Cirurgia Geral › Trauma
Trauma de pescoço: a zona não decide mais a conduta, decide o acesso
Quem manda no ferimento cervical penetrante é o sinal duro; a zona escolhe a incisão
Responda antes de ler
Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.
Homem, 28 anos, vítima de ferimento por arma branca em região cervical anterior esquerda, é trazido ao pronto-socorro. Ao exame: consciente, orientado, PA 110×70 mmHg, FC 96 bpm, FR 18 ipm, SatO2 97% em ar ambiente. Apresenta ferimento puntiforme localizado 1 cm ACIMA da cartilagem cricoide e ABAIXO do ângulo da mandíbula, com plastrão cervical íntegro (platisma não visivelmente violado à inspeção, mas não explorável com segurança). Não há hematoma expansivo, sangramento ativo, enfisema, disfonia, disfagia, sopro ou déficit neurológico. A ferida corresponde à zona II de Monson. Assinale a conduta INICIAL mais adequada.
Como esse tema cai
A vinheta é quase sempre a mesma cena — homem jovem, ferimento por arma branca ou por projétil no pescoço — e a pergunta final cai em um de quatro formatos. O primeiro entrega um doente instável, ou com hematoma que cresce enquanto o examinador escreve, e pergunta a conduta: a resposta é sala cirúrgica, e o distrator é sempre um exame de imagem com bom nome.
O segundo formato entrega um doente estável, diz em que altura entrou a lâmina e pergunta o que fazer antes de decidir. É aqui que o candidato perde ponto por excesso de memória: ele decorou que zona I e zona III pedem investigação vascular e que zona II pede exploração, e responde pela zona. A régua atual não é essa. A zona sobrevive na prova por um motivo diferente do que fez dela uma classificação, e o capítulo mostra qual.
O terceiro formato dá um achado isolado — quase sempre a violação do platisma — e pergunta se aquilo obriga a operar. A frase decorada diz que sim; a conduta brasileira publicada diz que o platisma define quem entra na investigação, não quem entra na sala. As duas maiores casuísticas nacionais medem exatamente isso, e discordam do número.
O quarto formato é o de acurácia: quanto vale a angiotomografia, quanto vale o exame físico, quanto vale a endoscopia. O candidato que sabe de onde vem cada número acerta pelo enunciado. O que não sabe repete a manchete de que a tomografia resolve o pescoço, e cai na única casuística brasileira que comparou a tomografia com o que o cirurgião encontrou ao abrir.
O que muda decisão
A régua nasceu num artigo de vaso, não de triagem
O trabalho a que a nomenclatura brasileira atribui as zonas está registrado na base da National Library of Medicine com um título que já entrega o recorte: trauma de carótida e de vertebral, publicado em dezembro de 1969 no The Journal of Trauma, volume 9, número 12, páginas 987 a 999, por Monson, Saletta e Freeark. Não é um artigo sobre triagem de ferimento cervical. É uma série vascular, e a divisão do pescoço em três faixas entrou nela como descrição topográfica de onde a lesão arterial ficava.
Isso importa porque explica a fragilidade da regra que a prova cobra. Uma classificação desenhada para descrever a localização de uma lesão de vaso nunca foi validada como algoritmo de decisão — e a literatura brasileira nem sequer concorda sobre a quem atribuí-la. A casuística de 191 casos de Curitiba credita as zonas ao tratado de trauma de Mattox, Feliciano e Moore; a série de 39 casos de São Paulo as credita a Roon e Christensen, em artigo de 1979. O nome que a prova usa vem de um terceiro lugar.
E os limites divergem, dentro da própria literatura nacional. A série de Curitiba escreve que a zona III se estende do ângulo da mandíbula até a mastoide. A série de São Paulo e a do Hospital das Clínicas escrevem que ela vai do ângulo da mandíbula até a base do crânio. Não é a mesma extensão de pescoço, e a diferença cai justamente na região de acesso mais difícil. O limite inferior também oscila: um texto diz que a zona I começa nas clavículas, outro diz clavículas e esterno, outro diz base do pescoço.
A consequência prática é a que o aluno precisa levar: quando a alternativa define uma zona por marco anatômico, ela está reproduzindo um documento específico, e o marco é a assinatura desse documento. Quando a alternativa manda decidir a conduta pela zona, está reproduzindo uma doutrina que as próprias casuísticas nacionais abandonaram.
O platisma é a porta, e é ele que escolhe a população
Nas quatro casuísticas brasileiras a definição de ferimento penetrante é a mesma e é anatômica: penetrante é o que ultrapassa o músculo platisma. O que muda é o peso dessa porta. Na série de Curitiba com 191 doentes, o platisma foi violado em 101 — pouco mais da metade. Os outros 90 não entraram em investigação nenhuma. Dos 101, 92 foram internados e 9 receberam alta após 12 horas de observação, sem sinais.
A porta não é neutra em relação ao mecanismo, e é aqui que mora o achado mais contraintuitivo do tema. Dos 90 ferimentos por arma de fogo daquela série, 77 atravessaram o platisma — 85,6%. Dos 101 ferimentos por outros instrumentos (88 por arma branca, 8 por mordedura de cão, 5 por outras causas), apenas 24 atravessaram — 23,8%. O projétil quase sempre entra; a lâmina quase sempre para na superfície.
O efeito disso sobre a decisão cirúrgica é o contraditório que a prova adora. Entre os 51 operados, 32 tinham sido feridos por arma de fogo — 63% das cirurgias. Lido assim, o projétil domina o centro cirúrgico. Mas quando o denominador passa a ser quem violou o platisma, a leitura inverte: foram operados 32 dos 77 ferimentos por arma de fogo (41,56%) contra 19 dos 24 não-arma-de-fogo (79,17%), com p=0,0136. Proporcionalmente, é a arma branca que penetrou o platisma que mais indica cirurgia.
A explicação é mecânica e vale escrever: o platisma filtra. Uma lâmina que o atravessa foi uma lâmina profunda; um projétil o atravessa por padrão, inclusive nos tangenciais que não tocam estrutura nobre. Quem seleciona pelo platisma está, sem perceber, aplicando um filtro muito mais severo à arma branca do que ao projétil.
A frase que o aluno deve guardar não é uma regra de conduta, é uma regra de leitura de enunciado: sempre que a questão der uma proporção de trauma cervical, pergunte sobre que população ela foi calculada — todos os feridos, os que violaram o platisma, os internados, ou os operados. Cada uma dessas quatro é um número diferente, e as quatro convivem no mesmo artigo.
Sinais duros: a lista curta que decide sozinha
A régua contemporânea substitui a zona por duas listas. Os sinais duros mandam o doente para a sala sem exame de imagem; os sinais brandos mandam para investigação. A série do Hospital das Clínicas, com 161 doentes de platisma violado, escreve a lista dura com esses termos: borbulhamento de ar pela ferida, rouquidão, fístula salivar, hematoma em expansão, sangramento profuso e instabilidade hemodinâmica. A lista branda traz disfagia, crepitação, hematoma estável, hemoptise e hematêmese.
A distribuição é a prova de que a lista dura é curta de propósito: 31 dos 161 doentes (19%) foram direto ao centro cirúrgico, e 130 (81%) entraram na abordagem seletiva. Dentro dos 31, dois achados sozinhos responderam por 27 casos — sangramento em 20 (64%) e hematoma em expansão em 7 (22%), somando 87% das indicações imediatas. Borbulhamento, sintoma aerodigestivo duro e choque refratário couberam num caso ou dois cada.
O que a prova cobra desse quadro é a assimetria: o sangramento e o hematoma em expansão carregam a decisão quase inteira, e os outros itens da lista existem para os casos raros. O erro comum é o inverso — o candidato memoriza a lista completa e trata todos os itens como equivalentes, e depois hesita diante de uma vinheta com disfagia isolada, que é sinal brando e não indica sala.
A série de 39 doentes de São Paulo mostra o que acontece quando a lista dura é frouxa. Na tabela de indicações daquele serviço, dois itens não são sinais: ferimento por arma de fogo, em 6 casos, e ferimento por arma branca, em 5. Onze dos 39 doentes (28,2%) foram explorados porque o mecanismo era aquele, não porque houvesse achado. Isso é a política de exploração obrigatória sobrevivendo dentro de uma tabela que se apresenta como lista de indicações — e a leitura correta da tabela depende de reparar que a linha diz mecanismo onde as outras dizem achado.
Um detalhe operacional que a prova brasileira gosta: a exploração digital ou a sondagem da ferida no leito não é conduta. Ela pode deslocar o coágulo que está contendo o sangramento e transformar um doente estável num doente que sangra na maca. A profundidade se afere pelo exame do cirurgião consultor à beira do leito, sem instrumentar o trajeto.
O que a zona ainda decide é o acesso
A zona perdeu a função de decidir se opera. Não perdeu a de decidir por onde se opera, e é isso que a mantém viva no ensino. A descrição técnica da série do Hospital das Clínicas é literal e é a melhor tradução disso: incisão vertical na borda anterior do esternocleidomastóideo para a zona II; esternotomia mediana para a zona I; extensão retroauricular da incisão vertical para obter controle vascular distal na zona III; e incisões verticais bilaterais nos ferimentos transfixantes.
A leitura clínica é direta. A zona II é a faixa central, entre a cricoide e o ângulo da mandíbula, e é onde a exposição cirúrgica é mais simples — carótida comum, bifurcação, jugulares, laringe e faringe estão todos ao alcance de uma incisão. A zona I guarda os vasos da base, atrás do plastrão osteocondral, e frequentemente exige abrir o tórax para conseguir controle proximal. A zona III é alta, estreita e encostada na base do crânio, e o problema ali não é chegar ao vaso, é conseguir controle distal acima da lesão.

Os números de desfecho por zona existem numa única das casuísticas brasileiras, e é preciso lê-los com o cuidado que o próprio artigo pede. Na série de 39 doentes, todos operados, morreram 3 dos 9 da zona I (33,3%), 4 dos 29 da zona II (13,8%) e 1 do único doente da zona III (100%). O gradiente não é monotônico: a mortalidade cai da zona I para a zona II e sobe de volta. E a zona III inteira é um doente — o artigo escreve o valor de p daquela linha como não aplicável, e a honestidade da recusa é o dado.
O que sobra de utilizável é a comparação entre as duas zonas com números: zona I mata mais que zona II naquele serviço, e a explicação plausível é a mesma que dita a incisão — o sangramento da base é mais difícil de controlar. O que não sobra é qualquer afirmação sobre a zona III baseada nesse artigo. Uma alternativa que diga que a zona III é a de maior mortalidade em séries brasileiras está apoiada num doente.
Cervicotomia não terapêutica: 47% e 5% na mesma língua
O número que justifica a existência da abordagem seletiva é a taxa de cirurgias que não encontram nada para consertar. Na série de Curitiba, das 51 explorações realizadas, 24 foram não terapêuticas — 47%, quase uma em cada duas. É o número que o próprio artigo chama de elevado e que sustenta sua conclusão de que o manejo precisa ser mais seletivo.
Na série de 39 doentes de São Paulo, o inventário operatório traz a linha nada em 2 casos: 5,1%. Nove vezes menos. Um aluno que encontre os dois números na mesma revisão conclui que um dos dois está errado. Nenhum está.
A diferença é de definição, e ela é integralmente verificável nos dois textos. Curitiba conta cervicotomia não terapêutica: a operação em que não houve nada a corrigir, inclusive quando alguma lesão foi vista. São Paulo define cervicotomia branca como aquela em que não se identificaram lesões de vasos, do trato aerodigestivo, neurológicas, de músculos importantes ou de glândulas — e depois lança separadamente lesão de músculo em 1 caso, tireoide em 1 e língua em 1. Aplicando a régua de Curitiba ao inventário de São Paulo, a taxa comparável fica entre 5,1% e 12,8%, e não é possível fechar mais do que isso com o que está publicado.
Há uma segunda razão para os dois números não conversarem, e ela é de desenho. A amostra de São Paulo saiu do livro de registro do centro cirúrgico, e o critério de entrada foi ter sido submetido a cervicotomia exploradora. Todo doente estável que ficou em observação e não foi operado é invisível naquele estudo. O denominador de Curitiba, ao contrário, começa antes: 191 ferimentos cervicais, 101 com platisma violado, 51 operados. São duas fotografias tiradas de dentro de cômodos diferentes.
Para calibrar a régua, a própria série de Curitiba cita as duas pontas da literatura: um serviço que explorava todos os ferimentos penetrantes chegou a 226 explorações negativas em 393 doentes (57%), enquanto serviços com política seletiva relatam 16% e 14%. A abordagem seletiva não é uma preferência estética. É a diferença entre operar metade dos doentes à toa e operar um sétimo.
A tomografia vê o vaso e perde o tubo
A única casuística brasileira que comparou a angiotomografia com o que o cirurgião encontrou ao abrir tem 30 doentes, é de Curitiba e é de 2015. Ela publica a comparação estrutura por estrutura com valores de p, e não publica a sensibilidade. Recalculando dos numeradores, o resultado é duro: nas vias aéreas, a tomografia acusou 2 lesões e a cirurgia encontrou 12 — sensibilidade de 16,7%, com p=0,002. No esôfago e na faringe, a tomografia acusou 3 e a cirurgia encontrou 9 — 33,3%, com p=0,013.
Nos vasos o desempenho foi outro, e aqui a leitura exige honestidade nos dois sentidos. Nas artérias vertebrais a tomografia acusou 4 lesões e a cirurgia confirmou 1, o que numa leitura ingênua daria valor preditivo positivo de 25%. Só que a artéria vertebral corre dentro do forame transverso e a cervicotomia não a expõe com facilidade: quando o padrão-ouro é cego para a estrutura, o falso-positivo do exame índice pode ser, na verdade, falso-negativo da referência. O artigo conclui que a tomografia é confiável para lesão vascular — e a tabela dele, lida linha a linha, mostra por que essa conclusão precisa da ressalva.
Há um artefato de construção que o leitor precisa nomear antes de usar qualquer desses números. O critério de entrada do estudo foi ter feito tomografia e ter ido para a cirurgia — um artefato de construção. Isso escolhe o grupo depois, pelo resultado do exame que se quer avaliar: quem teve tomografia tranquilizadora e ficou em observação está fora da amostra. Numa população assim, enriquecida por quem foi operado, a taxa de lesão aerodigestiva sobe — e sobe muito acima da faixa de 6% a 10% que a introdução do próprio artigo cita como referência da literatura. A casuística encontrou 40% e 30%.
O uso correto desse artigo, portanto, não é medir acurácia absoluta. É retirar dele a assimetria, que sobrevive ao viés: dentro do mesmo doente e do mesmo exame, a tomografia enxergou o vaso muito melhor do que enxergou a traqueia e o esôfago. Essa é a frase que a prova cobra, e é a que muda conduta — a imagem normal do trato aerodigestivo não dispensa endoscopia quando o sinal clínico existe.
Um número lateral do mesmo estudo que vale carregar: traqueostomia foi feita em 10 dos 30 operados (33,3%). Um terço dos doentes que vão à cervicotomia por trauma penetrante sai dela com a via aérea desviada. Não é uma manobra de exceção nesse cenário.
O exame que muda a conduta, e o que só confirma
O teste que separa quem entendeu o tema é este: quantos doentes vão à cirurgia por causa de um exame complementar, e não por causa de um sinal? A série de Curitiba responde com nomes e números. Foram 17 broncoscopias, 15 endoscopias digestivas altas e 9 estudos vasculares com eco-Doppler. Desses, 6 doentes tiveram a indicação cirúrgica dada pelo exame: 4 na zona I e 2 na zona III. Nenhum na zona II.
Os 6 se reconstroem em dois outros trechos do mesmo artigo, o que fecha a conta. Dos 26 ferimentos de zona I, 10 (38%) não tinham sinais nem sintomas, e desses 10 a cirurgia foi indicada em 4 pelos exames. Nas lesões de zona III sem sinais, o artigo escreve que em 28,57% os exames indicaram a terapêutica — e o percentual com duas casas denuncia sozinho o denominador, porque só a divisão por 7 produz essa dízima. Sete é o total de doentes com zona III registrada. Dois deles. Quatro mais dois: seis.
Sobre os 191 do estudo, esses 6 são 3,1%; sobre os 101 com platisma violado, 5,9%. É pouco, e o padrão é o que interessa: o exame complementar mudou a conduta apenas nas zonas de acesso difícil, e nunca na zona II. Na faixa central, em que a exploração é simples e o exame físico alcança bem, foi o exame clínico que decidiu todas as vezes.
A série do Hospital das Clínicas chega ao mesmo lugar por outro caminho, e com um número que fecha bonito. Naquele serviço, 54 doentes estáveis tinham lesão de zona II — que é exatamente 71 menos os 17 de zona II que foram à cirurgia obrigatória — e todos os 54 fizeram duplex. A angiografia foi feita em 16 doentes: 6 de zona I, 9 de zona III e 1 de zona II com duplex inconclusivo. O denominador dos diagnósticos vasculares é, portanto, 54 mais 16 menos a sobreposição de 1, ou seja 69 — e os 9 diagnósticos vasculares do estudo dão 13%, que é o percentual impresso.
Desses 9 achados vasculares, apenas 1 exigiu intervenção — uma embolização seletiva de artéria vertebral. O restante foi manejado expectantemente. Esse é o número que desarma a ideia de que achar lesão vascular é o mesmo que precisar operá-la, e é a razão de o próprio artigo registrar valor preditivo positivo baixo com valor preditivo negativo alto para os métodos vasculares: eles servem para excluir, não para indicar.
Há, por fim, uma distância entre o protocolo escrito e o protocolo executado, e ela é mensurável. O método do artigo diz que a angiografia era reservada às zonas I e III com achado clínico suspeito. Entre os estáveis, havia 45 doentes de zona I e 31 de zona III; foram angiografados 6 e 9, respectivamente — 19,7% das zonas I e III estáveis. A regra decorada de que zona I e zona III sempre levam angiografia é contrariada pela própria série que a prova cita como referência brasileira de manejo seletivo.
Complicação e morte: o denominador inverte a comparação
A série do Hospital das Clínicas publica que a taxa de complicação foi de 4,5% na abordagem seletiva e 12,9% na exploração obrigatória. Recalculando da própria tabela: no grupo seletivo houve 2 infecções de sítio cirúrgico, 1 hematoma, 2 deiscências e 1 lesão de recorrente, total 6, sobre 130 doentes — 4,6%. No grupo obrigatório, 2 infecções, 1 hematoma e 1 fístula faringoesofágica, total 4, sobre 31 — 12,9% exatos. A linha do grupo obrigatório recalcula na casa decimal, o que prova que os denominadores são esses.
E é aí que a comparação se desfaz. As cinco complicações listadas são todas complicações de operação: infecção de ferida, deiscência, hematoma de sítio, lesão de nervo recorrente, fístula de sutura. Nenhuma pode acontecer em quem não foi operado. No grupo seletivo, dos 130 doentes, só 34 foram à cirurgia. Recalculando sobre quem de fato operou: 6 de 34 (17,6%) no grupo seletivo contra 4 de 31 (12,9%) no obrigatório. A comparação inverte de direção.
Nada disso acusa o artigo, que é cuidadoso onde precisa ser: a própria tabela registra p=0,6 para a comparação de complicações, isto é, os autores não afirmam diferença. O deslize está na frase da discussão, que apresenta 4,5% contra 12,9% sem dizer que os denominadores são políticas inteiras e não operações. A comparação entre as duas políticas é 6 em 130 contra 4 em 31; a comparação entre as duas cirurgias é 6 em 34 contra 4 em 31. As duas são verdadeiras e respondem a perguntas diferentes.
A mortalidade seguiu o mesmo padrão: 3 óbitos entre os 31 do grupo obrigatório (9,7%) e nenhum entre os 130 do seletivo, com p=0,06. E o artigo explica a diferença por gravidade de admissão, escrevendo que o grupo obrigatório tinha valores mais altos de escore de gravidade da lesão e de escore de trauma revisado. A metade da frase que trata do escore de trauma revisado está invertida: os valores foram 7,62 no seletivo e 5,83 no obrigatório, e nessa escala o valor mais alto é o melhor. O grupo obrigatório tinha escore de gravidade mais alto e escore de trauma revisado mais baixo — as duas coisas apontando para maior gravidade, cada uma no seu sentido.
Esse é um erro de leitura que a prova reproduz, porque exige lembrar que os dois escores correm em direções opostas. O de gravidade da lesão soma pontos por lesão anatômica e sobe com a gravidade. O de trauma revisado é fisiológico, combina Glasgow, pressão sistólica e frequência respiratória, e desce com a gravidade. Uma alternativa que diga que o doente mais grave tem escore de trauma revisado mais alto está errada, por mais que a frase soe natural.
A régua brasileira não está em documento normativo
Vale saber onde essa régua mora, porque isso muda o que se pode cobrar do candidato. Os Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, na parte de suporte avançado de vida, têm 638 páginas no portal do Ministério da Saúde. A palavra pescoço aparece 79 vezes nesse documento — sempre como coluna cervical a imobilizar, ou como pescoço a manter em posição neutra durante a laringoscopia. As buscas por zonas, por platisma, por cervicotomia e por hematoma cervical devolvem zero ocorrência cada uma.
O documento oficial brasileiro resolve o que é dele: mantém a coluna alinhada, garante a via aérea e transporta. O ferimento cervical penetrante como entidade cirúrgica — a decisão de explorar, de investigar ou de observar — não é objeto de norma nacional. Ele vive em casuísticas de serviço, e é por isso que os números divergem tanto entre elas: cada uma reflete a política do hospital que a escreveu.
Isso tem uma consequência direta para quem estuda. Não adianta procurar a resposta canônica num protocolo do Ministério; a banca vai cobrar a doutrina corrente, que é a abordagem seletiva guiada por sinais, e vai usar as zonas como vocabulário anatômico. Quando o enunciado quiser cobrar um número brasileiro, ele virá de uma das séries publicadas, e vale reconhecê-las pelo tamanho: 191 casos em Curitiba, 161 no Hospital das Clínicas, 39 em São Paulo, 30 no Hospital do Trabalhador.
E vale reparar no que o capítulo vizinho de via aérea já entrega e onde ele para. Ele lista o hematoma cervical em expansão como preditor duro de intubação difícil e manda preparar o material de via aérea cirúrgica com o pescoço palpado e marcado enquanto ainda dá. Está certo, e é insuficiente: o mesmo hematoma que fecha a via aérea é a indicação de sala cirúrgica por sangramento, e responde por 7 das 31 explorações imediatas (22,6%) da maior série brasileira. Além disso, a membrana cricotireóidea fica na zona II — exatamente onde o hematoma está crescendo. Abrir a linha média de um hematoma cervical em expansão é entrar dentro dele. Preparar a via aérea cirúrgica é medida de segurança; a conduta do doente é o centro cirúrgico, e as duas decisões acontecem ao mesmo tempo.
As réguas, em ordem de uso
Três tabelas resolvem quase toda vinheta: a que separa quem vai à sala de quem vai à investigação, a que diz o que cada zona custa em exposição cirúrgica, e a que mostra por que dois números brasileiros de cervicotomia inútil podem estar ambos certos.
- 1Primeiro, a pergunta que não depende de zona nenhuma: o doente está instável, ou tem sangramento ativo, hematoma em expansão ou pulsátil, sopro, frêmito, borbulhamento de ar pela ferida, hematêmese ou hemoptise volumosa, ou déficit neurológico central? Qualquer um desses é sinal duro e leva à sala cirúrgica sem imagem.
- 2Segundo: o ferimento ultrapassou o platisma? Se não ultrapassou, é ferimento superficial — sutura simples e alta. A definição é anatômica e é a mesma nas quatro casuísticas brasileiras. Não instrumente a ferida para descobrir: a sondagem pode deslocar o coágulo que está contendo o sangramento.
- 3Terceiro, no doente estável com platisma violado: a investigação é dirigida pelos sinais brandos e pela topografia, não pela zona isoladamente. Disfagia, odinofagia, rouquidão, enfisema e hematoma estável apontam para o eixo aerodigestivo e pedem avaliação endoscópica; sopro, frêmito e pulso anormal apontam para o eixo vascular.
- 4Quarto: a angiotomografia é o exame de triagem contemporâneo porque cobre os três eixos numa aquisição só. Guarde a assimetria medida em série brasileira: ela enxerga bem o vaso e mal o tubo — sensibilidade de 16,7% para via aérea e 33,3% para esôfago e faringe contra o achado cirúrgico. Imagem normal do trato aerodigestivo com sinal clínico presente não dispensa endoscopia.
- 5Quinto: a zona entra agora, e entra para planejar. Zona I costuma exigir esternotomia para controle proximal; zona II é abordada por incisão vertical na borda anterior do esternocleidomastóideo; zona III pede extensão retroauricular ou tratamento endovascular, porque o problema ali é o controle distal.
- 6Sexto: doente estável, platisma violado e nenhum achado clínico fica em observação com reavaliações seriadas por no mínimo 24 horas. Na maior série brasileira de manejo seletivo, os 39 doentes sem achado nenhum foram observados e receberam alta sem intercorrência.
As três zonas: limite, conteúdo e o que custa expor
| Zona | Limite inferior | Limite superior | O que mora ali | Acesso |
|---|---|---|---|---|
| I | Clavículas e manúbrio (há texto que escreve base do pescoço) | Cartilagem cricoide | Subclávias, tronco braquiocefálico, carótidas proximais, ápices pulmonares, traqueia e esôfago proximais, ducto torácico | Difícil: costuma exigir esternotomia mediana para controle proximal |
| II | Cartilagem cricoide | Ângulo da mandíbula | Carótida comum e bifurcação, jugulares, laringe, faringe, traqueia e esôfago cervicais | Simples: incisão vertical na borda anterior do esternocleidomastóideo |
| III | Ângulo da mandíbula | Base do crânio (a série de Curitiba escreve mastoide) | Carótidas interna e externa altas, artéria vertebral, tronco simpático | Difícil: extensão retroauricular ou tratamento endovascular para controle distal |
Sinal duro e sinal brando: o que cada lista dispara
| Grupo | Achados | Conduta | Peso medido |
|---|---|---|---|
| Duro | Sangramento ativo ou profuso, hematoma em expansão ou pulsátil, sopro ou frêmito, instabilidade hemodinâmica, borbulhamento de ar pela ferida, hematêmese ou hemoptise volumosa, déficit neurológico central | Sala cirúrgica, sem exame de imagem | 31 de 161 doentes (19%); sangramento e hematoma em expansão sozinhos respondem por 27 desses 31 (87%) |
| Brando | Disfagia, odinofagia, rouquidão, hematoma estável, crepitação ou enfisema subcutâneo, hemoptise pequena, hematêmese pequena | Investigação dirigida ao eixo sugerido; endoscopia quando o eixo é aerodigestivo | Nos 130 doentes de abordagem seletiva, 34 (26%) acabaram explorados, e 100% dessas explorações foram por lesão aerodigestiva |
| Nenhum | Exame normal, platisma violado | Observação com reavaliação seriada por no mínimo 24 horas | 39 de 130 doentes (30%) sem achado nenhum: todos observados, todos com alta sem intercorrência |
Quatro casuísticas brasileiras lado a lado
| Estudo | Quem entra | n | Explorações | Sem nada a corrigir | Óbitos |
|---|---|---|---|---|---|
| Curitiba, Cajuru, 1996-2001 | Ferimento cervical isolado; 101 com platisma violado | 191 | 51 (50% dos 101 penetrantes) | 24 de 51 (47%) | 14 mortes no atendimento inicial, excluídas da análise |
| Hospital das Clínicas, São Paulo, série de 5 anos | Platisma violado (161 de 181 admitidos) | 161 | 65 (40%): 31 obrigatórias e 34 seletivas | Nenhuma exploração sem achado relatada nas duas tabelas cirúrgicas | 3 de 161 (1,9%), todos no grupo de exploração obrigatória |
| Campo Limpo, São Paulo, 2001-2009 | Ter sido submetido a cervicotomia exploradora | 39 | 39 (critério de entrada) | 2 de 39 (5,1%) com inventário nada | 8 de 39 (20,5%) |
| Hospital do Trabalhador, Curitiba, 2009-2013 | Ter feito tomografia e ter ido à cirurgia | 30 | 30 (critério de entrada) | Não reportado | 1 de 30 (3,3%) |
A cifra de 47% de cervicotomias não terapêuticas e a de 5,1% de cervicotomias brancas não medem a mesma coisa: a primeira conta operação sem nada a corrigir, a segunda conta operação sem nada encontrado. Aplicando a régua da primeira ao inventário da segunda, a taxa comparável fica entre 5,1% e 12,8%.
Mecanismo não é indicação. Ser ferimento por arma de fogo ou por arma branca não indica cervicotomia por si; quando aparece numa tabela de indicações, é política de exploração obrigatória sobrevivendo com outro nome.
Os dois escores de trauma correm em sentidos opostos: o escore de gravidade da lesão sobe com a gravidade, o de trauma revisado desce. Doente mais grave tem escore de gravidade mais alto e escore de trauma revisado mais baixo.
Onde as fontes divergem
Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.
Até a mastoide
A zona III estende-se do ângulo da mandíbula até a mastoide. É a definição escrita na maior casuística brasileira do tema, que credita a divisão ao tratado de trauma de Mattox, Feliciano e Moore.
Von Bahten LC et al. Ferimentos cervicais: análise retrospectiva de 191 casos. Rev Col Bras Cir. 2003;30(5):374-381.
Até a base do crânio
A zona III compreende a área entre o ângulo da mandíbula e a base do crânio. É a definição das duas séries paulistas e a que a literatura internacional reproduz, atribuída ora a Monson e colaboradores, ora a Roon e Christensen.
Teixeira F et al. World J Emerg Surg. 2016;11:32; Cruvinel Neto J, Dedivitis RA. Braz J Otorhinolaryngol. 2011;77(1):121-124.
Na prova
O marco anatômico da alternativa é a assinatura da fonte que a banca usou. Se o enunciado escreve mastoide, está reproduzindo a série brasileira de 2003; se escreve base do crânio, está na corrente majoritária. Nenhuma das duas muda conduta — em ambas a zona III é a faixa alta, de controle vascular distal difícil. O que a prova cobra de verdade é reconhecer a faixa pelo limite inferior, o ângulo da mandíbula, que é idêntico nas duas.
Confirmação, depois do duplex
A sistematização diagnóstica proposta em 2003 põe o eco-Doppler de carótidas e vertebrais em todo ferimento das zonas I e III, com o eco-Doppler de zona II indicado pelo exame clínico, e reserva a angiotomografia para confirmar os casos suspeitos.
Von Bahten LC et al. Rev Col Bras Cir. 2003;30(5):374-381, seção de conclusões.
Triagem, antes de tudo
A angiotomografia oferece avaliação oportuna, segura e acurada dos principais aspectos das lesões cervicais e é o exame que reduz a necessidade de exploração cirúrgica; a série do Hospital das Clínicas registra que sua análise retrospectiva antecede a adoção da angiotomografia como prática de rotina no serviço.
Teixeira F et al. World J Emerg Surg. 2016;11:32, discussão; Nasr A et al. Rev Col Bras Cir. 2015;42(4):215-219, introdução.
Na prova
A data do enunciado costuma denunciar o lado. Vinheta contemporânea com doente estável e sem sinais duros espera angiotomografia como primeiro exame; enunciado que descreve o eco-Doppler como triagem vascular está reproduzindo a régua brasileira de 2003. O que sobrevive aos dois lados, e é o que vale marcar, é que nenhum dos dois manda operar o doente estável só porque o platisma foi violado.
Decide quase tudo
Na série de 130 doentes de abordagem seletiva, os exames complementares foram indicados por exame clínico criterioso, e os 39 doentes sem achado clínico algum foram apenas observados por no mínimo 24 horas e receberam alta sem evidência de comprometimento. Nenhuma lesão despercebida foi observada no seguimento.
Teixeira F et al. World J Emerg Surg. 2016;11:32, resultados.
Não alcança as zonas de acesso difícil
Na série de 191 casos, 6 doentes tiveram a indicação cirúrgica dada exclusivamente por exame complementar sem sinais clínicos — 4 em zona I e 2 em zona III —, o que sustenta a recomendação de investigação vascular sistemática nessas duas faixas.
Von Bahten LC et al. Rev Col Bras Cir. 2003;30(5):374-381, resultados e conclusões.
Na prova
As duas posições convivem sem se contradizer, e a prova costuma testar justamente a costura: nenhum dos 6 doentes operados por exame estava na zona II. A alternativa que generaliza o exame físico isolado para todas as zonas ignora as zonas I e III; a que manda investigar todo mundo ignora que na faixa central o exame clínico decidiu sozinho todas as vezes nas duas séries.
Pode, e é praticado
Na tabela de indicações de cervicotomia de um serviço terciário paulista, ferimento por arma de fogo aparece como indicação em 6 casos e ferimento por arma branca em 5, ao lado de sinais clínicos — 11 dos 39 doentes, 28,2%, explorados pelo mecanismo.
Cruvinel Neto J, Dedivitis RA. Braz J Otorhinolaryngol. 2011;77(1):121-124, tabela de indicação e inventário.
Não pode, e o dado é contraintuitivo
Entre os ferimentos que violaram o platisma, foram operados 32 de 77 por arma de fogo (41,56%) contra 19 de 24 por outros instrumentos (79,17%), com p=0,0136 — proporcionalmente é a arma branca que penetra o platisma que mais indica cirurgia, e não o projétil.
Von Bahten LC et al. Rev Col Bras Cir. 2003;30(5):374-381, tabela de relação entre mecanismo e indicação.
Na prova
O distrator clássico veste a exploração obrigatória com a roupa do mecanismo: manda operar porque foi projétil, ou porque é transfixante. A régua contemporânea decide por sinal, e a prova gosta de premiar quem sabe que a associação entre projétil e cirurgia, medida por doente com platisma violado, corre no sentido contrário do senso comum.
Caso resolvido
- A primeira pergunta não é a zona
- Antes de classificar o ferimento, percorra a lista dura: sangramento ativo, hematoma em expansão ou pulsátil, sopro, frêmito, borbulhamento de ar, hematêmese ou hemoptise volumosa, instabilidade, déficit neurológico central. Nenhum está presente. O doente não vai à sala agora, e nenhuma resposta que envolva cervicotomia imediata é defensável neste momento.
- A sonda está proibida
- A resposta ao plantonista é não. Instrumentar o trajeto pode deslocar um coágulo que esteja contendo sangramento e converter este doente estável num doente com hemorragia ativa fora do centro cirúrgico. A profundidade se afere pelo exame do cirurgião, à beira do leito, sem sondar. O que se vê aqui — fibras musculares expostas no fundo — já responde a pergunta: o platisma foi violado.
- A zona, agora, e para quê
- Abaixo do ângulo da mandíbula e acima da cricoide é zona II, a faixa de exposição cirúrgica mais simples. Isso não muda a conduta imediata: no doente estável e sem sinais duros, a investigação é dirigida pelos sinais brandos, em qualquer zona. A zona entra no planejamento se a cirurgia vier a ser necessária — incisão vertical na borda anterior do esternocleidomastóideo.
- O sinal brando escolhe o eixo
- A dor à deglutição é sinal brando e aponta para o eixo aerodigestivo. É esse eixo que dirige a investigação. Angiotomografia cervical é o exame de triagem contemporâneo, porque cobre vaso, via aérea e trato digestivo numa aquisição só — mas com a ressalva medida: contra o achado cirúrgico, sua sensibilidade foi de 16,7% para via aérea e de 33,3% para esôfago e faringe. Imagem normal aqui não fecha o caso.
- O que faz a odinofagia valer o esforço
- Com odinofagia persistente e platisma violado, a avaliação endoscópica do eixo aerodigestivo é o passo que muda conduta. Na série do Hospital das Clínicas, das 34 explorações do grupo seletivo, 100% foram por lesão aerodigestiva, e a distribuição dos achados foi laringotraqueal em 21 (62%), faringoesofágica em 10 (29%) e combinada em 3 (9%).
- Se tudo vier normal
- Doente estável, platisma violado, investigação negativa: observação com reavaliação seriada por no mínimo 24 horas. Não é alta. Na série de 130 doentes seletivos, os 39 sem achado nenhum foram observados por pelo menos 24 horas e receberam alta sem intercorrência, e nenhuma lesão despercebida apareceu no seguimento.
Agora feche você
- Classifique o achado antes de qualquer exame
- O abaulamento que cresce entre duas medidas é hematoma em expansão. Diga a que lista ele pertence e o que essa lista dispara.
- Julgue a decisão do residente
- Diga se a angiotomografia está indicada agora nesta doente e escreva o motivo em uma frase. Depois nomeie o risco específico de transportá-la para o tomógrafo.
- Nomeie a zona e o que ela custa
- Localize o ferimento pela zona e diga qual é a consequência cirúrgica dessa topografia — não em termos de gravidade, e sim de exposição.
- Antecipe a via aérea
- Explique por que a cricotireoidostomia é uma escolha ruim nesta doente especificamente, e o que isso muda no plano de via aérea.
- Diga o número que sustenta a conduta
- Na maior série brasileira de manejo seletivo, quanto pesaram o sangramento e o hematoma em expansão entre as indicações de cirurgia imediata?
Onde a banca derruba
- 1Decidir a conduta pela zona A alternativa oferece exploração cirúrgica obrigatória para zona II e investigação para zonas I e III, e parece organizada. É a doutrina que as casuísticas brasileiras abandonaram justamente por produzir até 47% de cervicotomias sem nada a corrigir. No doente estável e sem sinais duros, a conduta é a mesma nas três faixas: investigação dirigida. A zona reaparece depois, para escolher a incisão.
- 2Tratar a violação do platisma como indicação de sala Violar o platisma define ferimento penetrante, e é o que decide quem entra na investigação. Na série de 191 casos, dos 101 que violaram o platisma, 41 foram tratados conservadoramente e 9 nem chegaram a ser internados. A alternativa que manda explorar apenas pela violação do platisma reproduz a política antiga.
- 3Sondar ou explorar digitalmente a ferida no leito É a alternativa que soa prática e mata. Instrumentar o trajeto pode deslocar o coágulo que contém o sangramento e converter um doente estável num doente em hemorragia ativa, fora do centro cirúrgico. A profundidade se estima pelo exame do cirurgião, sem sonda.
- 4Confiar na tomografia normal do trato aerodigestivo Na única série brasileira que comparou a angiotomografia com o achado cirúrgico, a imagem acusou 2 das 12 lesões de via aérea encontradas na mesa (sensibilidade de 16,7%) e 3 das 9 lesões de esôfago e faringe (33,3%). Diante de disfagia, odinofagia, rouquidão ou enfisema, imagem normal não substitui endoscopia.
- 5Ler o escore de trauma revisado como se subisse com a gravidade Ele desce. Na série do Hospital das Clínicas, o grupo mais grave teve escore de gravidade da lesão de 26 contra 17 e escore de trauma revisado de 5,83 contra 7,62. O escore anatômico sobe com a gravidade; o fisiológico, que combina Glasgow, pressão sistólica e frequência respiratória, cai.
- 6Achar que taxa de complicação compara cirurgias Quando um estudo publica 4,5% de complicações no grupo seletivo e 12,9% no obrigatório, os denominadores são as políticas inteiras — 130 e 31 doentes. Como as complicações listadas só ocorrem em operados, e no grupo seletivo apenas 34 foram operados, a taxa por cirurgia é 6 em 34 (17,6%) contra 4 em 31 (12,9%). A comparação inverte, e o próprio artigo registra p=0,6.
- 7Usar a mortalidade por zona da série de 39 casos A zona III daquele estudo tem um doente, que morreu, o que produz 100% de mortalidade e um valor de p que o próprio artigo escreve como não aplicável. Zona I com 33,3% e zona II com 13,8% são comparáveis entre si; a zona III, não. Alternativa que afirme maior mortalidade em zona III apoiada em série brasileira está apoiada num caso.
- 8Tomar o corte de idade da conclusão como resultado testado A conclusão de que doentes com menos de 26 anos têm melhor prognóstico não corresponde a nenhum teste de limiar do artigo. O corte etário efetivamente testado foi 18 anos, e deu p=0,653, não significativo. O resultado significativo (p=0,0308) veio da comparação das idades como variável contínua, e 26 é a mediana de idade dos que receberam alta — uma estatística descritiva promovida a regra de decisão.
- 9Comparar taxa de cervicotomia branca com taxa de cervicotomia não terapêutica São definições diferentes. Não terapêutica conta a operação sem nada a corrigir; branca conta a operação sem nada encontrado, e o estudo que a usa exclui dela lesão de músculo, de tireoide e de glândula. Os 47% e os 5,1% brasileiros são ambos corretos e não se comparam sem converter a régua.
A conduta atual para trauma cervical penetrante ESTÁVEL, mesmo em zona II, migrou da exploração cirúrgica obrigatória ("mandatory exploration") para o manejo seletivo guiado por sinais e por angiotomografia (angio-TC) — o paciente está hemodinamicamente estável e SEM sinais duros (hard signs: sangramento ativo/pulsátil, hematoma expansivo/pulsátil, sopro/frêmito, choque não responsivo, enfisema maciço/borbulhamento aéreo, déficit neurológico central, hemoptise/hematêmese vultosas). A angio-TC é o exame de escolha inicial: triangula vias aérea, digestiva e vascular e direciona a investigação adicional seletiva. A exploração cervical cirúrgica imediata está errada: a exploração mandatória de zona II caiu em desuso e gera exploração negativa desnecessária no paciente estável. Arteriografia com esofagoscopia e broncoscopia de rotina em TODOS os casos é sobreinvestigação; hoje essas provas são seletivas conforme a angio-TC/sinais. A alta hospitalar também está errada: a violação de platisma não pode ser afastada com segurança à inspeção, e o paciente exige observação/imagem. E a intubação profilática com cervicotomia exploradora bilateral não tem indicação — não há critério de via aérea definitiva (SatO2 e via aérea preservadas) nem de cervicotomia bilateral às cegas.
Recuperação
Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.
Mulher, 35 anos, admitida após ferimento por projétil de arma de fogo em pescoço. À inspeção, orifício de entrada localizado ABAIXO da cartilagem cricoide, próximo à clavícula direita, sem orifício de saída. Sinais vitais: PA 100×60 mmHg, FC 110 bpm, FR 20 ipm, SatO2 96%. Apresenta hematoma cervical de base torácica em expansão lenta. Considerando a classificação de Monson pela topografia do ferimento, a região acometida corresponde à zona I, cuja principal peculiaridade anatômica é a proximidade com estruturas de acesso cirúrgico difícil. Sobre a zona I, assinale a alternativa correta quanto ao MELHOR próximo passo na paciente estável.
A zona I de Monson vai da cartilagem cricoide/clavículas até o desfiladeiro cervicotorácico, contendo grandes vasos da base (subclávias, tronco braquiocefálico, carótidas proximais, ápices pulmonares, traqueia e esôfago proximal) — seu acesso cirúrgico é DIFÍCIL, frequentemente exigindo esternotomia/toracotomia. Por isso, na paciente estável, a angio-TC é fundamental para mapear as lesões e planejar a via de acesso. Errada: o acesso à zona I NÃO é simples por cervicotomia anterior isolada — é justamente a zona de exposição mais complexa. Errada: a zona I é rica em estruturas nobres do desfiladeiro; observação sem imagem é inadequada. Errada: toracotomia de reanimação é para parada/agonia iminente, não para paciente estável com hematoma de expansão lenta. Errada: não há indicação de via aérea de urgência (SatO2 e ventilação preservadas) e traqueostomia não é medida diagnóstica.
Homem, 22 anos, vítima de ferimento por arma branca no pescoço. O ferimento localiza-se ACIMA do ângulo da mandíbula. Sinais vitais estáveis. O médico plantonista recorda a classificação anatômica de Monson para trauma cervical. A zona correspondente a esse ferimento (acima do ângulo da mandíbula até a base do crânio) é:
A classificação de Monson divide o pescoço em três zonas: Zona I — da cartilagem cricoide/clavículas até o desfiladeiro cervicotorácico (grandes vasos da base); Zona II — da cartilagem cricoide até o ângulo da mandíbula (região central, de fácil exposição cirúrgica); Zona III — do ângulo da mandíbula até a base do crânio. Como o ferimento está ACIMA do ângulo da mandíbula, corresponde à Zona III, de acesso cirúrgico difícil (alta e junto à base do crânio), com preferência por manejo endovascular quando há lesão vascular. Erradas: zonas I e II ficam abaixo do ângulo da mandíbula. Erradas: a classificação de Monson possui apenas TRÊS zonas — não existem zonas IV e V.
Homem, 24 anos, vítima de ferimento por arma branca na região cervical direita, ACIMA do ângulo da mandíbula (zona III de Monson). À admissão: PA 110/70 mmHg, FC 98 bpm, FR 18 ipm, SatO2 98%, Glasgow 15, via aérea pérvia e voz preservada. Houve sangramento arterial na cena, contido com compressão direta no pré-hospitalar; no momento não há hematoma expansivo nem sangramento ativo externo. O ferimento transfixa o platisma. A angiotomografia cervical evidencia lesão da artéria carótida interna extracraniana, em segmento alto, muito próximo à base do crânio, sem extravasamento livre de contraste no momento do exame. Qual é a conduta mais adequada?
Correta: Lesões vasculares em zona III (acima do ângulo da mandíbula, junto à base do crânio) têm acesso cirúrgico aberto tecnicamente muito difícil e de alto risco; com o paciente hemodinamicamente estável e sangramento contido, a abordagem de escolha para a lesão de carótida interna alta é a angiografia com tratamento endovascular (stent/embolização), que permite controle proximal e distal por via percutânea. A exploração aberta da carótida interna alta em zona III é justamente o que se busca evitar pela dificuldade de exposição/controle distal. Há lesão arterial documentada, portanto observar não trata a lesão e arrisca ressangramento catastrófico. Esofagografia/endoscopia investigam lesão aerodigestiva, não a lesão vascular já identificada e prioritária. Ligar a carótida comum não trata seletivamente a lesão da interna alta e impõe risco isquêmico cerebral desnecessário.
Homem, 30 anos, atendido após ferimento por arma branca na região cervical anterolateral esquerda, entre a cartilagem cricoide e o ângulo da mandíbula (zona II de Monson). Sinais vitais: PA 124/78 mmHg, FC 84 bpm, FR 16 ipm, SatO2 99%, afebril. Ao exame: consciente, voz normal, sem estridor, sem disfagia; ferimento com cerca de 2 cm que transfixa o platisma. NÃO há hematoma expansivo ou pulsátil, sangramento ativo, sopro/frêmito cervical, enfisema subcutâneo, hematêmese ou déficit neurológico. Qual é o próximo passo mais apropriado?
Correta: No paciente com trauma cervical penetrante que ultrapassa o platisma, hemodinamicamente estável e SEM sinais duros (hematoma expansivo/pulsátil, sangramento ativo, sopro/frêmito, comprometimento de via aérea, enfisema, hematêmese, déficit neurológico), a conduta atual é a abordagem seletiva independente de zona, guiada por angio-TC de pescoço, exame de alta sensibilidade que avalia estruturas vasculares e aerodigestivas e orienta a necessidade de exploração. A exploração obrigatória por violação do platisma é a conduta antiga; hoje é seletiva. A sondagem/exploração digital da ferida no leito é contraindicada — pode deslocar coágulo e desencadear hemorragia. Alta imediata ignora o risco de lesão oculta em ferimento que transfixou o platisma. Observar sem imagem em ferida transfixante do platisma retarda o diagnóstico de lesões vasculares/aerodigestivas silenciosas.
Homem de 27 anos chega ao pronto-socorro 25 minutos após ferimento por arma branca na região cervical anterolateral direita, entre a cartilagem cricoide e o ângulo da mandíbula. Está consciente, orientado, com voz preservada e sem estridor. Pressão arterial 128 por 80 mmHg, frequência cardíaca 82 bpm, saturação 99% em ar ambiente. O ferimento tem 3 cm e expõe fibras musculares no fundo. Não há sangramento ativo, hematoma, sopro ou frêmito, e o paciente nega disfagia. Qual é a conduta imediata?
Paciente hemodinamicamente estável, com platisma violado e sem nenhum sinal duro — sangramento ativo, hematoma em expansão ou pulsátil, sopro, frêmito, borbulhamento de ar, hematêmese ou hemoptise volumosa, déficit neurológico central. Nesse cenário a conduta contemporânea é a abordagem seletiva, com investigação dirigida e observação de no mínimo 24 horas; na série do Hospital das Clínicas com 161 doentes de platisma violado, 130 (81%) seguiram esse caminho e apenas 31 (19%) foram diretamente à sala. Operar apenas pela violação do platisma na faixa central é a política de exploração obrigatória, que produziu até 47% de cervicotomias não terapêuticas na casuística brasileira de 191 casos. Sondar o trajeto no leito é o erro mais perigoso da lista: pode deslocar o coágulo que contém o sangramento e converter o paciente estável em hemorrágico fora do centro cirúrgico. Dar alta com sutura simples ignora que o platisma foi violado, o que define ferimento penetrante e obriga investigação. Bateria completa de arteriografia com endoscopias em todo mundo é a rotina que a abordagem seletiva substituiu: no grupo seletivo daquela mesma série, a angiografia foi feita em apenas 16 de 130 doentes.
Na casuística brasileira de 191 ferimentos cervicais, 6 doentes tiveram a indicação cirúrgica dada exclusivamente por exame complementar, sem sinais clínicos: 4 com lesão na faixa inferior e 2 na faixa superior do pescoço. Qual conclusão esses dados sustentam?
Os 6 doentes se distribuíram como 4 na faixa inferior e 2 na superior, e nenhum na faixa central — e o número se reconstrói em outros dois trechos do mesmo artigo: dos 26 ferimentos da faixa inferior, 10 não tinham sinais e desses a cirurgia foi indicada em 4 pelos exames; nas lesões da faixa superior sem sinais, o percentual impresso de 28,57% só é produzido pela divisão por 7, que é o total registrado nessa faixa, e corresponde a 2 doentes. O padrão é o que ensina: a investigação complementar alterou conduta justamente onde a exposição cirúrgica é difícil e o exame físico alcança pior, e nunca na faixa central, onde o exame clínico decidiu sozinho todas as vezes. Concluir que o exame complementar é dispensável despreza que 6 lesões teriam sido perdidas. Solicitá-lo de rotina nas três faixas contraria o próprio achado, já que na faixa central ele não mudou conduta nenhuma vez. Dizer que o exame físico é insuficiente em qualquer faixa generaliza um resultado que é topográfico. E afirmar concentração de lesões ocultas na faixa central inverte exatamente o dado.
Série brasileira com 39 vítimas de trauma cervical penetrante submetidas a cervicotomia relata mortalidade de 3 em 9 na faixa inferior (33,3%), 4 em 29 na faixa central (13,8%) e 1 em 1 na faixa superior (100%), registrando o valor de p daquela linha como não aplicável. Como esses dados devem ser usados?
A faixa superior daquela série tem exatamente um doente, que morreu, o que produz mecanicamente 100% de mortalidade e nenhuma informação — e o próprio artigo reconhece isso ao registrar o valor de p da linha como não aplicável. As faixas inferior e central, com 9 e 29 doentes, permitem comparação: 33,3% contra 13,8%, com explicação plausível e coerente com a técnica, já que o sangramento dos vasos da base é mais difícil de controlar e frequentemente exige abrir o tórax. Afirmar que a faixa superior é a de maior mortalidade equivale a apoiar uma conclusão num caso. Falar em gradiente crescente é duplamente errado: além do problema do denominador na faixa superior, a mortalidade cai da inferior para a central, de modo que a sequência não é sequer monotônica. Indicar exploração obrigatória na faixa superior contraria a régua atual, que decide por sinal, e é justamente onde a exposição aberta é mais arriscada. E descartar a série inteira desperdiça a comparação que os denominadores sustentam.
Em casuística brasileira com 191 ferimentos cervicais, o platisma foi ultrapassado em 77 dos 90 ferimentos por arma de fogo e em 24 dos 101 ferimentos por outros instrumentos. Entre os que violaram o platisma, foram operados 32 dos 77 por arma de fogo e 19 dos 24 por outros instrumentos, com p=0,0136. Qual é a leitura correta desses dados?
As duas leituras coexistem no mesmo conjunto de dados e diferem apenas no denominador. Em números absolutos, 32 das 51 cervicotomias foram em vítimas de projétil, o que dá 63% e sugere domínio do projétil na sala. Mas quando o denominador passa a ser quem violou o platisma, a proporção operada foi de 32 em 77 (41,56%) para projétil contra 19 em 24 (79,17%) para os demais instrumentos, com p=0,0136 — proporcionalmente é o mecanismo não-projétil que mais indica cirurgia. A explicação é mecânica: o projétil atravessa o platisma em 85,6% das vezes, inclusive nos tangenciais, enquanto os demais instrumentos o atravessam em apenas 23,8%; a lâmina que penetra foi uma lâmina profunda, e o filtro do platisma é muito mais severo para ela. Dizer que os dois mecanismos indicam cirurgia na mesma proporção contraria o próprio valor de p. Afirmar que o projétil raramente ultrapassa o platisma inverte o achado. E a comparação não é inválida: o mecanismo aparece de fato como indicação registrada em outra série brasileira, na qual 11 de 39 doentes (28,2%) foram explorados por ser projétil ou lâmina, sem nenhum sinal clínico.
Paciente de 22 anos com ferimento por arma branca cervical, estável, com voz normal e sem sinais duros. O residente propõe introduzir uma sonda no trajeto para determinar se o platisma foi ultrapassado e assim decidir entre alta e internação. Qual é a avaliação correta dessa proposta?
Instrumentar o trajeto de um ferimento cervical é conduta proscrita em qualquer faixa do pescoço e com qualquer instrumento: a sonda pode deslocar o coágulo que está contendo o sangramento e converter um paciente estável em hemorrágico longe do centro cirúrgico. A profundidade se estima pelo exame do cirurgião consultor à beira do leito, com inspeção da ferida sem sondagem — quando se veem fibras musculares no fundo, o platisma foi violado. Fazer a manobra com sonda flexível ou sob anestesia local não muda o mecanismo do dano. Dizer que a profundidade é o único critério objetivo confunde a definição com o método de aferi-la. Restringir a contraindicação à faixa inferior é arbitrário: o risco de deslocar coágulo existe nas três. E afirmar que a violação do platisma perdeu valor inverte a régua atual, na qual ela continua sendo exatamente o que separa o ferimento superficial, que recebe sutura e alta, do ferimento penetrante, que entra em investigação.
Mulher de 29 anos com ferimento por projétil na base do pescoço à esquerda, 1 cm acima da clavícula. Pressão arterial 92 por 56 mmHg, frequência cardíaca 122 bpm. Apresenta abaulamento supraclavicular que aumentou entre duas aferições com dez minutos de intervalo. Não há sangramento externo. Qual é a conduta?
Hematoma em expansão documentado entre duas aferições, em paciente hipotensa e taquicárdica, é sinal duro: a conduta é centro cirúrgico sem exame de imagem. Na série do Hospital das Clínicas, sangramento e hematoma em expansão responderam por 27 das 31 indicações de cirurgia imediata, ou 87% delas. A topografia acima da clavícula e abaixo da cricoide corresponde à faixa inferior do pescoço, cuja consequência é técnica e não prognóstica: os vasos da base ficam atrás do plastrão osteocondral e o controle proximal costuma exigir esternotomia mediana, o que muda o preparo da sala. Levar essa paciente ao tomógrafo é transportá-la para longe da equipe e do material justamente enquanto o hematoma cresce. Observação por 24 horas é a conduta do paciente estável sem achados, e não descreve esta cena. Curativo compressivo com eco-Doppler à beira do leito atrasa a única medida que resolve e trata como dúvida diagnóstica algo que já está decidido pelo exame físico. Traqueostomia de urgência como primeira medida inverte a prioridade e é tecnicamente ruim: a via aérea cirúrgica pela membrana cricotireóidea fica na faixa central, no caminho que o hematoma está tomando.
Duas séries brasileiras de trauma cervical penetrante relatam, respectivamente, 24 cervicotomias não terapêuticas em 51 explorações (47%) e inventário operatório sem achados em 2 de 39 explorações (5,1%). Qual é a explicação correta para a diferença?
Cervicotomia não terapêutica é a operação em que não houve nada a corrigir, inclusive quando alguma lesão foi vista; cervicotomia branca, na definição do outro estudo, é aquela em que não se identificaram lesões de vasos, do trato aerodigestivo, neurológicas, de músculos importantes ou de glândulas — e esse mesmo estudo lança separadamente lesão de músculo, de tireoide e de língua, cada uma em um caso. Aplicando a régua da primeira à casuística da segunda, a taxa comparável fica entre 5,1% e 12,8%, e não é possível fechar mais do que isso com o publicado. Há ainda uma diferença de desenho que reforça a incomparabilidade: a amostra com 5,1% saiu do livro do centro cirúrgico e só inclui quem foi operado, enquanto a outra parte de 191 ferimentos cervicais. Atribuir a diferença à angiotomografia de rotina não se sustenta, porque a série com 5,1% não a usou como triagem. Dizer que a série com 47% incluiu ferimentos superficiais contraria o método, que exigia violação do platisma. Creditar a diferença ao intervalo entre os estudos e à evolução da técnica cirúrgica não explica nada: a série com a taxa mais baixa é de 2001 a 2009 e a com a taxa mais alta é de 1996 a 2001, períodos que se tocam, e a técnica de cervicotomia não mudou entre eles. E supor erro aritmético é o reflexo a evitar: as duas contas fecham, o que não fecha é a equivalência entre os rótulos.
Sobre a classificação anatômica do pescoço em zonas aplicada ao trauma penetrante, assinale a afirmativa correta quanto ao papel que ela desempenha na decisão clínica atual.
A divisão do pescoço em três faixas nasceu como descrição topográfica dentro de uma série sobre trauma de carótida e de vertebral, publicada em 1969 no The Journal of Trauma, e nunca foi validada como algoritmo de triagem. O que ela decide hoje é a via de acesso: faixa inferior costuma exigir esternotomia mediana para controle proximal dos vasos da base, faixa central é abordada por incisão vertical na borda anterior do esternocleidomastóideo, e faixa superior pede extensão retroauricular ou tratamento endovascular por causa da dificuldade de controle distal. Atribuir à faixa central a indicação de cervicotomia obrigatória é a doutrina antiga, abandonada porque produziu até 47% de operações sem nada a corrigir na casuística brasileira de 191 casos. Dizer que a zona substitui o exame físico contraria a série de 130 doentes em abordagem seletiva, na qual o exame clínico dirigiu toda a investigação. Afirmar gradiente crescente de mortalidade da faixa inferior para a superior não se sustenta: na única série brasileira que mediu desfecho por zona, a mortalidade foi 33,3% na inferior, 13,8% na central e um único doente na superior. E reservar endoscopia à faixa superior inverte a lógica: quem indica avaliação aerodigestiva é o sinal brando, não a topografia.
Série brasileira comparou a angiotomografia cervical com o achado da cervicotomia em 30 doentes operados. Nas vias aéreas a tomografia acusou 2 lesões e a cirurgia encontrou 12 (p=0,002); no esôfago e faringe a tomografia acusou 3 e a cirurgia encontrou 9 (p=0,013). Qual conduta esses números sustentam?
Recalculando dos numeradores, a sensibilidade da angiotomografia contra o achado cirúrgico foi de 2 em 12 para via aérea (16,7%) e de 3 em 9 para esôfago e faringe (33,3%). Nos vasos o desempenho foi bem melhor na mesma série. A conclusão prática é a assimetria: a imagem enxerga o vaso e perde o tubo, de modo que sinal clínico aerodigestivo — disfagia, odinofagia, rouquidão, enfisema — mantém a indicação de avaliação endoscópica mesmo com tomografia normal. Substituir a endoscopia pela imagem em todos os casos é exatamente o que esses números desaconselham. Abandonar a angiotomografia joga fora o desempenho vascular, que é bom e é o que permite excluir lesão de vaso com segurança. Indicar cervicotomia diante de imagem normal reintroduz a exploração obrigatória pela porta dos fundos e ignora que, na série do Hospital das Clínicas, os 39 doentes sem achado clínico foram observados e receberam alta sem intercorrência. Repetir a tomografia em 24 horas não corrige a cegueira do método para o trato aerodigestivo e apenas atrasa o exame que resolve. Vale notar o limite do estudo: só entraram doentes que fizeram tomografia e foram operados, o que enriquece a amostra em lesões e impede usar essas taxas como acurácia absoluta.
Um estudo brasileiro relata taxa de complicação de 4,5% no grupo de abordagem seletiva (130 doentes) e de 12,9% no grupo de exploração obrigatória (31 doentes), com p=0,6. As complicações listadas são infecção de sítio cirúrgico, hematoma, deiscência, lesão de nervo recorrente e fístula de sutura. No grupo seletivo, 34 doentes foram operados. Qual é a leitura tecnicamente correta?
As cinco complicações listadas são todas de operação: infecção de ferida, deiscência, hematoma de sítio, lesão de nervo recorrente e fístula de sutura. Nenhuma pode ocorrer em quem não foi operado, o que já invalida a alternativa que afirma o contrário. No grupo de abordagem seletiva, dos 130 doentes apenas 34 foram à cirurgia; recalculando sobre os operados, a taxa é 6 em 34 (17,6%) contra 4 em 31 (12,9%) no grupo de exploração obrigatória, e a direção da comparação se inverte. A leitura de que a abordagem seletiva produziu menos complicações cirúrgicas, com quase três vezes de diferença, vale para a política e não para a cirurgia. Os números publicados não estão errados: 6 em 130 dá 4,6% e 4 em 31 dá 12,9% exatos, e a linha do grupo obrigatório recalcula na casa decimal, o que confirma os denominadores. O que muda é a pergunta que cada denominador responde — política inteira ou operação realizada. Afirmar diferença significativa contraria o próprio estudo, que registra p=0,6 e não sustenta superioridade quanto à morbidade. E dizer que o recálculo é impossível ignora que o estudo informa explicitamente que 34 dos 130 doentes do grupo seletivo foram explorados.
Homem de 31 anos sofreu ferimento por arma branca na região cervical lateral direita, entre a cartilagem cricoide e o ângulo da mandíbula, com violação do platisma. Está estável (PA 126 x 78 mmHg, FC 76 bpm), com voz normal, sem disfagia, sem enfisema subcutâneo, sem hematoma em expansão, sem sangramento e sem déficit neurológico. A angiotomografia mostra lesão não oclusiva de artéria vertebral direita, sem extravasamento de contraste. Qual a conduta?
Nas séries brasileiras de manejo seletivo, os métodos de avaliação vascular têm valor preditivo positivo baixo e valor preditivo negativo alto: servem para excluir, não para indicar. No serviço com maior casuística, dos nove diagnósticos vasculares apenas um exigiu intervenção, uma embolização seletiva de artéria vertebral, e o restante foi conduzido de forma expectante. Com paciente estável, sem sinal duro e com lesão não oclusiva, a conduta é vigiar. Explorar o pescoço por causa do achado de imagem reintroduz a cervicotomia sem terapêutica, que chegou a quase metade das explorações onde a política era operar sempre. Embolizar de rotina trata a imagem, e não o doente. Ligar a carótida comum é desproporcional e não corresponde à lesão descrita. E alta sem reavaliação abandona quem ainda precisa de exame seriado.
Paciente com ferimento cervical penetrante apresenta déficit neurológico focal contralateral e hematoma cervical. Qual lesão deve ser considerada?
Déficit neurológico focal contralateral em paciente com ferimento cervical e hematoma aponta para lesão da artéria carótida, com isquemia do hemisfério correspondente por trombose, dissecção ou embolia, sendo indicação de intervenção. Lesão da veia jugular externa produz sangramento venoso, sem déficit neurológico central. Lesão do nervo frênico causa elevação da hemicúpula diafragmática. Lesão do ducto torácico manifesta-se por quilotórax ou drenagem leitosa, tipicamente à esquerda e em zona I. Lesão de glândula submandibular pode causar fístula salivar, mas não déficit neurológico.
Qual estrutura anatômica delimita a zona II do pescoço na classificação clássica do trauma cervical penetrante?
A zona II se estende da cartilagem cricoide até o ângulo da mandíbula, sendo a região de mais fácil exposição cirúrgica e a mais frequentemente acometida. A zona I vai das clavículas à cricoide e envolve estruturas da transição cervicotorácica, de exposição difícil. A zona III fica acima do ângulo da mandíbula até a base do crânio, também de difícil acesso cirúrgico e frequentemente manejada por técnicas endovasculares. As demais referências anatômicas não correspondem à classificação clássica, que usa cricoide e ângulo da mandíbula como marcos.
Qual é a particularidade cirúrgica das lesões em zona I e em zona III do pescoço?
A zona I envolve a transição cervicotorácica, muitas vezes exigindo esternotomia ou toracotomia para controle proximal, e a zona III se aproxima da base do crânio, com acesso limitado pela mandíbula e pelo osso temporal, de modo que ambas são de exposição difícil e se beneficiam de imagem prévia e de abordagens endovasculares. A zona II é a de exposição mais fácil, e não o contrário. A zona I certamente não dispensa imagem. E ambas contêm estruturas vasculares maiores, incluindo vasos subclávios e carótida distal.
Qual achado sugere lesão esofágica no trauma cervical penetrante?
Enfisema subcutâneo, odinofagia, disfagia e drenagem de saliva pela ferida apontam para lesão esofágica, que precisa ser reconhecida cedo porque o atraso leva a mediastinite com mortalidade elevada, sendo investigada por esofagografia com contraste hidrossolúvel e endoscopia. Rouquidão passageira pode acompanhar contusão laríngea sem lesão esofágica. Escoriação sem violação do platisma afasta lesão profunda. Dor à mobilização do ombro sugere acometimento musculoesquelético. Cefaleia occipital não guarda relação com lesão esofágica cervical.
Qual afirmação sobre o trauma cervical penetrante está correta?
A violação do platisma é o critério que define o ferimento como penetrante e obriga investigação estruturada, mas a conduta atual é seletiva, com imagem e avaliação dirigida em pacientes estáveis sem sinais duros, reservando a exploração para quem tem indicação. Tornar a exploração obrigatória reproduz a prática antiga. Ferimentos que não violam o platisma são superficiais e não exigem cervicotomia. A ausência de sinais duros reduz o risco, mas não exclui lesões, motivo pelo qual se investiga. E o comprometimento da via aérea é justamente uma das ameaças mais imediatas nesse trauma.
Qual exame complementa a investigação de lesão de via aerodigestiva em paciente com trauma cervical penetrante e angiotomografia sem lesão vascular?
Afastada a lesão vascular, a preocupação seguinte é a via aerodigestiva, investigada por estudo contrastado do esôfago com contraste hidrossolúvel e endoscopia, com laringoscopia ou broncoscopia conforme rouquidão, enfisema e hemoptise, já que lesões esofágicas despercebidas evoluem para mediastinite. Ultrassonografia de tireoide e cintilografia de paratireoides investigam doenças endócrinas. Ressonância de coluna lombar não tem relação topográfica. Eletroneuromiografia de membros superiores avalia plexo e nervos periféricos de forma tardia, e não a integridade das vias aérea e digestiva.
Paciente com ferimento penetrante em zona II do pescoço, estável, sem sinais duros, com platisma violado. Qual a conduta atual mais aceita?
A conduta contemporânea privilegia a avaliação por angiotomografia em pacientes estáveis e sem sinais duros, independentemente da zona, complementada conforme os achados por endoscopia ou estudo contrastado do esôfago, o que reduziu de forma expressiva as explorações desnecessárias. Explorar todos os ferimentos que violam o platisma é a conduta antiga e gera alta taxa de cervicotomias sem achados. Alta imediata sem investigação arrisca lesão oculta. Radiografia e duas horas de observação são insuficientes. Traqueostomia profilática não é indicada na ausência de comprometimento da via aérea.
Qual conduta é indicada diante de corpo estranho impactado, como faca, ainda presente no pescoço da vítima?
O objeto impactado pode estar tamponando uma lesão vascular, e sua remoção fora do centro cirúrgico pode desencadear hemorragia incontrolável; por isso ele é estabilizado e removido apenas com o campo preparado e controle vascular possível. Remover no local ou na sala de emergência é o erro clássico. Cortar rente à pele e liberar o paciente deixa corpo estranho profundo sem tratamento. E tracionar até a saída espontânea reproduz exatamente o risco que a conduta correta busca evitar, além de poder ampliar a lesão de estruturas vizinhas.
Homem de 27 anos com ferimento por arma branca em zona II do pescoço apresenta hematoma cervical expansivo, estridor e sangramento pulsátil pela ferida. Qual a conduta?
Hematoma expansivo, estridor e sangramento pulsátil são sinais duros de lesão vascular e de via aérea, e a conduta é assegurar via aérea definitiva e explorar cirurgicamente sem aguardar exames. Solicitar angiotomografia diante de sinais duros é o erro que atrasa o controle de uma hemorragia ativa e de uma via aérea que se fecha. Curativo compressivo isolado não controla lesão arterial cervical e pode piorar a compressão da via aérea. Endoscopia investiga lesão esofágica, etapa posterior. E dar alta com radiografia normal ignora sinais que já indicam operação.
Vitima de ferimento por arma branca em regiao cervical, zona II, estavel, com hematoma nao expansivo e sem sangramento ativo. A conduta atual preferencial e:
A conduta contemporanea em ferimento cervical penetrante em paciente estavel e a investigacao dirigida com angiotomografia e avaliacao das vias aerea e digestiva, reservando a cervicotomia aos sinais duros — sangramento ativo, hematoma expansivo, deficit neurologico, enfisema com escape aereo. Explorar todos que ultrapassam o platisma engana porque foi a conduta classica, mas produz alto indice de exploracoes negativas.
Homem de 28 anos é atendido no pronto-socorro após ferimento por arma branca em região cervical anterior direita. A lesão localiza-se entre a cartilagem cricoide e o ângulo da mandíbula, com sangramento controlado por compressão. Ele está consciente, com pressão arterial de 118x74 mmHg, frequência cardíaca de 98 bpm, sem estridor, sem hematoma expansivo, sem enfisema subcutâneo e sem déficit neurológico. A ferida ultrapassa o músculo platisma. A conduta correta é
Ferimento cervical penetrante com violação do platisma em paciente estável, sem sinais duros de lesão vascular ou aerodigestiva, é investigado com angiotomografia e avaliação das vias aerodigestivas, estratégia que reduz explorações cirúrgicas desnecessárias sem perder lesões relevantes. Suturar e liberar sem investigação pode deixar passar lesão vascular ou esofágica. A exploração cirúrgica obrigatória para toda violação do platisma é conduta ultrapassada. Explorar a ferida digitalmente pode deslocar coágulo e precipitar hemorragia maciça.
Homem de 34 anos é trazido ao pronto-socorro após colisão de bicicleta com impacto direto na região anterior do pescoço contra um cabo estendido. Refere rouquidão e dor cervical. Ao exame apresenta disfonia importante, enfisema subcutâneo cervical, dor à palpação da cartilagem tireóidea com perda do contorno normal, estridor discreto, saturação de 94% em ar ambiente, FR 26 ipm e Glasgow 15, com PA e FC estáveis. Não há hemorragia externa nem hematoma expansivo. A conduta mais adequada é:
Disfonia, enfisema subcutâneo e perda do contorno da cartilagem tireóidea após trauma cervical direto sugerem fratura de laringe, situação em que a via aérea pode obstruir rapidamente e a abordagem deve ser feita com equipe preparada para via aérea cirúrgica, seguida de avaliação por tomografia e laringoscopia. Intubação às cegas pode criar falso trajeto e completar a transecção laringotraqueal. Alta domiciliar é inaceitável diante de risco de obstrução progressiva. Puncionar enfisema subcutâneo não descomprime nem trata a lesão de via aérea.
Homem de 26 anos é admitido após ferimento por arma branca na região cervical anterior, à direita, entre a cartilagem cricoide e o ângulo da mandíbula. Ao exame apresenta PA 118x74 mmHg, FC 98 bpm, Glasgow 15, ferida com sangramento venoso discreto, sem hematoma expansivo, sem sopro cervical, sem enfisema subcutâneo, sem disfonia e sem déficit neurológico. A ferida ultrapassa o músculo platisma à inspeção cuidadosa. O paciente está estável e colaborativo, sem sinais de sangramento ativo importante. A conduta mais adequada é:
Ferimento cervical penetrante que ultrapassa o platisma, em paciente estável e sem sinais duros de lesão vascular ou aerodigestiva, é conduzido com investigação por angiotomografia e avaliação das vias aerodigestivas, com observação hospitalar, estratégia que reduz explorações desnecessárias. Suturar e liberar ignora lesões potencialmente letais de manifestação tardia. Exploração obrigatória de todos os casos é conduta ultrapassada nos serviços com recursos de imagem. Radiografia isolada não avalia vasos, faringe, esôfago nem traqueia.
Homem de 29 anos é admitido após acidente automobilístico com trauma cervical por desaceleração e uso de cinto de segurança. Inicialmente estável e sem déficits, evolui após 12 horas com hemiparesia esquerda de instalação progressiva, disartria e síndrome de Horner à direita. Ao exame apresenta PA 132x82 mmHg, FC 88 bpm, Glasgow 14 e tomografia de crânio sem hemorragia, mostrando apenas área de hipodensidade incipiente em território de artéria cerebral média direita. A hipótese diagnóstica mais provável é:
Déficit neurológico de instalação tardia após trauma cervical por desaceleração, com síndrome de Horner ipsilateral e isquemia em território carotídeo, caracteriza dissecção traumática de artéria carótida interna, investigada por angiotomografia e tratada geralmente com antitrombótico. O hematoma extradural produz coleção biconvexa evidente à tomografia. A lesão axonal difusa cursa com coma desde o impacto, sem déficit focal progressivo. A paralisia de Todd é transitória e sucede uma crise convulsiva testemunhada, ausente no relato, além de não explicar a síndrome de Horner.
Homem de 34 anos chega ao pronto-socorro com ferimento por arma branca na base do pescoço, à esquerda, abaixo da cartilagem cricoide e acima das clavículas. Ao exame apresenta PA 92x58 mmHg, FC 122 bpm, Glasgow 15, hematoma cervical em expansão nessa região, sangramento venoso contínuo pela ferida, murmúrio vesicular diminuído no ápice esquerdo e enfisema subcutâneo em fossa supraclavicular. A saturação é de 92% em ar ambiente e o paciente mantém a via aérea pérvia no momento. A conduta mais adequada é:
Ferimento cervical penetrante com hematoma em expansão, sangramento ativo e instabilidade hemodinâmica configura sinais duros que indicam garantir a via aérea precocemente, antes que o hematoma a comprima, e proceder à exploração cirúrgica, com atenção às estruturas vasculares e ao ápice pulmonar. Suturar a ferida sem exploração pode ocultar sangramento profundo em progressão. Radiografia isolada não avalia vasos nem vias aerodigestivas. Esperar estabilização espontânea em hematoma cervical expansivo resulta em obstrução aguda da via aérea.
Homem de 31 anos chega ao pronto-socorro com ferimento por arma branca na região cervical anterior, acima da cartilagem cricoide e abaixo do ângulo da mandíbula. Ao exame, apresenta hematoma cervical não expansivo, sem sangramento ativo importante, voz preservada, sem estridor, sem enfisema subcutâneo e sem déficits neurológicos. A ferida ultrapassa o músculo platisma. Pressão arterial de 128 x 78 mmHg, frequência cardíaca de 96 bpm, saturação de 98% em ar ambiente. A conduta mais adequada é:
Ferimentos cervicais que ultrapassam o platisma exigem avaliação cuidadosa, mas a conduta atual em pacientes estáveis, sem sinais duros como sangramento ativo, hematoma expansivo, sopro, déficit neurológico ou comprometimento de via aérea, é a investigação seletiva com exames complementares, mantendo vigilância da via aérea. Exploração cirúrgica imediata para todos os casos é conduta superada, com alta taxa de cirurgias não terapêuticas. Suturar e liberar ignora lesões vasculares e aerodigestivas potencialmente ocultas. Radiografia isolada não avalia essas estruturas.
Homem de 28 anos é atendido no pronto-socorro após ferimento por arma branca em região cervical anterior direita. A lesão localiza-se entre a cartilagem cricoide e o ângulo da mandíbula, com sangramento controlado por compressão. Ele está consciente, com pressão arterial de 118x74 mmHg, frequência cardíaca de 98 bpm, sem estridor, sem hematoma expansivo, sem enfisema subcutâneo e sem déficit neurológico. A ferida ultrapassa o músculo platisma. O paciente nega febre, perda de peso recente, dispneia e alterações do hábito intestinal, e o restante do exame físico é normal. Os exames laboratoriais anteriores não mostravam alterações relevantes. A conduta correta é
Ferimento cervical penetrante com violação do platisma em paciente estável, sem sinais duros de lesão vascular ou aerodigestiva, é investigado com angiotomografia e avaliação das vias aerodigestivas, estratégia que reduz explorações cirúrgicas desnecessárias sem perder lesões relevantes. Suturar e liberar sem investigação pode deixar passar lesão vascular ou esofágica. A exploração cirúrgica obrigatória para toda violação do platisma é conduta ultrapassada. Explorar a ferida digitalmente pode deslocar coágulo e precipitar hemorragia maciça.
Homem de 28 anos é atendido no pronto-socorro após ferimento por arma branca em região cervical anterior direita. A lesão localiza-se entre a cartilagem cricoide e o ângulo da mandíbula, com sangramento controlado por compressão. Ele está consciente, com pressão arterial de 118x74 mmHg, frequência cardíaca de 98 bpm, sem estridor, sem hematoma expansivo, sem enfisema subcutâneo e sem déficit neurológico. A ferida ultrapassa o músculo platisma. Ele nega disfagia, odinofagia, rouquidão, hemoptise e dificuldade respiratória, e a voz está preservada. O exame neurológico dos membros é normal e não há déficit de pares cranianos ou alteração pupilar. A conduta correta é
Ferimento cervical penetrante com violação do platisma em paciente estável, sem sinais duros de lesão vascular ou aerodigestiva, é investigado com angiotomografia e avaliação das vias aerodigestivas, estratégia que reduz explorações cirúrgicas desnecessárias sem perder lesões relevantes. Suturar e liberar sem investigação pode deixar passar lesão vascular ou esofágica. A exploração cirúrgica obrigatória para toda violação do platisma é conduta ultrapassada. Explorar a ferida digitalmente pode deslocar coágulo e precipitar hemorragia maciça.
Homem, 26 anos, vítima de ferimento por arma branca em zona II do pescoço, à esquerda. PA 112/70 mmHg, FC 104 bpm, sem sangramento ativo externo no momento. Ao exame, hematoma cervical estável, sem sopro ou frêmito, com via aérea pérvia e sem déficit neurológico. Não há enfisema subcutâneo, disfagia ou rouquidão, e o paciente encontra-se hemodinamicamente estável. Qual a conduta mais adequada?
No trauma cervical penetrante em paciente estável e sem sinais duros, a conduta atual é a investigação seletiva com angiotomografia e avaliação das estruturas aerodigestivas, evitando explorações desnecessárias. A exploração cirúrgica obrigatória de toda zona II é conduta ultrapassada. Observar sem exames pode deixar passar lesões vasculares ou esofágicas graves. Dar alta com retorno se houver piora é inseguro nesse mecanismo de trauma. A traqueostomia profilática não é indicada com via aérea pérvia e sem hematoma expansivo.
Homem, 32 anos, sofreu impacto direto na região cervical anterior contra um cabo de aço há 40 minutos. Apresenta rouquidão intensa, estridor inspiratório, enfisema subcutâneo cervical e perda do contorno da cartilagem tireóidea. PA 130/80 mmHg, FC 110 bpm, SatO2 91% com máscara. As tentativas de laringoscopia direta mostram distorção anatômica importante da glote. Qual a conduta mais adequada para a via aérea?
Na fratura de laringe com distorção glótica, a via aérea de escolha é a traqueostomia realizada abaixo do segmento lesado, evitando manipular e agravar a lesão cartilaginosa. Insistir em intubação orotraqueal pode criar falso trajeto e transformar rotura parcial em completa. A cricotireoidostomia é contraindicada porque a incisão cai exatamente sobre a área traumatizada. A máscara laríngea não é via aérea definitiva e não protege contra aspiração nem vence a obstrução distal. A ventilação não invasiva agrava o enfisema subcutâneo e não garante patência da via aérea.
Homem, 29 anos, ferimento por arma branca em região cervical direita há uma hora, com lesão localizada 1 cm acima da cartilagem cricoide e abaixo do ângulo da mandíbula. Está estável, PA 126/78 mmHg, FC 92 bpm, sem hematoma expansivo, sem disfonia, sem enfisema subcutâneo e com pulsos carotídeos simétricos. A plataforma do platisma está francamente violada na exploração local da ferida. Qual a conduta indicada para este paciente estável?
A lesão descrita situa-se na zona II de Monson, e a conduta contemporânea no paciente estável, mesmo com platisma violado, é a investigação seletiva iniciada por angiotomografia cervical, que orienta abordagem dirigida. A exploração cirúrgica obrigatória de rotina foi abandonada por taxa elevada de cervicotomias brancas. Observar sem exame algum ignora lesões vasculares e aerodigestivas oligossintomáticas nas primeiras horas. A esofagografia isolada não avalia estruturas vasculares e tem falso-negativo relevante quando usada sozinha. Ligadura profilática de carótida externa sem lesão documentada é intervenção sem indicação.
Homem, 34 anos, ferimento por arma branca em fossa supraclavicular direita há 50 minutos. Está com PA 96/58 mmHg, FC 122 bpm, FR 24 ipm. Há hematoma cervical pulsátil em expansão, sopro sistólico local e diferença de 40 mmHg na pressão sistólica entre os membros superiores. O pulso radial direito é filiforme e o enchimento capilar da mão direita é de 4 segundos, com palidez e parestesia distal. Qual o acesso cirúrgico mais adequado para o controle proximal?
Para lesão de subclávia direita, o controle proximal exige exposição do tronco braquiocefálico, e a esternotomia mediana estendida à região supraclavicular oferece esse campo com segurança. A cervicotomia lateral isolada expõe carótida e jugular, mas não alcança a origem da subclávia. A toracotomia anterolateral esquerda é a via para a subclávia esquerda, cuja origem nasce diretamente do arco aórtico. A incisão infraclavicular isolada permite controle distal, porém sem domínio do segmento proximal sangrante. A toracotomia posterolateral exige decúbito lateral, inviável em instável, e não expõe os vasos da base.
Homem, 30 anos, ferimento por projétil em região cervical alta, acima do ângulo da mandíbula, há duas horas. Está estável, PA 128/80 mmHg, FC 94 bpm, sem hematoma expansivo. Angiotomografia mostra pseudoaneurisma de 12 mm da artéria carótida interna direita, em segmento distal de difícil acesso cirúrgico, sem extravasamento ativo de contraste e com fluxo distal preservado no polígono de Willis. Qual a abordagem terapêutica mais adequada?
Lesões vasculares em zona III cervical são de acesso cirúrgico difícil pela proximidade da base do crânio, e o tratamento endovascular com stent recoberto é a alternativa de escolha para pseudoaneurisma carotídeo nesse território. A cervicotomia com ressecção mandibular é mutilante e reservada a situações em que a via endovascular não é possível. A ligadura da carótida interna acarreta risco elevado de infarto cerebral. Observar sem intervir expõe o paciente a rotura e sangramento catastrófico. A trombólise é francamente contraindicada, pois a lesão é uma solução de continuidade que voltaria a sangrar.
Homem, 38 anos, colisão frontal com desaceleração intensa há seis horas. Apresenta equimose em faixa na região cervical anterior pelo cinto de segurança e fratura de corpo vertebral de C6 com extensão ao forame transverso. Está sem déficit neurológico no momento, PA 126/78 mmHg, FC 88 bpm. Não há hematoma cervical expansivo, sopro ou déficit sensitivo, e o Glasgow permanece em 15 desde a admissão. Qual a conduta indicada?
Fratura vertebral cervical com extensão ao forame transverso é critério de Denver para rastreamento de lesão vascular cervical contusa, e a angiotomografia deve ser realizada mesmo em paciente assintomático, pois o quadro isquêmico costuma se instalar horas depois. Observar sem investigar desperdiça a janela de prevenção do acidente vascular. A cervicotomia exploradora bilateral é intervenção desproporcional para rastreamento. Anticoagular empiricamente sem definir a lesão expõe o politraumatizado a sangramento. A ressonância avalia bem a medula, mas não substitui a angiotomografia no rastreio vascular.
Homem, 34 anos, ferimento por arma branca em zona I cervical à esquerda há oito horas. Evolui com dor cervical, disfagia, febre de 38,3 °C e enfisema subcutâneo cervical progressivo. PA 118/74 mmHg, FC 112 bpm. Radiografia cervical em perfil mostra alargamento do espaço pré-vertebral com ar. Leucócitos de 17.800/mm3 (VR 4.000–11.000) e proteína C reativa elevada na admissão. Qual a conduta indicada?
Perfuração de esôfago cervical com enfisema, disfagia e sinais infecciosos exige cervicotomia com reparo do defeito e drenagem ampla, prevenindo a progressão para mediastinite descendente. Antibiótico isolado não controla o foco nem drena a coleção cervical. A prótese endoscópica pode ser opção em perfurações torácicas contidas e selecionadas, mas não substitui a drenagem cervical em quadro infeccioso instalado. Nutrição parenteral com observação apenas adia o tratamento definitivo. A traqueostomia protege a via aérea, porém não trata a perfuração nem drena o espaço retrovisceral.
Homem, 41 anos, ferimento por arma branca em zona II cervical direita há 30 minutos. Chega com hematoma cervical em franca expansão, desvio da traqueia para a esquerda, estridor progressivo e voz abafada. PA 100/64 mmHg, FC 122 bpm, SatO2 91% com máscara. A distorção anatômica cervical é evidente e o paciente encontra-se agitado, mas consciente e orientado no momento da admissão. Qual a conduta imediata?
Hematoma cervical expansivo com estridor e desvio traqueal é sinal duro de lesão vascular com ameaça iminente à via aérea, exigindo intubação imediata, se necessário com plano cirúrgico de resgate, seguida de exploração cervical. Solicitar angiotomografia antes de assegurar a via aérea arrisca perda completa da patência durante o transporte. Comprimir o hematoma não estanca sangramento arterial profundo e comprime ainda mais a traqueia. A intubação nasotraqueal às cegas em anatomia distorcida tem alta taxa de falha. Observar um hematoma em expansão é conduta insegura.
Homem, 33 anos, ferimento por arma branca na fúrcula esternal, correspondente à zona I cervical, há 40 minutos. Está estável, PA 122/76 mmHg, FC 96 bpm, sem hematoma expansivo. Radiografia mostra pequeno pneumotórax apical à direita e alargamento discreto do mediastino superior. Não há déficit neurológico, disfagia ou rouquidão, e os pulsos dos membros superiores são simétricos. Qual a conduta indicada?
Ferimentos em zona I cervical envolvem vasos da base, traqueia e esôfago, com acesso cirúrgico difícil, de modo que no paciente estável a angiotomografia é o primeiro exame para mapear estruturas e planejar a abordagem. A cervicotomia imediata não oferece controle proximal adequado nessa região. Observar sem exames em território de vasos da base é conduta insegura. A esofagoscopia isolada deixa vasos e via aérea sem avaliação. Drenar o pneumotórax é necessário, mas dar alta em seis horas ignora a possibilidade de lesão mediastinal oculta.
Homem, 28 anos, sofreu trauma cervical anterior contra o guidão da bicicleta há três horas. Apresenta disfonia leve, dor cervical e discreto enfisema subcutâneo, sem estridor, com saturação de 97% em ar ambiente. PA 124/78 mmHg, FC 88 bpm. A tomografia mostra fratura não desviada da cartilagem tireóidea e a laringoscopia flexível evidencia edema discreto de prega vocal sem exposição de cartilagem. Qual a conduta indicada?
Fratura laríngea não desviada, sem exposição de cartilagem e sem comprometimento da via aérea, é manejada de forma conservadora com observação monitorizada, repouso vocal, cabeceira elevada, umidificação e corticoide, reservando a via aérea cirúrgica para deterioração. A traqueostomia imediata é indicada nas lesões com obstrução ou grande desvio. A intubação profilática prolongada agrava o edema e pode gerar estenose. A cricotireoidostomia é contraindicada na lesão laríngea, pois a incisão recai sobre a área traumatizada. A exploração aberta se reserva a fraturas desviadas ou com mucosa exposta.
Homem, 28 anos, vítima de ferimento por arma branca em região cervical anterior, com orifício situado 2 cm acima da cartilagem cricoide, à direita. Está estável: PA 122x76 mmHg, FC 96 bpm, FR 18 ipm, SatO2 97%. Não há sangramento ativo, hematoma expansivo, disfonia, disfagia ou enfisema subcutâneo. A ferida ultrapassa o músculo platisma. Quanto à zona anatômica acometida e à conduta, assinale a alternativa correta.
O ferimento situa-se na zona II, que se estende da cartilagem cricoide ao ângulo da mandíbula, e no doente estável e assintomático a conduta atual é a investigação seletiva com angiotomografia cervical. A designação de zona I é incorreta, pois essa área vai da clavícula à cricoide. A zona III corresponde ao segmento acima do ângulo da mandíbula, e a embolização não é a primeira medida em doente sem sangramento ativo. A exploração cirúrgica mandatória por violação do platisma foi abandonada, já que resultava em alto índice de cervicotomias brancas. Afirmar que a investigação de vias aerodigestivas é dispensável na zona I ignora que lesões esofágicas podem ser inicialmente silenciosas.
Homem, 27 anos, vítima de ferimento por arma branca em região cervical anterior, 3 cm acima da clavícula direita, chega em 40 minutos. PA 118x74 mmHg, FC 98 bpm, FR 20 ipm, SatO2 97% em ar ambiente. Há sangramento contido, sem hematoma expansivo, sem enfisema subcutâneo, sem sopro cervical e sem disfonia. A lesão ultrapassa o músculo platisma na inspeção da ferida. Qual a conduta indicada?
Ferimento cervical penetrante que ultrapassa o platisma em paciente estável e sem sinais duros, como hematoma expansivo, sangramento ativo, sopro, enfisema ou déficit neurológico, é conduzido pela abordagem seletiva com angiotomografia, complementada por endoscopia ou esofagografia conforme o trajeto. A exploração cirúrgica obrigatória de todos os casos foi abandonada por alta taxa de cervicotomias brancas. A sutura simples com alta ignora lesões vasculares e do trato aerodigestivo que se manifestam tardiamente. A traqueostomia profilática não é indicada sem comprometimento de via aérea. A esofagografia isolada não avalia estruturas vasculares nem a via aérea.
Homem, 38 anos, ferimento por projétil em base do pescoço à esquerda, admitido há 20 minutos. Apresenta hemoptise, enfisema cervical e torácico, PA 92/58 mmHg, FC 132 bpm, SatO2 88%. O dreno torácico esquerdo, recém-instalado, apresenta borbulhamento contínuo e volumoso, com saída simultânea de 900 mL de sangue e persistência da hipotensão apesar da reposição volêmica em curso. Qual a conduta indicada?
Hemoptise, escape aéreo maciço, hemotórax volumoso e instabilidade após ferimento em zona I indicam lesão combinada de via aérea e vasos da base, exigindo toracotomia de emergência com controle simultâneo dessas estruturas. A broncoscopia diagnóstica prévia atrasa o controle em paciente que sangra ativamente. A angiotomografia requer estabilidade hemodinâmica. Acrescentar um segundo dreno não resolve lesão traqueobrônquica nem hemorragia arterial. A intubação seletiva pode ser manobra auxiliar durante a operação, mas isoladamente com observação não controla o sangramento.
Homem, 28 anos, sofreu impacto direto na região cervical anterior em acidente de bicicleta há 1 hora. PA 128x80 mmHg, FC 104 bpm, FR 26 ipm, SatO2 94% em ar ambiente; apresenta disfonia intensa, enfisema subcutâneo cervical, dor à palpação da cartilagem tireóidea e estridor discreto. Não há sangramento externo ativo e o nível de consciência está preservado, com boa perfusão periférica. Qual a prioridade no manejo inicial?
Trauma laríngeo com disfonia, enfisema subcutâneo e estridor é ameaça iminente de obstrução, e a prioridade é assegurar a via aérea, sendo a traqueostomia sob anestesia local a opção mais segura, pois a intubação pode criar falso trajeto ou completar uma transecção parcial. A tomografia é essencial para o planejamento, mas apenas após a via aérea estar garantida. A intubação às cegas com sequência rápida é arriscada nesse cenário específico. Apenas observar com corticoide não protege contra a obstrução progressiva. Explorar o pescoço sem controlar a via aérea inverte a ordem de prioridades.
Homem, 27 anos, sofreu impacto direto na região cervical anterior contra o guidão da bicicleta há 1 hora. Apresenta rouquidão, dor cervical e dificuldade para engolir. PA 128x78 mmHg, FC 100 bpm, SatO2 95%. Há enfisema subcutâneo cervical, perda do contorno da cartilagem tireóidea e hemoptise discreta. Não há estridor em repouso no momento, mas a voz está progressivamente mais fraca. Qual a conduta indicada?
Assegurar a via aérea de forma planejada, preferencialmente em ambiente controlado, e avaliar a laringe com tomografia e laringoscopia é a conduta no trauma laríngeo, sugerido por rouquidão, enfisema subcutâneo e perda do contorno cartilaginoso, com risco de obstrução progressiva. A intubação às cegas pode criar trajeto falso e completar a transecção laringotraqueal. Observar sem avaliar permite deterioração rápida. A cricotireoidostomia é contraindicada quando há suspeita de lesão laríngea, preferindo-se traqueostomia. Prescrever corticoide e liberar é conduta perigosa.
Homem, 33 anos, apresenta ferimento por arma branca em região cervical baixa, com orifício situado 1 cm acima da clavícula direita. PA 96x58 mmHg, FC 122 bpm, FR 24 ipm, SatO2 94%. Há hematoma cervical em expansão e redução do murmúrio vesicular no ápice direito. A radiografia de tórax mostra hemotórax pequeno à direita e alargamento discreto do mediastino superior, sem pneumotórax hipertensivo. Qual a conduta indicada?
A abordagem cirúrgica com controle vascular é a conduta diante de ferimento cervical em zona I com hematoma em expansão, instabilidade hemodinâmica e sinais de acometimento torácico, cenário de risco de lesão de grandes vasos da transição cervicotorácica. A observação com nova radiografia ignora o hematoma expansivo. A exploração local do trajeto é contraindicada por poder desfazer o tamponamento. A angiotomografia ambulatorial após alta é inaceitável. Comprimir o hematoma e transferir sem acesso venoso adequado é conduta insegura em doente instável.
Homem, 30 anos, vítima de ferimento por arma de fogo cervical, chega com sangramento ativo pulsátil e hematoma cervical em expansão. PA 84x50 mmHg, FC 138 bpm, FR 28 ipm, SatO2 90%; estridor progressivo e desvio traqueal. Recebeu 1.000 mL de cristaloide sem melhora sustentada, e o hematoma cresce visivelmente durante a avaliação inicial na sala de emergência. Qual a conduta indicada?
Sangramento pulsátil ativo, hematoma em expansão, estridor e instabilidade hemodinâmica são sinais duros de lesão vascular e de via aérea, indicando exploração cervical cirúrgica imediata com controle simultâneo da via aérea, sem exames que atrasem a intervenção. A angiotomografia é útil na abordagem seletiva de pacientes estáveis, não neste cenário. A observação em terapia intensiva permite a progressão para obstrução completa e choque. O tamponamento externo com transferência atrasa o controle definitivo. A endoscopia digestiva alta é etapa posterior e inadequada em paciente instável.
Homem, 30 anos, com ferimento por arma branca em zona II do pescoço à esquerda, chega com hematoma cervical volumoso e em expansão, além de sopro audível sobre a lesão. PA 96x58 mmHg, FC 124 bpm, escala de coma de Glasgow 14, com hemiparesia direita leve. Via aérea pérvia, mas com desvio traqueal. Qual a conduta imediata?
Hematoma cervical em expansão, sopro sobre a lesão, desvio traqueal e déficit neurológico são sinais duros de lesão vascular cervical e indicam exploração cirúrgica imediata com controle proximal e distal e reparo arterial, sem aguardar exames. Realizar angiotomografia com sinais duros e via aérea ameaçada retarda o controle e pode culminar em obstrução respiratória. A compressão externa prolongada não controla sangramento arterial profundo e compromete a perfusão cerebral. A observação em terapia intensiva ignora a natureza expansiva do hematoma. A ligadura da carótida comum aumenta a taxa de infarto cerebral e é medida de exceção, apenas quando o reparo é impossível.
Homem, 26 anos, vítima de acidente motociclístico de alta energia, com fratura de corpo vertebral cervical envolvendo o forame transverso de C5, sem déficit motor inicial. PA 128x78 mmHg, FC 88 bpm, escala de coma de Glasgow 15. Tomografia de crânio sem lesões. Após 36 horas, evolui com vertigem, ataxia e nistagmo. Qual a alternativa correta sobre a lesão cerebrovascular contusa nesse contexto?
Fratura cervical que atravessa o forame transverso é critério clássico dos protocolos de rastreio de lesão cerebrovascular contusa, indicando angiotomografia mesmo em paciente assintomático, exatamente a situação deste jovem que evoluiu com sintomas vertebrobasilares após 36 horas. Considerar que exame neurológico normal exclui a lesão é o erro que a triagem por critérios pretende evitar. A exploração cirúrgica direta da vertebral é tecnicamente difícil e não é o tratamento inicial, que se baseia em antitrombótico e, em casos selecionados, tratamento endovascular. A antiagregação ou anticoagulação é justamente o pilar terapêutico, quando não há contraindicação por sangramento. O intervalo entre o trauma e o evento isquêmico costuma ser de horas a dias, o que fundamenta o rastreio precoce.
Homem, 28 anos, com ferimento por projétil de arma de fogo em região cervical alta, acima do ângulo da mandíbula, apresenta sangramento ativo pela orofaringe. PA 92x54 mmHg, FC 128 bpm, via aérea ameaçada por sangue. Após intubação orotraqueal, mantém sangramento. Angiotomografia mostra lesão de artéria carótida interna distal, próximo à base do crânio, com extravasamento ativo de contraste. Qual a abordagem mais adequada?
Lesões de zona III cervical, próximas à base do crânio, têm controle distal cirúrgico muito difícil, o que torna o tratamento endovascular com stent recoberto ou embolização a abordagem preferencial, como neste paciente com lesão de carótida interna distal e extravasamento ativo. A exploração cervical aberta nem sempre alcança o segmento distal e não é sempre viável em zona III. A ligadura da carótida externa não controla sangramento originado na carótida interna. O tamponamento nasal pode ser medida temporária, mas não é tratamento definitivo de lesão arterial com extravasamento ativo. A osteotomia mandibular amplia o acesso, mas tem morbidade considerável e é recurso de exceção, não a primeira escolha.
Qual prioridade integra hematoma expansivo, estridor e choque?

Sinais graves exigem intervenção urgente; planejamento de via aérea deve prever dificuldade.
Qual sinal ameaça diretamente a via aérea?

Estridor pode indicar estreitamento de via aérea.
Qual evolução sugere sangramento ativo no pescoço?

Aumento do hematoma sugere sangramento contínuo e risco compressivo.
Em paciente estável sem sinais graves, qual exame pode orientar investigação vascular conforme protocolo?

Imagem vascular ajuda em abordagem seletiva; não exclui automaticamente todas as lesões esofágicas ou aéreas.
Qual estrutura pode ser comprimida pelo hematoma e causar estridor?

Hematoma cervical pode comprometer laringe e traqueia.
Quer treinar mais nesse tema? Estas questões vêm do nosso banco — lá tem milhares, com simulado, maratona e estatística de acerto por área.
Criar conta grátis e continuar →Plano de revisão
em 7 dias
Escreva de memória as duas listas: a dos sinais duros que mandam à sala sem imagem e a dos sinais brandos que mandam à investigação. Em seguida, para cada uma das três zonas, escreva o limite inferior, o limite superior e a via de acesso cirúrgico. Se a via de acesso não vier junto, você ainda está decorando a zona como regra de conduta.
em 30 dias
Recalcule, sem olhar: se um estudo tem 130 doentes em abordagem seletiva, 34 deles operados e 6 complicações operatórias, qual é a taxa de complicação por política e qual é por cirurgia? Depois responda em uma frase por que apenas 6 doentes de uma série de 191 foram à cirurgia por causa de um exame complementar, e por que nenhum deles era de zona II.
Agora atenda
Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.
Numa estação de trauma cervical, o avaliador cronometra duas coisas: em quanto tempo você percorre a lista de sinais duros e se você resiste a pedir imagem antes de terminá-la. Verbalize a lista enquanto examina — sangramento, hematoma em expansão, sopro, frêmito, borbulhamento, voz, déficit —, diga em voz alta que não vai sondar a ferida e por quê, e só então nomeie a zona, sempre amarrando a zona ao acesso cirúrgico e não à conduta. Se a estação trouxer hematoma que cresce, a frase que pontua é curta: centro cirúrgico agora, sem tomografia. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.
