Cirurgia GeralUrgência e Emergência Cirúrgica

Abdome agudo: os cinco tipos

Abdome agudo inflamatório x obstrutivo x perfurativo x vascular x hemorrágico

A vinheta quase nunca entrega o nome da doença — entrega uma dor. O que vale ponto é dizer em qual dos cinco tipos ela cai, porque é a classificação que define a imagem, o relógio e quem vai para a sala sem passar pelo tomógrafo.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Mulher de 68 anos, portadora de fibrilação atrial sem anticoagulação, com dor abdominal súbita e intensa há 5 horas, difusa e mal localizada. Refere náuseas e evacuação com sangue. PA 100x62 mmHg, FC 118 bpm (irregular). Ao exame, o abdome está pouco doloroso à palpação, desproporcional à intensidade da queixa. Lactato sérico elevado. Qual é o diagnóstico mais provável?

02

Como esse tema cai

Este capítulo é o de cima. Pancreatite, colecistite, apendicite, obstrução e diverticulite têm capítulo próprio nesta apostila e não são reescritos aqui — aqui está o passo anterior, o que você faz quando a vinheta ainda não disse o nome da doença e só entregou uma dor abdominal aguda. Classificar em um dos cinco tipos é o que define qual imagem pedir, quanto tempo você tem e se o paciente passa ou não pelo tomógrafo antes da sala.

Os cinco tipos são categorias, não uma escala de gravidade. Uma pancreatite necrosante mata mais que muita obstrução, e o obstrutivo com alça estrangulada é tão urgente quanto o perfurativo. O que a classificação organiza é o mecanismo — inflamação, obstáculo mecânico, furo em víscera oca, interrupção de fluxo, sangue livre na cavidade — e cada mecanismo tem uma pista de história, um exame e uma imagem que o confirmam.

Dois dos cinco só existem neste capítulo. O vascular, a isquemia mesentérica aguda, é a doença em que a dor é intensa e o exame é pobre, o lactato normal engana e cada 6 horas de atraso na angiotomografia dobra a mortalidade. O hemorrágico — aneurisma roto, gestação ectópica rota, rotura esplênica — é aquele em que o abdome quase não dói e o que grita é a hemodinâmica. Esses dois recebem aqui a profundidade que teriam se tivessem capítulo próprio.

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O que muda decisão

A pergunta que vem antes do diagnóstico

Diante de dor abdominal aguda, três perguntas resolvem a vinheta, nessa ordem. A primeira é hemodinâmica: este paciente responde? A segunda é peritoneal: há sinal de irritação difusa? A terceira, e só a terceira, é diagnóstica: em qual dos cinco tipos esta dor cai? Quem inverte a ordem manda para o tomógrafo um paciente que precisava da sala.

A história responde quase tudo. Dor que se instala em segundos, com hora e minuto marcados, é rotura ou obstrução vascular — perfurativo, vascular ou hemorrágico. Dor que se instala em minutos a poucas horas e vai piorando, com febre e leucocitose, é inflamatória. Dor em cólica, em ondas, com vômitos e parada de eliminação de gases e fezes, é obstrutiva. É por isso que a pergunta certa na anamnese não é onde dói, é quando começou e quanto tempo levou para chegar ao auge.

O exame físico separa o resto. Abdome em tábua, imóvel, que dói ao menor toque e não faz ruído, é perfurativo até prova em contrário. Abdome distendido e timpânico com ruídos metálicos é obstrutivo. Dor localizada com defesa em um quadrante e febre é inflamatório. E há dois padrões que enganam justamente por serem discretos: o abdome que quase não tem achados em paciente que se contorce de dor, que é vascular, e o abdome pouco impressionante em paciente pálido, taquicárdico e hipotenso, que é hemorrágico. Nesses dois, quem se guia pela palpação erra.

Inflamatório e obstrutivo: o que este capítulo não repete

O abdome agudo inflamatório é o mais comum e o mais bem coberto nesta apostila. Ele tem uma assinatura: a dor sobe em horas, localiza-se, ganha febre e leucocitose, e o peritônio reage num quadrante só. As entidades aparecem aqui em uma linha cada, porque cada uma tem seu capítulo — apendicite aguda, a dor que migra do epigástrio para a fossa ilíaca direita; colecistite aguda, dor no hipocôndrio direito com Murphy e critérios de Tóquio; pancreatite aguda, dor epigástrica em faixa com enzimas três vezes o normal; diverticulite aguda, dor na fossa ilíaca esquerda com tomografia mostrando perfuração contida. O que muda a conduta em todas é a mesma pergunta: a inflamação está contida ou já perfurou e se espalhou?

O abdome agudo obstrutivo tem a assinatura mais fácil de reconhecer e a decisão mais difícil de tomar: dor em cólica, vômitos, distensão, parada de eliminação de gases e fezes, alças dilatadas até um ponto de transição. O detalhe que importa para este capítulo é que obstrução não é sinônimo de espera — a alça estrangulada é um abdome vascular disfarçado de obstrutivo, e o que a denuncia é a dor que deixa de ser em cólica e passa a contínua. O manejo por extenso, com o prazo de 72 horas e o contraste hidrossolúvel, está no capítulo de obstrução intestinal.

Uma nota que só faz sentido no capítulo sindrômico: os tipos conversam entre si e migram. A apendicite não tratada perfura e vira perfurativo. A obstrução de alça fechada estrangula e vira vascular. A pancreatite necrosante sangra e vira hemorrágica. A vinheta que descreve um quadro arrastado que mudou de padrão nas últimas horas está descrevendo essa migração, e a conduta segue o tipo novo, não o antigo.

Perfurativo: o ar livre que em um terço dos casos não aparece

A vinheta clássica é curta: dor epigástrica de início súbito, descrita como punhalada, em paciente com dispepsia ou uso de anti-inflamatório, evoluindo em minutos para abdome rígido e imóvel. É a úlcera péptica perfurada, e é ela que dá nome ao tipo. Mas o próprio exame que se espera encontrar falha com frequência incômoda: a peritonite localizada ou generalizada, tida como típica, está presente em apenas dois terços dos pacientes, e falta justamente nos casos de perfuração bloqueada ou tamponada.

O número que decide a questão é o do ar livre. A presença de pneumoperitônio na radiografia simples varia entre 30 e 85% das perfurações conforme a série — ou seja, em boa parte dos casos a radiografia é normal e o paciente está perfurado. Radiografia em pé e em decúbito lateral esquerdo têm acurácia semelhante, e a segunda é mais tolerável para quem está com peritonite. A leitura prática: ar livre na radiografia, com história compatível e peritonite ao exame, já basta para indicar exploração cirúrgica; radiografia sem ar livre não afasta nada.

Por isso a diretriz coloca a tomografia como o exame recomendado na suspeita de perfuração (grau 1C) e reserva a radiografia de tórax e abdome para quando a tomografia não estiver prontamente disponível (grau 1C). E vai além: até 12% dos pacientes perfurados têm tomografia normal. Quando a suspeita persiste e não se vê ar livre em nenhum exame, a saída é repetir a imagem com contraste hidrossolúvel por via oral ou pela sonda nasogástrica (grau 2D) — o extravasamento fecha o diagnóstico.

A conduta tem indicação e tem relógio. Pneumoperitônio significativo, extravasamento de contraste ou sinais de peritonite indicam tratamento operatório (grau 1C), e a cirurgia deve ser feita o quanto antes, sobretudo em apresentação tardia e em maiores de 70 anos (grau 1B). O dado que sustenta a pressa vem de coorte dinamarquesa com 2.688 pacientes: cada hora de atraso entre a admissão e a cirurgia se associou a uma redução ajustada de 2,4% na probabilidade de sobrevida em relação à hora anterior. Os escores Boey, PULP e asa servem para estratificar risco e prever desfecho, não para decidir se opera (grau 2C).

Existe tratamento não operatório da úlcera perfurada, e ele cai como distrator. Os pré-requisitos são estreitos: sinais vitais normais, paciente estável, ausência de peritonite ou sepse e, principalmente, prova de que a perfuração se bloqueou — estudo com contraste hidrossolúvel sem extravasamento. Havendo vazamento livre de contraste, a indicação é cirúrgica. O pacote inclui jejum, hidratação, sonda nasogástrica, inibidor de bomba de prótons, antibiótico endovenoso, reavaliação clínica repetida e endoscopia de controle em 4 a 6 semanas — e cautela redobrada acima dos 70 anos, em quem a falha do conservador custa caro.

Vascular: dor intensa, exame pobre, e o relógio que ninguém vê

A isquemia mesentérica aguda é rara e mata. Responde por 0,09 a 0,2% das admissões cirúrgicas agudas, mas a mortalidade se mantém acima de 50%, e as séries relatam de 30 a 70% conforme o atraso diagnóstico. A recomendação de abertura da diretriz é uma regra de suspeição, não de diagnóstico: dor abdominal intensa desproporcional aos achados do exame físico deve ser assumida como isquemia mesentérica até que se prove o contrário (grau 1C).

A explicação da desproporção é anatômica e vale ponto: a isquemia começa na mucosa e progride em direção à serosa. Enquanto o processo não alcança o peritônio visceral, há dor visceral intensa sem nenhum sinal de irritação peritoneal. Quando o exame finalmente mostra peritonite, a leitura não é de alívio — é de isquemia irreversível com necrose instalada. Some-se que a apresentação clássica está ficando menos comum, e ganha espaço o quadro agudo sobre crônico, no paciente com dor pós-prandial e perda de peso prévias que agora piorou.

São quatro mecanismos, e o mecanismo é o que a vinheta entrega pelos fatores de risco. A embolia arterial mesentérica responde por cerca de 50% dos casos e vem com fibrilação atrial, infarto recente, trombo cardíaco, valvopatia mitral, endocardite ou embolia prévia — dor de início abrupto e máxima desde o começo. A trombose arterial mesentérica, 15 a 25%, ocorre sobre aterosclerose difusa e costuma ter pródromo de angina abdominal, dor pós-prandial e emagrecimento. A isquemia mesentérica não oclusiva, ou NOMI, aparece em cerca de 20% e é vasoconstrição esplâncnica em paciente grave — insuficiência cardíaca, choque, baixo débito, uso de vasopressor, disfunção de múltiplos órgãos. A trombose venosa mesentérica responde por 5 a 15% dos casos e por menos de 10% dos infartos intestinais, é de instalação mais lenta e vem com trombofilia, hipertensão portal, neoplasia ou pancreatite.

O laboratório serve para corroborar, nunca para descartar. A diretriz é explícita: não há parâmetro laboratorial suficientemente acurado para confirmar ou afastar isquemia ou necrose intestinal, embora l-lactato elevado, leucocitose e D-dímero possam ajudar (grau 2B). Mais de 90% dos pacientes têm leucocitose e 88% têm acidose metabólica com lactato elevado — só que lactato alto também aparece por desidratação, e lactato acima de 2 mmol/L se associa a isquemia já irreversível, com razão de risco 4,1 (IC95% 1,4-11,5). O D-dímero acima de 0,9 mg/L teve especificidade de 82%, sensibilidade de 60% e acurácia de 79%, e a série não encontrou isquemia intestinal em nenhum paciente com D-dímero normal. Há uma armadilha laboratorial específica: a amilase está elevada em cerca de metade dos pacientes com isquemia mesentérica, e é assim que o quadro vira pancreatite no diagnóstico errado.

A imagem tem uma resposta só. A angiotomografia deve ser feita sem demora em qualquer paciente com suspeita de isquemia mesentérica aguda (grau 1A) — é a recomendação de maior grau de toda a diretriz. A radiografia simples de abdome não é recomendada na avaliação de isquemia intestinal (grau 1B), porque só se altera quando já há infarto e perfuração. A tomografia multidetectores substituiu a arteriografia formal como exame diagnóstico de escolha, e o protocolo é bifásico: aquisição sem contraste para ver calcificação, trombo hiperatenuante e hemorragia intramural; fases arterial e venosa para mostrar trombo nas artérias e veias mesentéricas, realce anormal da parede intestinal e êmbolos ou infartos em outros órgãos; e reconstruções multiplanares para avaliar a origem dos vasos.

Duas ordens práticas do protocolo caem literalmente. O contraste oral não é indicado e é até prejudicial — ele opacifica a luz e apaga justamente o realce da parede que se quer avaliar, além de atrasar o exame. E a angiotomografia deve ser feita apesar da presença de lesão renal aguda, porque as consequências do diagnóstico tardio ou perdido são muito mais graves para o paciente do que a exposição ao contraste iodado. O relógio é o argumento: cada 6 horas de atraso no diagnóstico, isto é, de atraso na angiotomografia, dobra a mortalidade.

O tratamento tem uma sequência fixa. Feito o diagnóstico, começa imediatamente a reposição volêmica para melhorar a perfusão visceral, corrigem-se os distúrbios eletrolíticos e passa-se sonda nasogástrica (grau 1B); antibiótico de amplo espectro entra logo (grau 1C); e a anticoagulação com heparina é iniciada. Paciente com peritonite franca vai para laparoscopia ou laparotomia sem demora (grau 1C). Quando há oclusão arterial e existe expertise disponível, a revascularização endovascular é a opção primária (grau 1C) — em uma série, dos 104 pacientes não revascularizados 62% morreram em 30 dias, contra 42% dos 85 revascularizados. A trombose venosa mesentérica frequentemente se resolve apenas com infusão contínua de heparina não fracionada (grau 1B). E na NOMI o alvo é a causa: corrigir o baixo fluxo, retirar o que vasoconstringe e ressecar prontamente apenas o intestino já infartado (grau 1C).

A cirurgia de controle de danos com fechamento temporário do abdome é adjunto importante em quem precisa de ressecção intestinal, porque permite reavaliar a viabilidade da alça numa segunda operação e lidar com a sepse abdominal grave (grau 1B). O princípio que organiza a mesa é restabelecer o fluxo antes de decidir o que ressecar — alça que parece morta pode reperfundir. O registro do comprimento de intestino restante em cada operação é obrigatório, e a diretriz recomenda ainda que o tratamento seja concentrado em centro dedicado, com equipe multidisciplinar de cirurgião de urgência, cirurgião vascular, radiologista intervencionista e intensivista (grau 1C).

Aorta abdominal e artéria mesentérica superior com um êmbolo alojado logo após os primeiros ramos; as alças irrigadas antes do êmbolo estão coradas e as irrigadas depois estão pálidas e acinzentadas.
O território é o diagnóstico. O êmbolo se aloja dentro da artéria mesentérica superior e o intestino a jusante empalidece em bloco, com limite nítido — é esse recorte anatômico que a angiotomografia procura, e é por isso que o exame precisa ter fase arterial.

Hemorrágico: o abdome que quase não dói e a hemodinâmica que grita

No abdome agudo hemorrágico o sangue está livre na cavidade ou no retroperitônio, e o sangue é mau irritante peritoneal comparado ao pus ou ao suco gástrico. O resultado é a dissociação inversa da do vascular: aqui o abdome está distendido e difusamente doloroso, mas sem a rigidez que se espera, enquanto o paciente está pálido, taquicárdico, com pressão de pulso estreitada e às vezes com história de síncope. Quem procura peritonite antes de olhar a perfusão perde tempo.

A ultrassonografia à beira do leito responde à única pergunta que importa naquele minuto: há líquido livre? É o mesmo FAST do trauma, usado fora do trauma. Ele não diz de onde vem o sangue, não mede quanto tem e não enxerga o retroperitônio — e é justamente por não enxergar o retroperitônio que um exame negativo não afasta aneurisma roto. O que o FAST positivo faz é encurtar a discussão: líquido livre em paciente instável é indicação de sala, não de tomografia.

O aneurisma de aorta abdominal roto é o quadro-tipo do hemorrágico no idoso. A apresentação que a vinheta monta é dor abdominal ou lombar de início súbito, hipotensão e massa abdominal pulsátil, em homem idoso, tabagista, hipertenso — e não é raro que ele chegue com síncope como queixa principal e sem massa palpável, porque obesidade e hipotensão escondem o achado. O manejo pré-operatório tem um alvo contraintuitivo: hipotensão permissiva, com sistólica mantida entre 70 e 90 mmHg pela oferta contida de fluido, enquanto o paciente permanecer consciente. O protocolo institucional lido chega a definir estabilidade hemodinâmica nesse cenário como manter-se consciente com sistólica entre 70 e 90 mmHg por pelo menos 5 minutos sem fluido nem droga vasoativa. Encher esse paciente de cristaloide para normalizar a pressão desfaz o coágulo contido e converte uma rotura tamponada em hemorragia livre.

A angiotomografia entra no roto para planejar o reparo, inclusive em quem não está estável — porque a escolha entre reparo endovascular e cirurgia aberta depende da anatomia, e o reparo endovascular é preferido sempre que a anatomia permitir. Para o paciente que não responde a fluido nem a droga, existe o recurso de controle proximal por balão de oclusão aórtica, que pode ser passado sob anestesia local antes do reparo endovascular ou aberto. É aqui que mora a divergência prática mais interessante do capítulo, tratada adiante: no aneurisma roto o instável frequentemente passa pela imagem, ao contrário da regra que ele aprendeu no trauma.

A gestação ectópica rota é o hemorrágico da mulher em idade fértil, e é o diagnóstico que mais se perde por não se pensar nele. O quadro descrito no protocolo brasileiro é característico: atraso menstrual, dor sincopal e lancinante, dor escapular por irritação diafragmática, sinais de choque hipovolêmico, irritação peritoneal, e ao toque vaginal abaulamento do fundo de saco posterior com dor intensa, o grito de Douglas. O diagnóstico se faz com beta-hCG e ultrassonografia transvaginal; o valor discriminatório sugerido é de 3.510 mUI/mL, acima do qual a ausência de saco gestacional tópico indica gravidez inviável — sem, contudo, distinguir ectópica de abortamento.

A conduta na ectópica separa três mundos e a prova cobra a fronteira. Conduta expectante é possível com beta-hCG abaixo de 2.000 mUI/mL, pouca dor, pouco sangramento, estabilidade e seguimento garantido. Metotrexato exige estabilidade hemodinâmica, beta-hCG até 5.000 mUI/mL, massa anexial menor que 40 mm e íntegra, embrião sem atividade cardíaca, ausência de irritação peritoneal e sem contraindicação laboratorial. Conduta cirúrgica é obrigatória na gestação rota, na irritação peritoneal, na iminência de choque hemorrágico, com beta-hCG acima de 5.000 mUI/mL, massa de 40 mm ou mais, embrião com batimentos ou paciente sem condições de seguimento. E a via muda com a hemodinâmica: a laparotomia está indicada na instabilidade hemodinâmica, e a salpingectomia, e não a salpingostomia, é a escolha em prole constituída, lesão tubária irreparável, sangramento persistente, recidiva na mesma tuba e beta-hCG muito elevado, porque acima de 5.000 mUI/mL o trofoblasto costuma ter invadido a camada muscular até a serosa.

A rotura esplênica fecha a lista. No trauma ela é assunto do capítulo específico da apostila de trauma; o que interessa aqui é a versão que chega ao pronto-socorro clínico, a rotura de baço aumentado por doença — mononucleose infecciosa, dengue, malária, leucemia, esplenomegalia congestiva — em que um trauma trivial, ou nenhum trauma, produz hemoperitônio maciço. A pista é a dor em hipocôndrio esquerdo com irradiação para o ombro esquerdo, o sinal de Kehr, em paciente com quadro infeccioso recente e queda de hematócrito. O raciocínio é o mesmo dos outros dois: o abdome informa pouco, a perfusão informa tudo, e instabilidade com líquido livre é sala.

Corte do abdome mostrando a aorta infrarrenal dilatada em aneurisma fusiforme com trombo mural, rota na parede posterolateral esquerda, com hematoma volumoso no retroperitônio deslocando o rim e a gordura para a frente.
O aneurisma quase sempre rompe para trás, para o retroperitônio, e é o próprio retroperitônio que tampona o sangramento por algum tempo. Isso explica as duas coisas que confundem: a ultrassonografia à beira do leito pode não ver líquido livre, e normalizar a pressão com volume desfaz o tampão.

O sexto tipo que não existe: a dor abdominal que não é cirúrgica

Antes de classificar em cinco, vale gastar trinta segundos afastando o que não é abdome cirúrgico nenhum. A lista é curta e tem em comum a capacidade de produzir dor abdominal alta com exame abdominal desproporcionalmente pobre — o mesmo padrão do vascular, e é por isso que ela entra aqui e não em outro capítulo.

O infarto agudo do miocárdio de parede inferior dói no epigástrio, vem com náusea e sudorese e engana justamente no idoso e no diabético, que é o mesmo perfil de quem tem isquemia mesentérica. Por isso, dor epigástrica aguda em paciente com fatores de risco cardiovascular pede eletrocardiograma antes da indicação cirúrgica — é um exame de 3 minutos que evita uma laparotomia branca em quem estava infartando. A cetoacidose diabética produz dor abdominal intensa com defesa e vômitos que somem com insulina e volume; a glicemia capilar e a gasometria resolvem a dúvida. Pneumonia de lobo inferior e pleurite irritam o diafragma e referem dor no hipocôndrio; a ausculta e a radiografia de tórax fecham. Crise vaso-oclusiva na doença falciforme, herpes-zóster antes das vesículas e porfiria completam a lista.

A regra que organiza tudo isso: o exame que descarta a causa não cirúrgica é sempre mais barato e mais rápido do que a operação que ela provocaria. Eletrocardiograma, glicemia, gasometria, beta-hCG na mulher em idade fértil e radiografia de tórax custam minutos e mudam o tipo do abdome agudo — ou o tiram da lista.

Quem vai para a sala sem passar pela imagem

Há uma lista curta de situações em que a imagem não muda a conduta e só consome tempo. Peritonite difusa em paciente com abdome em tábua já tem indicação cirúrgica; a tomografia acrescenta o nome da doença, não a decisão. Instabilidade hemodinâmica que não responde à reposição inicial, com líquido livre à ultrassonografia de beira de leito, é sala. Gestação ectópica rota com sinais de choque tem indicação cirúrgica pelo quadro, e a via é a laparotomia. E o paciente com isquemia mesentérica confirmada e peritonite franca vai para laparoscopia ou laparotomia sem demora, porque peritonite ali significa necrose já instalada.

A regra oposta também precisa ser dita, porque a prova cobra as duas pontas: fora dessas situações, imagem cedo é o que salva. Na suspeita de isquemia mesentérica, o paciente estável com exame abdominal inocente é exatamente aquele que precisa de angiotomografia imediata — e é o que costuma ser mandado para observação. Na suspeita de perfuração sem ar livre na radiografia, a tomografia é o que fecha o diagnóstico. No aneurisma roto que se mantém consciente com sistólica entre 70 e 90 mmHg, a angiotomografia define se cabe reparo endovascular.

O que nunca acontece é o meio-termo confortável: reavaliar em 6 horas o paciente que você suspeita ter isquemia mesentérica, ou repetir a radiografia amanhã no que você acha que perfurou. Nos dois casos o intervalo tem preço medido — 6 horas de atraso dobram a mortalidade na isquemia mesentérica, e cada hora de atraso até a cirurgia reduz em 2,4% a probabilidade ajustada de sobrevida na úlcera perfurada.

04

Classificar em cinco

A classificação não é enfeite acadêmico: ela escolhe a imagem, define o prazo e diz se o paciente passa pelo tomógrafo. Os cinco tipos são categorias paralelas, não graus de gravidade.

  1. 1Este paciente responde? Instabilidade que persiste após a reposição inicial muda tudo o que vem depois. Se há líquido livre à ultrassonografia de beira de leito, a decisão é sala.
  2. 2Há peritonite difusa? Abdome em tábua com dor ao menor toque já indica exploração; a imagem passa a ser detalhe de planejamento, não de decisão.
  3. 3Quanto tempo a dor levou para chegar ao auge? Segundos a minutos aponta para perfurativo, vascular ou hemorrágico. Horas com febre aponta para inflamatório. Ondas de cólica com parada de eliminação apontam para obstrutivo.
  4. 4A dor bate com o exame? Dor desproporcional a um abdome pobre, em paciente com fibrilação atrial, aterosclerose ou baixo débito, é isquemia mesentérica até prova em contrário. Abdome pouco impressionante em paciente pálido e taquicárdico é hemorrágico.
  5. 5Peça a imagem certa do tipo suspeito: angiotomografia com fases arterial e venosa e sem contraste oral no vascular; tomografia no perfurativo, com contraste hidrossolúvel se não houver ar livre; ultrassonografia transvaginal com beta-hCG na mulher em idade fértil; angiotomografia no aneurisma que ainda se mantém consciente com sistólica de 70 a 90 mmHg.
  6. 6Cumpra o relógio do tipo. Isquemia mesentérica: cada 6 horas de atraso dobram a mortalidade. Úlcera perfurada: cada hora até a cirurgia custa 2,4% da probabilidade ajustada de sobrevida.

Inflamatório

Um órgão inflama e o peritônio reage ao redor dele. Dor que sobe em horas, localiza-se em um quadrante, com febre e leucocitose. A imagem mostra órgão espessado com gordura borrada em volta. Apendicite, colecistite, pancreatite e diverticulite têm capítulo próprio nesta apostila.

Obstrutivo

Um obstáculo mecânico para o trânsito. Dor em cólica, vômitos, distensão e parada de eliminação de gases e fezes. A imagem mostra alças dilatadas até um ponto de transição e colabadas depois dele. O manejo completo está no capítulo de obstrução intestinal.

Perfurativo

Uma víscera oca se abre e o conteúdo cai na cavidade. Dor súbita em punhalada e abdome em tábua, com ar livre subdiafragmático — que aparece na radiografia em 30 a 85% dos casos. Radiografia normal não afasta: o exame que decide é a tomografia.

Vascular

O fluxo para e o intestino sofre de dentro para fora. Dor intensa de início súbito com exame abdominal pobre, em paciente com fibrilação atrial, aterosclerose ou baixo débito. Angiotomografia sem demora, sem contraste oral. Cada 6 horas de atraso dobram a mortalidade.

Hemorrágico

Sangue livre na cavidade ou no retroperitônio. O abdome informa pouco e a perfusão informa tudo: palidez, taquicardia, pressão de pulso estreitada, síncope. Aneurisma roto, gestação ectópica rota e rotura esplênica. Instável com líquido livre é sala.

TipoComo a dor entraO que o exame mostraImagem que decidePara onde vai
InflamatórioSobe em horas e vai se localizando; febre e leucocitose acompanham.Dor e defesa em um quadrante, com peritonite localizada.Ultrassonografia ou tomografia conforme o órgão suspeito.Antibiótico e decisão cirúrgica conforme a doença — cada uma tem seu capítulo.
ObstrutivoCólica em ondas, com vômitos e parada de eliminação de gases e fezes.Distensão, timpanismo, ruídos aumentados e metálicos no início.Tomografia, procurando o ponto de transição e sinais de estrangulamento.Conservador com sonda e contraste, ou sala se houver estrangulamento.
PerfurativoSúbita, em punhalada, com hora marcada.Abdome em tábua e imóvel — mas peritonite está presente em só dois terços.Tomografia (1C). Ar livre na radiografia aparece em 30 a 85%; ausência não afasta.Sala o quanto antes: cada hora de atraso custa 2,4% da probabilidade ajustada de sobrevida.
VascularSúbita e intensa, máxima desde o início, ou agudizando dor pós-prandial antiga.Abdome pobre e desproporcional à dor. Peritonite aqui já significa necrose.Angiotomografia sem demora (1A), fases arterial e venosa, sem contraste oral.Revascularizar antes de decidir o que ressecar; endovascular primeiro se houver expertise (1C).
HemorrágicoSúbita, com síncope, palidez e às vezes dor referida no ombro.Distensão sem rigidez, choque desproporcional aos achados abdominais.Ultrassonografia de beira de leito no instável; angiotomografia se ainda consciente com 70 a 90 mmHg.Sala com reposição contida — normalizar a pressão desfaz o coágulo que está segurando.

Os cinco tipos são categorias, não uma escala. Pancreatite necrosante mata mais que muita obstrução, e alça estrangulada é tão urgente quanto úlcera perfurada. O que a classificação organiza é o mecanismo e o exame que o confirma.

Os tipos migram. Apendicite não tratada perfura, obstrução em alça fechada estrangula, pancreatite grave sangra. Quando a vinheta descreve um quadro que mudou de padrão nas últimas horas, a conduta segue o tipo novo.

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Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

O que o lactato vale na isquemia mesentérica precoce

A WSES mantém o lactato entre os exames que auxiliam

A recomendação 4 afirma que não há parâmetro laboratorial suficientemente acurado para confirmar ou afastar isquemia ou necrose intestinal, embora l-lactato elevado, leucocitose e D-dímero possam auxiliar (grau 2B). A acidose metabólica com lactato elevado ocorre em 88% dos pacientes, e lactato acima de 2 mmol/L se associa a isquemia intestinal irreversível com razão de risco 4,1 (IC95% 1,4-11,5). O documento acrescenta que lactato alto com dor abdominal em paciente que não parece gravemente doente deve levar à angiotomografia precoce.

Bala et al., WSES 2022 — recomendação 4 (grau 2B)

A meta-análise mostra especificidade de 44%

Revisão sistemática com meta-análise somando 1.970 pacientes encontrou sensibilidade combinada do l-lactato de 86% (IC95% 73-94%) com especificidade de apenas 44% (IC95% 32-55%), contra sensibilidade de 94% e especificidade de 95% da tomografia. Com essa especificidade, mais da metade dos lactatos alterados vem de outra coisa — desidratação, sepse, baixo débito — e o exame não confirma nada sozinho.

Cudnik et al., Acad Emerg Med 2013;20(11):1087-1100 (resumo público)

Na prova

As duas posições coincidem no ponto que a questão costuma testar: lactato normal não afasta isquemia mesentérica precoce, porque a elevação acompanha a necrose já instalada. Como identificar o recorte do enunciado: se ele descreve o lactato como critério para liberar ou observar o paciente, está testando a limitação do marcador; se pede o exame que confirma, está testando a angiotomografia. Quando o enunciado traz lactato normal junto de exame abdominal inocente em paciente com fibrilação atrial, os dois dados foram colocados ali como distratores de segurança, e as alternativas que propõem observação denunciam isso.

Angiotomografia ou arteriografia como primeiro exame no abdome agudo vascular

A WSES coloca a angiotomografia como exame inicial

A angiotomografia deve ser feita sem demora em qualquer paciente com suspeita de isquemia mesentérica aguda (grau 1A), e a tomografia multidetectores substituiu a arteriografia formal como exame diagnóstico de escolha. O protocolo bifásico com fases arterial e venosa e reconstruções multiplanares alcançou sensibilidade de 93% e especificidade de 100% em séries citadas pelo documento, e não requer sala de hemodinâmica nem equipe de plantão.

Bala et al., WSES 2022 — recomendação 5 (grau 1A)

A arteriografia segue como escolha na incerteza e é também terapêutica

O mesmo documento registra que a angiografia diagnóstica diferencia isquemia oclusiva embólica e trombótica da não oclusiva, e que, nos casos em que há incerteza diagnóstica, a arteriografia é o exame de escolha, podendo ser feita no intraoperatório em salas híbridas. Some-se que os procedimentos endovasculares de revascularização são a opção primária na oclusão arterial quando há expertise disponível (grau 1C) — o mesmo cateter que diagnostica trata.

Bala et al., WSES 2022 — texto de imagem e recomendação 10 (grau 1C)

Na prova

Não é conflito de escolas: é sequência. Como identificar o recorte: enunciado que descreve pronto-socorro geral, primeira suspeita e paciente ainda sem diagnóstico está no terreno da angiotomografia; enunciado que já dá a oclusão caracterizada, cita sala híbrida, serviço com hemodinâmica ou pergunta sobre tratamento está no terreno endovascular. Um distrator que oferece arteriografia como exame de triagem em hospital sem hemodinâmica denuncia o recorte da questão, do mesmo modo que a alternativa com contraste oral denuncia desconhecimento do protocolo.

Operar antes ou depois da imagem no paciente instável

Instabilidade indica sala, e a imagem fica para depois

No protocolo brasileiro de gestação ectópica, a conduta é cirúrgica diante de sinais de irritação peritoneal e iminência de choque hemorrágico, e a laparotomia é indicada nos casos de instabilidade hemodinâmica — a decisão vem do quadro, não de exame adicional. A WSES segue a mesma lógica na isquemia mesentérica: paciente com peritonite franca vai para laparoscopia ou laparotomia sem demora (grau 1C).

SES-DF, Protocolo de Gestação Ectópica; e Bala et al., WSES 2022 — recomendação 9 (grau 1C)

No aneurisma roto a angiotomografia é feita também no instável

O protocolo de aneurisma roto lido considera a angiotomografia essencial para o planejamento tanto no estável quanto no instável, porque a escolha entre reparo endovascular e aberto depende da anatomia, e prevê o balão de oclusão aórtica sob anestesia local como controle proximal em quem não responde a fluido e droga. A hipotensão permissiva de 70 a 90 mmHg com paciente consciente é justamente o que compra o tempo do exame.

Houston Methodist Ruptured Abdominal Aortic Aneurysm Guidelines

Na prova

O que separa as duas situações é se a imagem muda a operação. Na ectópica rota e na peritonite por necrose intestinal, a operação é a mesma com ou sem exame — então o exame só atrasa. No aneurisma roto, a imagem escolhe entre duas operações diferentes, e por isso ela cabe mesmo em quem está mal. Como identificar o recorte: enunciado que descreve serviço com equipe vascular, sala híbrida ou pergunta sobre reparo endovascular está no segundo mundo; enunciado de pronto-socorro geral com paciente que não responde ao volume está no primeiro. Régua útil: prova oficial do MEC tende a conduta compatível com a rede do SUS, e a alternativa que exige recurso indisponível costuma estar fora do recorte.

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Caso resolvido

Mulher de 79 anos, hipertensa, com fibrilação atrial e uso irregular de anticoagulante, chega ao pronto-socorro com dor abdominal difusa de início súbito há 5 horas, descrita como insuportável desde o primeiro minuto, com dois episódios de vômito e uma evacuação diarreica. Ao exame: agitada pela dor, abdome flácido, levemente distendido, doloroso à palpação difusa, sem defesa e sem descompressão dolorosa, ruídos hidroaéreos presentes. PA 132x80 mmHg, FC 98 bpm e irregular, temperatura 36,9 °C. Leucócitos 16.400/mm³, lactato 1,8 mmol/L, amilase 245 U/L, creatinina 1,9 mg/dL. Radiografia de abdome sem alterações.
achado
Dor intensa desproporcional a um abdome sem sinais peritoneais. Essa dissociação, sozinha, obriga a assumir isquemia mesentérica aguda até prova em contrário (grau 1C). A fibrilação atrial com anticoagulação irregular aponta o mecanismo mais provável, a embolia arterial, que responde por cerca de metade dos casos.
o que NÃO descarta
Lactato de 1,8 mmol/L não afasta nada: a elevação acompanha a isquemia já irreversível, e a sensibilidade combinada do l-lactato é de 86% com especificidade de 44%. Radiografia normal também não afasta — ela não é recomendada nessa avaliação (grau 1B), porque só se altera quando já há infarto. E a amilase de 245 U/L é a armadilha clássica: metade dos pacientes com isquemia mesentérica tem amilase elevada e recebe rótulo de pancreatite.
imagem
Angiotomografia imediata, com aquisição pré-contraste mais fases arterial e venosa e reconstruções multiplanares (grau 1A). Sem contraste oral, que não é indicado e é até prejudicial. A creatinina de 1,9 mg/dL não adia nada: a diretriz manda fazer apesar da lesão renal aguda, porque o diagnóstico perdido custa mais que o contraste. Cada 6 horas de atraso dobram a mortalidade, e já se passaram 5.
conduta
Em paralelo ao exame: reposição volêmica para melhorar a perfusão visceral, correção de eletrólitos e sonda nasogástrica (grau 1B), antibiótico de amplo espectro (grau 1C) e heparina. Confirmada a oclusão embólica sem peritonite, a revascularização endovascular é a opção primária onde há expertise (grau 1C). Se surgir peritonite, a sala vem sem demora (grau 1C), com o princípio de restabelecer o fluxo antes de decidir o que ressecar, fechamento temporário do abdome e reoperação programada para reavaliar a alça (grau 1B).
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Agora feche você

Homem de 74 anos, tabagista de 50 maços-ano, hipertenso, é trazido ao pronto-socorro após episódio de síncope em casa. Refere dor lombar esquerda e abdominal de início súbito há 40 minutos, contínua e intensa. Ao exame: consciente e orientado, pálido, sudoreico. PA 84x56 mmHg, FC 116 bpm, frequência respiratória 26 irpm, extremidades frias. Abdome distendido, doloroso à palpação difusa, sem rigidez, com massa pulsátil palpável no epigástrio e mesogástrio. Pulsos femorais presentes e simétricos. Hemoglobina 9,1 g/dL. Ultrassonografia à beira do leito: aorta abdominal com 7,4 cm de diâmetro, sem líquido livre evidente na cavidade peritoneal.
achado
Dor súbita, síncope, hipotensão, palidez e massa abdominal pulsátil em idoso tabagista: abdome agudo hemorrágico por aneurisma de aorta abdominal roto. O abdome doloroso sem rigidez é a assinatura do tipo — sangue irrita pouco o peritônio.
por que não há líquido livre
O aneurisma rompe habitualmente para o retroperitônio, e é o retroperitônio que tampona o sangramento por algum tempo. A ultrassonografia de beira de leito não enxerga esse compartimento: exame sem líquido livre não afasta rotura, do mesmo modo que não afasta sangramento retroperitoneal no traumatizado.
conduta
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Onde a banca derruba

  1. 1Pedir contraste oral na suspeita de isquemia mesentérica A alternativa parece caprichada porque acrescenta um contraste a mais. O protocolo diz o contrário: o contraste oral não é indicado e é até prejudicial, porque opacifica a luz e apaga o realce da parede intestinal, que é justamente o achado que se procura, além de atrasar o exame. O mesmo vale para começar pela radiografia simples, que não é recomendada nessa avaliação (grau 1B).
  2. 2Liberar o paciente porque o lactato está normal e o abdome está inocente São os dois achados esperados na isquemia mesentérica precoce, não os que a afastam. A isquemia progride da mucosa para a serosa, então dor intensa com exame pobre é a fase em que ainda dá para salvar intestino; o lactato sobe com a necrose. Observar por 6 horas nesse cenário é exatamente o intervalo que dobra a mortalidade.
  3. 3Descartar perfuração porque não há pneumoperitônio na radiografia O ar livre aparece em 30 a 85% das perfurações conforme a série, e até 12% dos perfurados têm tomografia normal. Radiografia negativa com dor súbita em punhalada e abdome rígido pede tomografia, e, persistindo a dúvida sem ar livre, imagem com contraste hidrossolúvel por via oral ou pela sonda.
  4. 4Segurar a angiotomografia por causa da creatinina A preocupação com nefropatia por contraste faz sentido em quase todo lugar, menos aqui. A orientação é explícita: fazer o exame apesar da presença de lesão renal aguda, porque as consequências do diagnóstico tardio ou perdido são muito mais graves do que a exposição ao contraste iodado.
  5. 5Não dosar beta-hCG em mulher em idade fértil com dor abdominal aguda É o exame mais barato do plantão e o que muda o tipo do abdome agudo de inflamatório para hemorrágico. A ectópica rota se apresenta com dor sincopal, dor no ombro, choque e grito de Douglas ao toque — e, sem o teste, vira apendicite ou cólica renal na hipótese inicial.
  6. 6Encher de volume o aneurisma roto para normalizar a pressão O reflexo de tratar hipotensão com cristaloide desfaz o tampão retroperitoneal que está segurando o sangramento. O alvo é hipotensão permissiva com sistólica entre 70 e 90 mmHg e paciente consciente, oferecendo fluido de forma contida até o controle proximal da aorta.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Dor abdominal intensa e súbita com exame físico pobre (dor desproporcional ao achado), fibrilação atrial sem anticoagulação (fonte embólica), sangue nas fezes e lactato elevado são clássicos de isquemia mesentérica aguda por embolia da artéria mesentérica superior. Diverticulite dá dor localizada e defesa. Obstrução por brida cursa com distensão e parada de eliminação. Pancreatite dá hiperamilasemia e dor em faixa. Colite pseudomembranosa relaciona-se a antibioticoterapia prévia, com diarreia.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Reescreva de memória a tabela dos cinco tipos com as cinco colunas — como a dor entra, o que o exame mostra, a imagem que decide e o destino. Depois cravar os números do vascular: dor desproporcional é isquemia até prova em contrário (1C), angiotomografia sem demora com fases arterial e venosa e sem contraste oral (1A), radiografia simples fora (1B), cada 6 horas de atraso dobram a mortalidade, mortalidade acima de 50%.

em 30 dias

A metade hemorrágica e a perfurativa. No perfurativo: ar livre na radiografia em 30 a 85%, tomografia como exame recomendado (1C), 12% com tomografia normal, contraste hidrossolúvel quando não se vê ar (2D), cirurgia o quanto antes (1B) e as 2,4% de sobrevida perdidas por hora de atraso. No hemorrágico: hipotensão permissiva de 70 a 90 mmHg com paciente consciente, ultrassonografia de beira de leito que não enxerga o retroperitônio, e os cortes da ectópica — expectante abaixo de 2.000, metotrexato até 5.000 com massa menor que 40 mm e sem batimentos, cirurgia na rotura, laparotomia na instabilidade.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 71 anos com dor abdominal intensa de início súbito e exame abdominal pouco alterado — pronto-socorro — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Abdome agudo inflamatório x obstrutivo x perfurativo x vascular x… – Abdome agudo: os cinco tipos — Preparatório para provas | OsceLabs