mais bem estudadas do trauma.

O CRASH-2 randomizou 20.211 pacientes em 274 hospitais de 40 países. A mortalidade por todas as causas em 28 dias foi de 14,5% no grupo tranexâmico contra 16,0% no placebo (risco relativo 0,91, intervalo de confiança de 95% de 0,85 a 0,97), e a morte por sangramento caiu com risco relativo de 0,85 (0,76 a 0,96), sem aumento de eventos oclusivos vasculares.

O achado que virou regra de conduta, porém, é o do tempo. O benefício só apareceu em quem recebeu a droga em até 3 horas do trauma, com razão de risco de 0,78 (0,68 a 0,90). Administrada depois de 3 horas, a razão de risco foi de 1,02 (0,76 a 1,36), ou seja, o benefício desapareceu, e a análise de subgrupo levantou sinal de dano por morte hemorrágica no grupo tardio. Não é uma janela burocrática: é o motivo pelo qual a droga entrou na ambulância.

A dose é a da recomendação 23 da diretriz europeia, e é grau 1A, o mais forte do documento inteiro. Ácido tranexâmico para o paciente que está sangrando ou sob risco de sangramento significativo, o mais rápido possível, se viável a caminho do hospital, e dentro de 3 horas do trauma, na dose de ataque de 1 grama infundida em 10 minutos, seguida de infusão endovenosa de 1 grama em 8 horas. A mesma recomendação acrescenta, em grau 1B, que a administração não deve aguardar o resultado de avaliação viscoelástica. Não existe motivo para segurar tranexâmico esperando exame.

É o item de maior adesão no Brasil: 96,7% dos profissionais do survey do CBC relataram usar ácido tranexâmico. Numa prova, a alternativa que atrasa a droga para depois da tomografia, ou que a indica em paciente com mais de 3 horas de trauma, está errada.

O losango da morte: hipotermia, acidose, coagulopatia e hipocalcemia

A tríade letra clássica do trauma, hipotermia, acidose e coagulopatia, ganhou um quarto vértice. O artigo do Colégio Brasileiro de Cirurgiões sobre reanimação no controle de danos já a descreve como losango da morte, incluindo a hipocalcemia. Os quatro se alimentam, e cada um tem conduta própria.

Hipotermia. As enzimas da cascata de coagulação trabalham a 37 graus; abaixo disso, a coagulação desanda mesmo com fatores presentes em quantidade normal. Por isso o SAMU manda infundir cristaloide aquecido a 39 graus, remover roupas molhadas, usar manta térmica e controlar a temperatura da ambulância, e a recomendação 18 da diretriz europeia manda aplicar precocemente medidas de redução de perda de calor e aquecer o paciente hipotérmico até a normotermia. No survey brasileiro, apenas 63,6% relataram usar cobertores aquecidos, o que mostra que este é o vértice mais negligenciado.

Acidose. O tratamento da acidose do choque hemorrágico é restaurar perfusão e parar o sangramento, não infundir bicarbonato. Lactato e déficit de base servem como termômetro da dívida de oxigênio e da resposta ao tratamento.

Coagulopatia. O fibrinogênio é o primeiro fator a cair para níveis críticos. A recomendação 29 manda tratar com concentrado de fibrinogênio ou crioprecipitado quando o sangramento maior vem acompanhado de hipofibrinogenemia, definida como fibrinogênio plasmático de Clauss igual ou menor que 1,5 g/L (grau 1C), sugerindo suplementação inicial de 3 a 4 gramas, equivalentes a 15 a 20 unidades de crioprecipitado de doador único (grau 2C). A recomendação 30 sugere manter plaquetas acima de 50 mil por microlitro no sangramento ativo e acima de 100 mil no traumatismo cranioencefálico (grau 2C).

Hipocalcemia. É o vértice novo e o mais cobrado nas provas recentes, porque tem causa iatrogênica direta: o citrato usado como anticoagulante nas bolsas quela o cálcio do receptor, e quanto mais se transfunde, mais se derruba o cálcio iônico. E o cálcio é necessário tanto para a polimerização da fibrina e a função plaquetária quanto para a contratilidade miocárdica, o que significa que o paciente hipocalcêmico sangra mais e bombeia pior ao mesmo tempo. A recomendação 31 manda monitorar o cálcio iônico e mantê-lo na faixa normal, especialmente durante transfusão maciça, e corrigir a hipocalcemia com cloreto de cálcio, ambas em grau 1C. A faixa normal do cálcio iônico registrada pela diretriz é de 1,1 a 1,3 mmol/L. No Brasil, apenas 71,1% dos serviços do survey repõem cálcio rotineiramente.

O tratamento definitivo é parar o sangramento

Tudo o que veio até aqui compra tempo. Nenhuma bolsa de sangue e nenhum grama de tranexâmico fecham o vaso, e o paciente que continua sangrando continua morrendo apesar da melhor reanimação possível. Por isso as diretrizes começam pela logística: a recomendação 1 da diretriz europeia (grau 1B) manda transportar o gravemente ferido diretamente para um serviço de trauma adequado, e o SAMU insiste em não perder tempo na cena.

O controle começa com o que se faz com as mãos. Compressão direta da lesão é a recomendação 2 (grau 1B). O torniquete é o passo seguinte no sangramento exsanguinante de extremidade e tem protocolo próprio no SAMU, que também prevê imobilização de pelve e de membros como medida hemostática. A recomendação 20 manda usar cinta pélvica ainda no pré-hospitalar diante de fratura de pelve suspeitada, para limitar o sangramento ameaçador à vida.

No hospital, o destino se decide entre bloco cirúrgico e sala de hemodinâmica. A recomendação 19 (grau 1B) indica cirurgia de controle de danos no paciente gravemente ferido que se apresenta em choque hemorrágico, com sinais de sangramento em curso, coagulopatia, ou lesões vasculares abdominais combinadas com lesão pancreática. Controle de danos significa fazer o mínimo necessário para estancar e conter a contaminação, fechar temporariamente e levar o paciente para a terapia intensiva corrigir temperatura, acidose, coagulopatia e cálcio, deixando a reconstrução definitiva para depois.

Uma nota de realidade brasileira que também é dica de prova: o REBOA, o balão de oclusão aórtica, aparece em questões de atualização, mas estava disponível para apenas 0,8% dos profissionais no survey do CBC, contra 67,8% que dispunham de torniquete. Numa prova nacional, a resposta certa quase nunca é o dispositivo raro: é a compressão, a cinta pélvica, o sangue e a laparotomia.

04

As quatro classes de choque hemorrágico

Os cortes de volume saem da volemia do adulto, cerca de 70 mL por quilo, ou 5 litros em uma pessoa de 70 kg: 15% são 750 mL, 30% são 1.500 mL e 40% são 2.000 mL. A tabela abaixo é a reproduzida no protocolo AT4 do SAMU 192, complementada com pressão de pulso, débito urinário, déficit de base e necessidade transfusional. Leia-a de cima para baixo procurando o parâmetro mais alterado, não a maioria dos parâmetros.

  1. 11. Controle o sangramento visível antes de qualquer outra coisa: compressão direta, torniquete em extremidade exsanguinante, cinta pélvica se suspeita de fratura de pelve.
  2. 22. Confirme que o choque é hemorrágico: pele fria, úmida e pálida com taquicardia aponta hipovolemia; pele quente e seca com bradicardia em paciente lúcido aponta neurogênico.
  3. 33. Classifique pela combinação de frequência cardíaca, pressão de pulso, pressão sistólica, frequência respiratória, débito urinário e estado mental. Na dúvida entre duas classes, assuma a mais grave.
  4. 44. Calcule o índice de choque (frequência cardíaca dividida pela pressão sistólica). Valor a partir de 0,9 a 1,0 sinaliza necessidade transfusional mesmo com sistólica normal.
  5. 55. Dois acessos venosos calibrosos; após 2 tentativas sem sucesso, via intraóssea. Colha tipagem, hemograma, lactato e gasometria no mesmo momento da punção.
  6. 66. Infunda 1.000 mL de cristaloide isotônico aquecido a 39 graus (Ringer lactato de primeira escolha; salina 0,9% no TCE grave). Não repita cegamente o bolus.
  7. 77. Administre ácido tranexâmico 1 g em 10 minutos, seguido de 1 g em 8 horas, desde que dentro de 3 horas do trauma. Não espere exame nenhum.
  8. 88. Reavalie: quem não responde ou responde e volta a piorar não precisa de mais soro, precisa de sangue e de controle cirúrgico.
  9. 99. Acione o protocolo de transfusão maciça se classe IV ou escore ABC com 2 ou mais pontos, transfundindo 1:1:1 com hemácia O sem prova cruzada.
  10. 1010. Trate os quatro vértices do losango: aqueça, corrija perfusão, monitore fibrinogênio e plaquetas, meça e reponha cálcio iônico.
  11. 1111. Alvo enquanto o sangramento não estiver controlado: sistólica de 80 a 90 mmHg, exceto TCE, em que se busca pressão arterial média igual ou maior que 80 mmHg.

Classe I

Até 750 mL, menos de 15% da volemia. Frequência cardíaca abaixo de 100, pressão e pressão de pulso normais, frequência respiratória de 14 a 20, débito urinário acima de 30 mL/h, ansiedade discreta. É o equivalente a uma doação de sangue: observação e cristaloide, sem hemocomponente.

Classe II

De 750 a 1.500 mL, 15 a 30%. Frequência cardíaca de 100 a 120, sistólica ainda normal mas pressão de pulso já estreitada, frequência respiratória de 20 a 30, débito urinário de 20 a 30 mL/h, ansiedade leve. É o ponto cego: pressão normal não exclui choque. Responde a cristaloide.

Classe III

De 1.500 a 2.000 mL, 30 a 40%. Frequência cardíaca de 120 a 140, sistólica diminuída, frequência respiratória de 30 a 40, débito urinário de 5 a 15 mL/h, ansiedade com confusão. É a primeira classe hipotensa: aqui entram hemocomponentes e o controle cirúrgico vira urgência.

Classe IV

Acima de 2.000 mL, mais de 40%. Frequência cardíaca acima de 140, sistólica diminuída, frequência respiratória acima de 35, débito urinário desprezível, confusão e letargia. É gatilho isolado de protocolo de transfusão maciça e de sala cirúrgica imediata.

ParâmetroClasse IClasse IIClasse IIIClasse IV
Perda de sangue (mL)< 750750 a 1.5001.500 a 2.000> 2.000
Perda de sangue (% da volemia)< 15%15 a 30%30 a 40%> 40%
Frequência cardíaca (bpm)< 100100 a 120120 a 140> 140
Pressão arterial sistólicaNormalNormalDiminuídaDiminuída
Pressão de pulsoNormalEstreitadaEstreitadaEstreitada
Frequência respiratória (irpm)14 a 2020 a 3030 a 40> 35
Débito urinário (mL/h)> 3020 a 305 a 15Desprezível
Estado mental (SNC)Ansiedade discretaAnsiedade leveAnsiedade e confusãoConfusão e letargia
Déficit de base (mEq/L)0 a -2-2 a -6-6 a -10-10 ou menor
ReposiçãoCristaloideCristaloideCristaloide e hemocomponentesProtocolo de transfusão maciça

A tabela é didática, não é lei: no registro alemão de trauma, apenas 9,3% de 36.504 pacientes preenchiam a combinação completa de critérios de alguma classe. Se um único parâmetro aponta para classe mais grave, é ela que manda.

Betabloqueador, marcapasso e atleta jovem mascaram a taquicardia. Para maiores de 65 anos, o Colégio Brasileiro de Cirurgiões adota o corte de sistólica abaixo de 110 mmHg, e não 90 mmHg, como sinal de choque.

A criança compensa muito bem e despenca sem aviso: hipotensão em criança traumatizada é sinal tardio e pré-terminal, não sinal inicial.

A frequência respiratória da classe IV aparece como acima de 35 e não acima de 40 no protocolo AT4 do SAMU 192 e em boa parte das reproduções brasileiras da tabela. Ambas as formas circulam em prova; o que importa é reconhecer taquipneia extrema.

Débito urinário só é parâmetro utilizável depois da sonda vesical, e a sonda entra depois de excluída lesão uretral. Em prova, débito urinário costuma aparecer como dado já fornecido.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Volume inicial de cristaloide no adulto

1.000 mL

A décima edição do ATLS reduziu o volume inicial de cristaloide isotônico aquecido de 2.000 para 1.000 mL, aposentou o termo ressuscitação agressiva e adotou ressuscitação balanceada, registrando associação entre volumes acima de 1,5 litro e maior mortalidade.

ATLS 10ª edição (conferido em fontes secundárias; manual não é público)

2.000 mL

Material didático mais antigo, baseado na nona edição e na regra de repor 3 mL de cristaloide para cada 1 mL de sangue perdido, ainda ensina bolus inicial de dois litros com repetição conforme resposta.

ATLS 9ª edição e apostilas derivadas dela

Na prova

O enunciado costuma entregar a edição pelo vocabulário. Quando descreve reposição inicial de 2.000 mL, bolus repetidos ou meta de normalizar a pressão antes do controle da fonte, está reproduzindo a lógica da 9ª edição e do material derivado dela. Quando fala em volume restrito, sangue precoce e alvo permissivo, está na 10ª e no que veio depois. A alternativa que oferece cristaloide sem teto costuma vir acompanhada de "até normalizar a PA" — repare que essa expressão é o marcador da versão antiga, não do consenso atual.

Alvo pressórico durante a hipotensão permissiva

Sistólica de 80 a 90 mmHg (PAM 50 a 60)

Estratégia restritiva de reposição com sistólica-alvo entre 80 e 90 mmHg, equivalente a pressão arterial média de 50 a 60 mmHg, até que o sangramento maior tenha sido controlado, na ausência de lesão cerebral. No TCE grave com Glasgow igual ou menor que 8, PAM igual ou maior que 80 mmHg.

Diretriz europeia 2023, recomendação 13 (graus 1B e 1C)

Sistólica acima de 80 mmHg (acima de 90 no TCE)

O protocolo AT4 do SAMU 192 fixa o alvo pré-hospitalar como manter a sistólica acima de 80 mmHg com cristaloide isotônico, e acima de 90 mmHg quando há traumatismo cranioencefálico.

Ministério da Saúde, Protocolos SAMU 192, Suporte Avançado de Vida, AT4

Na prova

As duas posições não se contradizem: descrevem a mesma faixa em referências diferentes (sistólica versus PAM). O que decide entre elas é o cenário e a presença de TCE. Enunciado de sala de emergência ou que cite diretriz europeia tende a expressar a meta como faixa de 80 a 90 mmHg; enunciado pré-hospitalar ou que cite protocolo do SAMU tende ao corte único acima de 80. O sinal decisivo é o traumatismo cranioencefálico: onde ele aparece, o alvo sobe para preservar pressão de perfusão cerebral, e qualquer alternativa que mantenha hipotensão permissiva no TCE está fora dos dois documentos.

Proporção de hemocomponentes na transfusão maciça

1:1:1

Plasma, plaquetas e concentrado de hemácias em partes iguais. O PROPPR randomizou 680 pacientes entre 1:1:1 e 1:1:2, com mortalidade comparável, porém melhor hemostasia e menos mortes por exsanguinação no braço 1:1:1. É a proporção usada nos protocolos brasileiros.

PROPPR, citado na diretriz europeia 2023; protocolo do Instituto Dr. José Frota (HTCT/ABHH)

Plasma e hemácias em pelo menos 1:2, ou fibrinogênio com hemácias

A recomendação 25 da diretriz europeia oferece duas estratégias iniciais: concentrado de fibrinogênio ou crioprecipitado com concentrado de hemácias, ou plasma em razão de pelo menos 1:2 com hemácias conforme a necessidade, ambas em grau 1C, sugerindo manter alta a razão de plaquetas por hemácia.

Diretriz europeia 2023, recomendação 25

Na prova

Repare no que a questão está perguntando. Quando pede a proporção-alvo do protocolo de transfusão maciça, o enunciado costuma citar o próprio protocolo institucional ou o PROPPR, e trabalha com a razão equilibrada. Quando pergunta pela razão mínima aceitável de plasma, ou cita nominalmente a diretriz europeia, está no terreno da recomendação 25, que aceita 1:2 e admite a alternativa guiada por fibrinogênio. As duas convivem porque respondem a perguntas diferentes: uma é o que se prepara antes de saber o que o paciente precisa, a outra é o piso que a evidência sustenta.

Ringer lactato ou solução salina 0,9%

Ringer lactato primeiro

No choque hipovolêmico do trauma, o protocolo AT4 elege o Ringer lactato como cristaloide de primeira escolha, seguido da solução salina 0,9%, sempre aquecido a 39 graus.

Ministério da Saúde, Protocolos SAMU 192, AT4

Evitar Ringer lactato no TCE grave

A recomendação 15 manda iniciar com salina 0,9% ou cristaloide balanceado e recomenda evitar soluções hipotônicas como o Ringer lactato em pacientes com trauma craniano grave, pelo risco de agravar o edema cerebral. O uso de coloides é restringido pelo efeito adverso sobre a hemostasia.

Diretriz europeia 2023, recomendação 15 (grau 1B para ambas as partes; 1C para coloides)

Na prova

Sem TCE, Ringer lactato aquecido. Com TCE grave, salina 0,9%. Coloide é alternativa errada em qualquer cenário de trauma.

06

Caso resolvido

Homem de 28 anos, vítima de colisão motociclística há 40 minutos, trazido pelo SAMU. Via aérea pérvia, fala frases curtas, murmúrio vesicular simétrico. Frequência cardíaca 132 bpm, pressão arterial 88 por 68 mmHg, frequência respiratória 34 irpm, saturação 96% em máscara não reinalante, pele fria e pálida, enchimento capilar de 4 segundos. Glasgow 14, ansioso e repetitivo. Deformidade e dor em coxa esquerda, abdome doloroso à palpação difusa, sem sangramento externo relevante. FAST positivo em espaço hepatorrenal.
achado
Pressão de pulso de 20 mmHg (88 menos 68). Estreitamento marcado, sinal precoce de vasoconstrição compensatória, mais informativo aqui do que a sistólica isolada.
achado
Índice de choque de 1,5 (132 dividido por 88). Muito acima da faixa normal de 0,5 a 0,7 e acima do corte de 0,9 a 1,0 que sinaliza necessidade transfusional.
classificação
Frequência de 132, sistólica diminuída, frequência respiratória de 34, confusão leve: classe III. Perda estimada entre 1.500 e 2.000 mL, ou 30 a 40% da volemia.
achado
Duas fontes identificadas e somadas: hemoperitônio pelo FAST positivo e fratura de fêmur. Pele fria e pálida com taquicardia confirmam origem hipovolêmica, afastando neurogênico.
conduta
Dois acessos calibrosos, coleta de tipagem, hemograma, lactato e gasometria na punção. Infusão de 1.000 mL de cristaloide isotônico aquecido a 39 graus, dose única, sem repetição automática.
conduta
Ácido tranexâmico 1 g endovenoso em 10 minutos, seguido de 1 g em 8 horas. O trauma ocorreu há 40 minutos, dentro da janela de 3 horas. Não se aguarda exame nenhum para administrar.
conduta
Escore ABC: mecanismo fechado (0), FAST positivo (1), sistólica de 88 mmHg (1), frequência de 132 bpm (1). Três pontos, acima do corte de 2. Protocolo de transfusão maciça acionado com hemácia O sem prova cruzada e proporção 1:1:1.
conduta
Alvo pressórico de sistólica entre 80 e 90 mmHg até o controle da fonte, já que não há evidência clínica de lesão cerebral. Tração e imobilização da coxa como medida hemostática. Manta térmica e fluidos aquecidos.
conduta
Instável com FAST positivo é indicação de laparotomia, não de tomografia. Destino imediato é o centro cirúrgico, com cirurgia de controle de danos e monitorização de cálcio iônico, fibrinogênio e temperatura durante a transfusão.
07

Agora feche você

Mulher de 62 anos, hipertensa em uso de atenolol, atropelada há 2 horas e meia, transferida de outro serviço. Chega com via aérea pérvia, Glasgow 15, frequência cardíaca 96 bpm, pressão arterial 96 por 82 mmHg, frequência respiratória 26 irpm, pele fria e úmida, enchimento capilar de 3 segundos, débito urinário de 15 mL na última hora. Dor à compressão da pelve, sem sangramento externo. FAST negativo. Recebeu 2.000 mL de solução salina no serviço de origem, sem melhora sustentada da pressão. Radiografia mostra fratura de anel pélvico. Lactato de 4,8 mmol/L.
achado
Pressão de pulso de 14 mmHg. Estreitamento grave, apesar de a sistólica de 96 mmHg parecer aceitável à primeira vista.
achado
Frequência cardíaca de 96 bpm em paciente betabloqueada: a taquicardia esperada está mascarada pelo atenolol e não pode ser usada para tranquilizar.
achado
Idade acima de 65 anos quase alcançada, com hipertensão de base: sistólica de 96 mmHg representa hipotensão relativa para esta paciente, e não normalidade.
achado
Débito urinário de 15 mL/h, pele fria e úmida, lactato de 4,8 mmol/L e falha de resposta a 2.000 mL de cristaloide: hipoperfusão instalada e sangramento em curso.
achado
FAST negativo com fratura de anel pélvico: o sangue está no retroperitônio, compartimento que o FAST não enxerga. Ausência de líquido livre não afasta hemorragia grave.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Pressão sistólica normal não exclui choque A classe II tem sistólica normal por definição, e é nela que a banca esconde o paciente grave. O que já mudou nessa fase é a pressão de pulso, estreitada pela vasoconstrição que eleva a diastólica. Calcule a pressão de pulso e o índice de choque antes de decidir que o paciente está compensado.
  2. 2Repetir bolus de cristaloide até a pressão subir O paciente que não responde ao primeiro litro, ou que responde e volta a piorar, está dizendo que sangra mais rápido do que se repõe. Ele precisa de hemocomponente e de controle cirúrgico, não de um segundo e um terceiro litro. Volumes acima de 1,5 litro se associam a maior mortalidade, por diluição, hipotermia, acidose e deslocamento do coágulo.
  3. 3Tolerar pressão baixa em paciente com TCE Hipotensão permissiva é proibida na lesão cerebral, porque a pressão de perfusão cerebral depende da pressão arterial média. No TCE grave com Glasgow igual ou menor que 8, o alvo é PAM igual ou maior que 80 mmHg, e o SAMU manda manter sistólica acima de 90 mmHg no pré-hospitalar. Vale a mesma cautela na lesão medular.
  4. 4Atrasar o ácido tranexâmico para depois da imagem A recomendação é grau 1A e explicita que a droga deve ser dada o mais cedo possível, se viável a caminho do hospital, e sem aguardar avaliação viscoelástica. Passadas as 3 horas do trauma, o benefício desaparece e surge sinal de dano por morte hemorrágica: a janela é regra de conduta, não formalidade.
  5. 5Esperar tipagem e prova cruzada para transfundir No choque classe IV ou no escore ABC com 2 ou mais pontos, o protocolo libera hemácia O sem prova cruzada. O protocolo brasileiro de referência libera o pacote em até 3 minutos. Colher tipagem é obrigatório, mas aguardar o resultado não é.
  6. 6Esquecer o cálcio O citrato das bolsas quela o cálcio do receptor, e a hipocalcemia piora a coagulação e a contratilidade miocárdica ao mesmo tempo. O quarto vértice do losango da morte cai cada vez mais em prova: monitorar cálcio iônico, faixa normal de 1,1 a 1,3 mmol/L, e corrigir com cloreto de cálcio.
  7. 7Confundir choque neurogênico com hemorrágico Bradicardia com pele quente, seca e rosada, enchimento capilar normal e paciente lúcido em vítima de trauma raquimedular é choque neurogênico. Encher esse paciente de volume não resolve o problema, que é de tônus vascular. Mas a regra continua valendo: no trauma, presume-se hemorragia até que os sinais claramente digam o contrário.
  8. 8FAST negativo como prova de ausência de sangramento O FAST não enxerga o retroperitônio. Fratura de pelve com FAST negativo e paciente instável significa sangramento retroperitoneal até prova em contrário, e a conduta é cinta pélvica, transfusão e angioembolização ou cirurgia, não tomografia em paciente que não estabiliza.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

A tríade letal (acidose pH 7,18, hipotermia 34,5 °C e coagulopatia) indica cirurgia de controle de danos: controle rápido de hemorragia e contaminação, tamponamento, fechamento temporário (peritoneostomia) e reoperação após reanimação na UTI. Reconstrução definitiva prolonga a cirurgia e piora a tríade, aumentando a mortalidade. Fechamento primário definitivo da parede favorece síndrome compartimental e não é indicado no controle de danos. Conversão laparoscópica é inviável e perigosa num paciente instável com coagulopatia.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Reescreva de memória a tabela das quatro classes com os cinco parâmetros numéricos (perda em mL e em porcentagem, frequência cardíaca, frequência respiratória, débito urinário) e confira. Depois recite em voz alta os quatro números que a prova sempre cobra: 1.000 mL de cristaloide aquecido, 1 g de tranexâmico em 10 minutos mais 1 g em 8 horas dentro de 3 horas, proporção 1:1:1, e sistólica-alvo de 80 a 90 mmHg exceto no TCE.

em 30 dias

Pegue três vinhetas de trauma de provas anteriores e, em cada uma, calcule pressão de pulso e índice de choque antes de olhar as alternativas, classifique o choque e decida se o escore ABC atinge 2 pontos. Depois revise apenas os quatro vértices do losango da morte com os respectivos alvos numéricos: normotermia, perfusão, fibrinogênio acima de 1,5 g/L com plaquetas acima de 50 mil, e cálcio iônico de 1,1 a 1,3 mmol/L.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 34 anos chega ao pronto-socorro trazido por populares após ferimento por arma branca em flanco esquerdo. Está pálido, sudoreico, taquicárdico e responde de forma confusa. Faça a avaliação circulatória, decida a classe do choque, defina o volume e o tipo de reposição, avalie o gatilho de transfusão maciça e conduza o paciente até o destino definitivo. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.