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Cirurgia GeralTrauma

Trauma cranioencefálico

A prova não pergunta se você sabe somar 15 pontos. Ela pergunta o que o número decide: quem intuba, quem tomografa, quem recebe osmoterapia e quem vai para a sala de cirurgia.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 24 anos é trazido após queda com trauma na cabeça. Houve perda de consciência transitória, seguida de recuperação com lucidez ('intervalo lúcido'), e agora, 2 horas depois, apresenta cefaleia intensa, sonolência e vômitos. Ao exame: Glasgow 11, anisocoria com midríase à direita. PA 158x92 mmHg, FC 56 bpm. A TC de crânio mostra coleção hiperdensa biconvexa (lenticular) na região temporal direita que não cruza as suturas. Qual é o diagnóstico mais provável?

02

Como esse tema cai

Os três capítulos anteriores desta apostila trataram do politraumatizado como um todo: a ordem das letras, as lesões torácicas que matam dentro da avaliação primária e o choque hemorrágico. O trauma cranioencefálico não é uma repetição do D do ABCDE. Ele é uma lesão com regra própria, cronologia própria e cirurgia própria, e é o único órgão traumatizado em que a conduta se decide por um número somado à beira do leito.

A prova cobra este tema em cinco perguntas que se repetem: quanto é o Glasgow deste paciente, em que faixa de gravidade ele cai, se ele precisa de tomografia, se ele precisa de via aérea definitiva e se aquela imagem é cirúrgica. Todas as cinco têm resposta numérica ou dicotômica. É o tema de trauma em que decorar corte rende ponto direto — desde que se decore o corte certo, porque aqui há mais de um documento em vigor e eles não dizem a mesma coisa.

Dois avisos desde já, porque mudam a resposta. O primeiro: o número que define hipertensão intracraniana subiu de 20 para 22 mmHg na Brain Trauma Foundation de 2016, e o alvo de pressão sistólica subiu de 90 para 100 ou 110 mmHg conforme a idade — o protocolo brasileiro em vigor ainda traz o número velho, e o capítulo marca o ano de cada um. O segundo: a hiperventilação, que já foi rotina, virou medida de resgate por tempo curto, e o material antigo ainda ensina a versão de quarenta anos atrás.

03

O que muda decisão

A lesão que você trata é a segunda

O impacto já aconteceu. A laceração axonal, a contusão cortical, o vaso roto no momento do trauma — essa é a lesão primária, e nenhuma conduta médica a desfaz. O que a equipe trata é a lesão secundária: a cascata de isquemia, edema e aumento de pressão que se instala nas horas seguintes e que é, essa sim, evitável. É por isso que o atendimento ao TCE parece pouco cerebral e muito banal: oxigênio, pressão, glicemia, temperatura. É exatamente disso que se trata.

Os dois insultos secundários mais estudados são a hipóxia e a hipotensão, e é sobre eles que os documentos brasileiros insistem. O protocolo AT5 do SAMU 192 manda ofertar oxigênio em alto fluxo para manter a saturação maior ou igual a 94% e repor volume, quando necessário, com ênfase na manutenção da pressão sistólica acima de 90 mmHg. A Brain Trauma Foundation, na sua 4ª edição, subiu esse piso: sistólica maior ou igual a 100 mmHg dos 50 aos 69 anos, e maior ou igual a 110 mmHg dos 15 aos 49 e acima dos 70 (Nível III). A lógica é a mesma nos dois: uma única queda de pressão em um cérebro traumatizado custa mais do que a maioria dos remédios devolve.

A física por trás disso é a doutrina de Monro-Kellie, que a própria Brain Trauma Foundation retoma no capítulo de limiares de PIC. O crânio é uma caixa rígida com três conteúdos — parênquima, sangue e liquor. Se um deles cresce, os outros dois precisam encolher para a pressão não subir. O organismo compensa deslocando liquor e sangue venoso para o canal espinhal, e enquanto compensa, a pressão fica na faixa normal de 0 a 10 mmHg. O problema é que a compensação tem fim: passado o ponto em que ela se esgota, um volume pequeno a mais produz um salto grande de pressão. É por isso que o paciente do TCE deteriora de repente e não devagar — e por isso que a piora súbita é sempre suspeita de lesão nova.

A pressão de perfusão cerebral fecha o raciocínio. Ela é a pressão arterial média menos a pressão intracraniana. Todo insulto que derruba a média ou levanta a intracraniana estrangula a perfusão pelo mesmo cálculo, e é por isso que a hipotensão e a hipertensão intracraniana são o mesmo inimigo por dois caminhos. A revisão brasileira da Revista Médica de Minas Gerais resume a consequência prática: a isquemia cerebral é o fator secundário que mais pesa no prognóstico do TCE.

Glasgow item a item: os 15 pontos e onde se erra

A escala tem três parâmetros e soma de 3 a 15. Abertura ocular vai de 1 a 4: espontânea 4, ao comando verbal 3, ao estímulo doloroso 2, ausente 1. Melhor resposta verbal vai de 1 a 5: orientada 5, confusa 4, palavras inapropriadas 3, sons incompreensíveis 2, ausente 1. Melhor resposta motora vai de 1 a 6: obedece a comandos 6, localiza o estímulo doloroso 5, retira ao estímulo 4, flexão anormal (decorticação) 3, extensão anormal (descerebração) 2, ausente 1. Não existe Glasgow 0, nem Glasgow 2: o piso é 3, porque cada parâmetro pontua ao menos 1.

Duas regras de pontuação separam quem estudou de quem chutou. A primeira: pontua-se a melhor resposta obtida, não a média nem a pior. Paciente que localiza a dor com o braço direito e não move o esquerdo pontua 5 na motora — o déficit do lado esquerdo é achado neurológico, entra na avaliação focal, e não rebaixa a escala. A segunda: cada indicador é avaliado de forma independente dos outros, o que significa que a soma não tem lógica interna e não se deduz um item a partir de outro.

Quando um parâmetro não pode ser avaliado, o protocolo AP27 do SAMU manda pontuar 1 e escrever a justificativa junto. Edema periorbitário que impede a abertura dos olhos vira 'ao: 1 (edema periorbitário bilateral)'. Paciente intubado vira 'MRV: 1 (T)'. Isso importa na prova porque o intubado tem, por construção, no máximo 11 pontos, e o enunciado que oferece Glasgow 15 em paciente intubado está errado — ou está falando de outra coisa.

A distinção entre decorticação e descerebração custa um ponto e vale uma questão. Decorticação, 3 pontos, é flexão anormal: adução do ombro, flexão do cotovelo, punho e dedos fletidos, membro inferior em extensão e rotação interna — o braço 'vai para o corpo', para o córtex. Descerebração, 2 pontos, é extensão anormal: hiperextensão dos membros com rotação interna do membro superior e flexão dos punhos. Descerebração é pior porque marca lesão mais baixa, no tronco.

Desde 2018 existe a versão com a pupila. O GCS-P, proposto por Brennan, Murray e Teasdale, subtrai da soma o escore de reatividade pupilar: 2 pontos se as duas pupilas estão não reagentes, 1 ponto se apenas uma está, 0 se as duas reagem. A escala resultante vai de 1 a 15 e não de 3 a 15, e o ganho está justamente na ponta ruim, onde o Glasgow clássico empilha muita gente em 3 e a pupila ainda separa prognósticos. Um paciente Glasgow 3 com as duas pupilas fixas tem GCS-P 1; o mesmo Glasgow 3 com pupilas reagentes tem GCS-P 3. A conduta imediata não muda, o prognóstico muda muito.

Uma última condição, e é ela que faz o número valer: o exame neurológico do paciente hemodinamicamente instável não é confiável. Glasgow se afere depois da estabilização cardiopulmonar, e se afere de novo, e de novo. O protocolo AT5 pede repetição seriada da escala e registro na ficha justamente porque a tendência — subiu ou caiu — informa mais do que qualquer valor isolado.

Leve, moderado, grave: os cortes e o que cada faixa decide

Os cortes estão escritos no protocolo AP27 do SAMU 192 e são os mesmos que a tradição do ATLS espalhou pelas provas brasileiras: TCE leve de 13 a 15 pontos, TCE moderado de 9 a 12 pontos, TCE grave de 3 a 8 pontos. Decore nessa direção — pela faixa, não pela fronteira solta —, porque o erro clássico é lembrar que 'grave é 8' e não saber de que lado o 8 está. Oito é grave. Nove já é moderado.

Cada faixa decide uma coisa diferente. O TCE grave é sinônimo de coma e dispara três condutas de uma vez: via aérea definitiva, tomografia de crânio e internação. O Projeto Diretrizes da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia é explícito: TCE grave é sempre de alto risco, e a tomografia de crânio em todos os pacientes que sofreram TCE grave é recomendada como rotina. O TCE moderado quase sempre tomografa e interna, mas ainda conversa, ainda protege a própria via aérea e ainda permite exame seriado. O TCE leve é onde mora a decisão difícil, porque é a maioria dos casos e porque a maioria não tem lesão nenhuma — e é dele que trata a próxima seção.

O dado que costura as três faixas e que a prova adora é o 'talk and deteriorate'. O Projeto Diretrizes registra que de 10% a 32% dos TCE leves ou moderados evoluem com piora rápida da consciência e chegam a TCE grave. É o paciente que conversa na admissão e é encontrado em coma horas depois, quase sempre com um hematoma extradural em formação. A consequência prática: classificação inicial não é sentença, é fotografia. O que protege esse paciente não é o número da entrada, é a reavaliação.

Existe uma discordância brasileira que vale saber que existe. O mesmo Projeto Diretrizes de 2002 define TCE grave como 'nível de consciência de 3 a 9 pontos após 6 horas do TCE', enquanto o fluxograma do próprio documento usa Glasgow menor que 9. O protocolo do SAMU, mais recente, e todo o corpo internacional usam 3 a 8. Para efeito de prova, o corte é 3 a 8 — e o 9 é moderado.

TCE leve: quem faz tomografia

Tomografar todo mundo que bateu a cabeça é caro, expõe à radiação e entope a emergência; não tomografar ninguém mata quem tem o hematoma raro. Duas regras de decisão resolveram isso com estudo prospectivo, e as duas caem em prova brasileira: a Canadian CT Head Rule e o New Orleans Criteria.

Antes dos itens, a condição de entrada, que é onde metade das questões esconde a pegadinha: as duas regras foram derivadas para trauma craniano leve definido como perda de consciência testemunhada, amnésia definida ou desorientação testemunhada, em paciente com Glasgow de 13 a 15. Quem bateu a cabeça, ficou consciente o tempo todo e está lúcido não entra na regra — a regra simplesmente não foi feita para ele. E a coorte canadense excluiu quem usava anticoagulante oral ou tinha distúrbio de coagulação, o que significa que a regra não autoriza deixar de tomografar o idoso anticoagulado.

A Canadian CT Head Rule tem cinco fatores de alto risco, que respondem à pergunta 'este paciente vai precisar de intervenção neurocirúrgica': Glasgow menor que 15 duas horas após o trauma; suspeita de fratura exposta ou com afundamento; qualquer sinal de fratura de base de crânio (hemotímpano, equimose periorbitária bilateral, otorreia ou rinorreia liquórica, equimose retroauricular); vômitos em dois ou mais episódios; idade maior ou igual a 65 anos. Esses cinco foram 100% sensíveis para a necessidade de intervenção neurocirúrgica e exigiriam tomografia em apenas 32% dos pacientes.

Há ainda dois fatores de risco médio, que respondem a uma pergunta mais frouxa — 'este paciente tem lesão clinicamente importante na tomografia': amnésia retrógrada de 30 minutos ou mais e mecanismo perigoso, definido como atropelamento, ejeção do veículo, queda de altura maior ou igual a três pés ou cinco degraus. Somando os sete critérios, a sensibilidade foi de 98,4% para lesão clinicamente importante, ao custo de tomografar 54% dos pacientes.

O New Orleans Criteria tem sete itens e a lógica inversa: se nenhum estiver presente, a tomografia pode ser dispensada. São eles: cefaleia, vômito, idade acima de 60 anos, intoxicação por álcool ou drogas, amnésia anterógrada persistente (déficit de memória recente), evidência de trauma visível acima da clavícula e crise convulsiva. Repare que 'cefaleia' e 'vômito' entram sem qualificação nenhuma — basta um episódio, basta a queixa. Por isso o New Orleans é mais inclusivo e tomografa mais gente do que a regra canadense.

A escolha deste capítulo, quando a questão oferece as duas: use a Canadian CT Head Rule. Ela pergunta o que muda conduta — quem precisa de neurocirurgião — e chega lá tomografando um terço dos pacientes em vez de metade. O New Orleans continua útil como rede de segurança em serviço sem retaguarda neurocirúrgica, onde o custo de perder uma lesão é maior que o custo de um exame a mais. E os dois convergem em três gatilhos que nenhuma banca discute: idoso, vômito e sinal de fratura de base tomografam.

No TCE grave a discussão não existe: tomografa todo mundo, e tomografa de novo. A revisão brasileira da Revista Médica de Minas Gerais orienta repetir a tomografia sempre que houver mudança do estado clínico e rotineiramente 12 e 24 horas depois do trauma quando a primeira já mostrou contusão ou hematoma — porque a lesão que cresce é a regra, não a exceção. O Projeto Diretrizes acrescenta o grupo com distúrbio de hemostasia, que deve repetir a tomografia nas primeiras 48 horas mesmo sem sintoma, pela incidência alta de hematoma tardio.

Glasgow igual ou menor que 8: a via aérea definitiva

O protocolo AP27 do SAMU 192 escreve a regra em uma linha: pontuação menor ou igual a 8 é indicação para a abordagem ativa da via aérea. Esse é o corte de prova, e é o mesmo em qualquer documento — muda a redação, não o número. O motivo não é o coma em si: é que abaixo de 9 pontos o paciente perde a capacidade de proteger a própria via aérea contra secreção, sangue e conteúdo gástrico, e a aspiração é uma das formas mais eficientes de produzir a hipóxia que agrava a lesão secundária.

Vale saber que o próprio protocolo do SAMU tem uma inconsistência interna aqui: o AP27 escreve 'menor ou igual a 8' e o AT5, na conduta do TCE, escreve 'Escala de Coma de Glasgow < 8'. A diferença é de um ponto e recai justamente sobre o paciente com 8, que é o caso da prova. Fique com menor ou igual a 8 — é o que o item específico da escala diz, é o que a literatura de trauma repete e é o único que faz sentido clínico, porque 8 já é coma.

O número, porém, não é a única indicação. O AT5 lista, antes do Glasgow, o cenário em que a ventilação ou a oxigenação não se sustentam apesar da máscara e do dispositivo bolsa-valva-máscara. E há um grupo que a prova gosta de cobrar: o paciente com Glasgow acima de 8 mas em queda documentada, o que agita de forma incontrolável e impede o exame, o que tem trauma de face com sangramento em via aérea e o que vai ser transportado por trajeto longo. Todos podem precisar de tubo antes de cruzar o corte numérico.

Como intubar importa tanto quanto quando. O AT5 manda considerar sequência rápida de intubação e manter estabilização manual da coluna cervical durante todo o procedimento. Dois erros durante a intubação apagam o benefício dela: deixar o paciente dessaturar na apneia e deixar a pressão cair com a indução. Ambos são exatamente os dois insultos secundários que a intubação deveria evitar. E, uma vez ventilando, vale a frase que o próprio protocolo escreve em negrito nas observações: não hiperventilar de forma profilática.

Depois do tubo, o Glasgow verbal vira 1 com a marcação (T) e o exame neurológico passa a depender da pupila e da resposta motora. É por isso que a documentação do Glasgow antes da sedação e da intubação vale ouro — é o único valor limpo que o neurocirurgião vai receber, e é o valor que entra em todas as decisões seguintes.

Reconhecer a hipertensão intracraniana antes do monitor

Na emergência brasileira, quase sempre o cateter de PIC ainda não existe quando a decisão precisa ser tomada. O diagnóstico de hipertensão intracraniana, nesse momento, é clínico e tem quatro sinais que valem mais que qualquer número.

O primeiro é a pupila. O AT5 do SAMU pede avaliação pupilar com uma regra objetiva: assimetria maior que 1 mm obriga a pesquisar sinais focais. A anisocoria com pupila fixa e dilatada de um lado é o retrato da herniação uncal — o lobo temporal desliza sobre a tenda do cerebelo e comprime o terceiro nervo craniano, que corre ali. A midríase costuma ser do mesmo lado da lesão e a hemiparesia, do lado oposto. A pegadinha é a exceção, o fenômeno de Kernohan, em que a compressão do pedúnculo cerebral contra a tenda do lado contrário produz hemiparesia ipsilateral à lesão — nesse caso, quem localiza o lado é a pupila, não o membro.

O segundo é a queda do Glasgow. Uma redução de 2 ou mais pontos entre duas aferições é o critério que os documentos cirúrgicos usam para operar hematoma que, pelo tamanho, não seria operado. Não é um sinal 'de alerta': é um critério.

O terceiro é a resposta motora anormal. Decorticação e descerebração não são apenas 3 e 2 pontos na escala — são sinais de sofrimento de tronco e figuram, junto com hipotensão e idade acima de 40 anos, entre os fatores que a Brain Trauma Foundation usa para indicar monitorização da PIC mesmo com tomografia normal.

O quarto é a tríade de Cushing: hipertensão arterial, bradicardia e respiração irregular. É o sinal mais famoso e o menos útil, porque é tardio — quando aparece completa, a herniação já está em curso. Serve para reconhecer, não para prevenir. E vale a inversão que a prova cobra: no politraumatizado, hipotensão não é sinal de hipertensão intracraniana, é sinal de que o paciente está sangrando em outro lugar. O TCE isolado do adulto não causa choque hipovolêmico — procure o sangue no tórax, no abdome, na pelve ou no chão.

Ainda no exame de superfície, o AT5 pede procurar os sinais de gravidade que não aparecem na consciência: perda liquórica, fratura exposta, exposição de tecido cerebral, ferimento extenso de couro cabeludo e sinais de fratura de base de crânio. E dá duas regras de curativo que caem em prova: no couro cabeludo, pressão direta nas bordas seguida de curativo compressivo — mas se houver deformidade óssea ou fratura aberta, a pressão vai só na região adjacente; na orelha ou no nariz com saída de liquor, tamponar permitindo vazamento leve, justamente para não represar e elevar a pressão intracraniana.

Corte coronal da cabeça mostrando herniação uncal: o lobo temporal de um lado desce sobre a borda da tenda do cerebelo e comprime o mesencéfalo, com desvio das estruturas da linha média para o lado oposto; um nervo craniano fino aparece estirado sobre a borda; em destaque lateral, dois olhos, um com a pupila muito dilatada e o outro normal.
A herniação uncal comprime o terceiro nervo craniano contra a borda da tenda. Por isso a pupila dilatada costuma ser do lado da lesão e a fraqueza, do lado oposto. Assimetria pupilar maior que 1 mm obriga a procurar sinal focal.

Os alvos: PIC, PPC, pressão e gases

A Brain Trauma Foundation de 2016 fixou o limiar de tratamento da pressão intracraniana em 22 mmHg — 'tratar PIC acima de 22 mmHg é recomendado porque valores acima desse nível se associam a aumento de mortalidade', em recomendação de Nível II B. O número anterior era 20, e continua circulando em material didático, em documento brasileiro e nos próprios critérios cirúrgicos de 2006. A diferença entre 20 e 22 é pequena na beira do leito e decisiva na alternativa da prova; ela está no bloco de divergências com o ano de cada documento.

A pressão de perfusão cerebral tem alvo de 60 a 70 mmHg, também Nível II B, e o próprio documento admite que não sabe dizer se o piso ideal é 60 ou 70, porque isso depende do estado de autorregulação de cada paciente. Duas bordas completam a recomendação: evitar tentativas agressivas de manter a PPC acima de 70 mmHg à custa de fluido e vasopressor, pelo risco de insuficiência respiratória do adulto (Nível III), e evitar PPC abaixo de 50 mmHg. Ou seja: a faixa é estreita dos dois lados, e correr atrás de perfusão a qualquer custo produz dano próprio.

A pressão arterial sistêmica tem dois documentos com dois números. O SAMU 192, no AT5, manda manter a sistólica acima de 90 mmHg. A Brain Trauma Foundation, com evidência posterior, elevou o piso e o estratificou por idade: sistólica maior ou igual a 100 mmHg dos 50 aos 69 anos e maior ou igual a 110 mmHg dos 15 aos 49 e acima de 70 anos (Nível III). A lógica do estratificado é que o corte histórico de 90 mmHg foi definido por um estudo dos anos 1980 e a literatura atual mostra dano abaixo de níveis mais altos.

Sobre a monitorização invasiva, a 4ª edição diz que manejar o TCE grave usando a informação do cateter de PIC reduz mortalidade hospitalar e em duas semanas (Nível II B), e republica os critérios da 3ª edição para indicá-la: todo paciente recuperável com TCE grave (Glasgow de 3 a 8 após a reanimação) e tomografia anormal — entendida como hematoma, contusão, edema, herniação ou cisternas basais comprimidas; e, com tomografia normal, quando estão presentes dois ou mais destes três: idade acima de 40 anos, postura motora uni ou bilateral, ou pressão sistólica abaixo de 90 mmHg. O Projeto Diretrizes brasileiro vai além e indica monitorização intraventricular em todos os graves, com drenagem de liquor quando a PIC passa de 15 mmHg — um limiar mais baixo, porque ali a ventriculostomia é ao mesmo tempo monitor e tratamento.

Os alvos de suporte fecham a lista e são os que mais rendem ponto por serem simples: saturação maior ou igual a 94% pelo AT5; normocapnia, com PaCO2 em torno de 35 mmHg fora do resgate; glicemia capilar aferida e corrigida, porque tanto a hipoglicemia quanto a hiperglicemia pioram desfecho; normotermia, porque febre aumenta consumo cerebral de oxigênio; e cabeceira elevada a 30 graus, medida sem custo que reduz PIC sem derrubar a perfusão — acima de 45 graus o efeito se inverte.

A escada da hipertensão intracraniana: o que fazer nos primeiros dez minutos

Antes de qualquer droga, três medidas mecânicas que custam zero e funcionam: cabeceira a 30 graus, cabeça em posição neutra e nada comprimindo o pescoço. Colar cervical apertado demais, cadarço de fixação do tubo passando sobre a jugular e cabeça rodada obstruem o retorno venoso e sobem a PIC sozinhos. Junto com isso, tratar o que aumenta o consumo cerebral: dor, agitação, tosse contra o tubo, febre e crise convulsiva. Sedação e analgesia adequadas são tratamento de PIC, não conforto.

A terapia hiperosmolar é o segundo degrau, e é onde estão os números da prova. A Brain Trauma Foundation de 2016 não conseguiu recomendar um agente específico — declarou evidência insuficiente sobre desfecho clínico para sustentar recomendação de qualquer agente hiperosmolar — mas republicou as duas frases da 3ª edição por considerá-las clinicamente necessárias: manitol é eficaz no controle da PIC elevada em doses de 0,25 g/kg a 1 g/kg de peso corporal, e hipotensão arterial com sistólica abaixo de 90 mmHg deve ser evitada durante o seu uso. Guarde essa faixa: 0,25 a 1 g/kg é o número que a banca cobra.

A mesma republicação traz a segunda regra, tão cobrada quanto: antes de haver monitorização da PIC, o uso do manitol fica restrito a pacientes com sinais de herniação transtentorial ou deterioração neurológica progressiva não atribuível a causa extracraniana. Ou seja, manitol não é para 'TCE grave' — é para o TCE grave que está herniando ou piorando na sua frente. Dar manitol a um paciente comatoso porém estável, sem monitor e sem sinal de herniação, é conduta errada em prova e na sala.

A alternativa é a solução salina hipertônica, e é aqui que os documentos discordam. A diretriz da Neurocritical Care Society de 2020 sugere usar soluções salinas hipertônicas em vez do manitol no manejo inicial da PIC elevada ou do edema no TCE, em recomendação condicional com evidência de baixa qualidade, deixando o manitol como alternativa eficaz para quem não pode receber salina. Há uma vantagem fisiológica direta no politraumatizado: o manitol é diurético osmótico e pode derrubar a pressão de quem já está sangrando, enquanto a salina expande volume. O tamanho da divergência e como identificá-la na prova estão no bloco próprio.

Um detalhe do pré-hospitalar que a prova gosta: a mesma diretriz de 2020 sugere contra o uso de manitol no ambiente pré-hospitalar para melhorar desfecho neurológico no TCE (condicional, evidência de muito baixa qualidade). E o protocolo AT5 do SAMU, coerente com isso, não prevê agente hiperosmolar nenhum na ambulância — o que ele prevê é oxigênio, pressão, glicemia, temperatura e transporte rápido.

Os degraus seguintes já são de terapia intensiva e a prova cobra apenas o mapa: drenagem liquórica por ventriculostomia, que a diretriz de 2020 endossa como adjuvante útil; hiperventilação breve como resgate, tratada na próxima seção; coma barbitúrico; hipotermia; e craniectomia descompressiva. Sobre a craniectomia, o número da Brain Trauma Foundation é contraintuitivo e cai: a craniectomia bifrontal não é recomendada para melhorar desfecho em seis meses no TCE grave com lesão difusa sem lesão com efeito de massa (Nível II A) — embora reduza a PIC e o tempo de UTI. Reduzir pressão e melhorar desfecho não são a mesma coisa, e é exatamente esse o ponto.

Fecha a lista a profilaxia de crise convulsiva precoce. A revisão brasileira registra epilepsia pós-traumática em cerca de 5% dos TCE fechados e em 15% dos graves, e propõe fenitoína como primeira linha para reduzir a incidência de crise na primeira semana após o trauma, e não depois: ataque de 1 g intravenoso em velocidade não superior a 50 mg/min, manutenção de 100 mg a cada 8 horas. O recorte temporal é a pegadinha — profilaxia prolongada não previne epilepsia tardia.

Hiperventilação: de rotina a resgate, e os anos da virada

Baixar a PaCO2 contrai a arteríola cerebral, reduz o volume de sangue dentro do crânio e derruba a PIC em segundos. É a intervenção mais rápida que existe para pressão intracraniana — e foi por isso que, até o início dos anos 1990, hiperventilar o traumatizado de crânio a PaCO2 de cerca de 25 mmHg era rotina, feita profilaticamente e mantida por dias.

O problema é o mecanismo. A vasoconstrição que derruba a PIC derruba junto o fluxo sanguíneo cerebral, e nas primeiras 24 horas após o trauma esse fluxo já está criticamente reduzido. Hiperventilar nesse momento troca pressão por isquemia — troca um número que o monitor mostra por um dano que ele não mostra.

A virada tem data. Em 1991, Muizelaar e colaboradores publicaram no Journal of Neurosurgery um ensaio randomizado comparando ventilação normal (PaCO2 de 35 ± 2 mmHg) com hiperventilação (PaCO2 de 25 ± 2 mmHg): aos 3 e aos 6 meses, os pacientes com resposta motora inicial de 4 ou 5 tiveram desfecho significativamente pior quando hiperventilados. Em 1995 saiu a primeira edição das diretrizes da Brain Trauma Foundation, que passou a desaconselhar a hiperventilação profilática. De rotina a proscrita em quatro anos.

Onde a coisa está hoje. A 4ª edição da Brain Trauma Foundation, de 2016, mantém como Nível II B que a hiperventilação profilática prolongada com PaCO2 menor ou igual a 25 mmHg não é recomendada, e republica as três frases da 3ª edição: a hiperventilação é recomendada como medida temporária para redução da PIC elevada; deve ser evitada durante as primeiras 24 horas após a lesão, quando o fluxo sanguíneo cerebral está criticamente reduzido; e, se usada, recomenda-se monitorar a entrega de oxigênio por saturação venosa jugular ou pressão parcial de oxigênio tecidual cerebral. A Neurocritical Care Society, em 2020, foi mais permissiva e recomendou de forma forte que episódios breves de hiperventilação podem ser usados nas elevações agudas da PIC — assumindo que a evidência é de muito baixa qualidade e que a força vem da experiência prática acumulada.

No Brasil, o protocolo AT5 do SAMU 192 resolve o pré-hospitalar em cinco palavras: não hiperventilar de forma profilática. E o Projeto Diretrizes da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia, de 2002, dá a versão hospitalar da época: hiperventilação leve de 30 a 35 mmHg, e apenas no paciente em estado de hiperemia identificado pelo doppler transcraniano — com a ressalva explícita de não hiperventilar quem está em oliguemia, isto é, quem já tem fluxo reduzido.

O resumo que resolve a questão: hiperventilação hoje é ponte, não tratamento. Serve para atravessar os minutos entre o reconhecimento da herniação e a chegada ao centro cirúrgico ou o efeito da osmoterapia. Não é profilática, não é prolongada, não é para as primeiras 24 horas e não desce a PaCO2 até 25.

Epidural e subdural: a forma na imagem e o critério da faca

As duas coleções extra-axiais que a prova cobra se distinguem pela forma antes de qualquer outra coisa, e a forma vem da anatomia do espaço em que o sangue entra. O hematoma extradural (ou epidural) fica entre a dura-máter e o osso, um espaço virtual em que a dura está colada ao crânio, exceto nas suturas, onde ela se insere. O sangue arterial descola a dura com força mas para na sutura: o resultado é a imagem biconvexa, em lente, que não cruza a linha de sutura — mas pode cruzar a foice e a tenda, porque essas são pregas da própria dura.

O hematoma subdural agudo fica entre a dura e a aracnoide, um espaço que acompanha a superfície do cérebro sem barreira nas suturas. O sangue, quase sempre venoso, das veias-ponte rotas, se espalha em lâmina fina e larga: a imagem é em crescente, côncava para dentro, que cruza suturas livremente — mas não cruza a linha média, porque a foice a impede. É a regra espelhada e é assim que se decora: extradural para nas suturas e cruza a linha média; subdural cruza suturas e para na linha média.

O quadro clínico separa mais. O extradural é jovem, quase sempre por lesão da artéria meníngea média com fratura temporoparietal associada, e é o dono do intervalo lúcido — perde a consciência, acorda, e horas depois deteriora. O intervalo lúcido não é raro nem obrigatório: nas sete séries reunidas pelo documento cirúrgico da Brain Trauma Foundation, 456 de 963 pacientes operados (47%) o apresentaram. Se tratado a tempo, o prognóstico é dos melhores em neurotrauma: a mortalidade dos operados fica em torno de 10%. O subdural agudo é do idoso, do etilista e do anticoagulado, aparece com trauma de energia menor, associa-se a lesão cerebral subjacente e tem prognóstico muito pior — na série de Gennarelli citada no mesmo documento, subdural com Glasgow de 3 a 5 teve 74% de mortalidade, contra 36% do extradural na mesma faixa.

Os critérios cirúrgicos internacionais têm números fechados. extradural: volume maior que 30 cm³ deve ser evacuado independentemente do Glasgow; abaixo de 30 cm³, com espessura menor que 15 mm, desvio de linha média menor que 5 mm, Glasgow maior que 8 e sem déficit focal, pode ser conduzido sem cirurgia, com tomografia seriada e observação neurológica em centro neurocirúrgico; e o comatoso (Glasgow menor que 9) com anisocoria deve ser evacuado o mais rápido possível. A craniotomia é preferida por evacuar o coágulo de forma mais completa.

subdural agudo: espessura maior que 10 mm ou desvio de linha média maior que 5 mm devem ser evacuados independentemente do Glasgow. Abaixo desses dois cortes, o paciente comatoso ainda opera se cumprir qualquer um destes três: queda de 2 ou mais pontos no Glasgow entre o trauma e a admissão, pupilas assimétricas ou fixas e dilatadas, ou PIC acima de 20 mmHg. E todo subdural agudo em coma deve ter a PIC monitorizada. Repare que o subdural opera com número menor — 10 mm de espessura contra 30 cm³ de volume — justamente porque o cérebro embaixo dele já está lesado.

Os cortes brasileiros do Projeto Diretrizes são compatíveis e mais restritivos em um ponto. Extradural laminar é definido como espessura inferior a 0,5 cm; acima disso o documento sugere drenagem cirúrgica, com indicação agressiva porque o sangramento arterial cresce rápido. E há uma regra de localização que não existe nos números internacionais: extradural em fossa média ou fossa posterior deve ser drenado mesmo assintomático, pelo risco de piora imediata. Para o subdural agudo laminar (espessura menor ou igual a 0,5 cm), com desvio menor que 5 mm, volume menor que 30 cm³ supratentorial ou 16 cm³ infratentorial e cisternas basais patentes, a conduta pode ser não cirúrgica de imediato.

Um terceiro achado fecha a leitura da tomografia e vale tanto quanto os dois hematomas: as cisternas basais. Cisternas comprimidas ou apagadas significam que a compensação de Monro-Kellie se esgotou, e esse é um dos achados que a Brain Trauma Foundation lista como 'tomografia anormal' para indicar monitorização da PIC. Uma tomografia sem hematoma, mas com cisternas apagadas e sulcos borrados, é uma tomografia grave.

Dois cortes axiais lado a lado. À esquerda, coleção extradural em forma de lente biconvexa, colada ao osso, que termina bruscamente na linha de sutura. À direita, coleção subdural em crescente fino e longo, côncavo para o cérebro, acompanhando toda a convexidade do hemisfério, ultrapassando a sutura e parando na linha média. Nos dois, a linha média está desviada para o lado oposto e as cisternas basais estreitadas.
A forma vem da anatomia: a dura está presa nas suturas, então o extradural para nelas e fica biconvexo; o espaço subdural não tem essa barreira, então o subdural se espalha em crescente — e é a foice que o impede de cruzar a linha média.

O que não se faz no TCE

Corticoide. É a proibição mais forte de todo o documento da Brain Trauma Foundation: recomendação de nível I, a única desse nível na diretriz — o uso de esteroides não é recomendado para melhorar desfecho ou reduzir a PIC, e metilprednisolona em alta dose no TCE grave associou-se a aumento de mortalidade e é contraindicada. A base é o ensaio CRASH, que encontrou mortalidade maior em duas semanas e desfecho pior em seis meses. Alternativa que ofereça dexametasona ou metilprednisolona para edema cerebral traumático está errada — e note que a lógica não vale para edema de tumor cerebral, onde o corticoide funciona. É o contraste que a banca explora.

Solução hipotônica. A revisão brasileira é explícita: não usar soluções hipotônicas; a reposição se faz com NaCl 0,9% ou Ringer lactato. Soro glicosado a 5% comporta-se como água livre depois que a glicose é metabolizada e piora o edema.

Hiperventilação profilática, manitol sem indicação e manitol no pré-hospitalar — os três já tratados acima, e os três com documento que os desaconselha por escrito.

E o erro que não é de conduta, é de sequência: sedar antes de documentar. Uma vez sedado e intubado, o paciente não tem mais Glasgow verbal nem motor confiável, e o exame que vai orientar todas as decisões seguintes deixa de existir. Anote o Glasgow e as pupilas antes da droga.

04

Glasgow: pontuar, somar, classificar

A tabela abaixo é a reproduzida no protocolo AP27 do SAMU 192, válida para adultos e crianças acima de 4 anos. Some sempre a MELHOR resposta de cada um dos três parâmetros, avaliando cada um de forma independente; o resultado vai de 3 a 15. Se algum parâmetro não puder ser avaliado, pontue 1 e escreva a justificativa ao lado. Os três cartões mostram o que cada faixa da soma decide.

  1. 11. Estabilize antes de pontuar: o exame neurológico do paciente hemodinamicamente instável não é confiável. Garanta via aérea, oxigenação com saturação maior ou igual a 94% e sistólica acima de 90 mmHg antes de dar valor ao número.
  2. 22. Afira a glicemia capilar. Hipoglicemia imita rebaixamento por trauma e é a causa reversível mais rápida de errar a classificação.
  3. 33. Pontue a abertura ocular de 4 a 1, começando pelo espontâneo e descendo para verbal, doloroso e ausente.
  4. 44. Pontue a melhor resposta verbal de 5 a 1, com perguntas simples de orientação. Intubado pontua 1 com a marcação (T).
  5. 55. Pontue a melhor resposta motora de 6 a 1, dando um comando claro primeiro e, na ausência de resposta, aplicando estímulo doloroso (compressão do leito ungueal, pinçamento do trapézio ou do esternocleidomastóideo).
  6. 66. Some e classifique: 13 a 15 é leve, 9 a 12 é moderado, 3 a 8 é grave.
  7. 77. Se a soma for menor ou igual a 8, indique via aérea definitiva, considerando sequência rápida de intubação e mantendo estabilização manual da coluna cervical.
  8. 88. Examine as pupilas: tamanho, simetria e fotorreatividade. Assimetria maior que 1 mm obriga a pesquisar sinais focais. Se quiser o índice prognóstico, calcule o GCS-P subtraindo 1 ponto por pupila não reagente.
  9. 99. Decida a tomografia: TCE grave e moderado tomografam. No leve, aplique a Canadian CT Head Rule (5 fatores de alto risco e 2 de risco médio) e lembre que a regra não vale para quem usa anticoagulante oral.
  10. 1010. Repita a escala de forma seriada e registre a tendência na ficha. Queda de 2 ou mais pontos é critério, não alerta: dispara nova tomografia e pode indicar cirurgia num hematoma que pelo tamanho não seria operado.
  11. 1111. Diante de sinal de herniação (anisocoria com pupila fixa, postura motora, queda abrupta do Glasgow): cabeceira a 30 graus, pescoço livre e neutro, sedação e analgesia, osmoterapia (manitol 0,25 a 1 g/kg, evitando sistólica abaixo de 90 mmHg, ou salina hipertônica) e transporte imediato para tomografia e neurocirurgia. Hiperventilação apenas como ponte, breve, sem descer a PaCO2 até 25.
  12. 1212. Com monitorização instalada, trate PIC acima de 22 mmHg e mantenha a pressão de perfusão cerebral entre 60 e 70 mmHg, sem persegui-la acima de 70 à custa de fluido e vasopressor.

TCE leve — Glasgow 13 a 15

A maioria dos casos e a decisão mais difícil, porque a maioria não tem lesão. Paciente conversa, protege a via aérea e permite exame seriado. O que se decide aqui é a tomografia: aplique a Canadian CT Head Rule e tomografe quem tem Glasgow menor que 15 duas horas após o trauma, suspeita de fratura exposta ou com afundamento, qualquer sinal de fratura de base, dois ou mais episódios de vômito ou idade maior ou igual a 65 anos. Nada disso vale para o anticoagulado, que fica fora da regra. E de 10% a 32% dos leves e moderados evoluem para grave — reavaliação não é opcional.

TCE moderado — Glasgow 9 a 12

A faixa do meio, e a que mais engana: o paciente ainda abre os olhos e ainda emite palavra, então parece estável. Ele tomografa e interna, por regra. Ainda protege a via aérea, mas está a poucos pontos de não proteger — o exame tem que ser repetido em intervalos curtos e a tendência é o que importa. Nove pontos é moderado; oito já é grave. É nessa fronteira que a alternativa erra de propósito.

TCE grave — Glasgow 3 a 8

É coma, e dispara três condutas juntas: via aérea definitiva (a escala manda abordar ativamente a via aérea com pontuação menor ou igual a 8), tomografia de crânio como rotina e internação. Aqui entram a monitorização da PIC (todo paciente recuperável com tomografia anormal; com tomografia normal, se houver dois de três entre idade acima de 40 anos, postura motora e sistólica abaixo de 90 mmHg), o limiar de tratamento acima de 22 mmHg e a PPC de 60 a 70 mmHg. Se as pupilas não reagem, o GCS-P separa prognósticos que a soma de 3 esconde.

ParâmetroResposta observadaPontos
Abertura ocularEspontânea4
Abertura ocularSob comando verbal3
Abertura ocularSob estímulo doloroso2
Abertura ocularAusente1
Melhor resposta verbalOrientada (responde coerentemente)5
Melhor resposta verbalConfusa (responde, mas desorientada)4
Melhor resposta verbalPalavras inapropriadas3
Melhor resposta verbalSons incompreensíveis2
Melhor resposta verbalAusente (ou intubado, anotar T)1
Melhor resposta motoraObedece a comandos6
Melhor resposta motoraLocaliza o estímulo doloroso5
Melhor resposta motoraRetira ao estímulo doloroso4
Melhor resposta motoraFlexão anormal — decorticação3
Melhor resposta motoraExtensão anormal — descerebração2
Melhor resposta motoraAusente1
SomaTCE leve13 a 15
SomaTCE moderado9 a 12
SomaTCE grave (indica via aérea definitiva)3 a 8

Não existe Glasgow 0, 1 ou 2: o piso é 3, porque cada um dos três parâmetros pontua no mínimo 1.

Pontue sempre a MELHOR resposta. Hemiparesia não rebaixa a escala — o lado que responde é o que pontua; o lado que não responde é sinal focal e entra na avaliação neurológica à parte.

Paciente intubado tem no máximo 11 pontos, porque a verbal vira 1 com a marcação (T). Enunciado com Glasgow 15 em paciente intubado é enunciado errado.

Decorticação (3) é FLEXÃO anormal: braço para dentro, em direção ao corpo. Descerebração (2) é EXTENSÃO anormal e é pior, porque indica lesão mais baixa, no tronco.

GCS-P (2018) = Glasgow menos o escore de reatividade pupilar: subtraia 2 se as duas pupilas estão não reagentes, 1 se apenas uma está, 0 se as duas reagem. A faixa passa a ser de 1 a 15 e o ganho está na ponta grave.

A escala só vale depois da estabilização cardiopulmonar, e vale mais como série do que como valor isolado. Queda de 2 ou mais pontos entre duas aferições é critério cirúrgico em hematoma subdural agudo pequeno.

A classificação de gravidade não é sentença: de 10% a 32% dos TCE leves e moderados evoluem para grave — o fenômeno 'talk and deteriorate'.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Manitol ou salina hipertônica como primeira escolha na hipertensão intracraniana do TCE

Brain Trauma Foundation, 4ª edição (2016): nenhum agente é preferido, e o manitol é o que tem dose escrita

O documento declara evidência insuficiente sobre efeitos em desfecho clínico para sustentar recomendação específica ou para apoiar o uso de qualquer agente hiperosmolar em particular. Como considera que a terapia hiperosmolar é clinicamente necessária, republica as recomendações da 3ª edição: manitol é eficaz no controle da PIC elevada em doses de 0,25 g/kg a 1 g/kg de peso corporal, evitando hipotensão com sistólica abaixo de 90 mmHg; e o uso antes de haver monitorização da PIC fica restrito a pacientes com sinais de herniação transtentorial ou deterioração neurológica progressiva não atribuível a causa extracraniana. A salina hipertônica é reconhecida como de uso crescente, sem estudo comparativo suficiente para recomendação formal.

Brain Trauma Foundation. Guidelines for the Management of Severe Traumatic Brain Injury, 4th Edition, setembro de 2016 — capítulo 3, Hyperosmolar Therapy

Neurocritical Care Society (2020): salina hipertônica antes do manitol no manejo inicial

Sugere usar soluções salinas hipertônicas em vez do manitol para o manejo inicial da PIC elevada ou do edema cerebral no TCE (recomendação condicional, evidência de baixa qualidade), e coloca o manitol como alternativa eficaz para o paciente que não pode receber salina (condicional, baixa). Sugere ainda CONTRA o uso de manitol no ambiente pré-hospitalar para melhorar desfecho neurológico no TCE (condicional, evidência de muito baixa qualidade). A vantagem fisiológica alegada é direta no politraumatizado: o manitol é diurético osmótico e pode derrubar a pressão de quem já está sangrando, enquanto a salina expande o volume intravascular.

Cook AM, Morgan Jones G, Hawryluk GWJ, et al. Guidelines for the Acute Treatment of Cerebral Edema in Neurocritical Care Patients. Neurocritical Care Society. Neurocrit Care. 2020;32:647-666

Documento brasileiro em vigor (Projeto Diretrizes SBN, 2002, e protocolo do SAMU 192): manitol a 20%, e nada de osmoterapia no pré-hospitalar

O Projeto Diretrizes da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia lista, entre as medidas clínicas de UTI para o TCE grave, manitol a 20% e glicerol a 10% — sem menção a solução salina hipertônica, o que se explica pela data: o documento é de setembro de 2002, anterior à maior parte da literatura comparativa. Já o protocolo AT5 do SAMU 192 não prevê agente hiperosmolar nenhum na fase pré-hospitalar; o que ele prescreve para o TCE é oxigenação com saturação maior ou igual a 94%, sistólica acima de 90 mmHg, controle de glicemia e temperatura e transporte com reavaliação seriada da escala de Glasgow.

Andrade AF, Marino R Jr, Miura FK, Rodrigues JC Jr. Traumatismo Craniencefálico Grave. Projeto Diretrizes AMB/CFM — Sociedade Brasileira de Neurocirurgia, 16 de setembro de 2002; e Ministério da Saúde, Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, protocolo AT5

Na prova

O recorte se identifica por três marcas. A primeira é a menção nominal: enunciado que cita a Brain Trauma Foundation, 'diretriz de TCE grave' ou que pede a DOSE está no mundo do manitol, porque 0,25 a 1 g/kg é o único número escrito em diretriz; enunciado que cita a Neurocritical Care Society, neurointensivismo ou 'edema cerebral em terapia intensiva' está no mundo da salina. A segunda é o cenário: ambulância, UPA e pré-hospitalar apontam para o protocolo do SAMU, que não usa osmoterapia — nesse cenário o distrator 'administrar manitol na ambulância' é justamente o que a diretriz de 2020 desaconselha por escrito; UTI neurológica com monitor de PIC instalado abre espaço para a comparação entre os dois agentes. A terceira são as alternativas: se uma delas traz dose em g/kg e a outra traz concentração de solução salina, o par revela qual documento a banca leu. Repare também no paciente: alternativa que oferece manitol a um politraumatizado hipotenso é distrator clássico nos dois mundos, porque a própria republicação da 3ª edição manda evitar sistólica abaixo de 90 mmHg durante o uso. Prova oficial do MEC tende a seguir o que o SUS pratica e o que o documento nacional escreve; nas demais bancas, o vocabulário das alternativas entrega a referência.

Hiperventilação no TCE: proibida, temporária ou de resgate — e até que PaCO2

Brain Trauma Foundation, 4ª edição (2016): profilática prolongada não, temporária sim, e não nas primeiras 24 horas

Mantém como Nível II B que a hiperventilação profilática prolongada com PaCO2 menor ou igual a 25 mmHg não é recomendada. Republica as três frases da 3ª edição por considerar necessário preservar o reconhecimento da hiperventilação como medida temporária: ela é recomendada como medida temporária para a redução da PIC elevada; deve ser evitada durante as primeiras 24 horas após a lesão, quando o fluxo sanguíneo cerebral está com frequência criticamente reduzido; e, se usada, recomenda-se monitorar a entrega de oxigênio por saturação venosa jugular ou pressão parcial de oxigênio tecidual cerebral.

Brain Trauma Foundation. Guidelines for the Management of Severe Traumatic Brain Injury, 4th Edition, 2016 — capítulo 5, Ventilation Therapies (título mudou de 'Hyperventilation' nesta edição)

Neurocritical Care Society (2020): episódios BREVES podem ser usados, com recomendação forte

Recomenda que episódios breves de hiperventilação podem ser usados em pacientes com elevações agudas da pressão intracraniana — recomendação FORTE, apesar de evidência classificada como de muito baixa qualidade. O painel justifica a força pela extensa experiência prática acumulada, e ressalva que o clínico deve ter em mente as limitações relacionadas ao fluxo sanguíneo cerebral, a extensão da redução da PaCO2 e a duração da terapia, para evitar mudanças deletérias na perfusão cerebral.

Cook AM, Morgan Jones G, Hawryluk GWJ, et al. Guidelines for the Acute Treatment of Cerebral Edema in Neurocritical Care Patients. Neurocritical Care Society. Neurocrit Care. 2020;32:647-666 — seção de intervenções não farmacológicas

Documentos brasileiros: proibição profilática no pré-hospitalar (SAMU, 2014) e faixa de 30 a 35 mmHg guiada por doppler (SBN, 2002)

O protocolo AT5 do SAMU 192, elaborado em agosto de 2014 com revisão em outubro do mesmo ano, resolve o pré-hospitalar em uma linha nas observações: não hiperventilar de forma profilática. O Projeto Diretrizes da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia, de 2002, dá a versão hospitalar da época e é mais específico: hiperventilação leve, de 30 a 35 mmHg, apenas no paciente em estado de hiperemia cerebral identificado pelo doppler transcraniano, com a ressalva explícita de não hiperventilar quem está em oliguemia, isto é, com velocidade de fluxo reduzida.

Ministério da Saúde, Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, protocolo AT5 (elaboração agosto/2014, revisão outubro/2014); e Projeto Diretrizes AMB/CFM — Sociedade Brasileira de Neurocirurgia, Traumatismo Craniencefálico Grave, 2002

Na prova

A cronologia é o que identifica o recorte, e ela tem datas fechadas: até o início dos anos 1990 a hiperventilação profilática a PaCO2 de cerca de 25 mmHg era rotina; em 1991 o ensaio randomizado de Muizelaar e colaboradores mostrou desfecho pior aos 3 e aos 6 meses nos hiperventilados a 25 ± 2 mmHg comparados aos ventilados a 35 ± 2 mmHg; em 1995 saiu a primeira edição das diretrizes da Brain Trauma Foundation desaconselhando a hiperventilação profilática; e a 4ª edição, de 2016, manteve a proibição da forma prolongada e preservou o uso temporário. Na questão, o vocabulário denuncia o documento: 'profilática', 'prolongada' e o número 25 mmHg pertencem ao que foi abandonado; 'temporária', 'breve', 'ponte' e a proibição nas primeiras 24 horas pertencem ao corpo atual; 'guiada por doppler transcraniano' e a faixa de 30 a 35 mmHg pertencem ao documento brasileiro de 2002. O cenário também separa: ambulância e sala de emergência caem sob o protocolo do SAMU, que só diz o que NÃO fazer; UTI com monitorização de oxigenação cerebral abre a porta para o uso temporário com SjO2 ou PbtO2. E as alternativas entregam o recorte: distrator que manda hiperventilar profilaticamente todo TCE grave só existe no mundo pré-1991, enquanto distrator que proíbe a hiperventilação em qualquer circunstância ignora a recomendação forte de 2020 para episódios breves na elevação aguda.

O número que define hipertensão intracraniana: 20 ou 22 mmHg

Brain Trauma Foundation, 4ª edição (2016): tratar acima de 22 mmHg

Recomendação de Nível II B: tratar a PIC acima de 22 mmHg é recomendado porque valores acima desse nível se associam a aumento de mortalidade. O número saiu de um estudo Classe 2 com 459 pacientes e substituiu a recomendação de Nível II da 3ª edição. O próprio documento reconhece a fragilidade: exceto em casos extraordinários, o achado de um único estudo pode ser revertido por pesquisa posterior. Em Nível III, acrescenta que a decisão de manejo deve combinar o valor da PIC com os achados clínicos e da tomografia — o número sozinho não decide.

Brain Trauma Foundation. Guidelines for the Management of Severe Traumatic Brain Injury, 4th Edition, 2016 — capítulo 16, Intracranial Pressure Thresholds

Corpo cirúrgico e documentos brasileiros: 20 mmHg como limiar, e 15 mmHg para drenar liquor

Os critérios cirúrgicos publicados em 2006 usam PIC acima de 20 mmHg como um dos gatilhos para operar hematoma subdural agudo pequeno em paciente comatoso. O Projeto Diretrizes da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia, de 2002, trabalha com um limiar ainda mais baixo para a ação, porque ali o cateter é ao mesmo tempo monitor e tratamento: indica drenagem de liquor pela ventriculostomia quando os níveis de PIC estiverem acima de 15 mmHg, e reserva a escalada terapêutica para a hipertensão que persiste.

Bullock MR, Chesnut R, Ghajar J, et al. Surgical Management of Acute Subdural Hematomas. Neurosurgery. 2006;58(3 Suppl); e Projeto Diretrizes AMB/CFM — Sociedade Brasileira de Neurocirurgia, Traumatismo Craniencefálico Grave, 2002

Na prova

Os dois números convivem em documentos vivos, e o que os separa é a data e a finalidade. Enunciado que cita a Brain Trauma Foundation, a 4ª edição ou 'diretriz atual de TCE grave' está no mundo do 22 mmHg (2016). Enunciado ancorado em critério CIRÚRGICO — quando operar um subdural pequeno, quando indicar craniotomia — está no mundo do 20 mmHg (2006), porque é o número escrito nos documentos cirúrgicos. Enunciado brasileiro que fale em ventriculostomia e drenagem liquórica pode trazer o 15 mmHg do Projeto Diretrizes de 2002, que não é limiar de hipertensão e sim gatilho de drenagem — confundir os dois é o erro que a alternativa explora. Uma pista adicional está nas próprias alternativas: se elas oferecem 20 e 22 juntos, a banca está testando a atualização e o par denuncia que ela leu o documento de 2016; se oferecem apenas 20 em meio a valores muito distantes, o número é usado como referência clássica e não como pegadinha de edição.

Pressão arterial sistólica-alvo no TCE: acima de 90, de 100 ou de 110 mmHg

Protocolo do SAMU 192 (AT5): sistólica acima de 90 mmHg

A conduta do protocolo AT5 manda realizar a reposição volêmica, se necessária, conforme o protocolo de choque, com ênfase para a manutenção da pressão sistólica acima de 90 mmHg. É o piso histórico e é o número que rege o atendimento pré-hospitalar no SUS. Vem acompanhado dos outros alvos do mesmo protocolo: oxigênio em alto fluxo para manter saturação maior ou igual a 94% e controle de glicemia e temperatura, tudo com o mesmo objetivo declarado de impedir a lesão secundária.

Ministério da Saúde. Protocolos de Intervenção para o SAMU 192 — Suporte Avançado de Vida, protocolo AT5 (TCE), elaboração agosto/2014, revisão outubro/2014

Brain Trauma Foundation, 4ª edição (2016): piso estratificado por idade, 100 ou 110 mmHg

Recomendação de Nível III: manter a pressão sistólica maior ou igual a 100 mmHg em pacientes de 50 a 69 anos, ou maior ou igual a 110 mmHg em pacientes de 15 a 49 anos e acima de 70 anos, pode ser considerado para reduzir mortalidade e melhorar desfechos. O próprio documento explica a mudança: a definição tradicional de hipotensão como sistólica abaixo de 90 mmHg foi o alvo das primeiras edições dessas diretrizes, mas a literatura passou a sustentar um nível mais alto, que pode variar com a idade.

Brain Trauma Foundation. Guidelines for the Management of Severe Traumatic Brain Injury, 4th Edition, 2016 — capítulo 15, Blood Pressure Thresholds

Na prova

A distância entre 90 e 110 mmHg não é discordância clínica, é diferença de data e de fonte: o documento brasileiro em vigor é de 2014 e o piso estratificado por idade é de 2016, com evidência de nível baixo (Nível III) que o próprio texto internacional qualifica como indireta. Identificação do recorte: cenário pré-hospitalar, ambulância do SAMU, UPA e qualquer enunciado que se apoie no protocolo nacional trazem o 90 mmHg; enunciado que cite a Brain Trauma Foundation, que estratifique por faixa etária ou que apresente alternativas com números diferentes para idades diferentes trazem o 100/110. As alternativas denunciam sozinhas: opção que traz uma única sistólica-alvo pertence ao mundo do protocolo nacional, opção que traz dois números com corte etário só existe no documento de 2016. Fora do recorte, os dois concordam no que interessa mais: uma única queda de pressão em cérebro traumatizado piora desfecho, e o alvo de saturação é o mesmo — maior ou igual a 94%. Prova oficial do MEC tende à conduta praticada no SUS; nas demais bancas, o corte etário nas alternativas é o que revela o documento lido.

06

Caso resolvido

Homem de 24 anos, capacete ausente, colisão de motocicleta contra poste. Chegou trazido pelo SAMU com relato de que perdeu a consciência na cena, mas acordou durante o transporte e conversava normalmente. Na admissão: abre os olhos espontaneamente, orientado, obedece a comandos. PA 138 x 82 mmHg, FC 62 bpm, FR 12 irpm, saturação 97%, glicemia capilar 104 mg/dL. Escoriação e hematoma na região temporal direita. Enquanto se preenchia a ficha, vinte minutos depois, a enfermagem chama: ele não responde ao chamado, abre os olhos apenas à dor, emite sons incompreensíveis e flete o braço esquerdo ao estímulo doloroso. Pupila direita de 6 mm, sem reação à luz; pupila esquerda de 3 mm, fotorreagente. Nova aferição: PA 176 x 94 mmHg, FC 48 bpm, respiração irregular.
recontar o Glasgow
Abertura ocular à dor: 2. Sons incompreensíveis: 2. Flexão anormal ao estímulo (decorticação): 3. Total 7. Ele entrou com 15 e está com 7 — queda de oito pontos, o que já é muito mais que o critério de 2 pontos que dispara ação. TCE grave por definição, e por deterioração.
nomear o que se vê
Este é o intervalo lúcido do 'talk and deteriorate', que ocorre em 10% a 32% dos TCE inicialmente leves ou moderados. Anisocoria com pupila direita fixa e dilatada, contralateral à flexão do braço esquerdo, é herniação uncal comprimindo o terceiro nervo craniano à direita. Hipertensão com bradicardia e respiração irregular é a tríade de Cushing — sinal tardio, que confirma o que a pupila já disse.
via aérea antes de tudo
Glasgow 7 é menor ou igual a 8: via aérea definitiva agora, com sequência rápida de intubação e estabilização manual da coluna cervical. Documentar o Glasgow e as pupilas ANTES da sedação — depois do tubo, a verbal vira 1 (T) e este exame deixa de existir. Ventilar para normocapnia; não hiperventilar de forma profilática.
medidas de PIC nos primeiros minutos
Cabeceira a 30 graus, cabeça em posição neutra, colar e fixação do tubo sem comprimir a jugular. Sedação e analgesia. Como há sinal de herniação transtentorial e deterioração progressiva, este é exatamente o cenário em que a osmoterapia é autorizada antes da monitorização da PIC: manitol 0,25 a 1 g/kg — ou salina hipertônica — cuidando para não deixar a sistólica cair abaixo de 90 mmHg. Se a deterioração for mais rápida que o efeito da osmoterapia, cabe hiperventilação BREVE como ponte, sem descer a PaCO2 a 25.
manter a perfusão
PA 176 x 94 mmHg aqui não se trata: é resposta de Cushing tentando manter a perfusão contra uma PIC alta. Baixar essa pressão estrangularia o cérebro. O alvo é não deixar cair: sistólica acima de 90 mmHg pelo protocolo do SAMU, e maior ou igual a 110 mmHg nesta faixa etária pelo critério da Brain Trauma Foundation. Saturação maior ou igual a 94%, glicemia e temperatura controladas.
a imagem
Tomografia de crânio imediata — TCE grave tomografa como rotina, e aqui há suspeita topográfica. Trauma temporal com fratura e intervalo lúcido é o retrato do hematoma extradural por lesão da artéria meníngea média: a imagem esperada é uma coleção BICONVEXA, em lente, colada ao osso, que não cruza a linha de sutura, com desvio da linha média e cisternas basais comprimidas.
a decisão cirúrgica
Se o extradural tiver volume acima de 30 cm³, evacuação independentemente do Glasgow. E, mesmo que fosse menor, este paciente está em coma com anisocoria — condição em que o documento cirúrgico recomenda fortemente a evacuação o mais rápido possível. Craniotomia, por evacuar o coágulo de forma mais completa. Nenhum corticoide: é contraindicado no TCE e a única recomendação de Nível I da diretriz.
o que valeu a vida
Não foi o manitol nem a intubação: foi a reavaliação. Um paciente com Glasgow 15 na porta que não fosse reexaminado em vinte minutos seria encontrado tarde demais. O prognóstico do extradural operado a tempo é dos melhores em neurotrauma, com mortalidade em torno de 10% — e essa mortalidade baixa depende inteiramente do relógio.
07

Agora feche você

Mulher de 71 anos, hipertensa, em uso de varfarina por fibrilação atrial, cai da própria altura no banheiro e bate a região occipital. É trazida à emergência 40 minutos depois pela filha. Relata que ficou 'meio zonza' e não sabe dizer se desmaiou; a filha diz que ela ficou desorientada por alguns instantes. Vomitou uma vez no caminho. Na admissão: abre os olhos espontaneamente, orientada em tempo e espaço, obedece a comandos. PA 152 x 88 mmHg, FC 76 bpm, saturação 96%, glicemia capilar 118 mg/dL. Pupilas isocóricas e fotorreagentes, sem déficit motor, sem sinal de fratura de base. Hematoma occipital, sem outras lesões.
achado
Glasgow 15 (abertura ocular espontânea 4, verbal orientada 5, obedece a comandos 6). TCE leve por definição, com desorientação testemunhada na cena, um episódio de vômito, 71 anos de idade e anticoagulação oral em curso.
leitura
Glasgow 15 não é sinônimo de ausência de lesão. Nesta paciente há três marcadores de risco somados — idade, mecanismo em anticoagulada e alteração transitória de consciência — e um quarto elemento que muda a natureza da decisão: o uso de varfarina.
regra de decisão
conduta
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Onde a banca derruba

  1. 1Somar o Glasgow pela pior resposta A escala pontua a MELHOR resposta de cada parâmetro. O paciente que localiza a dor com um braço e não move o outro pontua 5 na motora, não 1. O lado que não responde é sinal focal e entra na avaliação neurológica em separado — rebaixar a soma por causa dele muda a classificação de gravidade e faz o candidato indicar intubação em quem não precisa.
  2. 2Errar de que lado o 8 está Oito é TCE GRAVE e indica via aérea definitiva; nove já é moderado. O erro nasce de decorar a fronteira solta ('grave é 8') em vez da faixa. Decore em blocos: 13 a 15 leve, 9 a 12 moderado, 3 a 8 grave. E lembre que não existe Glasgow abaixo de 3.
  3. 3Achar que Glasgow 15 dispensa tomografia As regras de decisão foram feitas para pacientes com Glasgow de 13 a 15 — quinze pontos está DENTRO da regra, não fora dela. Idoso, vômito, sinal de fratura de base e suspeita de fratura com afundamento tomografam mesmo com escala cheia. E o anticoagulado foi excluído da coorte que derivou a regra canadense: nele, a regra não serve para dispensar exame.
  4. 4Dar manitol a todo TCE grave Antes de haver monitorização da PIC, o uso do manitol é restrito a sinais de herniação transtentorial ou deterioração neurológica progressiva não atribuível a causa extracraniana. Paciente comatoso porém estável, sem anisocoria e sem piora documentada, não tem indicação. E, em qualquer cenário, evitar sistólica abaixo de 90 mmHg durante o uso — o manitol é diurético osmótico e pode derrubar a pressão de quem está sangrando.
  5. 5Tratar a hipertensão arterial da tríade de Cushing Hipertensão com bradicardia e respiração irregular no TCE não é crise hipertensiva: é o organismo elevando a pressão arterial média para manter a perfusão contra uma PIC alta. Baixar essa pressão derruba a pressão de perfusão cerebral e piora a isquemia. O que se trata é a PIC, não o número do manguito.
  6. 6Atribuir a hipotensão ao trauma de crânio TCE isolado não causa choque hipovolêmico no adulto. Politraumatizado hipotenso está sangrando em outro lugar — tórax, abdome, pelve, retroperitônio, fêmur ou o chão da cena. Aceitar a hipotensão como 'do TCE' é deixar de procurar o sangramento e, de quebra, entregar ao cérebro o insulto secundário que mais custa prognóstico.
  7. 7Hiperventilar profilaticamente, ou proibir a hiperventilação em qualquer circunstância Os dois extremos erram. Hiperventilação profilática prolongada com PaCO2 menor ou igual a 25 mmHg não é recomendada desde os anos 1990, e é proibida nas primeiras 24 horas, quando o fluxo cerebral já está criticamente reduzido. Mas a hiperventilação BREVE em elevação aguda da PIC tem recomendação forte de 2020 como medida de resgate. Ponte, não tratamento.
  8. 8Confundir a forma dos hematomas Extradural é BICONVEXO e para na sutura (a dura está presa ali), mas pode cruzar a linha média. Subdural é em CRESCENTE e cruza suturas livremente, mas para na linha média (a foice o impede). Espelhado. E os cortes cirúrgicos não são o mesmo número: extradural opera acima de 30 cm³ de volume; subdural agudo opera acima de 10 mm de espessura ou 5 mm de desvio.
  9. 9Prescrever corticoide para edema cerebral traumático É a única recomendação de Nível I da diretriz de TCE grave, e é uma proibição: esteroide não é recomendado para melhorar desfecho ou reduzir PIC, e metilprednisolona em alta dose associou-se a AUMENTO de mortalidade e está contraindicada. O distrator funciona porque o corticoide realmente reduz o edema peritumoral — a analogia com tumor cerebral é justamente a isca.
  10. 10Repor volume com soro glicosado Glicose a 5% comporta-se como água livre depois de metabolizada e piora o edema cerebral. A reposição no TCE se faz com solução isotônica — NaCl 0,9% ou Ringer lactato. Soluções hipotônicas estão contraindicadas por escrito.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Intervalo lúcido seguido de deterioração, coleção biconvexa (lenticular) hiperdensa que NÃO cruza as suturas e localização temporal (artéria meníngea média) definem hematoma extradural agudo. O hematoma subdural tem formato em crescente (côncavo-convexo) e cruza suturas, acompanhando a dura. A hemorragia subaracnóidea distribui-se pelos sulcos/cisternas, não é lenticular. Contusão difusa mostra múltiplos focos parenquimatosos. Hematoma intraparenquimatoso profundo situa-se no tecido cerebral, não no espaço extradural biconvexo. A tríade de Cushing (hipertensão, bradicardia) e a anisocoria indicam herniação iminente — emergência cirúrgica.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

A escala de Glasgow inteira, item a item, com as três faixas (13 a 15 leve, 9 a 12 moderado, 3 a 8 grave) e os quatro números que decidem sozinhos: Glasgow menor ou igual a 8 indica via aérea definitiva; PIC acima de 22 mmHg se trata; PPC fica entre 60 e 70 mmHg; manitol vai de 0,25 a 1 g/kg. Mais a regra que anula as outras: queda de 2 pontos no Glasgow é critério, não alerta.

em 30 dias

Os cinco fatores de alto risco e os dois de risco médio da Canadian CT Head Rule com os desempenhos (32% e 54% de tomografias), os sete itens do New Orleans Criteria e a condição de entrada que vale para as duas; os critérios cirúrgicos de extradural (30 cm³, 15 mm, 5 mm, Glasgow maior que 8) e de subdural agudo (10 mm de espessura, 5 mm de desvio, queda de 2 pontos, pupila, PIC acima de 20); as indicações de monitorização da PIC com tomografia normal (dois de três: idade acima de 40 anos, postura motora, sistólica abaixo de 90 mmHg); o GCS-P e como se subtrai a pupila; e as quatro divergências com o ano de cada documento — manitol contra salina hipertônica, hiperventilação, 20 contra 22 mmHg de PIC e 90 contra 100/110 mmHg de sistólica.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Motociclista com trauma craniano, intervalo lúcido e anisocoria — sala de emergência — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Trauma cranioencefálico — Preparatório para provas | OsceLabs