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Cirurgia GeralTrauma

Via aérea no trauma e sequência rápida de intubação

A prova cobra três decisões em ordem: quem precisa de via aérea definitiva agora, com que drogas e em que dose se faz a sequência rápida, e o que se faz quando a laringoscopia falha duas vezes. O erro que reprova quase nunca é de técnica, é de momento.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 55 anos é resgatado de incêndio em ambiente fechado. Apresenta queimaduras faciais, chamuscamento dos pelos nasais, rouquidão, tosse com secreção carbonácea (fuligem no escarro) e estridor progressivo. SatO2 92% em ar ambiente, FR 28 ipm. Qual é a conduta prioritária neste paciente?

02

Como esse tema cai

Via aérea no trauma tem definição fechada, e a prova cobra a definição literalmente. Via aérea definitiva é tubo com balonete dentro da traqueia, balonete insuflado, tubo conectado a fonte de ventilação enriquecida com oxigênio e fixado. Máscara laríngea não é via aérea definitiva. Cânula orofaríngea não é. Bolsa-valva-máscara com reservatório, por melhor que esteja oxigenando, não é. As três formas de via aérea definitiva são a intubação orotraqueal, a nasotraqueal e a via aérea cirúrgica.

A régua brasileira da conduta é o Protocolo AP9 do SAMU 192, do Ministério da Saúde, e é dele que saem as doses que as bancas nacionais cobram. O documento está na 2ª edição, de 2016, e continua sendo o protocolo federal vigente. Três pontos dele já não acompanham o que a literatura internacional passou a recomendar depois, e cada um desses pontos virou um par de alternativas em prova. Eles estão no bloco de divergências.

O que se repete nas questões não é o passo a passo da laringoscopia. É a indicação (por que este paciente precisa de tubo agora), a dose (quanto de qual droga), a janela de segurança da succinilcolina no queimado e no esmagado, a idade que separa a cricotireoidostomia cirúrgica da punção, e o momento de parar de laringoscopar e descer para o pescoço.

03

O que muda decisão

Quem precisa de via aérea definitiva agora

O protocolo AP7 do SAMU lista as indicações de intubação orotraqueal no adulto, e é uma lista curta que vale decorar: impossibilidade de ventilar adequadamente com máscara ou bolsa-valva-máscara; impossibilidade de o paciente proteger a própria via aérea ou risco de aspiração; escala de coma de Glasgow menor ou igual a 8; sinais evidentes de queimadura de vias aéreas; sinais de insuficiência respiratória aguda; e transporte de longa distância com necessidade de via aérea definitiva.

Glasgow 8 é gatilho, e não sentença. O mesmo protocolo AP9 registra quatro contraindicações relativas à sequência rápida: função pulmonar muito desfavorável, acidose grave suspeitada, hipovolemia grave não corrigida e via aérea sabidamente difícil. Ou seja: o documento brasileiro já reconhece que o politraumatizado em choque hemorrágico ainda não reposto é justamente o paciente em quem a indução paralisa a musculatura, abole o tônus simpático que estava sustentando a pressão e pode transformar hipotensão em parada. Repor volume e controlar a hemorragia antes de induzir não é atrasar a via aérea, é preparar a indução.

A queimadura de via aérea é a indicação que mais se perde por esperar. O AP7 nomeia os sinais: queimadura de cílios, de sobrancelhas e dos pelos do nariz; mudança no caráter da voz até a afonia; estridor laríngeo; sialorreia; escarro com fuligem. Nenhum desses sinais significa que a via aérea está fechada agora. Todos significam que ela vai fechar, e que a laringoscopia daqui a duas horas será feita num pescoço edemaciado. A conduta é intubar enquanto ainda dá.

No trauma cranioencefálico, o protocolo AT5 manda considerar a sequência rápida para a intubação e proíbe a hiperventilação profilática. A intubação no TCE existe para impedir a lesão secundária, e a lesão secundária vem de hipoxemia, hipotensão, hipoglicemia e hipertermia, não de um número de PaCO2 que se quer baixar por precaução.

Prever a dificuldade antes de dar a droga

O Projeto Diretrizes da Associação Médica Brasileira e do Conselho Federal de Medicina, escrito pela Sociedade Brasileira de Anestesiologia, é explícito num ponto que a prova adora inverter: nenhum teste isolado tem sensibilidade, especificidade e valor preditivo positivo suficientes para ser usado sozinho. Mallampati sozinho não prevê nada com segurança. A acurácia sobe com o número de sinais pesquisados, não com a escolha do melhor sinal.

Os preditores de intubação difícil do documento brasileiro, na história: intubação difícil prévia, cirurgia prévia de cabeça e pescoço, distúrbios de via aérea como refluxo e hipertrofia amigdaliana. No exame: obesidade, pescoço curto ou musculoso, retrognatismo, incisivos superiores longos ou protrusos, classificação de Mallampati, conformação do palato, distância interincisivos, distância tireomentoniana, complacência do espaço submandibular, mobilidade cervical e protrusão voluntária da mandíbula. O AP7 do SAMU resume a mesma ideia em seis itens de beira de maca: boca pequena ou com abertura limitada, incisivos proeminentes, macroglossia, pescoço curto ou com mobilidade diminuída, micrognatia e obesidade mórbida.

A lista que quase ninguém decora, e que a prova cobra exatamente por isso, é a de ventilação difícil sob máscara. São cinco itens, e o documento os traz separados dos preditores de intubação: história de ronco ou apneia obstrutiva do sono conhecida, índice de massa corpórea superior a 26 kg/m², presença de barba, ausência de dentes e idade superior a 55 anos. A distinção importa porque o desastre não é não conseguir intubar. É não conseguir intubar nem ventilar, e é essa combinação que a avaliação da ventilação antecipa.

No trauma, os preditores mais duros são os que se veem antes de qualquer escore: sangue e vômito na orofaringe, fratura de face com perda de referência anatômica, edema de queimadura, hematoma cervical em expansão e o próprio colar cervical, que trava a mobilidade do pescoço que a laringoscopia direta precisa. Encontrar qualquer um deles muda o plano antes de a primeira droga entrar: alguém prepara o material da via aérea cirúrgica e o pescoço é palpado e marcado enquanto ainda dá para palpar.

Vista anterior do pescoço de um adulto com a cartilagem tireoide, a membrana cricotireóidea, a cartilagem cricoide e os primeiros anéis traqueais; uma mão enluvada estabiliza a laringe entre o polegar e o dedo médio, com o indicador apoiado sobre a membrana na linha média.
A membrana cricotireóidea é o ponto de acesso de toda via aérea cirúrgica de urgência, qualquer que seja a técnica: linha média anterior, entre a proeminência da cartilagem tireoide e o anel cricoide, percebida ao toque como uma depressão. A mão que não opera é a que segura a laringe no lugar.

Pré-oxigenação: o tempo de apneia se compra antes

A sequência rápida troca a segurança da ventilação pela segurança do estômago: entre a droga e o tubo o paciente fica apneico e sem reflexos de proteção, e ninguém ventila. O que sustenta esses minutos é o oxigênio que já estava no pulmão. Por isso o AP9 abre com oxigenação prévia por 3 a 5 minutos com bolsa-valva-máscara ou máscara com reservatório, antes de qualquer fármaco.

O mesmo protocolo é preciso sobre quando aplicar pressão positiva e quando não aplicar: se a saturação está acima de 92%, evita-se ventilar com oxigênio a 100%, porque cada insuflação que passa pelo esôfago enche o estômago e aumenta o risco de regurgitação; se a saturação está abaixo de 92%, ventila-se com oxigênio a 100%, porque a hipoxemia é o risco maior naquele momento. Quando for preciso ventilar, a pressão máxima é de 20 cmH2O, também para não insuflar o trato gastrointestinal.

Vale notar que o protocolo AP7, o da intubação orotraqueal comum, pede pré-oxigenação de aproximadamente 30 segundos com 10 a 15 L/min. Não é contradição com os 3 a 5 minutos do AP9: são procedimentos diferentes. No AP7 o paciente continua sendo ventilado entre as tentativas; no AP9 ele é paralisado e não será ventilado, e a reserva de oxigênio precisa ser muito maior.

No trauma, o paciente que mais precisa de pré-oxigenação longa é o que menos tolera esperar por ela: choque, dor, agitação e um pulmão contundido consomem a reserva depressa. É por isso que a decisão de intubar deve vir junto com a decisão de repor volume e de controlar a hemorragia, e não depois delas.

As drogas da sequência rápida: dose, alvo e estado hemodinâmico

O AP9 organiza a farmacologia em três etapas: analgesia de pré-indução com fentanil, hipnose com uma de três opções e bloqueio neuromuscular com succinilcolina. As doses estão na tabela do bloco seguinte, com a apresentação de cada ampola, porque é assim que a banca escreve a alternativa.

O fentanil entra a 1 a 5 microgramas por quilo por via intravenosa. O protocolo registra três cuidados: risco de rigidez torácica, risco de apneia e a orientação de evitar no paciente hemodinamicamente instável, porque pode causar hipotensão e bradicardia. É o primeiro fármaco a sair da sequência quando a pressão está baixa.

Na hipnose, a escolha é pelo estado hemodinâmico, e o protocolo diz isso de forma direta. Midazolam 0,1 a 0,3 mg/kg é o que se evita no instável, no cardiopata com falência de bomba, no idoso e no hepatopata; é também o único que o documento autoriza por via intramuscular, na mesma dose, quando não há acesso venoso. Etomidato 0,2 a 0,3 mg/kg é o que o protocolo manda considerar no instável e evitar no choque séptico. Cetamina 2 a 3 mg/kg é a opção do asmático e do instável, favorável na doença restritiva do pericárdio, e a que o protocolo manda evitar no hipertenso e no paciente com muita secreção oral.

O bloqueio neuromuscular é feito com succinilcolina 1,0 a 1,5 mg/kg de peso real por via intravenosa em bolus, ou 3 a 4 mg/kg por via intramuscular. A paralisia se instala em cerca de 30 segundos. As contraindicações que o documento lista são quase todas de trauma, e todas têm janela de tempo: história familiar de hipertermia maligna, intubação provavelmente difícil, miopatia espástica ou neuropatia crônica com desnervação, esmagamento muscular há mais de 3 dias, queimadura grave há mais de 24 horas e nefropatia dialítica descompensada.

As duas janelas de tempo são o ponto mais cobrado da farmacologia inteira. O queimado das primeiras 24 horas ainda não expressou os receptores extrajuncionais que causam a liberação maciça de potássio; a succinilcolina nele é segura. O queimado do terceiro dia não é. O esmagado das primeiras horas é seguro; o esmagado do quarto dia não é. Quem decora 'queimado não pode succinilcolina' erra a metade das questões que caem sobre isso, porque a vinheta traz a hora do acidente de propósito.

Pressão cricoide, coluna cervical e as mãos que faltam

Duas manobras usam a mão sobre o pescoço e servem a coisas opostas, e a prova troca uma pela outra com frequência. A manobra de Sellick é a pressão sobre a cartilagem cricoide, aplicada para comprimir o esôfago contra a coluna e reduzir a regurgitação; é o passo 7 do AP9. A compressão laríngea externa, que o Projeto Diretrizes descreve, é o deslocamento suave para trás e um pouco para cima da cartilagem tireoide, do osso hioide ou da cricoide, e existe para corrigir a laringoscopia em que se vê a epiglote mas não a glote. Uma protege o estômago, a outra melhora a visão. Cartilagens diferentes, objetivos diferentes.

No trauma, a coluna cervical entra na conta. O AP7 é claro e é literal em prova: manter o pescoço em posição neutra, com estabilização da coluna cervical durante a intubação; garantida essa condição, o colar cervical pode ser retirado para a intubação e recolocado em seguida. O colar não é o que protege a medula durante a laringoscopia, é a estabilização manual em linha que protege; e o colar é o que impede a abertura da boca e a visão da glote. A alternativa que diz 'manter o colar cervical fechado durante toda a intubação' descreve uma laringoscopia pior sem ganho de proteção.

Isso significa que a sequência rápida no trauma é procedimento de três a quatro pessoas: quem intuba, quem mantém a estabilização em linha da cabeça, quem administra as drogas e aspira, e quem faz a pressão cricoide se ela for usada. Não é procedimento de um médico com um técnico. Faltar gente é a causa mais banal de tentativa perdida.

A posição olfativa ótima, que o Projeto Diretrizes define como flexão do pescoço sobre o tórax com coxim occipital associada à extensão da cabeça sobre o pescoço, alinha os eixos oral, faríngeo e laríngeo e é o que se perde no trauma. Sem ela, a laringoscopia direta já começa em desvantagem, o que é mais um argumento para preparar o material alternativo antes da primeira tentativa e não depois da segunda.

A tentativa que não pode virar três

O Projeto Diretrizes brasileiro traz a definição antiga de intubação difícil, mais de três tentativas ou mais de dez minutos com laringoscopia convencional, e no mesmo parágrafo a critica: chama a definição de imprecisa e arriscada, lembra que várias laringoscopias traumatizam a via aérea e produzem sangramento e edema, e que esse sangramento pode inviabilizar até a ventilação sob máscara. E conclui pelo contrário: se em condições ótimas não é possível intubar, a intubação difícil está caracterizada em uma única tentativa e em menos de trinta segundos.

Condições ótimas, no mesmo documento, são cinco: laringoscopista experiente, ausência de hipertonia muscular, posição olfativa ótima, compressão laríngea externa e lâmina de tamanho e tipo adequados. A segunda tentativa só faz sentido se alguma dessas cinco mudar. Repetir a mesma laringoscopia com a mesma lâmina, na mesma posição, pelo mesmo operador, é repetir o resultado.

O AP7 do SAMU não conta tentativas, controla relógio: cada tentativa de intubação deve durar até 20 segundos e a ventilação nunca deve ser interrompida por mais de 30 segundos. No insucesso, reoxigenar com bolsa-valva-máscara; no insucesso repetido, escolher outra técnica para obter a via aérea definitiva. É o mesmo raciocínio dito por outro instrumento: o limite é a oxigenação, não a persistência.

A máscara laríngea é resgate e é ponte. O AP4 registra que ela não protege totalmente a via aérea da regurgitação, e que no trauma a manobra de elevação da mandíbula basta para inseri-la, dispensando a extensão cervical. Ela compra tempo e oxigenação para chegar a uma via aérea definitiva. Ela não é uma.

Via aérea cirúrgica: cricotireoidostomia, e por que a criança é exceção

O ponto de acesso é sempre o mesmo, qualquer que seja a técnica: a membrana cricotireóidea, na linha média anterior, entre a proeminência laríngea da cartilagem tireoide e o anel cricoide, percebida ao toque como uma depressão. A indicação também é a mesma nos dois protocolos do SAMU: quando o objetivo é manter oxigenação e ventilação adequadas e os outros métodos, básicos ou avançados, falharam, são ineficazes, não estão disponíveis ou estão contraindicados.

A cricotireoidostomia cirúrgica (AP5) é a técnica de escolha no adulto e é contraindicada em menores de 12 anos. A incisão de pele é transversal, de cerca de 1,5 cm, incisando também a membrana. Se a referência anatômica não for facilmente identificada, a manobra muda: incisão longitudinal de cerca de 2 cm na linha média, palpação direta da membrana sem a interposição da pele, e só então incisão transversal de pelo menos 1 cm, o mais inferior possível na região, para poupar a artéria e a veia cricotireóideas superiores. Dilata-se com instrumento rombo, pinça de Kelly ou o cabo do bisturi, rodando 360°, e insere-se o tubo do kit, uma cânula de traqueostomia ou uma cânula endotraqueal número 5 ou 6.

A ventilação transtraqueal percutânea (AP6), a punção, é a técnica de escolha em crianças menores de 12 anos, e o protocolo é explícito ao dizer que ela deve ser reservada a essa população. Faz-se com cateter sobre agulha calibroso, número 14, inserido a cerca de 30° em relação à pele no sentido caudal e sob aspiração, até o borbulhamento que confirma a traqueia. O oxigênio corre a 15 L/min no adulto e a 5 a 7 L/min na criança, e a ventilação a jato é feita ocluindo o orifício do conector em Y por 1 segundo e liberando por 4 segundos.

A punção oxigena, mas não ventila bem e não protege a via aérea: o próprio protocolo registra que ela tem pouca eficácia nas trocas gasosas, que causa barotrauma e hipercapnia pela restrição à expiração, e que o paciente deve ter a via aérea acessada de maneira mais adequada assim que possível. Enfisema subcutâneo nos tecidos vizinhos sugere que o cateter não está na traqueia. No adulto, o protocolo manda evitá-la e preferir a cirúrgica.

A técnica que a diretriz internacional detalha para o cenário 'não intubo, não oxigeno' é a scalpel-bougie-tube, com material especificado: lâmina de bisturi número 10, larga como o tubo; bougie com ponta angulada; e tubo com balonete de 6,0 mm. E traz uma exigência que costuma surpreender: o resgate pela frente do pescoço não deve ser tentado sem bloqueio neuromuscular completo, porque o paciente que ainda tem tônus laríngeo e movimento é o paciente em que a agulha ou a lâmina erra o alvo.

As situações do trauma que mudam a regra

Trauma de face grave. O protocolo AT6 do SAMU escreve a sequência inteira: intubação orotraqueal, com a nasotraqueal contraindicada, e se a intubação for difícil, cricotireoidostomia. Não há passo intermediário longo. O AP8, que descreve a intubação nasotraqueal, contraindica o procedimento em suspeita de fratura de base de crânio ou trauma de face grave e exige respiração espontânea, o que já a exclui da maior parte do trauma.

Sangramento que não para. A hemorragia traqueobrônquica persistente é citada pelo próprio AP5 como exemplo de indicação de via aérea cirúrgica, ao lado do trauma facial extenso que impede a ventilação com bolsa-valva-máscara. Quando o campo enche de sangue mais rápido do que a aspiração esvazia, a laringoscopia não vai melhorar na terceira tentativa.

Queimadura de via aérea. Os sinais do AP7 mandam intubar antes de o edema aparecer, e a escolha do tubo importa: um calibre maior facilita a aspiração e a broncoscopia depois. Nas primeiras 24 horas a succinilcolina continua liberada; a partir daí, não.

Trauma cranioencefálico. O AT5 manda considerar a sequência rápida, proíbe a hiperventilação profilática e resume o objetivo em impedir a lesão secundária pelo controle de hipoxemia, glicemia, temperatura e pressão arterial. A indução no TCE é feita para proteger o cérebro da hipóxia e da hipotensão, e uma indução que derruba a pressão faz o oposto do que se pretendia.

Confirmação. O AP7 exige ausculta do epigástrio, das bases e dos ápices, observação da expansibilidade, condensação no tubo e oximetria, e cita a capnografia se disponível. O AP10 dá à capnografia a função de confirmar o posicionamento do tubo. Na prova, ausculta e expansibilidade são exame; capnografia é confirmação, e é ela que denuncia a intubação esofágica em segundos, antes de a saturação cair.

04

Da indicação ao pescoço: a sequência, as doses e os limites

A ordem abaixo é a do protocolo AP9 do SAMU 192 com os limites de tempo do AP7. O que muda de paciente para paciente não é a ordem: é a escolha do hipnótico, que sai do estado hemodinâmico, e a decisão de quando parar de laringoscopar.

  1. 1Decidir a indicação: não ventila com bolsa-valva-máscara, não protege a via aérea, Glasgow ≤ 8, sinais de queimadura de via aérea, insuficiência respiratória aguda ou transporte longo com necessidade de tubo
  2. 2Checar as contraindicações relativas do próprio protocolo: hipovolemia grave não corrigida, acidose grave suspeitada, função pulmonar muito desfavorável, via aérea sabidamente difícil
  3. 3Avaliar a via aérea difícil de intubar e, separadamente, a difícil de ventilar; separar o material da via aérea cirúrgica e palpar a membrana cricotireóidea antes de induzir
  4. 4Monitorizar (oximetria, capnografia, monitor cardíaco), garantir acesso venoso e posicionar; no trauma, estabilização manual em linha e abertura do colar cervical
  5. 5Pré-oxigenar 3 a 5 minutos com máscara com reservatório ou bolsa-valva-máscara; só ventilar com pressão positiva se a saturação cair abaixo de 92%, com no máximo 20 cmH2O
  6. 6Analgesia de pré-indução com fentanil, exceto no instável; hipnótico escolhido pelo estado hemodinâmico e, em sequência imediata, succinilcolina
  7. 7Laringoscopar quando a paralisia se instalar: cada tentativa até 20 segundos, ventilação nunca interrompida por mais de 30 segundos, e mudar algo (operador, lâmina, posição, compressão laríngea externa) antes de repetir
  8. 8Confirmar com ausculta de epigástrio, bases e ápices mais capnografia; insuflar o balonete, fixar e registrar
  9. 9Se não intuba mas ventila: dispositivo supraglótico e outra técnica, sem pressa e com oxigenação mantida
  10. 10Se não intuba nem oxigena: via aérea cirúrgica pela membrana cricotireóidea, cirúrgica no adulto e por punção abaixo de 12 anos

Cormack-Lehane I: glote inteira visível

Vê-se toda a fenda glótica, com as cordas vocais de ponta a ponta. É a laringoscopia sem problema; o tubo passa sob visão direta.

Cormack-Lehane II: só a porção posterior da glote

A epiglote cobre a comissura anterior e sobra a parte posterior da fenda com as aritenoides. Ainda se intuba, em geral com compressão laríngea externa e bougie.

Cormack-Lehane III: só a epiglote

Nenhuma porção das cordas vocais aparece. É a definição de laringoscopia difícil do documento brasileiro; o tubo passa às cegas ou não passa.

Cormack-Lehane IV: nem a epiglote

Vê-se apenas o palato mole. Insistir aqui é traumatizar a via aérea; a decisão é mudar de técnica ou preparar o pescoço.

EtapaFármaco e apresentaçãoDose (Protocolo AP9, MS/SAMU 192, 2016)O que o protocolo registra
Analgesia de pré-induçãoFentanil, ampola 50 mcg/mL1 a 5 mcg/kg IVRisco de rigidez torácica e de apneia; evitar no hemodinamicamente instável (hipotensão e bradicardia)
Hipnose (opção)Midazolam, ampola 5 mg/mL0,1 a 0,3 mg/kg IVEvitar no instável, na falência de bomba, no idoso e no hepatopata; pode ser IM na mesma dose se não houver acesso venoso
Hipnose (opção)Cetamina, ampola 50 mg/mL2 a 3 mg/kg IVConsiderar no asmático e no instável; favorável na doença restritiva do pericárdio; evitar no hipertenso e com muita secreção oral
Hipnose (opção)Etomidato, ampola 2 mg/mL0,2 a 0,3 mg/kg IVConsiderar no hemodinamicamente instável; evitar no choque séptico
Bloqueio neuromuscularSuccinilcolina, frasco 100 mg1,0 a 1,5 mg/kg de peso real IV em bolus, ou 3 a 4 mg/kg IMParalisia em cerca de 30 segundos; contraindicações no quadro abaixo

Duas listas diferentes: prever intubação difícil e prever ventilação difícil (Projeto Diretrizes AMB/CFM, SBA, 2003)

Difícil de intubarDifícil de ventilar sob máscara
Intubação difícil prévia; cirurgia prévia de cabeça e pescoçoHistória de ronco ou apneia obstrutiva do sono conhecida
Obesidade; pescoço curto ou musculoso; mobilidade cervical reduzidaÍndice de massa corpórea superior a 26 kg/m²
Retrognatismo; incisivos superiores longos ou protrusosPresença de barba
Mallampati alto; palato estreito; distância interincisivos e tireomentoniana curtasAusência de dentes
Espaço submandibular pouco complacente; protrusão voluntária da mandíbula limitadaIdade superior a 55 anos

Succinilcolina no trauma: a janela em que ela ainda é segura

SituaçãoNas primeiras horasA partir de quando o protocolo contraindica
Queimadura graveLiberadaDepois de 24 horas do trauma
Esmagamento muscularLiberadaDepois de 3 dias do trauma
Miopatia espástica ou neuropatia crônica com desnervaçãoContraindicadaContraindicação permanente, independente do tempo
Nefropatia dialítica descompensadaContraindicadaContraindicação pelo risco de hipercalemia, não pelo tempo
História familiar de hipertermia maligna; intubação provavelmente difícilContraindicadaContraindicação permanente, independente do tempo

Via aérea cirúrgica: as duas técnicas do SAMU 192 e o que separa uma da outra

Cricotireoidostomia cirúrgica (AP5)Ventilação transtraqueal percutânea, por punção (AP6)
QuemTécnica de escolha no adulto; contraindicada abaixo de 12 anosTécnica de escolha abaixo de 12 anos; a ser evitada no adulto
MaterialBisturi, pinça rombo e cânula nº 5 ou 6 (kit, traqueostomia ou endotraqueal)Cateter sobre agulha calibroso nº 14, conector em Y ou T e extensão de oxigênio
ComoIncisão transversal de ~1,5 cm na membrana; se a referência não for palpável, incisão vertical de ~2 cm e depois transversal de ≥1 cmPunção a ~30° em sentido caudal sob aspiração, até borbulhar na seringa
OxigênioBolsa-valva conectada à cânula, ventilação convencional15 L/min no adulto, 5 a 7 L/min na criança; jato de 1 segundo ocluindo e 4 segundos livre
LimiteVia aérea definitiva com balonete, protege contra aspiraçãoNão protege a via aérea, troca gasosa pobre, barotrauma e hipercapnia; medida temporária

O quadro de fármacos do AP9 orienta aguardar de 1 a 2 minutos entre o hipnótico e a succinilcolina, e isso contradiz o objetivo escrito no mesmo protocolo: minimizar o intervalo entre a abolição dos reflexos protetores e o estabelecimento da via aérea segura. É o objetivo que descreve o procedimento: hipnótico e bloqueador entram em sequência imediata, e a laringoscopia começa quando a paralisia se instala, cerca de 30 a 60 segundos depois. Esperar 1 a 2 minutos com o paciente já sem reflexos alarga justamente a janela que a sequência rápida foi inventada para fechar.

Os preditores de ventilação difícil do Projeto Diretrizes usam sinal estrito: índice de massa corpórea 'superior a 26 kg/m²' e idade 'superior a 55 anos'. Outros textos escrevem os mesmos cortes com maior ou igual. A diferença de sinal não se uniformiza aqui; o valor citado é o do documento brasileiro.

A definição de via aérea difícil do documento brasileiro é a do profissional experiente que encontra dificuldade de ventilação sob máscara, de intubação, ou ambas. Dificuldade de residente de primeiro ano não define via aérea difícil, define necessidade de chamar alguém.

Ventilação sob máscara difícil tem definição numérica no mesmo documento: um operador sozinho não consegue manter a saturação acima de 90% com fração inspirada de oxigênio de 1,0 num paciente cuja saturação era normal antes da indução.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Pressão cricoide (manobra de Sellick) durante a sequência rápida

Passo obrigatório da sequência, mantido durante a laringoscopia

A pressão direta sobre a cartilagem cricoide é o passo 7 do protocolo, aplicada depois do bloqueio neuromuscular e mantida até o tubo estar posicionado, com o objetivo de comprimir o esôfago e reduzir a regurgitação. O protocolo da intubação orotraqueal comum também manda considerá-la.

Ministério da Saúde, Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, Suporte Avançado de Vida, 2ª ed., 2016 (Protocolos AP7 e AP9)

Aplicada com força graduada e liberada se a laringoscopia estiver difícil

Aplica-se 10 N com o paciente acordado, subindo para 30 N quando a consciência se perde; se as primeiras tentativas de laringoscopia forem difíceis durante a indução em sequência rápida, a pressão cricoide deve ser liberada, sob visão e com aspiração disponível.

Difficult Airway Society 2015 guidelines, Br J Anaesth 2015;115(6):827-848

Ensaio que não sustentou a retirada da manobra, mas documentou seu custo

Ensaio randomizado com 3.472 pacientes comparando pressão cricoide a procedimento simulado: aspiração pulmonar em 0,6% contra 0,5%, sem demonstração de não inferioridade do procedimento simulado. No grupo com pressão, a visão laringoscópica foi pior e a intubação passou de 30 segundos em 47% contra 40%. Os autores registram que o estudo foi feito em centro cirúrgico e que faltam dados fora dele.

Birenbaum A et al., IRIS Randomized Clinical Trial, JAMA Surg 2019;154(1):9-17

Na prova

A causa aqui não é econômica: os três documentos leem a mesma evidência de ângulos diferentes e o ensaio que testou a retirada não a sustentou. Como identificar o recorte: cenário pré-hospitalar, ambulância, SAMU ou menção ao protocolo nacional coloca a manobra dentro da sequência; enunciado de via aérea difícil, sala cirúrgica, anestesia ou menção nominal à Difficult Airway Society traz a graduação em newtons e a liberação sob visão. As alternativas denunciam o mundo da questão: 'liberar a pressão cricoide para melhorar a visão' é vocabulário que só existe no corpo internacional; 'manobra de Sellick' como item numerado de um passo a passo é vocabulário do protocolo brasileiro.

Cetamina no traumatismo cranioencefálico e na hipertensão intracraniana

Evitar quando há pressão intracraniana elevada ou iminência de herniação

O quadro de fármacos do protocolo brasileiro lista, entre os cuidados da cetamina, evitar seu uso em pressão intracraniana elevada e iminência de herniação de tronco, ao lado de evitá-la no hipertenso e no paciente com muita secreção oral.

Ministério da Saúde, Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, Suporte Avançado de Vida, 2ª ed., 2016 (Protocolo AP9)

Restrição derivada de estudos antigos e não confirmada nas revisões posteriores

Revisões sistemáticas recentes em lesão cerebral traumática não encontram elevação clinicamente relevante da pressão intracraniana com cetamina em pacientes sedados e sob ventilação controlada, e não encontram diferença de mortalidade hospitalar. A restrição nasceu de estudos pequenos e mal controlados dos anos 1970, em pacientes em ventilação espontânea.

Revisão sistemática de desfechos clínicos da cetamina no traumatismo cranioencefálico, PMID 39512554 (2024)

Na prova

Divergência de data, não de custo: o documento brasileiro é de 2016 e reproduz uma restrição consolidada antes dele; a literatura que a revisou é posterior. Como identificar o recorte: vinheta de atendimento pré-hospitalar brasileiro, com o quadro de drogas do SAMU descrito, trabalha com a restrição escrita no protocolo; vinheta de terapia intensiva ou de neurointensivismo, com menção a sedação contínua e ventilação controlada, trabalha com a revisão posterior. Vale notar que os dois lados concordam no essencial do trauma: no politraumatizado hipotenso, a cetamina é uma das opções que o protocolo nacional manda considerar.

Qual limite encerra a tentativa de intubação: número de tentativas ou tempo

Limite por tempo, sem contagem de tentativas

Cada tentativa de intubação deve durar até 20 segundos e a ventilação nunca deve ser interrompida por mais de 30 segundos; no insucesso, reoxigenar com bolsa-valva-máscara e, no insucesso repetido, escolher outra técnica para obter a via aérea definitiva. O documento não fixa um número de tentativas.

Ministério da Saúde, Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, Suporte Avançado de Vida, 2ª ed., 2016 (Protocolo AP7)

Teto explícito de tentativas por plano

No plano A, máximo de três tentativas de intubação traqueal, e uma quarta apenas por colega mais experiente; no plano B, máximo de três tentativas de inserção de dispositivo supraglótico, duas com o de segunda geração preferido e uma com dispositivo alternativo. Todos devem ser treinados e ter acesso imediato a um videolaringoscópio.

Difficult Airway Society 2015 guidelines, Br J Anaesth 2015;115(6):827-848

Uma tentativa em condições ótimas já caracteriza a dificuldade

O documento brasileiro traz a definição antiga (mais de três tentativas ou mais de dez minutos), critica-a como imprecisa e arriscada pelo trauma que as laringoscopias repetidas causam, e conclui que, se em condições ótimas não é possível intubar, a intubação difícil está caracterizada em uma tentativa e em menos de trinta segundos.

Sociedade Brasileira de Anestesiologia, Intubação Traqueal Difícil, Projeto Diretrizes AMB/CFM, 2003

Na prova

A causa é de exequibilidade e de cenário: o protocolo pré-hospitalar mede o que a equipe consegue medir no meio da rua, o relógio; a diretriz de anestesia conta tentativas porque trabalha com equipe, plano escrito e material completo. Como identificar o recorte: enunciado que traz cronômetro, saturação caindo e ambulância aponta para o limite de tempo; enunciado que descreve planos A, B, C e D, dispositivo supraglótico de segunda geração ou videolaringoscópio aponta para o teto de tentativas. Note que os três documentos concordam na conduta prática: não repetir a mesma laringoscopia sem mudar nada e não deixar a saturação cair enquanto se insiste.

Bloqueio neuromuscular antes do acesso pela frente do pescoço

Exigência absoluta de bloqueio completo antes de abrir o pescoço

O resgate da via aérea pela frente do pescoço não deve ser tentado sem bloqueio neuromuscular completo. O paciente com tônus laríngeo preservado se move, o alvo escapa e a técnica scalpel-bougie-tube (lâmina nº 10, bougie de ponta angulada, tubo com balonete de 6,0 mm) perde a referência.

Difficult Airway Society 2015 guidelines, Br J Anaesth 2015;115(6):827-848

Anestesia local se o paciente estiver consciente, sem menção a bloqueio

Os protocolos de cricotireoidostomia cirúrgica e de punção transtraqueal orientam explicar o procedimento e realizar botão anestésico local caso o paciente esteja consciente, e não mencionam bloqueio neuromuscular como pré-requisito.

Ministério da Saúde, Protocolos de Intervenção para o SAMU 192, Suporte Avançado de Vida, 2ª ed., 2016 (Protocolos AP5 e AP6)

Na prova

A causa é de contexto e de material, não de discordância clínica: a diretriz de anestesia descreve o paciente que acabou de receber indução e cujo bloqueio pode ter passado, enquanto o protocolo pré-hospitalar descreve a via aérea cirúrgica de resgate na rua, num paciente em geral já apneico, com kit limitado e sem a droga sobrando. Como identificar o recorte: menção a plano D, cenário 'não intubo, não oxigeno' ou nomeação da Difficult Airway Society traz a exigência de bloqueio completo; vinheta pré-hospitalar de trauma de face com paciente responsivo traz o botão anestésico.

06

Caso resolvido

Homem de 27 anos, motociclista, colisão frontal há 20 minutos, trazido pelo SAMU. Fratura de terço médio da face com deformidade evidente, sangue e coágulos na orofaringe, voz abafada. Glasgow 11 (abertura ocular à voz, confuso, obedece a comandos). Frequência respiratória 28, saturação 91% em máscara com reservatório, pressão arterial 118 x 74 mmHg, frequência cardíaca 106. Colar cervical instalado. Aspirar a orofaringe melhora por segundos e o sangue volta.
achado
O paciente não protege a via aérea. Não é o Glasgow 11 que decide: é o sangue que reenche a orofaringe mais rápido do que a aspiração esvazia, a voz abafada e a saturação de 91% já com reservatório. A indicação é 'impossibilidade de proteger a via aérea ou risco de aspiração', e ela não depende de o Glasgow chegar a 8.
o que não fazer
Intubação nasotraqueal está contraindicada. O protocolo de trauma de face manda intubação orotraqueal e diz textualmente que a nasotraqueal é contraindicada; o protocolo da própria técnica a proíbe em suspeita de fratura de base de crânio e em trauma de face grave.
preparo
Antes de qualquer droga: monitorização, acesso venoso, duas aspirações prontas, material da via aérea cirúrgica aberto e a membrana cricotireóidea palpada e identificada enquanto o pescoço ainda está anatômico. Uma pessoa assume a estabilização manual em linha da cabeça; a parte anterior do colar é aberta para permitir a abertura da boca e a laringoscopia, e é recolocada depois.
drogas
Pré-oxigenação de 3 a 5 minutos com máscara com reservatório, sem pressão positiva enquanto a saturação se mantiver acima de 92%. Hipnótico escolhido pelo estado hemodinâmico: o paciente está normotenso e taquicárdico após trauma recente, com sangramento em curso não quantificado, o que aconselha etomidato 0,2 a 0,3 mg/kg ou cetamina 2 a 3 mg/kg em vez de midazolam. Em sequência imediata, succinilcolina 1,0 a 1,5 mg/kg de peso real.
limite
Cada tentativa de laringoscopia até 20 segundos, ventilação nunca interrompida por mais de 30 segundos, e nada de repetir a mesma laringoscopia: se a primeira falhar, mudam-se as condições (operador mais experiente, lâmina, posição, compressão laríngea externa sobre a cartilagem tireoide, bougie).
plano de resgate
Se não intubar mas conseguir oxigenar, dispositivo supraglótico como ponte enquanto se organiza outra técnica. Se não intubar nem oxigenar, cricotireoidostomia cirúrgica: incisão transversal de cerca de 1,5 cm sobre a membrana, dilatação com instrumento rombo rodado 360°, cânula nº 5 ou 6, balonete insuflado, confirmação e fixação. É adulto, então é a técnica cirúrgica e não a punção.
confirmação
Ausculta de epigástrio, bases e ápices, expansibilidade e condensação no tubo, mais capnografia. A capnografia é o que denuncia a intubação esofágica antes de a saturação cair, e num campo cheio de sangue a ausculta sozinha engana.
07

Agora feche você

Mulher de 34 anos resgatada de incêndio em ambiente fechado há 3 horas. Queimaduras de segundo grau em face, pescoço e tórax anterior. Sobrancelhas e vibrissas nasais chamuscadas, rouquidão progressiva, escarro com fuligem, sem estridor no momento. Glasgow 15, frequência respiratória 24, saturação 95% em ar ambiente, pressão arterial 124 x 78 mmHg, frequência cardíaca 112. Está lúcida, orientada e falando frases inteiras.
achado
Sinais de queimadura de via aérea reunidos: pelos faciais chamuscados, mudança no caráter da voz e escarro com fuligem. É uma das indicações nominais de via aérea definitiva do protocolo, e ela não espera pela dessaturação.
armadilha do enunciado
Saturação de 95%, Glasgow 15 e fala preservada convidam a observar. É exatamente o paciente que perde a via aérea nas horas seguintes, quando o edema fechar a laringe e a laringoscopia já não for possível.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Tratar Glasgow 8 como a única porta de entrada da intubação Glasgow menor ou igual a 8 é uma das seis indicações do protocolo, não a definição de todas. Sangue na orofaringe, incapacidade de proteger a via aérea, queimadura de via aérea e insuficiência respiratória aguda indicam tubo com qualquer Glasgow. A vinheta que dá Glasgow 11 e uma orofaringe cheia de sangue está testando justamente isso.
  2. 2Achar que queimado nunca pode receber succinilcolina A regra tem relógio. O protocolo contraindica na queimadura grave há mais de 24 horas e no esmagamento muscular há mais de 3 dias. Nas primeiras horas, a droga é segura, porque os receptores extrajuncionais que causam a liberação maciça de potássio ainda não foram expressos. A banca coloca a hora do acidente no enunciado de propósito.
  3. 3Confundir a manobra de Sellick com a compressão laríngea externa Sellick é pressão sobre a cricoide para comprimir o esôfago e reduzir a regurgitação. A compressão laríngea externa desloca a tireoide para trás e para cima para corrigir a laringoscopia em que se vê a epiglote mas não a glote. Cartilagens diferentes, finalidades diferentes. Alternativa que diz 'pressão cricoide para melhorar a visão da glote' mistura as duas.
  4. 4Chamar máscara laríngea de via aérea definitiva Via aérea definitiva é tubo com balonete dentro da traqueia, insuflado, conectado a fonte de ventilação enriquecida com oxigênio e fixado. O dispositivo supraglótico é resgate e ponte, e o próprio protocolo registra que ele não protege totalmente contra a regurgitação. Ele compra tempo para chegar à via aérea definitiva; não é uma.
  5. 5Tentar intubação nasotraqueal no trauma de face O protocolo de trauma de face indica orotraqueal e escreve que a nasotraqueal é contraindicada; o protocolo da técnica nasotraqueal exclui suspeita de fratura de base de crânio e trauma de face grave, e ainda exige respiração espontânea. É alternativa que aparece porque 'não dá para abrir a boca' soa como argumento.
  6. 6Fazer cricotireoidostomia cirúrgica em criança A técnica cirúrgica é contraindicada abaixo de 12 anos, e a ventilação transtraqueal percutânea é a técnica de escolha nessa faixa, reservada a ela. No adulto vale o inverso: a punção existe, mas o protocolo manda evitá-la e preferir a cirúrgica, porque não protege a via aérea e ventila mal.
  7. 7Manter o colar cervical fechado durante a laringoscopia O que protege a medula durante a intubação é a estabilização manual em linha, e é ela que o protocolo exige. O colar pode ser retirado para a intubação e recolocado depois; mantido fechado, ele limita a abertura da boca e piora a visão sem acrescentar proteção.
  8. 8Hiperventilar o traumatismo cranioencefálico logo após intubar O protocolo de TCE proíbe a hiperventilação profilática. Reduzir a PaCO2 por precaução causa vasoconstrição e isquemia num cérebro já lesado. O ganho da intubação no TCE vem de impedir hipoxemia e hipotensão, e uma indução que derruba a pressão desfaz esse ganho.
  9. 9Induzir antes de repor volume no politraumatizado em choque O próprio protocolo lista hipovolemia grave não corrigida entre as contraindicações relativas à sequência rápida. A indução abole o tônus simpático que estava sustentando a pressão, e a ventilação com pressão positiva reduz o retorno venoso. Repor e controlar a hemorragia antes de induzir é preparar a via aérea, não atrasá-la.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Sinais de lesão inalatória e de queimadura de via aérea (queimadura facial, pelos nasais chamuscados, rouquidão, escarro carbonáceo, estridor) indicam risco iminente de obstrução por edema progressivo — a via aérea deve ser assegurada com intubação orotraqueal PRECOCE, antes que o edema torne o procedimento impossível. Esperar a piora é perigoso, pois o edema pode inviabilizar a intubação. Traqueostomia de urgência é reservada para falha da via aérea; não é a primeira escolha. Broncodilatador/corticoide não previnem a obstrução mecânica por edema e não substituem a proteção da via aérea.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Recite as seis indicações de via aérea definitiva do protocolo brasileiro e a definição literal de via aérea definitiva. Depois, escreva de memória as cinco linhas do quadro de fármacos da sequência rápida com dose: fentanil 1 a 5 mcg/kg, midazolam 0,1 a 0,3 mg/kg, cetamina 2 a 3 mg/kg, etomidato 0,2 a 0,3 mg/kg e succinilcolina 1,0 a 1,5 mg/kg IV ou 3 a 4 mg/kg IM. Feche com as duas janelas: queimadura 24 horas, esmagamento 3 dias.

em 30 dias

Reconstrua o fluxo inteiro sem olhar, da indicação à via aérea cirúrgica, e pare em três pontos: (1) por que hipovolemia grave não corrigida é contraindicação relativa à sequência rápida; (2) o que separa a manobra de Sellick da compressão laríngea externa; (3) por que a criança abaixo de 12 anos leva punção e o adulto leva cricotireoidostomia cirúrgica. Depois releia as quatro divergências e identifique, em cada uma, qual palavra do enunciado revelaria o recorte da banca.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Plantão de pronto-socorro de trauma. Chega homem de 42 anos, vítima de agressão com trauma contuso de face e pescoço há 40 minutos. Sangramento nasal e oral ativo, voz rouca, enfisema subcutâneo cervical à palpação, Glasgow 13, saturação 89% em máscara com reservatório, pressão arterial 132 x 80 mmHg, frequência cardíaca 118. Você tem laringoscópio, bougie, dispositivo supraglótico, kit de cricotireoidostomia e as drogas do carrinho. Decida a indicação, escolha o hipnótico, defina o limite de tentativas e diga em que momento você desce para o pescoço. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Via aérea no trauma e sequência rápida de intubação — Preparatório para provas | OsceLabs