Cirurgia GeralUrgência e Emergência Cirúrgica

Úlcera péptica perfurada

A vinheta é quase sempre a mesma: dor súbita, abdome em tábua e ar livre. O que a prova cobra é o que o ar livre prova, o que a radiografia negativa não afasta e quem vai para a sala agora.

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Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 55 anos com dor abdominal súbita e intensa em epigástrio há 4 horas, que se tornou difusa. Antecedente de uso crônico de anti-inflamatórios por lombalgia. PA 110x70 mmHg, FC 108 bpm, T 37,8 °C. Abdome em tábua, com rigidez difusa e descompressão dolorosa generalizada. Qual exame de imagem inicial confirmaria a hipótese mais provável?

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Como esse tema cai

A doença ulcerosa péptica é comum — prevalência de 5% a 10% ao longo da vida e incidência de 0,1% a 0,3% ao ano — e complica em 10% a 20% dos portadores. Dentro das complicações, perfurar é raro e sangrar é frequente: a incidência anual de perfuração vai de 0,004% a 0,014% da população, contra 0,02% a 0,06% de hemorragia, uma proporção de aproximadamente uma perfuração para seis sangramentos. A conta que importa é a outra: a mortalidade em 30 dias, ponderada pelo tamanho das séries, é de 23,5% na perfuração contra 8,6% na hemorragia, e a perfuração responde por cerca de 40% de todas as mortes ligadas à doença ulcerosa. É a complicação que mais leva à cirurgia de urgência.

A vinheta de prova é estereotipada e não é ali que se perde ponto: dor epigástrica de início súbito, abdome em tábua, ar livre sob o diafragma. O que decide a questão é o que vem depois — se cabe tomografia antes de operar, o que significa uma radiografia sem ar livre, quanto vale cada hora de espera, qual operação para qual tamanho de perfuração e em que situação, rara, não se opera. E há um segundo grupo de vinhetas, mais difícil: o paciente que não se parece com a descrição clássica, porque a perfuração se bloqueou, porque ele é idoso, porque usa corticoide, porque já passaram trinta horas e o abdome distendido substituiu o abdome rígido.

Investigação da dispepsia, indicação de endoscopia e esquema de erradicação do Helicobacter pylori pertencem ao tratamento clínico da doença ulcerosa. Aqui a erradicação entra num único ponto, no fim: é ela, com a suspensão do anti-inflamatório, que impede o paciente de voltar pela mesma porta.

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O que muda decisão

O que perfura, e por quê

O sítio clássico é a parede anterior do bulbo duodenal, e a anatomia explica a divisão de trabalho entre as duas complicações: a parede posterior do bulbo repousa sobre a artéria gastroduodenal e o pâncreas, de modo que a úlcera que a atravessa sangra; a parede anterior é livre, voltada para a cavidade peritoneal, e a úlcera que a atravessa perfura. Úlcera duodenal posterior sangra, úlcera duodenal anterior perfura — é a frase que resolve várias questões sem nenhuma conta.

Os fatores que empurram a úlcera até a perfuração são os mesmos que causam a úlcera, somados: infecção por Helicobacter pylori, anti-inflamatórios não esteroidais e ácido acetilsalicílico, corticoide, tabagismo, álcool e doença crítica. A revisão sistemática reunida pela diretriz da WSES, com 50 estudos e 29.782 pacientes, mostrou associação consistente entre mortalidade e idade avançada, comorbidade e uso de anti-inflamatórios ou corticoides — os mesmos fatores que trazem o paciente também pioram o desfecho dele.

O perfil brasileiro descrito em série do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, com 14 pacientes operados, é o de homens (todos os casos), com média de 41,06 anos, mais jovens do que a caricatura do idoso frágil. A perfuração era duodenal em 57,2% e pré-pilórica em 28,6%; 57,2% eram tabagistas e 78,6% relatavam dispepsia prévia. O teste rápido da urease foi positivo em material do trato digestivo em 78,6% dos casos e, o que é mais interessante, no líquido da própria cavidade peritoneal em 42,8% — a bactéria vaza junto com o conteúdo gástrico.

Uma exceção precisa ficar guardada: a perfuração gástrica levanta suspeita de câncer. A perfuração espontânea ocorre em cerca de 1% dos pacientes com câncer gástrico, mas de 10% a 16% de todas as perfurações gástricas são causadas por carcinoma. É por isso que a úlcera gástrica perfurada, sobretudo a grande e de bordas endurecidas, não se fecha e se esquece: ela se biopsia ou se ressseca com exame de congelação.

As três fases, e a armadilha do meio

A história natural do abdome perfurado tem três tempos. Nas primeiras duas horas há peritonite química: o suco gástrico ácido cai na cavidade e produz dor de início abrupto, intensa, epigástrica e rapidamente generalizada, com irradiação para o ombro por irritação do diafragma. O paciente fica imóvel, porque qualquer movimento dói, e o abdome está rígido.

Entre a segunda e a décima segunda hora vem a fase de latência, e é ela que engana. O exsudato peritoneal dilui o ácido, a dor cede parcialmente e o paciente parece melhorar. Uma vinheta que descreve alívio espontâneo algumas horas depois de uma dor em punhalada não está descrevendo um paciente que melhorou; está descrevendo um paciente entre a peritonite química e a bacteriana. Depois de doze horas instala-se a peritonite bacteriana com distensão, íleo, febre, taquicardia e evolução para sepse e choque séptico.

No exame físico, três achados carregam o diagnóstico: abdome em tábua (contratura involuntária generalizada), redução ou abolição dos ruídos hidroaéreos e perda da macicez hepática à percussão — o sinal de Jobert, produzido pelo ar interposto entre o fígado e a parede abdominal. A ressalva vem da própria diretriz: peritonite localizada ou generalizada é típica, mas pode estar presente em apenas dois terços dos pacientes. Quando o vazamento se bloqueou, quando o paciente é idoso, imunossuprimido ou está em uso de corticoide, o exame físico pode ser pobre ou francamente equívoco.

O laboratório é inespecífico. Leucocitose, acidose metabólica e amilase sérica elevada acompanham a perfuração, e é justamente a amilase que produz o erro mais comum de raciocínio: ela sobe na úlcera perfurada e a vinheta passa a parecer pancreatite aguda. Quem decide não é a amilase, é o abdome rígido com ar livre. Para graduar gravidade, a diretriz sugere SOFA e qSOFA (recomendação fraca, 2C), e recomenda ressuscitação com alvos de pressão arterial média maior ou igual a 65 mmHg, diurese maior ou igual a 0,5 mL/kg/h e normalização do lactato (recomendação forte, 1C).

O que mais produz dor súbita e abdome rígido

A pancreatite aguda é a confusão mais frequente, e não só por causa da amilase. Ela também abre com dor epigástrica intensa e irradiada, também cursa com leucocitose e acidose. O que separa é a parede abdominal: a pancreatite dói muito e enrijece pouco, com abdome distendido e doloroso mas depressível; a perfuração produz contratura involuntária desde a primeira hora. Diante de dúvida real, a tomografia resolve os dois diagnósticos de uma vez, e é mais um motivo para ela ser o exame recomendado quando disponível.

A isquemia mesentérica aguda é a que mais custa caro quando passa. Ela se apresenta como dor desproporcional ao exame físico — o paciente descreve dor insuportável e o abdome, no início, está quase normal —, com lactato alto e acidose metabólica sem defesa correspondente. O perfil também difere: fibrilação atrial, doença arterial estabelecida, insuficiência cardíaca. Quando a defesa finalmente aparece, já há necrose transmural. A regra prática é que dor intensa com abdome inocente aponta para vaso, e dor intensa com abdome de pedra aponta para víscera perfurada.

Duas emergências não abdominais completam a lista e são fáceis de esquecer no plantão. O infarto agudo do miocárdio de parede inferior pode se apresentar como dor epigástrica com náusea e sudorese, o que torna o eletrocardiograma obrigatório no paciente com fator de risco cardiovascular e dor alta. E a ruptura de aneurisma de aorta abdominal entra sempre que houver dor abdominal ou lombar súbita com hipotensão em homem idoso, sobretudo tabagista — aqui a massa pulsátil e a ultrassonografia à beira do leito respondem em minutos.

Nenhum desses diagnósticos é excluído por raciocínio; todos são excluídos por exame dirigido. O que a vinheta cobra é a ordem: eletrocardiograma e glicemia são baratos e rápidos, a ultrassonografia à beira do leito é imediata, e a tomografia resolve o abdome. Nenhum deles justifica adiar a sala quando o paciente já tem história clara, peritonite e ar livre.

Pneumoperitônio: o que o ar livre prova e o que ele não prova

A radiografia de tórax em ortostase e a radiografia em decúbito lateral esquerdo têm acurácia semelhante para detectar ar livre, e a segunda é mais bem tolerada por quem está com peritonite e não consegue ficar de pé. O ponto que a prova cobra é a sensibilidade: o pneumoperitônio aparece em algo entre 30% e 85% das perfurações, variação enorme entre as séries. Radiografia sem ar livre não afasta perfuração — nunca.

Daí a hierarquia recomendada pela WSES: no abdome agudo com suspeita de úlcera perfurada, tomografia (recomendação forte, 1C); radiografia de tórax e abdome como avaliação inicial de rotina quando a tomografia não estiver prontamente disponível (recomendação forte, 1C); e, quando não se vê ar livre e a suspeita persiste, repetir a imagem com contraste hidrossolúvel por via oral ou por sonda nasogástrica (recomendação fraca, 2D). Mesmo a tomografia falha: até 12% dos pacientes com perfuração têm tomografia normal, e é nesse cenário que o contraste hidrossolúvel entra.

Na tomografia, os achados suspeitos são líquido intraperitoneal sem explicação, pneumoperitônio, espessamento de parede intestinal, borramento da gordura mesentérica e extravasamento de contraste hidrossolúvel. Ela também localiza e mede a perfuração e afasta outros diagnósticos, o que muda a operação planejada. Na radiografia simples, além do ar subdiafragmático, procuram-se o sinal de Rigler (as duas faces da parede intestinal desenhadas pelo ar), o sinal do ligamento falciforme e o sinal da bola de futebol, quando o volume de ar livre contorna toda a cavidade.

A frase operacional da diretriz é a que mais decide questão: ar livre na radiografia, associado a história clara e sinais de peritonite ao exame físico, já é suficiente para justificar a exploração cirúrgica. Não é preciso tomografia para autorizar a operação de um paciente que já tem indicação. Pedir imagem adicional nesse caso não acrescenta informação e gasta o recurso mais caro da doença, que é tempo.

O caminho inverso também cai: ar livre não é sinônimo de víscera oca perfurada. Laparotomia ou laparoscopia recentes deixam ar residual que pode persistir por dias, diálise peritoneal introduz ar, perfuração iatrogênica em endoscopia e barotrauma ventilatório produzem pneumoperitônio. O que separa o ar que precisa de sala do ar que precisa de observação não é a imagem, é o abdome do paciente.

Radiografia frontal de tórax em ortostase mostrando finas lâminas de ar livre sob os dois hemidiafragmas, mais evidentes à direita.
O ar livre sobe: em ortostase, a fina lâmina gasosa entre o diafragma e o fígado torna o pneumoperitônio mais fácil de reconhecer — e ajuda a explicar o desaparecimento da macicez hepática à percussão.

Estratificação: Boey, PULP e o relógio

A WSES sugere adotar escores para estratificar risco e prever desfecho (recomendação fraca, 2C), e cita três: Boey, PULP e a própria classificação asa. O Boey é o mais usado e o mais cobrado, porque é o mais simples: três variáveis, um ponto cada, de 0 a 3. São elas choque na admissão (a descrição original de Boey define choque como pressão arterial sistólica abaixo de 100 mmHg), doença clínica grave concomitante e duração dos sintomas maior que 24 horas. Na coorte original, a mortalidade subiu de 0% com nenhum fator para 10% com um, 45,5% com dois e 100% com os três.

Esses números são de uma série antiga e não devem ser transportados literalmente para o paciente de hoje — a própria diretriz registra que o Boey mostrou variabilidade elevada de acurácia entre os estudos em que foi testado. O que sobrevive é a forma da curva: o risco não cresce de modo linear, ele salta quando o segundo fator entra. Em coortes contemporâneas, a mortalidade de 30 dias da úlcera perfurada operada fica na casa dos 16% a 19%.

O PULP tem oito variáveis — idade acima de 65 anos, doença maligna ativa ou aids, cirrose hepática, uso concomitante de corticoide, tempo entre a perfuração e a admissão maior que 24 horas, choque na admissão, creatinina sérica elevada e a classe asa — e vai de 0 a 18, com corte de alto risco acima de 7 pontos. Ele prediz mortalidade melhor que o Boey (área sob a curva de 0,83 contra 0,70), mas é difícil de aplicar à beira do leito e não foi validado fora do centro que o criou. A asa sozinha prediz quase tão bem quanto o PULP (área sob a curva de 0,78), e a hipoalbuminemia continua sendo o mais forte preditor isolado de mortalidade.

A variável que nenhum escore captura direito é o relógio, e ela é a única que o plantão controla. Atraso pré-operatório maior que 24 horas associa-se a pior prognóstico; intervalo entre a perfuração e a cirurgia maior que 36 horas associa-se a aumento da mortalidade pós-operatória; e, na coorte dinamarquesa de 2.688 pacientes citada pela diretriz, cada hora de atraso entre a admissão e a cirurgia associou-se a uma redução ajustada de 2,4% na probabilidade de sobrevida em relação à hora anterior. Sempre que a alternativa oferecer 'mais um exame antes', a pergunta é se esse exame muda a operação.

A operação: fechar o buraco, e só o necessário além disso

A via de acesso segue o estado hemodinâmico. No paciente estável, a diretriz sugere abordagem laparoscópica (recomendação fraca, 2B); a via aberta é recomendada na ausência de habilidade e de equipamento laparoscópicos. No paciente instável, recomenda-se cirurgia aberta (recomendação forte, 1D). A razão fisiológica é direta: o pneumoperitônio de dióxido de carbono aumenta resistência vascular sistêmica, pressão arterial média, pós-carga, frequência cardíaca, pressão de vias aéreas e PaCO2, e reduz volume sistólico, retorno venoso, débito cardíaco, complacência torácica e pH — tudo o que o paciente em choque não tem para gastar.

O ganho da laparoscopia é real e é modesto. A metanálise citada pela diretriz reuniu 8 ensaios randomizados e 615 pacientes (307 laparoscópicos e 308 abertos) e encontrou menos dor nas primeiras 24 horas e menos infecção de ferida operatória no grupo laparoscópico, sem diferença em mortalidade, fístula da rafia, abscesso intra-abdominal ou taxa de reoperação. Nenhum desses desfechos justifica insistir em videocirurgia num paciente que está fechando o lactato.

Para perfuração menor que 2 cm, a conduta é rafia primária (recomendação fraca, 2C). O detalhe que costuma surpreender é que a diretriz não consegue recomendar a favor nem contra o retalho de epíplon: historicamente ele era considerado o padrão, mas vários estudos mostraram que acrescentá-lo não traz benefício sobre a rafia simples e aumenta o tempo operatório. Ou seja, a rafia com epíplon continua sendo resposta segura e clássica de prova, mas quem afirma que o epíplon é obrigatório está afirmando mais do que a evidência sustenta.

Para perfuração de 2 cm ou mais, a conduta é individualizada pelo sítio. Úlcera gástrica grande com suspeita de malignidade: ressecção com exame anatomopatológico de congelação intraoperatório sempre que possível. Úlcera duodenal grande: considerar ressecção ou reparo associado a exclusão pilórica e/ou drenagem biliar externa; a duodenostomia fica reservada a circunstâncias extremas, com úlcera gigante, inflamação tecidual grave e duodeno não mobilizável em paciente chocado. Fechar uma perfuração grande com retalho de epíplon tem taxas de fístula relatadas de até 12%.

Quando há choque séptico com desarranjo fisiológico grave, a estratégia é controle de danos (recomendação fraca, 2D): abreviar o procedimento, evitar anastomose na vigência de hipotensão ou uso de vasopressor, lavagem ampla, fechamento temporário da parede, ressuscitação em terapia intensiva e reoperação programada quando o paciente estabilizar. Procedimento ressectivo definitivo em região ampular, do tipo duodenopancreatectomia, não é recomendado em vigência de peritonite pelo impacto fisiológico e pelo risco de complicações.

Duas condutas ficam de fora. Tratamento endoscópico da perfuração — clipe, cola de fibrina ou prótese — é desaconselhado (recomendação fraca, 2C), porque o tecido fibrótico da úlcera crônica não tem complacência para o clipe fechar. E a cirurgia antiulcerosa definitiva de rotina, tema da seção de divergências, não faz parte da operação padrão de urgência.

Antibiótico, antifúngico e a alta que não devolve o paciente

A peritonite da úlcera perfurada é polimicrobiana por definição, com gram-positivos, gram-negativos, anaeróbios e leveduras no líquido peritoneal. A diretriz recomenda iniciar antibiótico empírico de amplo espectro o mais cedo possível, cobrindo os três grupos bacterianos, de preferência depois da coleta do líquido peritoneal e independentemente de haver sepse grave ou choque (recomendação forte, 1C), e recomenda coletar material para análise microbiológica de bactérias e fungos em todos os pacientes operados, ajustando o esquema depois (recomendação forte, 1C). Beta-lactâmico com inibidor de beta-lactamase é opção de primeira linha nas infecções intra-abdominais.

A duração é curta: 3 a 5 dias ou até a normalização dos marcadores inflamatórios (recomendação fraca, 2C), com descalonamento assim que a cultura permitir. Se os marcadores não melhorarem, a obrigação não é prolongar o antibiótico e sim procurar outro foco ou outro agente.

O antifúngico é a pegadinha da seção. Candida no líquido peritoneal associa-se a internação mais longa, mais infecção de sítio cirúrgico e maior mortalidade — e, ainda assim, a diretriz sugere não administrar antifúngico como terapia empírica padrão (recomendação fraca, 2C). O motivo é que os estudos não mostraram diferença de sobrevida entre quem recebeu e quem não recebeu antifúngico; o isolado de Candida parece marcar gravidade mais do que causá-la. O antifúngico fica para o paciente de alto risco: imunossuprimido, idade avançada, comorbidades, internação prolongada em terapia intensiva e infecção intra-abdominal não resolvida. Quando indicado em paciente crítico, equinocandina é a primeira linha para infecção invasiva e candidemia em não neutropênico; fluconazol cabe na peritonite por Candida de origem comunitária, sem exposição prévia a azólico e sem risco de cepa resistente.

O que impede o retorno pela mesma porta não está na sala de cirurgia. Suspender o anti-inflamatório, manter inibidor de bomba de prótons e pesquisar e erradicar o Helicobacter pylori são o que transforma uma rafia em tratamento definitivo. A dimensão do problema aparece nos números da literatura brasileira anterior à era da erradicação: a rafia isolada convivia com recidiva acima de 50%, e era exatamente essa recidiva que justificava operar o estômago de quem tinha acabado de sobreviver a uma peritonite.

Tratamento não operatório: quem realmente pode

A diretriz sugere não usar tratamento não operatório de rotina; ele pode ser considerado em casos extremamente selecionados, nos quais a perfuração se bloqueou, comprovado por estudo com contraste hidrossolúvel (recomendação fraca, 2C). O raciocínio é que perfurações pequenas podem ser seladas por aderências do epíplon e cicatrizar sem operação. O critério objetivo é único e não admite interpretação: se há extravasamento livre de contraste, opera-se; se não há extravasamento e o paciente não tem sinais de peritonite nem de sepse, o tratamento não operatório pode ser considerado.

Os pré-requisitos são descritos como uma lista de erres: vazamento não detectado radiologicamente, exame clínico repetido, exames laboratoriais repetidos, suporte respiratório e renal, recursos de monitorização e prontidão para operar. O tratamento em si é jejum, hidratação venosa, descompressão por sonda nasogástrica, antissecretor com inibidor de bomba de prótons, antibiótico venoso e endoscopia de controle em 4 a 6 semanas.

Os números do tratamento não operatório explicam por que ele é exceção. No ensaio randomizado de 1989 com 83 pacientes, 28% dos alocados para tratamento não operatório não melhoraram em 12 horas e precisaram de cirurgia; a mortalidade foi semelhante nos dois grupos (5%), mas a internação foi 35% mais longa no grupo conservador, e pacientes acima de 70 anos responderam significativamente pior. Em série prospectiva de 2004 com 82 pacientes, os fatores independentemente associados à falha foram o tamanho do pneumoperitônio, frequência cardíaca acima de 94 bpm e meteorismo abdominal.

O ponto que fecha a discussão é aritmético. Quem falha no tratamento não operatório opera depois — e cada hora de atraso custa sobrevida. O idoso pode ter mortalidade paradoxalmente maior quando a tentativa conservadora fracassa, e a diretriz recomenda cautela acima dos 70 anos. Tratamento não operatório não é o caminho de quem tem menos recurso; é o caminho de quem tem mais, porque exige tomografia com contraste, reavaliação seriada, leito monitorizado e sala disponível a qualquer hora.

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Da dor súbita à sala: a régua em seis passos

A sequência abaixo vale para o paciente que chega ao pronto-socorro com dor abdominal de início súbito e abdome rígido. Ela é curta de propósito: o erro mais caro dessa doença não é escolher a operação errada, é demorar para chegar nela.

  1. 11. Reconhecer o padrão: dor de início abrupto, generalizada, com abdome em tábua, ruídos abolidos e perda da macicez hepática. Peritonite pode faltar em até um terço dos casos — idoso, imunossuprimido e usuário de corticoide entram na suspeita mesmo com exame pobre.
  2. 22. Ressuscitar em paralelo com o diagnóstico: acesso venoso, volume, alvos de pressão arterial média maior ou igual a 65 mmHg, diurese maior ou igual a 0,5 mL/kg/h e normalização do lactato. Graduar gravidade com qSOFA/SOFA.
  3. 33. Imagem: tomografia quando disponível; radiografia de tórax em ortostase ou decúbito lateral esquerdo como exame inicial quando a tomografia não estiver prontamente disponível. Sem ar livre e com suspeita mantida, repetir com contraste hidrossolúvel oral ou por sonda.
  4. 44. Decidir a sala: história clara mais peritonite mais ar livre já autoriza a exploração cirúrgica, sem exame adicional. Coletar líquido peritoneal e iniciar antibiótico de amplo espectro o mais cedo possível.
  5. 55. Escolher a via e o reparo: estável e com equipe e equipamento disponíveis, laparoscopia; instável ou sem recurso, laparotomia. Perfuração menor que 2 cm, rafia primária; 2 cm ou mais, conduta individualizada pelo sítio, com congelação se houver suspeita de câncer gástrico.
  6. 66. Fechar o ciclo: antibiótico por 3 a 5 dias ou até normalizar marcadores, suspender anti-inflamatório, manter inibidor de bomba de prótons e programar pesquisa e erradicação do Helicobacter pylori.

Boey 0 — nenhum fator

Sem choque, sem doença clínica grave concomitante e com menos de 24 horas de sintomas. Mortalidade de 0% na coorte original de Boey. É o paciente da rafia eletiva dentro da urgência: estável, cedo, operável por videocirurgia se houver equipe.

Boey 1 — um fator

Um entre choque à admissão, doença clínica grave e sintomas por mais de 24 horas. Mortalidade de 10% na coorte original. O tempo ainda é aliado: a decisão é operar cedo, antes que o segundo fator apareça.

Boey 2 — dois fatores

Aqui o risco salta: mortalidade de 45,5% na coorte original. É o degrau que muda o plano — laparotomia, coleta de cultura, terapia intensiva reservada e limiar baixo para abreviar o procedimento.

Boey 3 — os três fatores

Choque, doença clínica grave e mais de 24 horas de perfuração. Mortalidade de 100% na coorte original — número de série antiga, mas que marca o extremo. É o cenário de controle de danos: procedimento abreviado, sem anastomose, abdome temporariamente fechado e reoperação programada.

Variável do escore de BoeyDefiniçãoPontos
Choque à admissãoPressão arterial sistólica abaixo de 100 mmHg na descrição original de Boey1
Doença clínica grave concomitanteComorbidade significativa, operacionalizada nas validações como ASA III a V1
Perfuração de longa dataDuração dos sintomas maior que 24 horas antes da cirurgia1
TotalSoma de 0 a 3; mortalidade na coorte original de 0%, 10%, 45,5% e 100%0 a 3

Tamanho e sítio da perfuração: qual operação

CenárioConduta recomendadaObservação
Perfuração menor que 2 cm, paciente estávelRafia primária, por videocirurgia se houver equipe e equipamentoNão há recomendação a favor nem contra acrescentar retalho de epíplon; ele aumenta o tempo operatório
Perfuração de 2 cm ou mais, gástrica, com suspeita de malignidadeRessecção com exame de congelação intraoperatório sempre que possívelDe 10% a 16% das perfurações gástricas são causadas por carcinoma
Perfuração de 2 cm ou mais, duodenalRessecção ou reparo com exclusão pilórica e/ou drenagem biliar externaFechamento de perfuração grande com epíplon tem fístula relatada em até 12%
Choque séptico com desarranjo fisiológico graveControle de danos: procedimento abreviado, sem anastomose, fechamento temporário e reoperação programadaDuodenostomia só como último recurso; ressecção ampular não se faz em peritonite

Ar livre no abdome que não é úlcera perfurada

CausaO que denuncia
Laparotomia ou videolaparoscopia recenteAr residual pode persistir por dias; abdome flácido, paciente evoluindo bem, quantidade decrescente nas imagens seriadas
Diálise peritonealAr introduzido pelo sistema; história basta, sem peritonite associada
Perfuração iatrogênica em endoscopia ou colangiopancreatografiaProcedimento nas horas anteriores; aqui há perfuração de verdade, e a origem muda a operação
Barotrauma em ventilação mecânicaEnfisema em outros compartimentos, pressões de via aérea elevadas, abdome sem defesa
Pneumatose intestinalAr na parede da alça na tomografia, não apenas livre na cavidade

Os pré-requisitos do tratamento não operatório são seis: vazamento não detectado radiologicamente, exame clínico repetido, exames laboratoriais repetidos, suporte respiratório e renal, recursos de monitorização e prontidão para operar. Faltando qualquer um, a indicação some.

Cada hora de atraso entre a admissão e a cirurgia associou-se a redução ajustada de 2,4% na probabilidade de sobrevida em coorte dinamarquesa de 2.688 pacientes. Atraso pré-operatório acima de 24 horas e intervalo perfuração-cirurgia acima de 36 horas pioram o desfecho.

Hipoalbuminemia é o preditor isolado mais forte de mortalidade na úlcera perfurada — mais forte que qualquer um dos escores compostos.

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Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Úlcera crônica perfurada: rafia ou gastrectomia

Corpo brasileiro de 2005: a técnica segue a idade da úlcera

A úlcera aguda perfurada, aquela que não apresenta calo fibroso ao redor da perfuração, deve ser tratada com a simples sutura da lesão; a úlcera crônica perfurada deve ser tratada sempre que possível pela gastrectomia. O argumento é a recidiva: rafia isolada convivia com recidiva acima de 50%, vagotomia com drenagem por volta de 10% e gastrectomia parcial abaixo de 1%. A gastrectomia era evitada diante de inexperiência do cirurgião, cavidade muito contaminada, mau estado geral, idade acima de 60 anos, perfuração com mais de 24 horas e lesões maiores.

Ilias EJ, Kassab P. Úlcera péptica perfurada: sutura ou gastrectomia? Rev Assoc Med Bras. 2005;51(1).

Corpo internacional de 2020: a técnica segue o tamanho da perfuração

Perfuração menor que 2 cm recebe rafia primária, independentemente de a úlcera ser aguda ou crônica; ressecção fica reservada a perfuração de 2 cm ou mais, suspeita de malignidade em úlcera gástrica grande ou impossibilidade técnica de reparo. Não há recomendação de cirurgia antiulcerosa definitiva de rotina. O que mudou entre um documento e outro não foi a taxa de recidiva medida em 2005, e sim quem passou a controlá-la: com a erradicação do Helicobacter pylori e a suspensão do anti-inflamatório, a recidiva deixou de ser problema cirúrgico, enquanto a mortalidade de uma ressecção gástrica em abdome contaminado permaneceu a mesma.

Tarasconi A, et al. Perforated and bleeding peptic ulcer: WSES guidelines. World J Emerg Surg. 2020;15:3.

Na prova

O recorte se denuncia no vocabulário do enunciado. Vinheta que descreve calo fibroso, bordas endurecidas de úlcera crônica e história longa de doença ulcerosa está falando a língua do documento nacional de 2005; vinheta que informa o tamanho da perfuração em centímetros, cita uso de anti-inflamatório e menciona programação de erradicação está falando a língua da diretriz de 2020. As alternativas também entregam: se aparecerem vagotomia troncular com piloroplastia ou antrectomia entre as opções de um paciente estável com perfuração pequena, o enunciado está construído sobre o corpo histórico.

Laparoscopia na perfuração: recomendação de mérito e cláusula de exequibilidade

A recomendação: laparoscopia no paciente estável

Em paciente estável, sugere-se abordagem laparoscópica (2B). A base é uma metanálise de 8 ensaios randomizados com 615 pacientes, que mostrou menos dor nas primeiras 24 horas e menos infecção de ferida operatória, sem diferença em mortalidade, fístula da rafia, abscesso intra-abdominal ou reoperação.

Tarasconi A, et al. WSES guidelines. World J Emerg Surg. 2020;15:3.

A cláusula da própria diretriz: via aberta na ausência de habilidade e equipamento

O mesmo enunciado recomenda a via aberta na ausência de habilidade e de equipamento laparoscópicos, e recomenda cirurgia aberta no paciente instável (1D). A causa da diferença entre o que se recomenda e o que se faz no plantão brasileiro não é discordância de mérito, é exequibilidade: torre de videocirurgia disponível de madrugada e cirurgião treinado em videocirurgia de urgência não são regra no hospital geral. Onde essa condição não está dada, a própria diretriz manda operar aberto — e o ganho perdido é dor nas primeiras 24 horas e infecção de ferida, não sobrevida.

Tarasconi A, et al. WSES guidelines. World J Emerg Surg. 2020;15:3.

Na prova

Palavras como cirurgião experiente em videocirurgia, hospital terciário ou serviço de referência colocam a questão no mundo da recomendação. Plantão geral, hospital de pequeno porte, instabilidade hemodinâmica, choque ou uso de vasopressor colocam a questão no mundo da cláusula, e a resposta migra para laparotomia mediana. Uma alternativa que ofereça laparoscopia a paciente em uso de noradrenalina denuncia sozinha o recorte.

Choque no escore de Boey: sistólica abaixo de 100 ou abaixo de 90 mmHg

Descrição original: sistólica abaixo de 100 mmHg

A definição original do escore, na coorte de úlcera duodenal perfurada, operacionaliza choque à admissão como pressão arterial sistólica menor que 100 mmHg, ao lado de doença clínica grave concomitante e de duração dos sintomas maior que 24 horas.

Boey J, et al. Risk stratification in perforated duodenal ulcers. Ann Surg. 1987;205(1):22-26.

Validações contemporâneas: sistólica abaixo de 90 mmHg

Parte dos estudos de validação aplica o corte de 90 mmHg, alinhando a variável ao limiar de hipotensão consolidado depois em sepse e trauma. A causa é cronológica: o escore nasceu em 1987, antes da padronização dos cortes de hipotensão usados hoje, e os validadores preferiram compatibilizá-lo com o resto da prática.

Estudos de validação dos escores prognósticos na úlcera péptica perfurada, incluindo a análise populacional publicada no J Gastrointest Surg em 2014.

Na prova

A faixa entre 90 e 99 mmHg de sistólica é o único intervalo em que as duas definições dão pontuações diferentes. Quando a banca quer testar o Boey, ela costuma dar pressão bem abaixo de 90 ou francamente normal, justamente para não depender do corte; enunciado que escreve a palavra choque ou informa uso de vasopressor já resolveu a variável antes da conta. Enunciado que entrega sistólica de 94 mmHg e pede o escore exato está pedindo um número que os documentos não fecham.

Tratamento não operatório: seleção rigorosa e o recurso que ela exige

A porta estreita da diretriz

Sugere-se contra o uso rotineiro do tratamento não operatório; ele pode ser considerado em casos extremamente selecionados, com perfuração bloqueada comprovada por estudo com contraste hidrossolúvel (2C). Havendo extravasamento livre de contraste, opera-se.

Tarasconi A, et al. WSES guidelines. World J Emerg Surg. 2020;15:3.

O pré-requisito que inverte a intuição

Os seis erres exigidos — vazamento não detectado radiologicamente, exame clínico repetido, exames laboratoriais repetidos, suporte respiratório e renal, recursos de monitorização e prontidão para operar — descrevem uma estrutura de terapia intensiva com imagem contrastada e sala disponível a qualquer hora. A leitura de exequibilidade é o contrário do que parece: o serviço que não tem estrutura para operar também não tem estrutura para não operar com segurança, porque 28% dos pacientes conduzidos assim falharam em 12 horas e precisaram de cirurgia de qualquer modo, com o relógio já correndo contra.

Croft et al., ensaio randomizado de 1989 com 83 pacientes, reproduzido na diretriz da WSES 2020.

Na prova

Enunciado que informa estudo com contraste hidrossolúvel sem extravasamento, paciente estável, sem peritonite e sem sepse está construindo a exceção. Enunciado que oferece tratamento não operatório como saída para paciente idoso, chocado ou de alto risco cirúrgico está construindo o distrator — risco cirúrgico alto é motivo para abreviar a operação, não para deixar de operar.

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Caso resolvido

Homem de 52 anos, em uso diário de diclofenaco há três meses por lombalgia, chega ao pronto-socorro com dor epigástrica de início súbito há 4 horas, que se generalizou pelo abdome e irradia para o ombro direito. Permanece imóvel na maca. Pressão arterial 122/78 mmHg, frequência cardíaca 106 bpm, frequência respiratória 24 irpm, temperatura axilar 37,6 °C. Abdome em tábua, doloroso difusamente, com ruídos hidroaéreos abolidos; à percussão, não se obtém macicez hepática. Leucócitos 16.400/mm³, amilase 210 U/L, lactato 1,8 mmol/L. Radiografia de tórax em ortostase mostra finas lâminas de ar sob as duas cúpulas diafragmáticas.
achado
Dor de início abrupto com peritonite generalizada em usuário crônico de anti-inflamatório, com perda da macicez hepática ao exame e pneumoperitônio na radiografia. O quadro tem quatro horas, ou seja, ainda na fase de peritonite química.
interpretação
A amilase de 210 U/L é a armadilha montada: ela sobe na úlcera perfurada e convida ao diagnóstico de pancreatite. Quem decide é o abdome rígido com ar livre. História clara mais peritonite mais pneumoperitônio já autoriza a exploração cirúrgica, sem exame de imagem adicional.
estratificação
Escore de Boey igual a 0: sem choque (sistólica de 122 mmHg), sem doença clínica grave concomitante e com menos de 24 horas de sintomas. É o paciente de menor risco da série, e o que ele mais tem a perder é tempo.
conduta imediata
Acesso venoso, volume com alvos de pressão arterial média maior ou igual a 65 mmHg e diurese maior ou igual a 0,5 mL/kg/h, sonda nasogástrica, inibidor de bomba de prótons e antibiótico de amplo espectro contra gram-negativos, gram-positivos e anaeróbios, iniciado o mais cedo possível e, de preferência, após a coleta de líquido peritoneal. Encaminhamento imediato à cirurgia.
operação
Paciente estável: laparoscopia é a via sugerida se houver equipe e equipamento; do contrário, laparotomia. Encontrada perfuração de 6 mm na parede anterior do bulbo duodenal, faz-se rafia primária, com ou sem retalho de epíplon, seguida de lavagem ampla da cavidade e coleta de material para cultura de bactérias e fungos.
depois
Antibiótico por 3 a 5 dias ou até normalização dos marcadores inflamatórios, sem antifúngico empírico. Suspensão definitiva do diclofenaco, inibidor de bomba de prótons e programação de pesquisa e erradicação do Helicobacter pylori — é essa parte, e não a rafia, que impede a recidiva.
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Agora feche você

Homem de 74 anos, hipertenso e com doença renal crônica, trazido por familiares com 40 horas de dor abdominal que começou de forma súbita e hoje se acompanha de vômitos e sonolência. Pressão arterial 78/44 mmHg mesmo após 30 mL/kg de cristaloide, frequência cardíaca 128 bpm, temperatura 35,4 °C, lactato 6,1 mmol/L, INR 1,9, creatinina 3,2 mg/dL. Abdome distendido, difusamente doloroso, com defesa. Tomografia de abdome mostra pneumoperitônio volumoso, líquido livre em todos os quadrantes e solução de continuidade de cerca de 1 cm na parede anterior do bulbo duodenal. Iniciados noradrenalina e antibiótico de amplo espectro após coleta de hemoculturas.
achado
Úlcera duodenal perfurada com 40 horas de evolução, peritonite difusa e choque séptico refratário a volume, com hipotermia, acidose e coagulopatia instaladas.
estratificação
Escore de Boey igual a 3: choque à admissão, doença clínica grave concomitante e mais de 24 horas de perfuração. É o estrato de maior mortalidade, e o intervalo perfuração-cirurgia já passou das 36 horas.
conduta
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Onde a banca derruba

  1. 1Concluir que radiografia sem ar livre afasta perfuração O pneumoperitônio aparece em algo entre 30% e 85% das perfurações, dependendo da série. É o achado mais específico e um dos menos sensíveis da cirurgia de urgência, e a vinheta explora exatamente essa assimetria. Radiografia negativa com peritonite pede tomografia — e, se a tomografia também vier normal, o que pode ser em até 12% dos casos, pede tomografia com contraste hidrossolúvel oral ou por sonda.
  2. 2Trocar úlcera perfurada por pancreatite por causa da amilase A amilase sérica sobe na perfuração e a vinheta costuma entregar um valor moderadamente elevado justamente para desviar. O que distingue é o exame físico: a pancreatite dói muito e enrijece pouco; a perfuração produz contratura involuntária generalizada desde o início. Uma amilase de duas a três vezes o normal em abdome em tábua é achado da perfuração, não diagnóstico alternativo.
  3. 3Pedir mais imagem em quem já tem indicação cirúrgica Ar livre com história clara e peritonite já basta para a exploração. A alternativa que oferece um exame adicional parece prudente e cobra caro: cada hora de atraso entre a admissão e a cirurgia associou-se a queda ajustada de 2,4% na probabilidade de sobrevida. Exame que não muda a operação não entra na conta do paciente instável.
  4. 4Ler a fase de latência como melhora Entre a segunda e a décima segunda hora o exsudato dilui o ácido e a dor cede. O paciente que dizia estar morrendo agora conversa. Vinheta que descreve alívio espontâneo depois de uma dor em punhalada não está oferecendo alta, está marcando o relógio: a peritonite bacteriana vem em seguida, e com ela o choque.
  5. 5Tratar todo pneumoperitônio como víscera perfurada Ar residual de laparotomia ou videolaparoscopia recente persiste por dias, diálise peritoneal introduz ar e barotrauma produz pneumoperitônio sem perfuração. Quem indica a sala é o abdome, não o filme. O contrário também vale: abdome cirúrgico sem ar na imagem continua sendo abdome cirúrgico.
  6. 6Fechar a perfuração gástrica grande sem pensar em câncer De 10% a 16% de todas as perfurações gástricas são causadas por carcinoma. Perfuração gástrica de 2 cm ou mais, com bordas endurecidas, pede ressecção com exame de congelação intraoperatório sempre que possível — e, no mínimo, biópsia das bordas. Rafia simples e alta transformam uma urgência resolvida num câncer perdido.
  7. 7Achar que a operação encerrou o tratamento Antes da era da erradicação, a rafia isolada convivia com recidiva acima de 50%, e era essa recidiva que justificava operar o estômago. Hoje o que fecha o ciclo é suspender o anti-inflamatório, manter inibidor de bomba de prótons e erradicar o Helicobacter pylori. A alternativa que descreve alta hospitalar sem essas três medidas está incompleta mesmo quando a cirurgia foi impecável.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Dor epigástrica súbita que se difunde, abdome em tábua e uso de AINE sugerem úlcera péptica perfurada com peritonite. A radiografia de tórax em ortostase (ou abdome com raios horizontais) evidencia pneumoperitônio (ar subdiafragmático), confirmando perfuração de víscera oca. Ultrassom de vias biliares avalia colecistite. Níveis hidroaéreos em delgado sugerem obstrução, não perfuração. Enema opaco é contraindicado na suspeita de perfuração. Angiotomografia mesentérica investiga isquemia, cujo quadro difere (dor desproporcional, acidose).

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Repita em voz alta: parede duodenal posterior sangra, anterior perfura. Ar livre visto em 30% a 85% — radiografia negativa não afasta. História clara mais peritonite mais ar livre já autoriza a sala, sem tomografia. Boey: choque à admissão, doença clínica grave, sintomas por mais de 24 horas, um ponto cada. Perfuração menor que 2 cm, rafia primária; 2 cm ou mais, individualizar pelo sítio, com congelação se houver suspeita de câncer gástrico.

em 30 dias

Refaça o raciocínio de estratificação em três vinhetas diferentes: um Boey 0 estável em 4 horas, um Boey 2 com 30 horas e um Boey 3 em choque. Para cada um, escolha via de acesso, reparo e destino pós-operatório, e justifique com a fisiologia — por que a laparoscopia sai da mesa quando entra o vasopressor, por que o controle de danos abrevia em vez de resolver, por que o antifúngico não é empírico. Termine listando, sem consultar, as três medidas de alta que impedem a recidiva.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 47 anos, tabagista, em uso de ibuprofeno há duas semanas por dor no joelho, chega ao pronto-socorro com dor epigástrica de início súbito há 3 horas, hoje espalhada por todo o abdome, que piora com qualquer movimento. Está pálido, taquicárdico e prefere não ser tocado. Conduza a avaliação inicial, defina a imagem e decida o destino. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Úlcera péptica perfurada — Preparatório para provas | OsceLabs