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Cirurgia GeralTrauma

Trauma de pescoço: a zona não decide mais a conduta, decide o acesso

Quem manda no ferimento cervical penetrante é o sinal duro; a zona escolhe a incisão

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem, 28 anos, vítima de ferimento por arma branca em região cervical anterior esquerda, é trazido ao pronto-socorro. Ao exame: consciente, orientado, PA 110×70 mmHg, FC 96 bpm, FR 18 ipm, SatO2 97% em ar ambiente. Apresenta ferimento puntiforme localizado 1 cm ACIMA da cartilagem cricoide e ABAIXO do ângulo da mandíbula, com plastrão cervical íntegro (platisma não visivelmente violado à inspeção, mas não explorável com segurança). Não há hematoma expansivo, sangramento ativo, enfisema, disfonia, disfagia, sopro ou déficit neurológico. A ferida corresponde à zona II de Monson. Assinale a conduta INICIAL mais adequada.

02

Como esse tema cai

A vinheta é quase sempre a mesma cena — homem jovem, ferimento por arma branca ou por projétil no pescoço — e a pergunta final cai em um de quatro formatos. O primeiro entrega um doente instável, ou com hematoma que cresce enquanto o examinador escreve, e pergunta a conduta: a resposta é sala cirúrgica, e o distrator é sempre um exame de imagem com bom nome.

O segundo formato entrega um doente estável, diz em que altura entrou a lâmina e pergunta o que fazer antes de decidir. É aqui que o candidato perde ponto por excesso de memória: ele decorou que zona I e zona III pedem investigação vascular e que zona II pede exploração, e responde pela zona. A régua atual não é essa. A zona sobrevive na prova por um motivo diferente do que fez dela uma classificação, e o capítulo mostra qual.

O terceiro formato dá um achado isolado — quase sempre a violação do platisma — e pergunta se aquilo obriga a operar. A frase decorada diz que sim; a conduta brasileira publicada diz que o platisma define quem entra na investigação, não quem entra na sala. As duas maiores casuísticas nacionais medem exatamente isso, e discordam do número.

O quarto formato é o de acurácia: quanto vale a angiotomografia, quanto vale o exame físico, quanto vale a endoscopia. O candidato que sabe de onde vem cada número acerta pelo enunciado. O que não sabe repete a manchete de que a tomografia resolve o pescoço, e cai na única casuística brasileira que comparou a tomografia com o que o cirurgião encontrou ao abrir.

03

O que muda decisão

A régua nasceu num artigo de vaso, não de triagem

O trabalho a que a nomenclatura brasileira atribui as zonas está registrado na base da National Library of Medicine com um título que já entrega o recorte: trauma de carótida e de vertebral, publicado em dezembro de 1969 no The Journal of Trauma, volume 9, número 12, páginas 987 a 999, por Monson, Saletta e Freeark. Não é um artigo sobre triagem de ferimento cervical. É uma série vascular, e a divisão do pescoço em três faixas entrou nela como descrição topográfica de onde a lesão arterial ficava.

Isso importa porque explica a fragilidade da regra que a prova cobra. Uma classificação desenhada para descrever a localização de uma lesão de vaso nunca foi validada como algoritmo de decisão — e a literatura brasileira nem sequer concorda sobre a quem atribuí-la. A casuística de 191 casos de Curitiba credita as zonas ao tratado de trauma de Mattox, Feliciano e Moore; a série de 39 casos de São Paulo as credita a Roon e Christensen, em artigo de 1979. O nome que a prova usa vem de um terceiro lugar.

E os limites divergem, dentro da própria literatura nacional. A série de Curitiba escreve que a zona III se estende do ângulo da mandíbula até a mastoide. A série de São Paulo e a do Hospital das Clínicas escrevem que ela vai do ângulo da mandíbula até a base do crânio. Não é a mesma extensão de pescoço, e a diferença cai justamente na região de acesso mais difícil. O limite inferior também oscila: um texto diz que a zona I começa nas clavículas, outro diz clavículas e esterno, outro diz base do pescoço.

A consequência prática é a que o aluno precisa levar: quando a alternativa define uma zona por marco anatômico, ela está reproduzindo um documento específico, e o marco é a assinatura desse documento. Quando a alternativa manda decidir a conduta pela zona, está reproduzindo uma doutrina que as próprias casuísticas nacionais abandonaram.

O platisma é a porta, e é ele que escolhe a população

Nas quatro casuísticas brasileiras a definição de ferimento penetrante é a mesma e é anatômica: penetrante é o que ultrapassa o músculo platisma. O que muda é o peso dessa porta. Na série de Curitiba com 191 doentes, o platisma foi violado em 101 — pouco mais da metade. Os outros 90 não entraram em investigação nenhuma. Dos 101, 92 foram internados e 9 receberam alta após 12 horas de observação, sem sinais.

A porta não é neutra em relação ao mecanismo, e é aqui que mora o achado mais contraintuitivo do tema. Dos 90 ferimentos por arma de fogo daquela série, 77 atravessaram o platisma — 85,6%. Dos 101 ferimentos por outros instrumentos (88 por arma branca, 8 por mordedura de cão, 5 por outras causas), apenas 24 atravessaram — 23,8%. O projétil quase sempre entra; a lâmina quase sempre para na superfície.

O efeito disso sobre a decisão cirúrgica é o contraditório que a prova adora. Entre os 51 operados, 32 tinham sido feridos por arma de fogo — 63% das cirurgias. Lido assim, o projétil domina o centro cirúrgico. Mas quando o denominador passa a ser quem violou o platisma, a leitura inverte: foram operados 32 dos 77 ferimentos por arma de fogo (41,56%) contra 19 dos 24 não-arma-de-fogo (79,17%), com p=0,0136. Proporcionalmente, é a arma branca que penetrou o platisma que mais indica cirurgia.

A explicação é mecânica e vale escrever: o platisma filtra. Uma lâmina que o atravessa foi uma lâmina profunda; um projétil o atravessa por padrão, inclusive nos tangenciais que não tocam estrutura nobre. Quem seleciona pelo platisma está, sem perceber, aplicando um filtro muito mais severo à arma branca do que ao projétil.

A frase que o aluno deve guardar não é uma regra de conduta, é uma regra de leitura de enunciado: sempre que a questão der uma proporção de trauma cervical, pergunte sobre que população ela foi calculada — todos os feridos, os que violaram o platisma, os internados, ou os operados. Cada uma dessas quatro é um número diferente, e as quatro convivem no mesmo artigo.

Sinais duros: a lista curta que decide sozinha

A régua contemporânea substitui a zona por duas listas. Os sinais duros mandam o doente para a sala sem exame de imagem; os sinais brandos mandam para investigação. A série do Hospital das Clínicas, com 161 doentes de platisma violado, escreve a lista dura com esses termos: borbulhamento de ar pela ferida, rouquidão, fístula salivar, hematoma em expansão, sangramento profuso e instabilidade hemodinâmica. A lista branda traz disfagia, crepitação, hematoma estável, hemoptise e hematêmese.

A distribuição é a prova de que a lista dura é curta de propósito: 31 dos 161 doentes (19%) foram direto ao centro cirúrgico, e 130 (81%) entraram na abordagem seletiva. Dentro dos 31, dois achados sozinhos responderam por 27 casos — sangramento em 20 (64%) e hematoma em expansão em 7 (22%), somando 87% das indicações imediatas. Borbulhamento, sintoma aerodigestivo duro e choque refratário couberam num caso ou dois cada.

O que a prova cobra desse quadro é a assimetria: o sangramento e o hematoma em expansão carregam a decisão quase inteira, e os outros itens da lista existem para os casos raros. O erro comum é o inverso — o candidato memoriza a lista completa e trata todos os itens como equivalentes, e depois hesita diante de uma vinheta com disfagia isolada, que é sinal brando e não indica sala.

A série de 39 doentes de São Paulo mostra o que acontece quando a lista dura é frouxa. Na tabela de indicações daquele serviço, dois itens não são sinais: ferimento por arma de fogo, em 6 casos, e ferimento por arma branca, em 5. Onze dos 39 doentes (28,2%) foram explorados porque o mecanismo era aquele, não porque houvesse achado. Isso é a política de exploração obrigatória sobrevivendo dentro de uma tabela que se apresenta como lista de indicações — e a leitura correta da tabela depende de reparar que a linha diz mecanismo onde as outras dizem achado.

Um detalhe operacional que a prova brasileira gosta: a exploração digital ou a sondagem da ferida no leito não é conduta. Ela pode deslocar o coágulo que está contendo o sangramento e transformar um doente estável num doente que sangra na maca. A profundidade se afere pelo exame do cirurgião consultor à beira do leito, sem instrumentar o trajeto.

O que a zona ainda decide é o acesso

A zona perdeu a função de decidir se opera. Não perdeu a de decidir por onde se opera, e é isso que a mantém viva no ensino. A descrição técnica da série do Hospital das Clínicas é literal e é a melhor tradução disso: incisão vertical na borda anterior do esternocleidomastóideo para a zona II; esternotomia mediana para a zona I; extensão retroauricular da incisão vertical para obter controle vascular distal na zona III; e incisões verticais bilaterais nos ferimentos transfixantes.

A leitura clínica é direta. A zona II é a faixa central, entre a cricoide e o ângulo da mandíbula, e é onde a exposição cirúrgica é mais simples — carótida comum, bifurcação, jugulares, laringe e faringe estão todos ao alcance de uma incisão. A zona I guarda os vasos da base, atrás do plastrão osteocondral, e frequentemente exige abrir o tórax para conseguir controle proximal. A zona III é alta, estreita e encostada na base do crânio, e o problema ali não é chegar ao vaso, é conseguir controle distal acima da lesão.

Vista lateral do pescoço com as três faixas anatômicas delimitadas por linhas tracejadas: da clavícula à cartilagem cricoide, da cricoide ao ângulo da mandíbula, e do ângulo da mandíbula à base do crânio, com o esternocleidomastóideo em transparência.
Os limites que a prova cobra são de superfície e se acham com a mão: cricoide embaixo, ângulo da mandíbula em cima. O que muda entre zonas não é a gravidade da lesão, é a dificuldade de expor o vaso — e por isso o limite superior da faixa alta é justamente onde a literatura brasileira diverge, entre a mastoide e a base do crânio.

Os números de desfecho por zona existem numa única das casuísticas brasileiras, e é preciso lê-los com o cuidado que o próprio artigo pede. Na série de 39 doentes, todos operados, morreram 3 dos 9 da zona I (33,3%), 4 dos 29 da zona II (13,8%) e 1 do único doente da zona III (100%). O gradiente não é monotônico: a mortalidade cai da zona I para a zona II e sobe de volta. E a zona III inteira é um doente — o artigo escreve o valor de p daquela linha como não aplicável, e a honestidade da recusa é o dado.

O que sobra de utilizável é a comparação entre as duas zonas com números: zona I mata mais que zona II naquele serviço, e a explicação plausível é a mesma que dita a incisão — o sangramento da base é mais difícil de controlar. O que não sobra é qualquer afirmação sobre a zona III baseada nesse artigo. Uma alternativa que diga que a zona III é a de maior mortalidade em séries brasileiras está apoiada num doente.

Cervicotomia não terapêutica: 47% e 5% na mesma língua

O número que justifica a existência da abordagem seletiva é a taxa de cirurgias que não encontram nada para consertar. Na série de Curitiba, das 51 explorações realizadas, 24 foram não terapêuticas47%, quase uma em cada duas. É o número que o próprio artigo chama de elevado e que sustenta sua conclusão de que o manejo precisa ser mais seletivo.

Na série de 39 doentes de São Paulo, o inventário operatório traz a linha nada em 2 casos: 5,1%. Nove vezes menos. Um aluno que encontre os dois números na mesma revisão conclui que um dos dois está errado. Nenhum está.

A diferença é de definição, e ela é integralmente verificável nos dois textos. Curitiba conta cervicotomia não terapêutica: a operação em que não houve nada a corrigir, inclusive quando alguma lesão foi vista. São Paulo define cervicotomia branca como aquela em que não se identificaram lesões de vasos, do trato aerodigestivo, neurológicas, de músculos importantes ou de glândulas — e depois lança separadamente lesão de músculo em 1 caso, tireoide em 1 e língua em 1. Aplicando a régua de Curitiba ao inventário de São Paulo, a taxa comparável fica entre 5,1% e 12,8%, e não é possível fechar mais do que isso com o que está publicado.

Há uma segunda razão para os dois números não conversarem, e ela é de desenho. A amostra de São Paulo saiu do livro de registro do centro cirúrgico, e o critério de entrada foi ter sido submetido a cervicotomia exploradora. Todo doente estável que ficou em observação e não foi operado é invisível naquele estudo. O denominador de Curitiba, ao contrário, começa antes: 191 ferimentos cervicais, 101 com platisma violado, 51 operados. São duas fotografias tiradas de dentro de cômodos diferentes.

Para calibrar a régua, a própria série de Curitiba cita as duas pontas da literatura: um serviço que explorava todos os ferimentos penetrantes chegou a 226 explorações negativas em 393 doentes (57%), enquanto serviços com política seletiva relatam 16% e 14%. A abordagem seletiva não é uma preferência estética. É a diferença entre operar metade dos doentes à toa e operar um sétimo.

A tomografia vê o vaso e perde o tubo

A única casuística brasileira que comparou a angiotomografia com o que o cirurgião encontrou ao abrir tem 30 doentes, é de Curitiba e é de 2015. Ela publica a comparação estrutura por estrutura com valores de p, e não publica a sensibilidade. Recalculando dos numeradores, o resultado é duro: nas vias aéreas, a tomografia acusou 2 lesões e a cirurgia encontrou 12 — sensibilidade de 16,7%, com p=0,002. No esôfago e na faringe, a tomografia acusou 3 e a cirurgia encontrou 9 — 33,3%, com p=0,013.

Nos vasos o desempenho foi outro, e aqui a leitura exige honestidade nos dois sentidos. Nas artérias vertebrais a tomografia acusou 4 lesões e a cirurgia confirmou 1, o que numa leitura ingênua daria valor preditivo positivo de 25%. Só que a artéria vertebral corre dentro do forame transverso e a cervicotomia não a expõe com facilidade: quando o padrão-ouro é cego para a estrutura, o falso-positivo do exame índice pode ser, na verdade, falso-negativo da referência. O artigo conclui que a tomografia é confiável para lesão vascular — e a tabela dele, lida linha a linha, mostra por que essa conclusão precisa da ressalva.

Há um artefato de construção que o leitor precisa nomear antes de usar qualquer desses números. O critério de entrada do estudo foi ter feito tomografia e ter ido para a cirurgia — um artefato de construção. Isso escolhe o grupo depois, pelo resultado do exame que se quer avaliar: quem teve tomografia tranquilizadora e ficou em observação está fora da amostra. Numa população assim, enriquecida por quem foi operado, a taxa de lesão aerodigestiva sobe — e sobe muito acima da faixa de 6% a 10% que a introdução do próprio artigo cita como referência da literatura. A casuística encontrou 40% e 30%.

O uso correto desse artigo, portanto, não é medir acurácia absoluta. É retirar dele a assimetria, que sobrevive ao viés: dentro do mesmo doente e do mesmo exame, a tomografia enxergou o vaso muito melhor do que enxergou a traqueia e o esôfago. Essa é a frase que a prova cobra, e é a que muda conduta — a imagem normal do trato aerodigestivo não dispensa endoscopia quando o sinal clínico existe.

Um número lateral do mesmo estudo que vale carregar: traqueostomia foi feita em 10 dos 30 operados (33,3%). Um terço dos doentes que vão à cervicotomia por trauma penetrante sai dela com a via aérea desviada. Não é uma manobra de exceção nesse cenário.

O exame que muda a conduta, e o que só confirma

O teste que separa quem entendeu o tema é este: quantos doentes vão à cirurgia por causa de um exame complementar, e não por causa de um sinal? A série de Curitiba responde com nomes e números. Foram 17 broncoscopias, 15 endoscopias digestivas altas e 9 estudos vasculares com eco-Doppler. Desses, 6 doentes tiveram a indicação cirúrgica dada pelo exame: 4 na zona I e 2 na zona III. Nenhum na zona II.

Os 6 se reconstroem em dois outros trechos do mesmo artigo, o que fecha a conta. Dos 26 ferimentos de zona I, 10 (38%) não tinham sinais nem sintomas, e desses 10 a cirurgia foi indicada em 4 pelos exames. Nas lesões de zona III sem sinais, o artigo escreve que em 28,57% os exames indicaram a terapêutica — e o percentual com duas casas denuncia sozinho o denominador, porque só a divisão por 7 produz essa dízima. Sete é o total de doentes com zona III registrada. Dois deles. Quatro mais dois: seis.

Sobre os 191 do estudo, esses 6 são 3,1%; sobre os 101 com platisma violado, 5,9%. É pouco, e o padrão é o que interessa: o exame complementar mudou a conduta apenas nas zonas de acesso difícil, e nunca na zona II. Na faixa central, em que a exploração é simples e o exame físico alcança bem, foi o exame clínico que decidiu todas as vezes.

A série do Hospital das Clínicas chega ao mesmo lugar por outro caminho, e com um número que fecha bonito. Naquele serviço, 54 doentes estáveis tinham lesão de zona II — que é exatamente 71 menos os 17 de zona II que foram à cirurgia obrigatória — e todos os 54 fizeram duplex. A angiografia foi feita em 16 doentes: 6 de zona I, 9 de zona III e 1 de zona II com duplex inconclusivo. O denominador dos diagnósticos vasculares é, portanto, 54 mais 16 menos a sobreposição de 1, ou seja 69 — e os 9 diagnósticos vasculares do estudo dão 13%, que é o percentual impresso.

Desses 9 achados vasculares, apenas 1 exigiu intervenção — uma embolização seletiva de artéria vertebral. O restante foi manejado expectantemente. Esse é o número que desarma a ideia de que achar lesão vascular é o mesmo que precisar operá-la, e é a razão de o próprio artigo registrar valor preditivo positivo baixo com valor preditivo negativo alto para os métodos vasculares: eles servem para excluir, não para indicar.

Há, por fim, uma distância entre o protocolo escrito e o protocolo executado, e ela é mensurável. O método do artigo diz que a angiografia era reservada às zonas I e III com achado clínico suspeito. Entre os estáveis, havia 45 doentes de zona I e 31 de zona III; foram angiografados 6 e 9, respectivamente — 19,7% das zonas I e III estáveis. A regra decorada de que zona I e zona III sempre levam angiografia é contrariada pela própria série que a prova cita como referência brasileira de manejo seletivo.

Complicação e morte: o denominador inverte a comparação

A série do Hospital das Clínicas publica que a taxa de complicação foi de 4,5% na abordagem seletiva e 12,9% na exploração obrigatória. Recalculando da própria tabela: no grupo seletivo houve 2 infecções de sítio cirúrgico, 1 hematoma, 2 deiscências e 1 lesão de recorrente, total 6, sobre 130 doentes — 4,6%. No grupo obrigatório, 2 infecções, 1 hematoma e 1 fístula faringoesofágica, total 4, sobre 31 — 12,9% exatos. A linha do grupo obrigatório recalcula na casa decimal, o que prova que os denominadores são esses.

E é aí que a comparação se desfaz. As cinco complicações listadas são todas complicações de operação: infecção de ferida, deiscência, hematoma de sítio, lesão de nervo recorrente, fístula de sutura. Nenhuma pode acontecer em quem não foi operado. No grupo seletivo, dos 130 doentes, só 34 foram à cirurgia. Recalculando sobre quem de fato operou: 6 de 34 (17,6%) no grupo seletivo contra 4 de 31 (12,9%) no obrigatório. A comparação inverte de direção.

Nada disso acusa o artigo, que é cuidadoso onde precisa ser: a própria tabela registra p=0,6 para a comparação de complicações, isto é, os autores não afirmam diferença. O deslize está na frase da discussão, que apresenta 4,5% contra 12,9% sem dizer que os denominadores são políticas inteiras e não operações. A comparação entre as duas políticas é 6 em 130 contra 4 em 31; a comparação entre as duas cirurgias é 6 em 34 contra 4 em 31. As duas são verdadeiras e respondem a perguntas diferentes.

A mortalidade seguiu o mesmo padrão: 3 óbitos entre os 31 do grupo obrigatório (9,7%) e nenhum entre os 130 do seletivo, com p=0,06. E o artigo explica a diferença por gravidade de admissão, escrevendo que o grupo obrigatório tinha valores mais altos de escore de gravidade da lesão e de escore de trauma revisado. A metade da frase que trata do escore de trauma revisado está invertida: os valores foram 7,62 no seletivo e 5,83 no obrigatório, e nessa escala o valor mais alto é o melhor. O grupo obrigatório tinha escore de gravidade mais alto e escore de trauma revisado mais baixo — as duas coisas apontando para maior gravidade, cada uma no seu sentido.

Esse é um erro de leitura que a prova reproduz, porque exige lembrar que os dois escores correm em direções opostas. O de gravidade da lesão soma pontos por lesão anatômica e sobe com a gravidade. O de trauma revisado é fisiológico, combina Glasgow, pressão sistólica e frequência respiratória, e desce com a gravidade. Uma alternativa que diga que o doente mais grave tem escore de trauma revisado mais alto está errada, por mais que a frase soe natural.

A régua brasileira não está em documento normativo

Vale saber onde essa régua mora, porque isso muda o que se pode cobrar do candidato. Os Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, na parte de suporte avançado de vida, têm 638 páginas no portal do Ministério da Saúde. A palavra pescoço aparece 79 vezes nesse documento — sempre como coluna cervical a imobilizar, ou como pescoço a manter em posição neutra durante a laringoscopia. As buscas por zonas, por platisma, por cervicotomia e por hematoma cervical devolvem zero ocorrência cada uma.

O documento oficial brasileiro resolve o que é dele: mantém a coluna alinhada, garante a via aérea e transporta. O ferimento cervical penetrante como entidade cirúrgica — a decisão de explorar, de investigar ou de observar — não é objeto de norma nacional. Ele vive em casuísticas de serviço, e é por isso que os números divergem tanto entre elas: cada uma reflete a política do hospital que a escreveu.

Isso tem uma consequência direta para quem estuda. Não adianta procurar a resposta canônica num protocolo do Ministério; a banca vai cobrar a doutrina corrente, que é a abordagem seletiva guiada por sinais, e vai usar as zonas como vocabulário anatômico. Quando o enunciado quiser cobrar um número brasileiro, ele virá de uma das séries publicadas, e vale reconhecê-las pelo tamanho: 191 casos em Curitiba, 161 no Hospital das Clínicas, 39 em São Paulo, 30 no Hospital do Trabalhador.

E vale reparar no que o capítulo vizinho de via aérea já entrega e onde ele para. Ele lista o hematoma cervical em expansão como preditor duro de intubação difícil e manda preparar o material de via aérea cirúrgica com o pescoço palpado e marcado enquanto ainda dá. Está certo, e é insuficiente: o mesmo hematoma que fecha a via aérea é a indicação de sala cirúrgica por sangramento, e responde por 7 das 31 explorações imediatas (22,6%) da maior série brasileira. Além disso, a membrana cricotireóidea fica na zona II — exatamente onde o hematoma está crescendo. Abrir a linha média de um hematoma cervical em expansão é entrar dentro dele. Preparar a via aérea cirúrgica é medida de segurança; a conduta do doente é o centro cirúrgico, e as duas decisões acontecem ao mesmo tempo.

04

As réguas, em ordem de uso

Três tabelas resolvem quase toda vinheta: a que separa quem vai à sala de quem vai à investigação, a que diz o que cada zona custa em exposição cirúrgica, e a que mostra por que dois números brasileiros de cervicotomia inútil podem estar ambos certos.

  1. 1Primeiro, a pergunta que não depende de zona nenhuma: o doente está instável, ou tem sangramento ativo, hematoma em expansão ou pulsátil, sopro, frêmito, borbulhamento de ar pela ferida, hematêmese ou hemoptise volumosa, ou déficit neurológico central? Qualquer um desses é sinal duro e leva à sala cirúrgica sem imagem.
  2. 2Segundo: o ferimento ultrapassou o platisma? Se não ultrapassou, é ferimento superficial — sutura simples e alta. A definição é anatômica e é a mesma nas quatro casuísticas brasileiras. Não instrumente a ferida para descobrir: a sondagem pode deslocar o coágulo que está contendo o sangramento.
  3. 3Terceiro, no doente estável com platisma violado: a investigação é dirigida pelos sinais brandos e pela topografia, não pela zona isoladamente. Disfagia, odinofagia, rouquidão, enfisema e hematoma estável apontam para o eixo aerodigestivo e pedem avaliação endoscópica; sopro, frêmito e pulso anormal apontam para o eixo vascular.
  4. 4Quarto: a angiotomografia é o exame de triagem contemporâneo porque cobre os três eixos numa aquisição só. Guarde a assimetria medida em série brasileira: ela enxerga bem o vaso e mal o tubo — sensibilidade de 16,7% para via aérea e 33,3% para esôfago e faringe contra o achado cirúrgico. Imagem normal do trato aerodigestivo com sinal clínico presente não dispensa endoscopia.
  5. 5Quinto: a zona entra agora, e entra para planejar. Zona I costuma exigir esternotomia para controle proximal; zona II é abordada por incisão vertical na borda anterior do esternocleidomastóideo; zona III pede extensão retroauricular ou tratamento endovascular, porque o problema ali é o controle distal.
  6. 6Sexto: doente estável, platisma violado e nenhum achado clínico fica em observação com reavaliações seriadas por no mínimo 24 horas. Na maior série brasileira de manejo seletivo, os 39 doentes sem achado nenhum foram observados e receberam alta sem intercorrência.

As três zonas: limite, conteúdo e o que custa expor

ZonaLimite inferiorLimite superiorO que mora aliAcesso
IClavículas e manúbrio (há texto que escreve base do pescoço)Cartilagem cricoideSubclávias, tronco braquiocefálico, carótidas proximais, ápices pulmonares, traqueia e esôfago proximais, ducto torácicoDifícil: costuma exigir esternotomia mediana para controle proximal
IICartilagem cricoideÂngulo da mandíbulaCarótida comum e bifurcação, jugulares, laringe, faringe, traqueia e esôfago cervicaisSimples: incisão vertical na borda anterior do esternocleidomastóideo
IIIÂngulo da mandíbulaBase do crânio (a série de Curitiba escreve mastoide)Carótidas interna e externa altas, artéria vertebral, tronco simpáticoDifícil: extensão retroauricular ou tratamento endovascular para controle distal

Sinal duro e sinal brando: o que cada lista dispara

GrupoAchadosCondutaPeso medido
DuroSangramento ativo ou profuso, hematoma em expansão ou pulsátil, sopro ou frêmito, instabilidade hemodinâmica, borbulhamento de ar pela ferida, hematêmese ou hemoptise volumosa, déficit neurológico centralSala cirúrgica, sem exame de imagem31 de 161 doentes (19%); sangramento e hematoma em expansão sozinhos respondem por 27 desses 31 (87%)
BrandoDisfagia, odinofagia, rouquidão, hematoma estável, crepitação ou enfisema subcutâneo, hemoptise pequena, hematêmese pequenaInvestigação dirigida ao eixo sugerido; endoscopia quando o eixo é aerodigestivoNos 130 doentes de abordagem seletiva, 34 (26%) acabaram explorados, e 100% dessas explorações foram por lesão aerodigestiva
NenhumExame normal, platisma violadoObservação com reavaliação seriada por no mínimo 24 horas39 de 130 doentes (30%) sem achado nenhum: todos observados, todos com alta sem intercorrência

Quatro casuísticas brasileiras lado a lado

EstudoQuem entranExploraçõesSem nada a corrigirÓbitos
Curitiba, Cajuru, 1996-2001Ferimento cervical isolado; 101 com platisma violado19151 (50% dos 101 penetrantes)24 de 51 (47%)14 mortes no atendimento inicial, excluídas da análise
Hospital das Clínicas, São Paulo, série de 5 anosPlatisma violado (161 de 181 admitidos)16165 (40%): 31 obrigatórias e 34 seletivasNenhuma exploração sem achado relatada nas duas tabelas cirúrgicas3 de 161 (1,9%), todos no grupo de exploração obrigatória
Campo Limpo, São Paulo, 2001-2009Ter sido submetido a cervicotomia exploradora3939 (critério de entrada)2 de 39 (5,1%) com inventário nada8 de 39 (20,5%)
Hospital do Trabalhador, Curitiba, 2009-2013Ter feito tomografia e ter ido à cirurgia3030 (critério de entrada)Não reportado1 de 30 (3,3%)

A cifra de 47% de cervicotomias não terapêuticas e a de 5,1% de cervicotomias brancas não medem a mesma coisa: a primeira conta operação sem nada a corrigir, a segunda conta operação sem nada encontrado. Aplicando a régua da primeira ao inventário da segunda, a taxa comparável fica entre 5,1% e 12,8%.

Mecanismo não é indicação. Ser ferimento por arma de fogo ou por arma branca não indica cervicotomia por si; quando aparece numa tabela de indicações, é política de exploração obrigatória sobrevivendo com outro nome.

Os dois escores de trauma correm em sentidos opostos: o escore de gravidade da lesão sobe com a gravidade, o de trauma revisado desce. Doente mais grave tem escore de gravidade mais alto e escore de trauma revisado mais baixo.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Onde termina a zona III

Até a mastoide

A zona III estende-se do ângulo da mandíbula até a mastoide. É a definição escrita na maior casuística brasileira do tema, que credita a divisão ao tratado de trauma de Mattox, Feliciano e Moore.

Von Bahten LC et al. Ferimentos cervicais: análise retrospectiva de 191 casos. Rev Col Bras Cir. 2003;30(5):374-381.

Até a base do crânio

A zona III compreende a área entre o ângulo da mandíbula e a base do crânio. É a definição das duas séries paulistas e a que a literatura internacional reproduz, atribuída ora a Monson e colaboradores, ora a Roon e Christensen.

Teixeira F et al. World J Emerg Surg. 2016;11:32; Cruvinel Neto J, Dedivitis RA. Braz J Otorhinolaryngol. 2011;77(1):121-124.

Na prova

O marco anatômico da alternativa é a assinatura da fonte que a banca usou. Se o enunciado escreve mastoide, está reproduzindo a série brasileira de 2003; se escreve base do crânio, está na corrente majoritária. Nenhuma das duas muda conduta — em ambas a zona III é a faixa alta, de controle vascular distal difícil. O que a prova cobra de verdade é reconhecer a faixa pelo limite inferior, o ângulo da mandíbula, que é idêntico nas duas.

A angiotomografia é exame de triagem ou de confirmação

Confirmação, depois do duplex

A sistematização diagnóstica proposta em 2003 põe o eco-Doppler de carótidas e vertebrais em todo ferimento das zonas I e III, com o eco-Doppler de zona II indicado pelo exame clínico, e reserva a angiotomografia para confirmar os casos suspeitos.

Von Bahten LC et al. Rev Col Bras Cir. 2003;30(5):374-381, seção de conclusões.

Triagem, antes de tudo

A angiotomografia oferece avaliação oportuna, segura e acurada dos principais aspectos das lesões cervicais e é o exame que reduz a necessidade de exploração cirúrgica; a série do Hospital das Clínicas registra que sua análise retrospectiva antecede a adoção da angiotomografia como prática de rotina no serviço.

Teixeira F et al. World J Emerg Surg. 2016;11:32, discussão; Nasr A et al. Rev Col Bras Cir. 2015;42(4):215-219, introdução.

Na prova

A data do enunciado costuma denunciar o lado. Vinheta contemporânea com doente estável e sem sinais duros espera angiotomografia como primeiro exame; enunciado que descreve o eco-Doppler como triagem vascular está reproduzindo a régua brasileira de 2003. O que sobrevive aos dois lados, e é o que vale marcar, é que nenhum dos dois manda operar o doente estável só porque o platisma foi violado.

Quanto vale o exame físico isolado no doente estável

Decide quase tudo

Na série de 130 doentes de abordagem seletiva, os exames complementares foram indicados por exame clínico criterioso, e os 39 doentes sem achado clínico algum foram apenas observados por no mínimo 24 horas e receberam alta sem evidência de comprometimento. Nenhuma lesão despercebida foi observada no seguimento.

Teixeira F et al. World J Emerg Surg. 2016;11:32, resultados.

Não alcança as zonas de acesso difícil

Na série de 191 casos, 6 doentes tiveram a indicação cirúrgica dada exclusivamente por exame complementar sem sinais clínicos — 4 em zona I e 2 em zona III —, o que sustenta a recomendação de investigação vascular sistemática nessas duas faixas.

Von Bahten LC et al. Rev Col Bras Cir. 2003;30(5):374-381, resultados e conclusões.

Na prova

As duas posições convivem sem se contradizer, e a prova costuma testar justamente a costura: nenhum dos 6 doentes operados por exame estava na zona II. A alternativa que generaliza o exame físico isolado para todas as zonas ignora as zonas I e III; a que manda investigar todo mundo ignora que na faixa central o exame clínico decidiu sozinho todas as vezes nas duas séries.

Se o mecanismo do trauma pode indicar exploração

Pode, e é praticado

Na tabela de indicações de cervicotomia de um serviço terciário paulista, ferimento por arma de fogo aparece como indicação em 6 casos e ferimento por arma branca em 5, ao lado de sinais clínicos — 11 dos 39 doentes, 28,2%, explorados pelo mecanismo.

Cruvinel Neto J, Dedivitis RA. Braz J Otorhinolaryngol. 2011;77(1):121-124, tabela de indicação e inventário.

Não pode, e o dado é contraintuitivo

Entre os ferimentos que violaram o platisma, foram operados 32 de 77 por arma de fogo (41,56%) contra 19 de 24 por outros instrumentos (79,17%), com p=0,0136 — proporcionalmente é a arma branca que penetra o platisma que mais indica cirurgia, e não o projétil.

Von Bahten LC et al. Rev Col Bras Cir. 2003;30(5):374-381, tabela de relação entre mecanismo e indicação.

Na prova

O distrator clássico veste a exploração obrigatória com a roupa do mecanismo: manda operar porque foi projétil, ou porque é transfixante. A régua contemporânea decide por sinal, e a prova gosta de premiar quem sabe que a associação entre projétil e cirurgia, medida por doente com platisma violado, corre no sentido contrário do senso comum.

06

Caso resolvido

Homem de 24 anos, trazido pelo resgate 40 minutos após ferimento por arma branca na região cervical anterolateral esquerda, 2 cm abaixo do ângulo da mandíbula. Consciente, orientado, voz normal, sem estridor. Pressão arterial 126 por 78 mmHg, frequência cardíaca 88 bpm, frequência respiratória 16 ipm, saturação 98% em ar ambiente. Ferimento de 2,5 cm que expõe fibras musculares no fundo; não há sangramento ativo, não há hematoma, não há sopro nem frêmito à ausculta cervical. Refere leve dor à deglutição. O plantonista pergunta se deve sondar o trajeto para saber a profundidade.
A primeira pergunta não é a zona
Antes de classificar o ferimento, percorra a lista dura: sangramento ativo, hematoma em expansão ou pulsátil, sopro, frêmito, borbulhamento de ar, hematêmese ou hemoptise volumosa, instabilidade, déficit neurológico central. Nenhum está presente. O doente não vai à sala agora, e nenhuma resposta que envolva cervicotomia imediata é defensável neste momento.
A sonda está proibida
A resposta ao plantonista é não. Instrumentar o trajeto pode deslocar um coágulo que esteja contendo sangramento e converter este doente estável num doente com hemorragia ativa fora do centro cirúrgico. A profundidade se afere pelo exame do cirurgião, à beira do leito, sem sondar. O que se vê aqui — fibras musculares expostas no fundo — já responde a pergunta: o platisma foi violado.
A zona, agora, e para quê
Abaixo do ângulo da mandíbula e acima da cricoide é zona II, a faixa de exposição cirúrgica mais simples. Isso não muda a conduta imediata: no doente estável e sem sinais duros, a investigação é dirigida pelos sinais brandos, em qualquer zona. A zona entra no planejamento se a cirurgia vier a ser necessária — incisão vertical na borda anterior do esternocleidomastóideo.
O sinal brando escolhe o eixo
A dor à deglutição é sinal brando e aponta para o eixo aerodigestivo. É esse eixo que dirige a investigação. Angiotomografia cervical é o exame de triagem contemporâneo, porque cobre vaso, via aérea e trato digestivo numa aquisição só — mas com a ressalva medida: contra o achado cirúrgico, sua sensibilidade foi de 16,7% para via aérea e de 33,3% para esôfago e faringe. Imagem normal aqui não fecha o caso.
O que faz a odinofagia valer o esforço
Com odinofagia persistente e platisma violado, a avaliação endoscópica do eixo aerodigestivo é o passo que muda conduta. Na série do Hospital das Clínicas, das 34 explorações do grupo seletivo, 100% foram por lesão aerodigestiva, e a distribuição dos achados foi laringotraqueal em 21 (62%), faringoesofágica em 10 (29%) e combinada em 3 (9%).
Se tudo vier normal
Doente estável, platisma violado, investigação negativa: observação com reavaliação seriada por no mínimo 24 horas. Não é alta. Na série de 130 doentes seletivos, os 39 sem achado nenhum foram observados por pelo menos 24 horas e receberam alta sem intercorrência, e nenhuma lesão despercebida apareceu no seguimento.
07

Agora feche você

Mulher de 31 anos, ferimento por projétil de arma de fogo na base do pescoço à direita, orifício de entrada 1 cm acima da clavícula, sem orifício de saída. À admissão: pressão arterial 96 por 58 mmHg, frequência cardíaca 118 bpm, frequência respiratória 24 ipm, saturação 95%. Fala frases curtas, sem estridor. Há um abaulamento cervical supraclavicular direito que o residente mede com a régua e, oito minutos depois, mede de novo: cresceu. Não há sangramento externo no momento. O residente pede angiotomografia e chama o transporte para a tomografia.
Classifique o achado antes de qualquer exame
O abaulamento que cresce entre duas medidas é hematoma em expansão. Diga a que lista ele pertence e o que essa lista dispara.
Julgue a decisão do residente
Diga se a angiotomografia está indicada agora nesta doente e escreva o motivo em uma frase. Depois nomeie o risco específico de transportá-la para o tomógrafo.
Nomeie a zona e o que ela custa
Localize o ferimento pela zona e diga qual é a consequência cirúrgica dessa topografia — não em termos de gravidade, e sim de exposição.
Antecipe a via aérea
Explique por que a cricotireoidostomia é uma escolha ruim nesta doente especificamente, e o que isso muda no plano de via aérea.
Diga o número que sustenta a conduta
Na maior série brasileira de manejo seletivo, quanto pesaram o sangramento e o hematoma em expansão entre as indicações de cirurgia imediata?
08

Onde a banca derruba

  1. 1Decidir a conduta pela zona A alternativa oferece exploração cirúrgica obrigatória para zona II e investigação para zonas I e III, e parece organizada. É a doutrina que as casuísticas brasileiras abandonaram justamente por produzir até 47% de cervicotomias sem nada a corrigir. No doente estável e sem sinais duros, a conduta é a mesma nas três faixas: investigação dirigida. A zona reaparece depois, para escolher a incisão.
  2. 2Tratar a violação do platisma como indicação de sala Violar o platisma define ferimento penetrante, e é o que decide quem entra na investigação. Na série de 191 casos, dos 101 que violaram o platisma, 41 foram tratados conservadoramente e 9 nem chegaram a ser internados. A alternativa que manda explorar apenas pela violação do platisma reproduz a política antiga.
  3. 3Sondar ou explorar digitalmente a ferida no leito É a alternativa que soa prática e mata. Instrumentar o trajeto pode deslocar o coágulo que contém o sangramento e converter um doente estável num doente em hemorragia ativa, fora do centro cirúrgico. A profundidade se estima pelo exame do cirurgião, sem sonda.
  4. 4Confiar na tomografia normal do trato aerodigestivo Na única série brasileira que comparou a angiotomografia com o achado cirúrgico, a imagem acusou 2 das 12 lesões de via aérea encontradas na mesa (sensibilidade de 16,7%) e 3 das 9 lesões de esôfago e faringe (33,3%). Diante de disfagia, odinofagia, rouquidão ou enfisema, imagem normal não substitui endoscopia.
  5. 5Ler o escore de trauma revisado como se subisse com a gravidade Ele desce. Na série do Hospital das Clínicas, o grupo mais grave teve escore de gravidade da lesão de 26 contra 17 e escore de trauma revisado de 5,83 contra 7,62. O escore anatômico sobe com a gravidade; o fisiológico, que combina Glasgow, pressão sistólica e frequência respiratória, cai.
  6. 6Achar que taxa de complicação compara cirurgias Quando um estudo publica 4,5% de complicações no grupo seletivo e 12,9% no obrigatório, os denominadores são as políticas inteiras — 130 e 31 doentes. Como as complicações listadas só ocorrem em operados, e no grupo seletivo apenas 34 foram operados, a taxa por cirurgia é 6 em 34 (17,6%) contra 4 em 31 (12,9%). A comparação inverte, e o próprio artigo registra p=0,6.
  7. 7Usar a mortalidade por zona da série de 39 casos A zona III daquele estudo tem um doente, que morreu, o que produz 100% de mortalidade e um valor de p que o próprio artigo escreve como não aplicável. Zona I com 33,3% e zona II com 13,8% são comparáveis entre si; a zona III, não. Alternativa que afirme maior mortalidade em zona III apoiada em série brasileira está apoiada num caso.
  8. 8Tomar o corte de idade da conclusão como resultado testado A conclusão de que doentes com menos de 26 anos têm melhor prognóstico não corresponde a nenhum teste de limiar do artigo. O corte etário efetivamente testado foi 18 anos, e deu p=0,653, não significativo. O resultado significativo (p=0,0308) veio da comparação das idades como variável contínua, e 26 é a mediana de idade dos que receberam alta — uma estatística descritiva promovida a regra de decisão.
  9. 9Comparar taxa de cervicotomia branca com taxa de cervicotomia não terapêutica São definições diferentes. Não terapêutica conta a operação sem nada a corrigir; branca conta a operação sem nada encontrado, e o estudo que a usa exclui dela lesão de músculo, de tireoide e de glândula. Os 47% e os 5,1% brasileiros são ambos corretos e não se comparam sem converter a régua.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

A conduta atual para trauma cervical penetrante ESTÁVEL, mesmo em zona II, migrou da exploração cirúrgica obrigatória ("mandatory exploration") para o manejo seletivo guiado por sinais e por angiotomografia (angio-TC) — o paciente está hemodinamicamente estável e SEM sinais duros (hard signs: sangramento ativo/pulsátil, hematoma expansivo/pulsátil, sopro/frêmito, choque não responsivo, enfisema maciço/borbulhamento aéreo, déficit neurológico central, hemoptise/hematêmese vultosas). A angio-TC é o exame de escolha inicial: triangula vias aérea, digestiva e vascular e direciona a investigação adicional seletiva. A exploração cervical cirúrgica imediata está errada: a exploração mandatória de zona II caiu em desuso e gera exploração negativa desnecessária no paciente estável. Arteriografia com esofagoscopia e broncoscopia de rotina em TODOS os casos é sobreinvestigação; hoje essas provas são seletivas conforme a angio-TC/sinais. A alta hospitalar também está errada: a violação de platisma não pode ser afastada com segurança à inspeção, e o paciente exige observação/imagem. E a intubação profilática com cervicotomia exploradora bilateral não tem indicação — não há critério de via aérea definitiva (SatO2 e via aérea preservadas) nem de cervicotomia bilateral às cegas.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

Sorteando as questões…

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Plano de revisão

em 7 dias

Escreva de memória as duas listas: a dos sinais duros que mandam à sala sem imagem e a dos sinais brandos que mandam à investigação. Em seguida, para cada uma das três zonas, escreva o limite inferior, o limite superior e a via de acesso cirúrgico. Se a via de acesso não vier junto, você ainda está decorando a zona como regra de conduta.

em 30 dias

Recalcule, sem olhar: se um estudo tem 130 doentes em abordagem seletiva, 34 deles operados e 6 complicações operatórias, qual é a taxa de complicação por política e qual é por cirurgia? Depois responda em uma frase por que apenas 6 doentes de uma série de 191 foram à cirurgia por causa de um exame complementar, e por que nenhum deles era de zona II.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Numa estação de trauma cervical, o avaliador cronometra duas coisas: em quanto tempo você percorre a lista de sinais duros e se você resiste a pedir imagem antes de terminá-la. Verbalize a lista enquanto examina — sangramento, hematoma em expansão, sopro, frêmito, borbulhamento, voz, déficit —, diga em voz alta que não vai sondar a ferida e por quê, e só então nomeie a zona, sempre amarrando a zona ao acesso cirúrgico e não à conduta. Se a estação trouxer hematoma que cresce, a frase que pontua é curta: centro cirúrgico agora, sem tomografia. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Trauma de pescoço: a zona não decide mais a conduta, decide o acesso — Preparatório para provas | OsceLabs