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Cirurgia GeralTrauma

Trauma de pelve: o sangramento que o FAST não vê

Trauma de pelve e controle de hemorragia pélvica

É a única fonte de hemorragia do politraumatizado em que o FAST é negativo, a laparotomia abre o compartimento errado e o exame físico que confirmaria a fratura é justamente o que o protocolo proíbe. Sobram o mecanismo, a radiografia, um lençol e uma sequência cirúrgica.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher, 41 anos, atropelada, admitida com fratura pélvica instável. Recebeu cinta pélvica na sala de emergência e reposição volêmica. Apresenta resposta apenas transitória: após bolus inicial, a PA sobe para 100/60 mmHg e volta a cair para 78/44 mmHg, com FC 130 bpm. FAST permanece negativo e não há outra fonte evidente de sangramento (tórax e fêmures sem alterações). Diante da estabilidade momentânea, realiza-se tomografia, que evidencia extravasamento ativo de contraste (blush) na região da fossa ilíaca direita, junto a ramos da artéria ilíaca interna. Qual é a conduta mais adequada neste momento?

02

Como esse tema cai

Os capítulos anteriores desta apostila ensinaram a procurar sangue em cinco lugares, a medir quanto já saiu e a decidir a porta pela hemodinâmica. A pelve é o lugar onde esse método falha inteiro, e falha de três maneiras ao mesmo tempo: o FAST não enxerga o retroperitônio, de modo que o exame que triaria o abdome instável volta negativo; a laparotomia abre um compartimento que não é o que está sangrando; e o exame físico que confirmaria a fratura é justamente o que o protocolo federal proíbe fazer diante de deformidade visível. Este capítulo é sobre o que sobra — o mecanismo, uma radiografia, uma cinta e uma sequência cirúrgica com ordem discutida.

A régua brasileira aqui existe e é federal, o que é incomum no trauma. O Ministério da Saúde mantém um protocolo dedicado ao trauma de pelve nos Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, com o mesmo conteúdo na versão avançada (AT22) e na básica (BT15). Não é um protocolo clínico e terapêutico no sentido do PCDT — trauma de pelve não tem PCDT, e a régua intra-hospitalar vem da literatura do Colégio Brasileiro de Cirurgiões e das diretrizes da World Society of Emergency Surgery. Mas o AT22 decide sozinho a parte que mais cai em questão de conduta inicial, e traz uma proibição explícita que vale ponto.

A prova cobra este tema em quatro perguntas que se repetem: quando suspeitar de fratura de pelve pelo mecanismo, o que fazer com as mãos nos primeiros minutos, o que a sonda vesical tem a ver com isso, e em que ordem entram tamponamento, fixação externa e arteriografia. As três primeiras têm resposta fechada. A quarta é onde as fontes divergem, e o capítulo marca a divergência em vez de fingir que existe uma ordem única.

Um aviso de calibração, porque muda o peso da resposta: a fratura de pelve não é um problema ortopédico que sangra, é um marcador de energia dissipada. Na casuística da Santa Casa de São Paulo, apenas 2,1% das vítimas de trauma fechado tinham fratura de pelve, mas nelas a letalidade foi de 27,9% contra 1,8% no restante, com choque persistente em 30,2% contra 0,7% e coagulopatia em 23,3% contra 0,8%. O diagnóstico da fratura é, antes de tudo, uma ordem para procurar o resto.

03

O que muda decisão

A pelve sangra por dentro, e quase nunca por artéria

O anel pélvico é um compartimento ósseo fechado que aloja plexos venosos volumosos — o pré-sacral, atrás, e o pré-vesical, na frente —, superfícies largas de osso esponjoso e os ramos da artéria ilíaca interna. Quando o anel quebra, três coisas acontecem juntas: as veias se rompem, as superfícies de fratura sangram, e o volume que o retroperitônio consegue acomodar aumenta. É por isso que o capítulo de choque hemorrágico desta apostila lista a fratura de pelve como a fonte cuja perda vai de 500 mL até a volemia inteira: não há um teto anatômico depois que o anel se abre.

A proporção entre sangramento venoso e arterial é o número que organiza todo o tratamento, e vale conhecê-lo pela direção, não por um algarismo. A diretriz da World Society of Emergency Surgery publica mais de uma estimativa no mesmo documento: em um trecho, 80% de origem venosa e 20% arterial; em outro, cerca de 85% originados de osso, partes moles ou estruturas venosas; em um terceiro, sangramento venoso em 80% a 90% dos casos de instabilidade hemodinâmica. As três apontam para o mesmo lugar, e é esse lugar que interessa: a minoria do sangramento pélvico é arterial.

A consequência prática é dura e cai muito em prova. A angioembolização, que é o procedimento mais elegante e o que os enunciados adoram sugerir, só resolve a fatia arterial. O que fecha a fatia maior é compressão mecânica — reduzir o volume do anel e tamponar diretamente o espaço pré-peritoneal. Quem responde 'angiografia' para todo instável com fratura de pelve está tratando a minoria e mandando o paciente para a sala de radiologia enquanto ele sangra por veia e por osso.

Vale desfazer um atalho ao mesmo tempo. Não existe associação definitiva entre o padrão da fratura e a quantidade de sangramento — alguns padrões, como a compressão anteroposterior tipo III, aparecem associados a maior necessidade transfusional em parte dos estudos, mas o padrão não autoriza tranquilizar ninguém. Na série brasileira do HC-FMUSP, entre 51 pacientes com fratura pélvica e choque levados ao tamponamento, havia paciente com fratura por compressão lateral tipo I, que é o padrão dito estável.

Vista anterior do anel pélvico com os plexos venosos pré-sacral e pré-vesical desenhados como redes amplas, os ramos arteriais ilíacos internos como vasos bem menores, e uma área difusa de sangue atrás do anel, sem limite definido.
O que sangra é o que quase não se vê. Os plexos venosos e as superfícies de osso esponjoso respondem pela maior parte da hemorragia pélvica; os ramos arteriais, pela menor. O retroperitônio não impõe teto de volume depois que o anel se abre.

O mecanismo classifica: Young-Burgess e Tile

As duas classificações que as bancas reproduzem partem da direção da força. A de Young e Burgess separa quatro padrões: compressão anteroposterior, compressão lateral, cisalhamento vertical e mecanismo combinado. A de Tile separa por instabilidade: o tipo A é estável na rotação e na vertical; o tipo B é instável na rotação e estável na vertical; o tipo C é instável nas duas. A própria diretriz da WSES observa que a de Young e Burgess é mais útil para o especialista, enquanto a de Tile é mais fácil de lembrar e aplicar — e é a de Tile que costuma aparecer quando o enunciado quer só saber se a pelve é estável.

A compressão anteroposterior é a fratura em livro aberto: a força vem de frente, o anel se abre pela sínfise púbica e a hemipelve roda para fora. É o padrão que alarga a sínfise na radiografia, e o corte que decide fixação anterior definitiva com placa é a diástase acima de 2,5 centímetros, nos tipos II e III. A compressão lateral é a mais comum: a força vem do lado, o anel se fecha em vez de abrir, e a rotação é para dentro — o tipo II carrega a chamada fratura em crescente e o tipo III a pelve varrida para um lado. O cisalhamento vertical vem de queda de altura ou de força axial pelo membro, e desloca uma hemipelve para cima.

A tradução para a conduta mecânica é direta e cai em prova. Padrões rotacionalmente instáveis — compressão anteroposterior tipos II e III, compressão lateral tipos II e III — são estabilizados por fixação externa anterior, com pinos na crista ilíaca ou por via supra-acetabular. O cisalhamento vertical com disjunção sacroilíaca é o território do C-clamp posterior. E o C-clamp tem contraindicação que vale decorar porque é exatamente o distrator: fratura sacral cominutiva ou transforaminal, fratura da asa ilíaca e padrões de compressão lateral.

Uma advertência sobre o vocabulário do enunciado. Livro aberto e open book são a mesma coisa e apontam para compressão anteroposterior; pelve varrida e windswept apontam para compressão lateral tipo III. Quando a questão descreve o mecanismo em vez de nomear o padrão, é o vetor da força que responde: impacto frontal abre, impacto lateral fecha, queda de altura desloca para cima.

Quatro anéis pélvicos lado a lado mostrando, na ordem: sínfise escancarada com hemipelves rodadas para fora sob setas vindas de frente; anel comprimido e rodado para dentro sob setas laterais; uma hemipelve deslocada para cima sob seta axial; e deformidade mista sob setas de duas direções.
A força escreve o padrão. De frente, o anel abre pela sínfise; de lado, ele fecha; pelo eixo do membro, uma hemipelve sobe. Quando o enunciado descreve o vetor em vez de nomear a classificação, é por aqui que se responde.

A hemodinâmica reclassifica tudo: a classificação da WSES

A classificação da World Society of Emergency Surgery é a que resolve o problema pedagógico das outras duas, porque acrescenta o eixo que decide a conduta imediata. Ela junta o padrão anatômico de Young e Burgess ao estado hemodinâmico e produz quatro graus. O grau I é a lesão menor: compressão anteroposterior tipo I ou compressão lateral tipo I, estável nos dois eixos, tratamento não operatório. Os graus II e III são as moderadas, todas hemodinamicamente estáveis e mecanicamente instáveis: o grau II reúne compressão anteroposterior tipos II e III e compressão lateral tipos II e III; o grau III reúne cisalhamento vertical e mecanismo combinado.

O grau IV é o que importa na sala de emergência, e a definição é a que a prova cobra: qualquer padrão de Young e Burgess, desde que o paciente esteja hemodinamicamente instável. A palavra qualquer é literal. No grau IV o mecanismo deixa de organizar a conduta — a fratura pode ser a mais benigna da classificação anatômica, e o doente continua no grau mais grave. É o mesmo raciocínio que o capítulo de trauma abdominal fechado aplica ao grau da lesão de órgão sólido: a hemodinâmica é o primeiro eixo, o achado anatômico é o segundo.

A definição operacional de instabilidade usada pela diretriz é ampla de propósito e vale conhecer inteira, porque o enunciado costuma entregar um dos critérios em vez da hipotensão franca: pressão sistólica de admissão abaixo de 90 mmHg; ou acima de 90 mmHg mas dependendo de bolus, transfusão ou vasopressor; ou déficit de base de admissão maior que 6 mmol/L; ou índice de choque acima de 1; ou necessidade transfusional de pelo menos 4 a 6 concentrados de hemácias nas primeiras 24 horas. Estável, no mesmo documento, é quem mantém ou melhora a pressão depois do volume, com sistólica acima de 90 mmHg e frequência abaixo de 100 bpm.

O tratamento de primeira linha que a classificação associa a cada grau também é cobrado. O grau I vai para conduta não operatória. Os graus II e III recebem cinta pélvica já no pré-hospitalar, tomografia, e angioembolização se houver extravasamento de contraste, com fixação externa anterior no grau II e C-clamp no grau III. O grau IV recebe cinta no pré-hospitalar e vai para tamponamento pré-peritoneal com estabilização mecânica, com REBOA e angioembolização como recursos seguintes — e, note, sem tomografia, porque o instável não passa pelo tomógrafo.

O exame que o protocolo brasileiro manda não fazer

Aqui está a pegadinha nacional deste capítulo, e ela vem de dois trechos do mesmo documento federal. Na avaliação secundária, o protocolo AT2 do SAMU 192 instrui, para o segmento pelve, observar sangramentos, contusões ou lesões abertas e realizar a palpação das cristas ilíacas na busca de dor e instabilidade, realizando compressão látero-medial e ântero-posterior. É a manobra clássica, e ela está lá, escrita, num protocolo do Ministério da Saúde.

O protocolo AT22, que é o específico de trauma de pelve, traz a exceção em linguagem que não deixa margem: diante da deformidade visível da pelve, não realizar o exame da estabilidade do anel pélvico ou qualquer outra manipulação desnecessária, apenas realizar a imobilização. A mesma frase se repete, palavra por palavra, no protocolo BT15 do suporte básico. A razão é mecânica: comprimir um anel já rompido pode deslocar as margens ósseas e aumentar o sangramento — a diretriz da WSES faz a mesma ressalva, recomendando cautela pelo mesmo motivo.

A regra prática que concilia os dois trechos, e que é a resposta esperada, tem três partes. Primeira: a manobra pertence à avaliação secundária, não à primária. Segunda: ela não se faz quando já existe deformidade visível, porque nesse caso o diagnóstico já está feito e a manobra só pode piorar. Terceira: ela nunca se repete — cada compressão adicional desfaz o coágulo que a anterior deixou formar, e o exame seriado da estabilidade pélvica não existe.

O AT22 acrescenta duas instruções que costumam virar alternativa. A passagem para a prancha longa deve usar, de preferência, a técnica de elevação à cavaleiro, que evita a rolagem lateral do doente. E a busca ativa de lesões associadas é nominal: coluna, bexiga, órgãos genitais e grandes vasos. Não é uma recomendação genérica de procurar outras lesões, é uma lista.

As lesões que vêm junto, e a sonda que não se passa

A fratura de pelve quase nunca vem sozinha. Na série do HC-FMUSP com pacientes em choque, 96,07% tinham lesões associadas. Para as lesões de alto grau, a diretriz da WSES registra lesão de uretra em 1,6% a 25% dos casos e envolvimento retal em 18% a 64%, além de lesão de bexiga, vagina, nervos e esfíncteres — faixas largas, que reúnem populações diferentes, e que é assim mesmo que devem ser lembradas: como ordem de grandeza que obriga a procurar, não como número de prova.

A lesão uretral é a que produz o erro de conduta mais cobrado, porque o reflexo de passar sonda vesical é automático. Cerca de 23% das lesões uretrais passam despercebidas na avaliação inicial. Os sinais que obrigam a parar antes da sonda são o sangue no meato uretral, o hematoma perineal ou escrotal, a próstata elevada ou não palpável ao toque retal, a incapacidade de urinar e a hematúria macroscópica. Diante de qualquer um deles — ou de disjunção evidente na radiografia — o exame que vem antes da sonda é a uretrografia retrógrada. Passar sonda por cima de uma lesão uretral pode transformar uma laceração parcial em secção completa, e deixa sequela crônica de estenose, incontinência e disfunção erétil.

Isso fecha uma dívida deixada pelo capítulo de choque hemorrágico desta apostila, que adverte que o débito urinário só vira parâmetro utilizável depois da sonda vesical. A frase completa é esta: depois da sonda, e a sonda depois de excluída lesão uretral. No paciente com fratura de pelve, o débito urinário é o último dos parâmetros a ficar disponível, e é por isso que a decisão de transfundir não pode esperar por ele.

O toque retal é obrigatório pelo mesmo motivo, e com recomendação formal: diante de suspeita de lesão retal, o exame digital é recomendado, e diante de toque positivo, a retossigmoidoscopia rígida. O capítulo de corpo estranho retal e trauma anorretal, na apostila de coloproctologia, trata a associação pelo outro lado — lá a fratura de pelve por compressão anteroposterior, com alargamento da sínfise, é um dos gatilhos que obrigam a procurar lesão retal. É a mesma dupla vista de duas portas.

Imagem: o que cada exame responde e o que não responde

A radiografia de pelve é o exame da sala, e serve para uma coisa: identificar a lesão de anel que ameaça a vida em quem está instável. Os números da diretriz explicam o uso: sensibilidade de 50% a 68% e especificidade de 98%. Ou seja, radiografia positiva praticamente fecha o diagnóstico, e radiografia negativa não afasta quase nada — cerca de um terço a metade das lesões escapa. A regra que acompanha é temporal: a radiografia é importante, mas sua execução não pode atrasar manobras que salvam a vida. E ela pode ser dispensada no doente hemodinamicamente normal, sem instabilidade pélvica, sem luxação de quadril e com exame físico negativo, que já vai fazer tomografia.

O FAST responde uma pergunta e só uma: há líquido livre na cavidade peritoneal. O retroperitônio, que é onde o sangue da fratura pélvica se acumula, está fora do campo do exame. A formulação da diretriz é precisa: o E-FAST não é sensível o bastante para excluir sangramento pélvico, mas pode ser considerado adequado para excluir a necessidade de laparotomia no instável. É esta a leitura correta — o FAST não serve para dizer se a pelve sangra, serve para dizer se o abdome precisa ser aberto primeiro.

O FAST também erra para o outro lado, e o dado brasileiro é útil aqui. Na série do HC-FMUSP, entre os 47 pacientes submetidos ao FAST, seis (12,76%) foram falso-positivos: nenhum sangue intraperitoneal foi encontrado na laparotomia. Num doente com fratura de pelve e choque, um FAST positivo duvidoso pode mandar a equipe abrir o abdome que não sangra enquanto o retroperitônio continua enchendo.

A tomografia com contraste é o exame que gradua e que localiza o extravasamento arterial, com sensibilidade e especificidade próximas de 100% para fratura óssea — e é o exame que o instável não faz. Vale repetir a construção que o capítulo de trauma abdominal fechado já usa: o tomógrafo é para quem pode esperar. O corolário específico deste capítulo é o achado que mais reprova: instável, com fratura de pelve e FAST negativo, o sangue está no retroperitônio. A conduta é cinta, sangue e sala de cirurgia, não tomografia.

A cinta pélvica: onde, com o quê e por quanto tempo

A aplicação de compressão pélvica externa não invasiva é recomendação de grau 1A, o mais forte da diretriz, como estratégia precoce para estabilizar o anel e diminuir a hemorragia ainda na fase de reanimação. O protocolo AT4 do SAMU lista a imobilização de pelve entre as medidas de controle de sangramento, ao lado da compressão direta e do torniquete — ou seja, no Brasil ela é tratada como hemostático, e não como conforto ortopédico.

O ponto de aplicação é o detalhe que separa quem estudou de quem chutou: a cinta vai no nível dos grandes trocânteres e da sínfise púbica, não na crista ilíaca. Colocada alto, sobre as cristas, ela não reduz o volume do anel e pode até abri-lo. Colocada no nível certo, ela aduz os membros e fecha o anel, reduzindo o espaço que o hematoma pode ocupar.

O material importa menos do que a prova sugere. Cintas comerciais são superiores ao lençol enrolado — a diretriz gradua essa superioridade em 1C —, mas o lençol é eficaz e seguro quando não há dispositivo disponível, e a realidade brasileira mostra que é ele que se usa: na série do HC-FMUSP, 75,5% dos pacientes chegaram com imobilização pélvica feita com lençol. Numa questão nacional, improvisar a cinta com um lençol é conduta correta, nunca conduta de exceção envergonhada.

O que a cinta tem de armadilha é o tempo. Pressão acima de 9,3 kPa mantida por mais de 2 a 3 horas aumenta necrose de pele e lesão por pressão, e a recomendação é não manter o dispositivo por mais de 24 a 48 horas, retirando-o tão logo seja fisiologicamente justificável e substituindo-o por fixação externa. A retirada precoce da prancha rígida, com o paciente ainda encintado, reduz de forma significativa a lesão de pele — recomendação 1A. Há ainda duas populações de cautela explícita: gestantes e idosos.

No idoso a advertência é dupla. A cinta pede cuidado pela fragilidade da pele, mas a fratura pede mais atenção, não menos: a diretriz observa que no idoso mesmo um trauma menor pode produzir fratura pélvica maior ou sangramento importante, pela fragilidade óssea e pela perda de eficiência dos mecanismos de vasoespasmo. O mecanismo banal não protege o idoso.

Duas pelves lado a lado com a mesma cinta: à esquerda a cinta está alta, sobre as cristas ilíacas, e a sínfise segue aberta; à direita a cinta está no nível dos grandes trocânteres e da sínfise, as coxas aduzidas e o anel fechado.
Alto não fecha. A cinta sobre as cristas ilíacas não reduz o volume do anel; no nível dos grandes trocânteres e da sínfise púbica, ela aduz os membros e fecha a pelve. O material pode ser um lençol — a altura, não.

Quando o abdome e a pelve competem pela mesma sala

O doente com fratura de pelve e choque raramente tem uma fonte só. Na série do HC-FMUSP, 76,47% tinham pelo menos uma lesão extrapélvica capaz de justificar o choque, e a diretriz da WSES registra lesão toracoabdominal associada em até 80% das lesões de alto grau. A pergunta operacional, portanto, quase nunca é se a pelve sangra, e sim se ela é a fonte que precisa ser controlada primeiro.

O algoritmo que resolve isso usa o FAST no papel restrito que ele consegue cumprir. Instável com FAST positivo: o abdome vem primeiro, e a laparotomia é o destino. Instável com FAST negativo e fratura de anel pélvico: a fonte é retroperitoneal, e o destino é o controle pélvico. É a única leitura em que o FAST rende decisão sem prometer o que não pode entregar.

O preço de errar essa triagem aparece nos dados brasileiros. Dos 51 pacientes do HC-FMUSP, 31 (60,78%) foram submetidos a laparotomia exploradora antes do tamponamento pélvico, e a laparotomia não terapêutica foi comum nos dois grupos — sete dos 13 entre sobreviventes e oito dos 18 entre não sobreviventes. Abrir o abdome de quem sangra pela pelve não é neutro: gasta tempo, esfria o doente e piora a coagulopatia, que naquela série chegou a 70,58%.

Quando as duas cirurgias são mesmo necessárias, existe disciplina de incisão, e ela cai em prova. A incisão da laparotomia deve ser mantida separada da incisão do tamponamento extraperitoneal, e o peritônio pélvico precisa ficar intacto. Abrir o peritônio pélvico desfaz o tamponamento que o próprio hematoma vinha fazendo e transforma um sangramento contido em sangramento livre na cavidade.

Tamponamento, fixação externa e arteriografia: a ordem em disputa

O tamponamento pélvico pré-peritoneal é o procedimento que a literatura brasileira mais defende, e a técnica é simples de descrever: incisão mediana de 6 a 8 centímetros a partir da sínfise púbica, acesso direto ao espaço pré-peritoneal, e compressas cirúrgicas colocadas junto ao anel pélvico, de cada lado da bexiga — a descrição original de Denver fala em três compressas de laparotomia por lado. Na série do HC-FMUSP a mediana foi de 8 compressas. É recomendação de grau 1B como medida cirúrgica eficaz de controle precoce da hemorragia no hipotenso, com a ressalva de grau 2A de que deve ser feita em conjunto com estabilização pélvica, e não isolada.

A fixação externa é o par obrigatório do tamponamento, e a diretriz é explícita: ela fornece estabilidade temporária rígida ao anel (grau 1A) e é adjuvante necessária do tamponamento pré-peritoneal (grau 2A). Na prática brasileira, ela vem logo depois: no HC-FMUSP a mediana entre o tamponamento e a fixação externa foi de 20 minutos, e a fixação foi realizada na maioria dos pacientes dos dois grupos. Na coorte da Santa Casa, 9 dos 43 pacientes com fratura de pelve (20,9%) receberam fixação externa da bacia, contra nenhum dos quase dois mil traumatizados sem fratura.

A angioembolização é recomendação de grau 1A — mas para a fonte arterial, e essa qualificação é a resposta de metade das questões sobre o tema. Extravasamento de contraste arterial na tomografia é o sinal mais preditivo de necessidade do procedimento (grau 1C). Onde a ordem se decide na vida real é no acesso: no HC-FMUSP nenhum paciente foi angiografado antes do tamponamento; depois do tamponamento e da fixação externa, 41 dos 51 (80,39%) tinham indicação de arteriografia, e o exame foi realizado em 20 deles (48,78%). Entre os 21 que tinham indicação e não fizeram, 15 morreram.

É por isso que a recomendação brasileira mais útil não é uma ordem fixa, e sim uma estrutura. A revisão do Colégio Brasileiro de Cirurgiões recomenda que toda instituição que recebe fratura de pelve tenha um protocolo multiprofissional contendo: métodos de identificação rápida da origem do sangramento; imobilização pélvica precoce na sala, com lençol ou cinta; gatilhos definidos de transfusão, incluindo ácido tranexâmico; e um algoritmo de controle da hemorragia retroperitoneal envolvendo fixação externa precoce, angioembolização e tamponamento pré-peritoneal — com a frase que resolve a discussão: a ordem dos procedimentos e suas indicações devem ser decididas com base nos recursos locais.

O ácido tranexâmico entra por esse mesmo protocolo, e o capítulo de choque hemorrágico desta apostila já tratou a dose e a janela. O que a série brasileira acrescenta é a aderência: 70,58% dos pacientes com fratura pélvica e choque receberam 1 g dentro das primeiras 3 horas. Não é um item opcional do pacote pélvico.

O que a mortalidade quer dizer — e de quem se está falando

Este é um tema em que os números de desfecho variam de forma enorme, e a variação não é ruído: é população diferente. Vale fixar as três camadas, porque o enunciado costuma escolher uma e a alternativa distratora oferece outra.

Primeira camada, todos os traumatizados com fratura de pelve: na Santa Casa de São Paulo, a letalidade foi de 27,9%, contra 1,8% nos traumatizados sem fratura de pelve, e mais da metade (51,2%) precisou de leito de terapia intensiva contra 3,5%. Segunda camada, fraturas pélvicas instáveis: a revisão do Colégio Brasileiro de Cirurgiões registra que as taxas gerais, situadas entre 5% e 17% ao longo do século XX, sobem para 25% a 35% quando se consideram apenas as instáveis. Terceira camada, fratura pélvica com choque levada ao tamponamento: no HC-FMUSP, 56,86%.

A lição de prova é que não existe 'a mortalidade da fratura de pelve'. Existe a mortalidade de uma população definida por instabilidade mecânica e por choque, e é a instabilidade hemodinâmica que carrega quase todo o peso. A mesma coorte da Santa Casa mostra por quê: as complicações que se acumularam no grupo com fratura foram choque persistente, coagulopatia, insuficiência renal aguda, falência de múltiplos órgãos e sepse — o desfile inteiro do doente que sangrou muito e demorou a ser controlado.

Uma nota de realidade que também é dica de calibração para provas nacionais. Na casuística da Santa Casa, os mecanismos mais frequentes nos pacientes com fratura de pelve foram atropelamento (39,5%), quedas (27,9%) e acidentes com motocicleta (25,6%) — perfil diferente do de países desenvolvidos, onde predominam colisões automobilísticas. Quando o enunciado brasileiro descreve um atropelamento ou uma queda de altura com hipotensão, a pelve precisa estar na lista antes de a radiografia chegar.

04

Classificação WSES: o grau que decide a sala

A classificação junta o padrão anatômico de Young e Burgess ao estado hemodinâmico. Leia-a da direita para a esquerda: primeiro pergunte se o doente está hemodinamicamente instável — se estiver, é grau IV e o padrão anatômico não muda mais a conduta imediata. Só depois, no estável, o padrão organiza o tratamento.

  1. 11. Pelo mecanismo, suspeite antes de examinar: atropelamento, queda de altura, colisão de moto, impacto lateral, ferimento transpélvico.
  2. 22. Se há deformidade visível da pelve, NÃO teste a estabilidade do anel. Imobilize. (Protocolo AT22 / BT15 do SAMU 192.)
  3. 33. Cinta pélvica no nível dos grandes trocânteres e da sínfise púbica — lençol serve. Aduza os membros.
  4. 44. Trate como choque hemorrágico: cristaloide aquecido em volume restrito, sangue precoce, ácido tranexâmico dentro de 3 horas, prevenção de hipotermia.
  5. 55. Radiografia de pelve na sala, sem atrasar o resto. FAST para responder uma pergunta só: preciso abrir o abdome primeiro?
  6. 66. FAST positivo e instável: laparotomia. FAST negativo e instável com fratura de anel: a fonte é retroperitoneal.
  7. 77. Antes da sonda vesical, procure sangue no meato, hematoma perineal ou escrotal e próstata elevada. Havendo qualquer um, uretrografia retrógrada antes.
  8. 88. Toque retal em todos; toque positivo pede retossigmoidoscopia rígida.
  9. 99. Instável que não responde: tamponamento pré-peritoneal mais estabilização mecânica. Mantenha a incisão separada da laparotomia e o peritônio pélvico intacto.
  10. 1010. Persistindo o sangramento após o controle mecânico, arteriografia com embolização para a fonte arterial.
  11. 1111. Estável: tomografia com contraste. Blush arterial indica embolização; o padrão indica a fixação definitiva.
  12. 1212. Retire a cinta assim que for fisiologicamente justificável, e não a deixe além de 24 a 48 horas.

Grau I — menor

Compressão anteroposterior tipo I ou compressão lateral tipo I. Estável na hemodinâmica e na mecânica. Faz tomografia e segue com tratamento não operatório.

Graus II e III — moderados

Hemodinamicamente estável, mecanicamente instável. Grau II reúne compressão anteroposterior II e III e compressão lateral II e III; grau III reúne cisalhamento vertical e mecanismo combinado. Cinta no pré-hospitalar, tomografia, embolização se houver blush.

Grau IV — grave

Qualquer padrão de Young e Burgess, desde que hemodinamicamente instável. O mecanismo deixa de organizar a conduta. Cinta no pré-hospitalar, tamponamento pré-peritoneal com estabilização mecânica, REBOA e angioembolização. Não passa pelo tomógrafo.

Instável, pela definição da diretriz

Basta UM: sistólica de admissão abaixo de 90 mmHg; ou acima de 90 mmHg dependendo de bolus, transfusão ou vasopressor; ou déficit de base acima de 6 mmol/L; ou índice de choque acima de 1; ou 4 a 6 concentrados de hemácias nas primeiras 24 horas.

DecisãoEstávelInstável
Radiografia de pelveDispensável se sem instabilidade pélvica, sem luxação de quadril, exame negativo e tomografia programadaFaz na sala — mas não atrasa manobra que salva a vida
FASTComplementa a avaliaçãoPositivo manda ao abdome; negativo com fratura de anel aponta o retroperitônio
Tomografia com contrasteExame de escolha — gradua e mostra o extravasamento arterialNão faz
Cinta pélvicaIndicada nos graus II e III, já no pré-hospitalarIndicada sempre, como medida hemostática
Tamponamento pré-peritonealNão indicadoMedida cirúrgica de controle precoce, junto com estabilização
Fixação externaConforme padrão: anterior em rotacionalmente instável, C-clamp no cisalhamento verticalAdjuvante necessário do tamponamento
AngioembolizaçãoSe houver extravasamento de contraste na tomografiaPara fonte arterial, tipicamente após o controle mecânico
Sonda vesicalApós afastar lesão uretralApós afastar lesão uretral — a pressa não dispensa a uretrografia

A ordem entre tamponamento e arteriografia depende do serviço, e a própria recomendação brasileira diz isso com todas as letras: a ordem dos procedimentos e suas indicações devem ser decididas com base nos recursos locais. Numa prova nacional, a alternativa que exige angiografia disponível 24 horas para todo instável descreve um hospital que a maioria dos candidatos não terá.

Conclusão de autor não é resultado. A revisão do Colégio Brasileiro de Cirurgiões discutiu um estudo que concluiu que o ATLS e a angioembolização seriam inadequados na fratura pélvica instável, com mortalidade global de 41,7% — mas o próprio artigo registra mortalidade de 28% no subgrupo submetido a angiografia, menor que a global, e os revisores brasileiros rejeitaram a conclusão. Guarde o número, não a conclusão.

A fração venosa do sangramento pélvico aparece com mais de um valor na mesma diretriz — 80%, cerca de 85% de origem óssea, de partes moles ou venosa, e 80% a 90%. Nenhuma banca séria cobra o algarismo; o que se cobra é a direção, e a direção é unânime: a maior parte não é arterial.

Não existe associação definitiva entre padrão de fratura e volume de sangramento. Alguns estudos associam a compressão anteroposterior tipo III a maior necessidade transfusional, mas padrão dito estável não protege: na série brasileira de pacientes em choque levados ao tamponamento havia compressão lateral tipo I.

As faixas de lesão associada — uretra de 1,6% a 25%, reto de 18% a 64% — estão publicadas para as lesões de ALTO GRAU, não para toda fratura de pelve, e são largas porque reúnem populações diferentes. Servem como ordem de grandeza que obriga a procurar, não como número a decorar.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Onde entra a imobilização pélvica na sequência do atendimento

Dentro do C

O protocolo AT4 do SAMU 192 organiza o atendimento em ABCDE clássico e lista a imobilização de pelve e de membros entre as medidas de identificação e controle de sangramento da avaliação primária, ao lado da compressão direta e do torniquete — portanto dentro do C.

Ministério da Saúde, Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, Suporte Avançado de Vida, 2ª ed., Protocolo AT4 (Choque)

Antes do A

A 11ª edição do ATLS, lançada em setembro de 2025, antepõe a letra x ao mnemônico — xABCDE —, e a compressão pélvica externa passa a ser tratada como intervenção de controle de hemorragia exsanguinante, executada antes da via aérea.

ATLS 11ª edição, American College of Surgeons (2025), conferido em fontes secundárias — o manual não é público

Na prova

O enunciado entrega a edição pelo vocabulário. Se o texto fala em ABCDE e descreve a cinta pélvica junto do controle de sangramento na avaliação circulatória, está na régua do SAMU, que é a norma federal em vigor. Se fala em xABCDE ou em hemorragia exsanguinante como passo anterior à via aérea, está na 11ª edição do ATLS. A conduta material é a mesma — a cinta entra cedo, nos primeiros minutos —, e o que muda é a letra sob a qual ela é catalogada. Banca nacional que cita protocolo do Ministério da Saúde tende à primeira leitura.

Testar ou não a estabilidade do anel pélvico no exame físico

Testar, na secundária

O protocolo AT2 do SAMU 192, na avaliação secundária, instrui a realizar a palpação das cristas ilíacas na busca de dor e instabilidade, realizando compressão látero-medial e ântero-posterior.

Ministério da Saúde, Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, Suporte Avançado de Vida, 2ª ed., Protocolo AT2 (Avaliação secundária)

Não testar, se há deformidade

O protocolo AT22, específico de trauma de pelve, determina que diante da deformidade visível da pelve não se realize o exame da estabilidade do anel pélvico nem qualquer outra manipulação desnecessária, apenas a imobilização. A mesma frase consta do BT15.

Ministério da Saúde, Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, Suporte Avançado de Vida, 2ª ed., Protocolo AT22 (Trauma de pelve); e Suporte Básico de Vida, 2ª ed., Protocolo BT15

Testar com cautela

A diretriz da World Society of Emergency Surgery admite a manobra para avaliar a estabilidade do anel, mas adverte que ela deve ser feita com cautela porque pode, por vezes, aumentar o sangramento ao deslocar as margens ósseas.

Coccolini F, Stahel PF, Montori G, et al. Pelvic trauma: WSES classification and guidelines. World J Emerg Surg. 2017;12:5

Na prova

Os dois protocolos federais não se contradizem: o AT2 descreve a avaliação secundária genérica e o AT22 é a regra específica, que vence no caso concreto. O gatilho da exceção é uma condição objetiva — deformidade visível —, e não o julgamento do examinador. Identifique no enunciado se a deformidade já está descrita: se estiver, qualquer alternativa que mande testar a estabilidade do anel está errada; se não estiver, a palpação cuidadosa e única das cristas ilíacas é conduta prevista. Enunciado que descreve exame seriado da estabilidade pélvica está errado em qualquer das três leituras.

A ordem entre tamponamento pré-peritoneal e angioembolização no instável

Controle mecânico primeiro

A revisão do Colégio Brasileiro de Cirurgiões conclui que há evidência de que o tamponamento pré-peritoneal pode ser eficaz no controle do sangramento, reduzir a necessidade de transfusão e ser útil onde a angiografia não existe ou não está prontamente disponível — ressalvando que a técnica precisa de estudos melhores antes de virar padrão de cuidado. A prática do HC-FMUSP seguiu essa ordem: nenhum dos 51 pacientes foi angiografado antes do tamponamento.

Godinho M, Garcia DFV, Parreira JG, Fraga GP, Nascimento B, Rizoli S. Rev Col Bras Cir. 2012;39(3):238-242; e Fonseca VC, et al. Rev Col Bras Cir. 2022;49:e20223259

Angioembolização precoce

A mesma revisão registra que existe evidência sólida de que a angioembolização é eficaz no controle do sangramento de origem arterial no trauma pélvico, indicando-a com nível I quando se suspeita de fonte arterial, e aponta as diretrizes da EAST como as melhores recomendações baseadas em evidência disponíveis.

Godinho M, et al. Rev Col Bras Cir. 2012;39(3):238-242, citando as diretrizes da Eastern Association for the Surgery of Trauma

Na prova

Não há ordem única, e a própria recomendação brasileira diz isso: a ordem dos procedimentos e suas indicações devem ser decididas com base nos recursos locais. O que identifica o recorte do avaliador é o cenário descrito. Enunciado que menciona serviço com hemodinâmica disponível e extravasamento de contraste na tomografia está cobrando angioembolização. Enunciado que descreve hospital sem angiografia, ou paciente que não estabiliza para sair da sala de cirurgia, está cobrando tamponamento pré-peritoneal com fixação externa. Repare no que é comum às duas leituras e quase sempre é a chave da questão: a estabilização mecânica do anel acompanha as duas, e nenhuma delas substitui a reanimação hemostática.

06

Caso resolvido

Homem de 31 anos, atropelado por veículo de passeio há 35 minutos, trazido pelo SAMU em prancha longa. Chega falando frases curtas, Glasgow 14. Frequência cardíaca 128 bpm, pressão arterial 84 por 62 mmHg, frequência respiratória 30 irpm, saturação 95% em máscara não reinalante, pele fria e úmida, enchimento capilar de 4 segundos. Murmúrio vesicular simétrico, sem alteração à percussão do tórax. Abdome flácido, sem defesa. Há deformidade visível na região do quadril, com encurtamento e rotação externa do membro inferior esquerdo, e equimose extensa em períneo. Sangue no meato uretral. Recebeu 1.000 mL de cristaloide no trajeto, sem melhora sustentada. FAST negativo. Lactato de 5,2 mmol/L.
achado
Mecanismo de alta energia com o perfil brasileiro típico: atropelamento foi o mecanismo mais frequente entre pacientes com fratura de pelve na casuística da Santa Casa de São Paulo (39,5%). A suspeita de fratura de pelve precede qualquer imagem.
achado
Índice de choque de 1,52 (128 dividido por 84), acima de 1. Sozinho, esse critério já satisfaz a definição de instabilidade hemodinâmica da diretriz da WSES — e há outros dois presentes: sistólica abaixo de 90 mmHg e ausência de resposta sustentada ao cristaloide.
classificação
Instável com lesão de anel pélvico: WSES grau IV. Não importa, neste momento, qual padrão de Young e Burgess a radiografia vai mostrar — no grau IV o padrão anatômico não muda a conduta imediata.
achado
Deformidade visível da pelve. Pelo protocolo AT22 do SAMU 192, não se realiza o exame da estabilidade do anel pélvico nem qualquer manipulação desnecessária: apenas imobiliza. Comprimir o anel aqui pode deslocar margens ósseas e aumentar o sangramento.
achado
FAST negativo em instável com fratura de anel pélvico não tranquiliza: o retroperitônio está fora do campo do exame. O E-FAST não é sensível o bastante para excluir sangramento pélvico — ele serve, aqui, para dizer que o abdome não precisa ser aberto primeiro.
achado
Sangue no meato uretral e equimose perineal: dois sinais de lesão uretral. A sonda vesical está contraindicada até uretrografia retrógrada. Cerca de 23% das lesões uretrais passam despercebidas na avaliação inicial, e a sondagem às cegas pode converter laceração parcial em secção completa.
conduta
Cinta pélvica imediatamente, no nível dos grandes trocânteres e da sínfise púbica — não sobre as cristas ilíacas —, com adução dos membros. Lençol enrolado é aceitável e é o que se usa na maior parte dos serviços brasileiros. Recomendação de grau 1A.
conduta
Reanimação hemostática conforme o capítulo de choque hemorrágico: cristaloide aquecido em volume restrito, acionamento do protocolo de transfusão maciça, hemocomponentes em proporção equilibrada, ácido tranexâmico 1 g dentro da janela de 3 horas (o trauma ocorreu há 35 minutos), prevenção ativa de hipotermia e reposição de cálcio.
conduta
Radiografia de pelve na própria sala, sem atrasar as manobras. Retirada precoce da prancha rígida com a cinta mantida, para reduzir lesão de pele. Toque retal para procurar sangue e lesão de parede — toque positivo indicaria retossigmoidoscopia rígida.
conduta
Não há tomografia para este paciente. Instável que não responde vai ao centro cirúrgico para tamponamento pré-peritoneal com estabilização mecânica associada — fixação externa anterior. Persistindo o sangramento depois do controle mecânico, arteriografia com embolização para a fonte arterial.
07

Agora feche você

Mulher de 74 anos, moradora sozinha, caiu da própria altura no banheiro há 6 horas e foi trazida por familiares. Refere dor intensa em quadril direito e não consegue deambular. Glasgow 15, orientada. Frequência cardíaca 96 bpm, pressão arterial 104 por 88 mmHg, frequência respiratória 22 irpm, saturação 96% em ar ambiente, pele fria, enchimento capilar de 3 segundos. Faz uso de losartana e de anticoagulante oral por fibrilação atrial. Não há deformidade visível da pelve. Abdome flácido. FAST negativo. Radiografia de pelve mostra fratura de ramos púbicos à direita, sem alargamento da sínfise. Após 1.000 mL de cristaloide, a pressão sobe para 112 por 92 mmHg e volta a 100 por 86 mmHg em vinte minutos. Hemoglobina de 8,1 g/dL; déficit de base de 7 mmol/L.
achado
Pressão de pulso de 16 mmHg. Estreitamento marcado, apesar de a sistólica de 104 mmHg parecer aceitável — e, em hipertensa crônica, 104 mmHg é hipotensão relativa, não normalidade.
achado
Mecanismo aparentemente banal em idosa. A diretriz adverte que, no idoso, mesmo trauma menor pode produzir fratura pélvica maior ou sangramento importante, pela fragilidade óssea e pela perda de eficiência do vasoespasmo. O mecanismo não protege.
achado
Anticoagulação oral em curso e hemoglobina de 8,1 g/dL seis horas após uma queda da própria altura: o sangramento é ativo e a hemostasia está farmacologicamente comprometida.
achado
Déficit de base de 7 mmol/L e resposta transitória ao cristaloide. Dois critérios da definição de instabilidade hemodinâmica da diretriz estão presentes: déficit de base acima de 6 mmol/L, e pressão que só se mantém enquanto corre volume.
achado
Radiografia com fratura de ramos púbicos e sem alargamento da sínfise sugere padrão de compressão lateral — mas o padrão dito estável não afasta hemorragia, e a sensibilidade da radiografia de pelve fica entre 50% e 68%.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1FAST negativo não afasta hemorragia pélvica O FAST enxerga a cavidade peritoneal; o sangue da fratura de pelve se acumula no retroperitônio. A formulação da diretriz é exata: o E-FAST não é sensível o bastante para excluir sangramento pélvico, mas serve para excluir a necessidade de laparotomia no instável. Instável, com fratura de anel e FAST negativo, significa sangramento retroperitoneal até prova em contrário — e a conduta é cinta, sangue e controle mecânico, não tomografia.
  2. 2Diante de deformidade visível, testar a estabilidade do anel é erro de protocolo O protocolo AT22 do SAMU 192, e a versão básica BT15, dizem literalmente: diante da deformidade visível da pelve, não realizar o exame da estabilidade do anel pélvico ou qualquer outra manipulação desnecessária, apenas realizar a imobilização. A manobra de compressão descrita no protocolo AT2 pertence à avaliação secundária de quem não tem deformidade evidente — e nunca se repete, porque cada compressão desfaz o coágulo formado.
  3. 3A cinta na crista ilíaca não fecha o anel O nível correto é o dos grandes trocânteres e da sínfise púbica, com adução dos membros. Colocada alto, sobre as cristas ilíacas, a cinta não reduz o volume pélvico e pode até favorecer a abertura. É o detalhe anatômico que as bancas usam para separar quem leu de quem ouviu falar.
  4. 4Lençol não é conduta de segunda classe Cintas comerciais são superiores ao lençol enrolado, mas a improvisação é eficaz e segura quando não há dispositivo, e é ela que predomina na prática brasileira: 75,5% dos pacientes da série do HC-FMUSP chegaram com imobilização pélvica feita com lençol. Alternativa que trate o lençol como erro está descrevendo outro sistema de saúde.
  5. 5Angioembolização resolve a minoria do sangramento A maior parte da hemorragia pélvica é venosa e óssea — a própria diretriz publica 80%, cerca de 85% e 80% a 90% em trechos diferentes, todos na mesma direção. A embolização é recomendação de grau 1A para fonte ARTERIAL. Responder angiografia para todo instável é tratar a fatia menor e transportar um paciente que sangra para fora da sala de cirurgia.
  6. 6Sonda vesical antes de afastar lesão uretral Sangue no meato, hematoma perineal ou escrotal, próstata elevada ou não palpável, incapacidade de urinar e hematúria macroscópica obrigam uretrografia retrógrada antes da sonda. Cerca de 23% das lesões uretrais escapam na avaliação inicial, e a sondagem às cegas pode converter laceração parcial em secção completa, com estenose, incontinência e disfunção erétil como sequelas.
  7. 7Abrir o peritônio pélvico desfaz o tamponamento Quando laparotomia e tamponamento extraperitoneal são ambos necessários, as incisões ficam separadas e o peritônio pélvico permanece intacto. Violar esse plano transforma um hematoma contido, que já vinha tamponando, em sangramento livre na cavidade — e o tamponamento pré-peritoneal perde o efeito que o justifica.
  8. 8Padrão de fratura estável não é paciente estável Não existe associação definitiva entre padrão anatômico e volume de sangramento. Na série brasileira de fratura pélvica com choque levada ao tamponamento havia paciente com compressão lateral tipo I, o padrão dito estável. E no idoso o mecanismo banal engana duas vezes: fragilidade óssea produz fratura maior, e a resposta vasoespástica falha.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Correta: o extravasamento ativo de contraste (blush arterial) em paciente que responde apenas transitoriamente, com fonte pélvica arterial identificada e sem sangramento intraperitoneal (FAST negativo), é a indicação clássica de angioembolização — a estabilização mecânica já foi feita e não controlou o sangramento arterial. Manter só a cinta ignora o sangramento arterial ativo documentado e levaria à deterioração. Laparotomia com clampeamento não controla sangramento arterial pélvico retroperitoneal e é medida desproporcional; estaria indicada se houvesse hemoperitônio. Toracotomia de reanimação é para PCR/parada iminente em trauma penetrante torácico, contexto totalmente distinto. Reposição isolada sem controle da fonte perpetua a tríade letal e não trata a causa.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Reescreva de memória a classificação WSES nos quatro graus, dizendo para cada um o padrão de Young e Burgess correspondente, o estado hemodinâmico, se faz tomografia e qual é o tratamento de primeira linha. Depois recite os cinco critérios alternativos de instabilidade hemodinâmica (sistólica abaixo de 90; acima de 90 mas dependente de bolus, transfusão ou vasopressor; déficit de base acima de 6 mmol/L; índice de choque acima de 1; 4 a 6 concentrados em 24 horas) e a frase exata da proibição do protocolo AT22.

em 30 dias

Pegue três vinhetas de trauma de provas anteriores em que apareça fratura de pelve e, em cada uma, responda quatro perguntas antes de olhar o gabarito: o paciente é estável ou instável pela definição da diretriz; o FAST está sendo usado para responder a pergunta certa; existe sinal que contraindique a sonda vesical; e a conduta proposta controla a fonte venosa ou apenas a arterial. Depois releia o bloco de divergências e classifique cada enunciado como régua do SAMU, régua do ATLS 11 ou régua de sociedade cirúrgica.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 42 anos chega ao pronto-socorro trazido pelo SAMU após queda de altura de aproximadamente cinco metros em obra. Está pálido, sudoreico, taquicárdico e queixa-se de dor intensa em quadril. Conduza a avaliação, decida o que pode e o que não pode ser examinado na pelve, defina a imobilização e sua altura, estabeleça a estratégia de reposição, identifique as lesões associadas que precisam ser procuradas antes de qualquer sondagem e leve o paciente até o destino definitivo. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Trauma de pelve e controle de hemorragia pélvica – Trauma de pelve: o sangramento que o FAST não vê — Preparatório para provas | OsceLabs