Cirurgia GeralUrgência e Emergência Cirúrgica

Apendicite aguda

A banca raramente pergunta se é apendicite. Pergunta qual imagem pedir em quem, o que fazer com o escore que você somou, quanto tempo o paciente pode esperar pela sala — e, cada vez mais, quando o antibiótico pode substituir o bisturi.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem, 28 anos, previamente hígido, procura pronto-socorro com dor abdominal iniciada há 36 horas, inicialmente periumbilical, que migrou para a fossa ilíaca direita há cerca de 20 horas. Refere anorexia, náuseas e dois episódios de vômito. Nega diarreia. Ao exame: regular estado geral, corado, hidratado; PA 118/76 mmHg, FC 102 bpm, FR 18 ipm, T axilar 38,2 °C. Abdome plano, com dor intensa à palpação da fossa ilíaca direita, descompressão brusca positiva no ponto de McBurney e defesa muscular localizada; ruídos hidroaéreos diminuídos. Toque retal sem alterações. Exames laboratoriais: leucócitos 16.400/mm³ (VR 4.000–10.000) com 82% de neutrófilos e 8% de bastões; PCR 98 mg/L (VR < 5); Hb 14,8 g/dL; creatinina 0,9 mg/dL; urina tipo I sem alterações; β-hCG não se aplica. O paciente está estável, sem comorbidades e com tempo de jejum adequado. Qual é a conduta mais apropriada neste momento?

02

Como esse tema cai

Apendicite aguda é a causa mais comum de abdome agudo cirúrgico, e a série brasileira de referência dá a dimensão: de 1048 internações por abdome agudo num pronto-socorro de Juiz de Fora, 638 eram apendicite — 60,88%. Idade média de 32 anos, 65,2% homens, com o adulto jovem concentrando 60% dos casos.

O diagnóstico é clínico, e por isso a prova quase nunca pergunta se é apendicite: pergunta o que fazer com o escore que você somou, qual imagem pedir em quem, quanto o paciente pode esperar pela sala e por quantos dias o antibiótico continua depois da cirurgia. O capítulo percorre essa sequência — migração da dor, sinais semiológicos, os escores de estratificação de risco (o AIR, o AAS e, na criança, o PAS, que a edição de 2025 nomeia, e o Alvarado, que ela não cita e a banca brasileira continua cobrando), a escada de imagem, a linha entre doença não complicada e complicada, e as condutas que dependem dela.

A apendicite não tem protocolo do Ministério da Saúde: a régua é a diretriz de Jerusalém, da World Society of Emergency Surgery, cuja edição vigente é a de 2025, publicada no JAMA Surgery em 2026. Como boa parte do material de cursinho ainda descreve a edição de 2020, o capítulo mostra as duas sempre que elas divergem. Fora do recorte: tumores do apêndice, mucocele e apendicite crônica.

03

O que muda decisão

A dor que muda de lugar — e por que isso vale ponto

Tudo começa com obstrução da luz apendicular: hiperplasia linfoide nos menores de 20 anos, fecalito no adulto e no idoso. O apêndice é longo e estreito e obstrui em alça fechada — a mucosa distal segue secretando contra um lúmen bloqueado, a parede distende, a pressão sobe.

A distensão estimula fibras aferentes viscerais que entram na medula em T10, e dor visceral não se localiza: o paciente aponta o umbigo com a mão espalmada e sente náusea. Quando a inflamação atravessa a parede e alcança o peritônio parietal, a inervação passa a somática — dor contínua, apontável com um dedo na fossa ilíaca direita. Essa migração é o achado clínico de maior peso do tema.

A ordem dos sintomas também é informação: dor, depois anorexia e náusea, depois vômito, febre por último. Vômito que precede a dor é a ordem da gastroenterite. O intervalo importa igualmente — perfuração é rara antes de 24 horas de sintomas e comum depois de 48 a 72 horas. A mortalidade geral fica abaixo de 1%, sobe para cerca de 3% na perfuração e chega a 15% quando o perfurado é idoso.

Corte do abdome inferior direito com ceco, íleo terminal e apêndice inflamado; uma névoa difusa marca a região periumbilical e uma mancha menor e mais intensa marca a fossa ilíaca direita.
A dor começa difusa e periumbilical, por distensão visceral, e só se localiza na fossa ilíaca direita quando a inflamação alcança o peritônio parietal. Essa migração é o achado clínico de maior peso do tema.

Os sinais com nome próprio (e o que cada um está testando)

O ponto de McBurney fica na união do terço lateral com os dois terços mediais da linha traçada da espinha ilíaca anterossuperior direita até a cicatriz umbilical. Dor à palpação desse ponto é o achado isolado mais valioso do exame — e um dos dois únicos itens do Alvarado que valem dois pontos.

O sinal de Blumberg é a descompressão brusca dolorosa localizada, e testa irritação do peritônio parietal naquele ponto. O de Rovsing é a dor referida na fossa ilíaca direita ao se comprimir a esquerda, pelo deslocamento de gás no cólon. O de Dunphy é a dor provocada pela tosse. O de Lenander é a temperatura retal excedendo a axilar em pelo menos um grau — pouco usado hoje, mas ainda cobrado por nome em prova brasileira.

Dois sinais localizam o apêndice, e é aí que o exame explica por que dois pacientes com a mesma doença parecem diferentes. O sinal do psoas — dor à extensão passiva da coxa direita, ou à flexão do quadril contra resistência — aponta apêndice retrocecal, apoiado sobre o psoas ilíaco e escondido atrás do ceco, que funciona como anteparo: dá dor no flanco e na região lombar, palpação anterior pobre e pouca defesa. O sinal do obturador, dor à rotação interna do quadril direito fletido, aponta apêndice pélvico, que irrita bexiga e reto e produz disúria, tenesmo e dor ao toque. Exame frustro não exclui apendicite — obriga a procurar a posição atípica.

Defesa involuntária e rigidez de parede saem do território da apendicite simples e entram no da perfuração com peritonite: é a diferença entre um abdome que dói e um que se protege.

Nenhum sinal confirma sozinho — eles somam, e é por isso que existem escores. Um passo, porém, vem antes de tudo na mulher em idade fértil: beta-hCG. Gravidez ectópica rota se apresenta como dor em fossa ilíaca com defesa e mata rápido; doença inflamatória pélvica, torção e ruptura de cisto ovariano completam os diferenciais que mais custam ponto. Em criança, adenite mesentérica após infecção de vias aéreas; em qualquer idade, divertículo de Meckel, ileíte terminal da doença de Crohn, diverticulite de cólon direito e cólica nefrética à direita.

Diagrama composto com um ceco central e quatro posições possíveis do apêndice: retrocecal, pélvica, subcecal e retroileal, cada uma em tom diferente.
A posição do apêndice explica por que o exame físico varia tanto: o retrocecal dá dor lombar e sinal do psoas, o pélvico dá sintomas urinários e dor ao toque, e o retroileal pode poupar a palpação superficial.

Laboratório: o que ele decide e o que ele não decide

Leucocitose com neutrofilia e proteína C reativa elevada são marcadores de inflamação, não de apendicite. Entram nos escores porque somam, não porque decidam. Leucograma normal nas primeiras horas não exclui nada — a proteína C reativa sobe ainda mais tarde —, e leucocitose isolada sem quadro compatível não indica cirurgia.

Beta-hCG em toda mulher em idade fértil, antes da imagem: o resultado muda qual exame você pede e qual diagnóstico você persegue. Pedir tomografia antes do beta-hCG é o tipo de erro que a prova adora, porque parece diligência.

O sumário de urina merece cuidado. Leucocitúria e hematúria discretas são frequentes na apendicite, sobretudo quando o apêndice é pélvico e irrita ureter ou bexiga. Trocar o diagnóstico por infecção urinária por causa disso é armadilha clássica: piúria franca com bacteriúria é uma coisa; alterações discretas em quadro de dor migratória são outra.

Imagem: a escada que a edição de 2025 redesenhou

A edição de 2025 inverteu a ordem de preferência no adulto. Onde há tomografia disponível, a tomografia com protocolo de baixa dose — abaixo de 2 a 3 mSv — passa a ser a modalidade de imagem preferida. Combinar escore de risco (AIR ou AAS) com ultrassonografia deixa de ser o primeiro passo obrigatório e vira alternativa, indicada onde a tomografia não está prontamente disponível ou quando minimizar a exposição à radiação é prioridade. É uma sugestão condicional, com certeza moderada — condicional porque depende do recurso local, não porque a evidência seja frouxa.

Os achados ultrassonográficos que interessam seguem os mesmos: apêndice não compressível, diâmetro maior que 6 milímetros, dor à compressão com o transdutor, apendicolito e líquido ou borramento da gordura periapendicular.

Aqui mora uma armadilha que custa questão: apêndice não visualizado é exame inconclusivo, não exame negativo. A ultrassonografia é operador-dependente. Com suspeita clínica intermediária ou alta e apêndice não visualizado, o passo seguinte é tomografia de baixa dose ou observação com reavaliação — nunca alta.

As populações têm regras próprias, todas formuladas como sugestões condicionais. Na criança e no adolescente, ultrassonografia como exame de primeira linha, reservando a tomografia de baixa dose para quando ela é não diagnóstica ou a suspeita clínica permanece alta (certeza moderada). No adulto com obesidade, tomografia — de preferência em protocolo de baixa dose — em vez de ultrassonografia como exame primário (certeza baixa). No idoso, a mesma orientação, com certeza muito baixa. Na gestante, ressonância magnética sempre que a ultrassonografia inicial for negativa ou inconclusiva e a suspeita clínica persistir (certeza moderada).

Duas coisas que a edição de 2020 dizia e não sobrevivem na atual: a ultrassonografia como primeira linha obrigatória no adulto e o atalho de dispensar a imagem para ir direto à laparoscopia em paciente de alto risco pelo escore com menos de 40 anos. A diretriz de 2025 não repete nenhum dos dois, e o corte etário que ela usa para decidir CONDUTA — 35 anos — está no capítulo do abscesso, não no da imagem (a diretriz também define idoso como 65 anos ou mais e obesidade como IMC de 30 ou mais, mas para escolher o exame, não a operação). O ganho de acurácia de somar escore e ultrassonografia continua real: a edição de 2020 citava 1,6% de exploração negativa com a estratégia de escore contra 3,2% sem ela. E, em apresentação pouco clara, a diretriz atual mantém a tomografia como padrão diagnóstico, pela sensibilidade maior.

Não complicada e complicada: a linha que decide tudo

A classificação de gravidade usada na prática e cobrada em prova é de autoria brasileira: Carlos Augusto Gomes, da Universidade Federal de Juiz de Fora, publicada no World Journal of Emergency Surgery em 2015, combinando achados clínicos, de imagem e de laparoscopia. Vale registrar o limite: a edição de 2025 da diretriz de Jerusalém não reproduz essa graduação de 0 a 4 — ela trabalha com a divisão binária da sua Tabela 1, em que não complicada é o apêndice inflamado, com hiperemia e/ou fleimão, e complicada é gangrena extensa, perfuração, abscesso ou peritonite difusa. A graduação de Gomes detalha o que a diretriz resolve em duas categorias.

Do lado não complicado ficam o grau 0, apêndice macroscopicamente normal, e o grau 1, apêndice inflamado — hiperemia, edema, eventualmente fibrina, com pouco ou nenhum líquido pericólico. Do lado complicado: grau 2A é necrose segmentar e 2B é necrose da base, na inserção cecal, que exige sutura ou grampeador e muda a técnica na hora. O grau 3 é a doença bloqueada — 3A é o fleimão ou plastrão, massa inflamatória sem abscesso; 3B é abscesso menor que 5 centímetros; 3C é abscesso de 5 centímetros ou mais. O grau 4 é a perfuração com peritonite difusa.

Essa linha determina quatro decisões: se o tratamento não operatório pode sequer ser discutido, se o paciente precisa de drenagem antes ou em vez da cirurgia, por quantos dias o antibiótico continua depois, e que experiência cirúrgica a operação vai exigir. Quando a prova entrega o achado intraoperatório ou o laudo da tomografia, é essa classificação que ela está pedindo — mesmo sem nomeá-la. E ela tem consequência mensurável: na série brasileira de 638 casos, a internação média foi de 7 dias no conjunto e de 12,4 dias em quem chegou já perfurado.

Operar: via, janela e antibiótico

A via laparoscópica está tão assentada que a edição de 2025 nem a submete a uma pergunta própria: ela aparece embutida no texto das recomendações, que falam sempre em apendicectomia laparoscópica. A preferência sobre a cirurgia aberta — menos dor, menos infecção de sítio cirúrgico, internação mais curta, retorno ao trabalho mais rápido — vinha da edição de 2020 como recomendação forte, e a de 2025 não a contradiz. O mesmo vale para os detalhes técnicos que a banca gosta de cobrar e que a diretriz atual não reexamina: técnica convencional de três portais em vez de portal único, ligadura simples do coto em vez de invaginação — com endoloop, fio ou clipe polimérico — e protetor plástico de ferida na cirurgia aberta. Continue respondendo por eles em prova; apenas não os apresente como recomendação da edição de 2025.

A janela ficou mais simples e mais firme. A diretriz recomenda apendicectomia laparoscópica dentro de 24 horas da admissão hospitalar no adulto com apendicite não complicada selecionado para tratamento cirúrgico — recomendação forte, certeza moderada — e repete a mesma regra, com a mesma força e a mesma certeza, para a criança. O relógio corre da admissão, não do início dos sintomas, e 24 horas é teto, não meta: um atraso curto no paciente estável com doença não complicada é seguro, o que libera o serviço de operar de madrugada com equipe reduzida.

O antibiótico é onde a edição de 2025 mais separa os dois mundos, e a separação é exatamente a linha entre doença não complicada e complicada. Na não complicada do adulto: dose única de antibiótico profilático no pré-operatório, para reduzir infecção de sítio cirúrgico e abscesso intra-abdominal pós-operatório — recomendação forte, certeza moderada. E, dentro da mesma recomendação, uma sugestão contra manter antibiótico enquanto o paciente aguarda a cirurgia além dessa dose única, porque não se demonstrou benefício adicional em reduzir perfuração ou infecção de sítio cirúrgico quando a apendicectomia sai dentro de 24 horas. Na criança, a mesma dose única, aqui como sugestão condicional de certeza baixa. Depois da operação, no adulto não complicado, sugestão condicional contra manter antibiótico, com certeza baixa; na criança, a diretriz não faz recomendação, por certeza muito baixa da evidência.

Na complicada, a lógica se inverte — e é aqui que está a recomendação mais bem sustentada de toda a diretriz. No adulto: profilaxia pré-operatória e antibiótico terapêutico enquanto se aguarda a apendicectomia, ainda mais quando a cirurgia imediata não é factível — recomendação forte, com certeza alta, a única desse patamar no documento. Na criança, a mesma conduta, como recomendação forte de certeza moderada. No pós-operatório do adulto complicado, manter o antibiótico é recomendação forte de certeza moderada; na criança, sugestão condicional de certeza baixa. E a duração encolheu: curso curto de 2 a 3 dias em vez de curso longo de 5 a 7 dias após controle adequado do foco, como sugestão condicional de certeza moderada, valendo para adulto e para criança. Quem responder “de 3 a 5 dias”, número da edição anterior, erra a atual.

Os dois gestos intraoperatórios que a prova cobra continuam os mesmos, mas com a força rebaixada — e o rebaixamento é ele próprio cobrável. Aspiração isolada do líquido contaminado em vez de lavagem mais aspiração da cavidade, na apendicite complicada: era recomendação forte em 2020, hoje é sugestão condicional com certeza moderada, no adulto e na criança. Evitar o uso rotineiro de dreno abdominal: também era recomendação forte, hoje é sugestão condicional com certeza baixa no adulto e certeza muito baixa na criança. A conduta não mudou; mudou o quanto a diretriz se compromete com ela.

Nas populações especiais, a apendicectomia segue preferida, mas com evidência frágil. Na gestante com doença não complicada, apendicectomia laparoscópica como tratamento preferido — sugestão condicional de certeza muito baixa —, admitindo o manejo não operatório com antibiótico como alternativa quando a cirurgia traz risco aumentado ou não está imediatamente disponível, com a ressalva explícita de que a evidência que sustenta essa alternativa é muito incerta. No idoso, apendicectomia também preferida como sugestão condicional de certeza muito baixa, com o manejo não operatório reservado a quem tem comorbidade significativa e alto risco cirúrgico. E, se a laparoscopia diagnóstica encontrar apêndice macroscopicamente normal sem outra doença intra-abdominal que explique o quadro, a sugestão é retirar o apêndice mesmo assim — sugestão condicional, certeza muito baixa.

Plastrão e abscesso: onde a idade passou a decidir

Um subgrupo chega tarde, com cinco a sete dias de dor, febre e massa palpável e dolorosa na fossa ilíaca direita: o organismo bloqueou a perfuração com epíplon e alças, formando fleimão ou abscesso. Até a edição de 2020, a resposta era uniforme — tratar clinicamente e não operar agora, porque abordar um plastrão maduro na fase aguda aumenta muito a chance de terminar em ressecção ileocecal. A edição de 2025 partiu esse subgrupo em dois pela idade, e o corte é 35 anos.

Abaixo de 35 anos, a sugestão é apendicectomia laparoscópica precoce — sugestão condicional, certeza moderada. O manejo não operatório seguido de apendicectomia de intervalo entre 6 e 12 semanas continua aceitável, mas passa a ser exatamente isso: a alternativa para serviços sem expertise laparoscópica adequada ou sem recurso para a operação de urgência. Na criança, a orientação é a mesma, com a mesma força e a mesma certeza.

De 35 anos para cima, a diretriz sugere contra a apendicectomia na fase aguda, e o motivo não é técnico, é oncológico: nessa faixa, a taxa de detecção de neoplasia apendicular subjacente chega a 14,3%. Também é sugestão condicional, certeza moderada.

E é aqui que a inversão se completa. No adulto de 35 anos ou mais com abscesso periapendicular tratado inicialmente sem cirurgia, a apendicectomia de intervalo entre 6 e 12 semanas passa a ser recomendação forte, com certeza moderada, precisamente para reduzir o risco de deixar passar a neoplasia apendicular. Antes dessa operação de intervalo, a avaliação deve incluir tomografia para conferir a resolução do abscesso e colonoscopia para descartar neoplasia de cólon direito, sobretudo nesses 35 anos ou mais. Na criança, o oposto: sugestão condicional contra a apendicectomia de intervalo de rotina, com certeza baixa — a incidência de neoplasia é de 0,5% e o dano da operação provavelmente supera o benefício.

Guarde a inversão, porque é o ponto mais cobrável do tema hoje. A edição de 2020 trazia recomendação forte contra a apendicectomia de intervalo de rotina em adultos com menos de 40 anos e em crianças, e reservava aos 40 anos ou mais a investigação com colonoscopia e tomografia — investigar, não operar. A edição de 2025 mudou o corte para 35 anos e, acima dele, transformou o operar de intervalo em recomendação forte. Em criança, as duas edições concordam: sem intervalo de rotina. Abaixo dos 35 anos a frase “investigar não é operar” continua válida; acima deles, na diretriz atual, investigar e operar deixaram de ser alternativas e viraram sequência.

04

Escore de Alvarado: o que ele decide e o que ele não decide

O Alvarado, ou MANTRELS, é a régua ordinal que as bancas brasileiras mais cobram pelo nome — e segue cobrada, ainda que a edição de 2025 da diretriz de Jerusalém sequer o mencione: os escores que ela nomeia são o AIR, o AAS e, na criança e no adolescente, o PAS. Ele é bom para excluir e ruim para confirmar. Saber somar não basta: o que a prova testa é a faixa.

  1. 1Some os oito itens: máximo de 10 pontos, com dois itens valendo 2 — dor à palpação da fossa ilíaca direita e leucocitose — e os outros seis valendo 1.
  2. 2Abaixo de 5 pontos: sensibilidade de cerca de 99% para excluir, número que a edição de 2020 da diretriz citava. É o uso legítimo do escore — liberar com segurança e orientação de retorno.
  3. 3De 5 a 6 pontos: o escore não decide. É a faixa da imagem e da observação com reavaliação seriada.
  4. 4De 7 para cima no homem e de 9 para cima na mulher, a razão de verossimilhança positiva é comparável à da tomografia. O corte é mais alto na mulher porque os diferenciais ginecológicos inflam a pontuação.
  5. 5A edição de 2025 não cita o Alvarado. Ela sugere usar escores de estratificação de risco baseados em achados clínicos e laboratoriais — o AIR, o AAS e, na criança, o PAS — para conduzir a investigação inicial na dor em fossa ilíaca direita: afastar apendicite no paciente de baixo risco e identificar o de risco intermediário, que precisa de imagem para o diagnóstico ou de observação ativa. É sugestão condicional de certeza moderada; a formulação paralela, voltada a identificar quem tem baixa probabilidade, é sugestão condicional de certeza baixa. Em apresentação pouco clara, a tomografia segue como padrão diagnóstico, pela sensibilidade maior. Ou seja: o escore tria, a imagem confirma — o que continua valendo contra qualquer alternativa que diga que um escore, qualquer que seja, confirma o diagnóstico.

0 a 4

Improvável. Alta com orientação de retorno, sem imagem obrigatória.

5 a 6

Possível. É a faixa da imagem — tomografia de baixa dose onde disponível, ultrassonografia como alternativa — e da observação com reavaliação seriada.

7 a 8

Provável no homem; na mulher ainda pede imagem.

9 a 10

Muito provável. Ainda assim, a diretriz de 2025 não autoriza dispensar a imagem pelo escore.

Item (MANTRELS)O que contaPontos
M — Migração da dorDor que começou periumbilical e migrou para a fossa ilíaca direita1
A — AnorexiaPerda de apetite desde o início do quadro1
N — Náusea ou vômitoPresente, e depois da dor1
T — Dor à palpação da fossa ilíaca direitaSensibilidade localizada no quadrante inferior direito2
R — Descompressão dolorosaSinal de Blumberg presente1
E — Elevação da temperaturaFebre — o limiar da descrição original é 37,3 °C1
L — LeucocitoseLeucócitos acima de 10.000/mm³2
S — Desvio à esquerdaNeutrófilos acima de 75%1
TotalDois itens valem 2, seis valem 110

O AIR, primeiro escore nomeado pela diretriz, vai de 0 a 12 e pesa a intensidade dos achados em vez de tratá-los como sim ou não: vômito 1; dor em fossa ilíaca direita 1; defesa ou descompressão dolorosa leve 1, média 2, forte 3; temperatura de 38,5 °C ou mais 1; neutrófilos de 70 a 84% valem 1 e 85% ou mais valem 2; leucócitos de 10,0 a 14,9 mil valem 1 e 15,0 mil ou mais valem 2; proteína C reativa de 10 a 49 mg/L vale 1 e 50 mg/L ou mais vale 2. Faixas: 0 a 4 baixa probabilidade, 5 a 8 indeterminada, 9 a 12 alta. A edição de 2020 registrava sensibilidade de 92% e especificidade de 63%.

O AAS, Adult Appendicitis Score, é o outro escore nomeado para o adulto: abaixo de 11 pontos, baixa probabilidade; 16 pontos ou mais, alta probabilidade, com 93% de especificidade no número citado pela edição de 2020. Na criança e no adolescente, o escore que a edição de 2025 nomeia é o PAS, Pediatric Appendicitis Score.

Por que o Alvarado sobrevive na prova brasileira mesmo sem aparecer na diretriz atual: comparações diretas favorecem o AIR (área sob a curva de 0,901 contra 0,821), mas o Alvarado é o único dos três que dispensa proteína C reativa, o que o mantém aplicável na primeira hora e em serviço sem laboratório completo. Ele segue cobrado em prova brasileira, então saiba somá-lo — só não aceite alternativa dizendo que ele confirma o diagnóstico, nem alternativa que o apresente como escore recomendado pela edição de 2025.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Antibiótico isolado ou apendicectomia na apendicite não complicada

A diretriz internacional admite a conversa

A edição de 2025 sugere o antibiótico como alternativa à apendicectomia na apendicite não complicada, no adulto e na criança, desde que haja monitorização clínica apropriada e decisão compartilhada — sugestão condicional, certeza moderada nas duas populações. Ela vai adiante e sugere oferecer até o manejo ambulatorial com antibiótico como opção, desde que haja seguimento adequado e acesso a serviço médico em caso de piora — também sugestão condicional de certeza moderada. Tratado sem cirurgia e sem sintoma persistente ou recorrente, o adulto não precisa de apendicectomia de intervalo de rotina (sugestão condicional, certeza baixa) nem de seguimento de rotina além de 30 dias (sugestão condicional, certeza muito baixa). O que sustenta a conversa: o CODA, maior ensaio do tema, randomizou 1552 adultos em 25 centros dos Estados Unidos e mostrou não inferioridade do antibiótico no estado geral de saúde em 30 dias; ainda assim, 29% do braço antibiótico tinha sido operado em 90 dias. O APPAC, com 530 finlandeses e tomografia confirmando doença não complicada, chegou a 39,1% de recorrência em cinco anos e, aos dez anos, a 44,3% de apendicectomia acumulada — com bem menos complicações no braço antibiótico, 8,5% contra 27,4%.

WSES 2025, recomendações 5.1 e 5.2 (sugestão condicional, certeza moderada), 6 (sugestão condicional, certeza moderada), 7.1 (sugestão condicional, certeza muito baixa) e 8 (sugestão condicional, certeza baixa); CODA Collaborative, N Engl J Med 2020;383:1907-1919; Salminen et al., JAMA 2018;320:1259-1265 e JAMA 2026;335(12):1041-1049

A prova brasileira ainda espera cirurgia

A apendicectomia segue como conduta padrão nas bancas nacionais e no pronto-socorro brasileiro, e isso não é atraso: a própria diretriz formula a orientação como sugestão condicional de oferecer a opção, com decisão compartilhada, não como substituição da cirurgia — e mantém a apendicectomia como tratamento preferido na gestante e no idoso, ainda que com certeza muito baixa. O tratamento não operatório tem pré-requisitos que não se podem presumir em qualquer serviço: imagem confirmando doença não complicada, ausência de apendicolito, monitorização clínica e garantia de reavaliação. A literatura brasileira trata a apendicectomia como tratamento de escolha porque, além de resolver a doença, ela dá o diagnóstico definitivo.

Lima AP et al., Rev Col Bras Cir 2016;43(4):248-253, que descreve a apendicectomia como tratamento de escolha; e a própria WSES 2025, cujas recomendações 5.1 e 5.2 são sugestões condicionais de oferecer a alternativa, não de substituir a cirurgia

Na prova

O tratamento não operatório só entra em cena quando o enunciado constrói o cenário completo dos ensaios: imagem confirmando apendicite não complicada, ausência de apendicolito, paciente estável e, em geral, menção explícita ao CODA, ao APPAC ou à ideia de tratamento conservador — sinais de que a questão está no corpo internacional, que mesmo assim formula a recomendação como sugestão condicional, condicionada a monitorização clínica adequada e decisão compartilhada, não como substituição da cirurgia. Enunciado seco de pronto-socorro, sem esse recorte, vive no padrão nacional, em que a apendicectomia segue como conduta de referência — e a distância não é atraso: o manejo com antibiótico pressupõe imagem disponível e reavaliação garantida, condições que não se podem presumir em qualquer serviço brasileiro, além de a cirurgia entregar o diagnóstico definitivo.Alternativa de antibiótico isolado num enunciado que nem descreveu a imagem é distrator em qualquer dos mundos. Um detalhe da edição atual que a banca ainda não cobra e já pode aparecer: tratado sem cirurgia e sem sintoma persistente, esse paciente não precisa de apendicectomia de intervalo de rotina nem de seguimento de rotina além de 30 dias.

Apendicectomia imediata ou programada para a próxima lista dentro de 24 horas

A diretriz permite esperar até 24 horas

A diretriz recomenda realizar a apendicectomia laparoscópica dentro de 24 horas da admissão hospitalar no adulto com apendicite não complicada selecionado para cirurgia — recomendação forte, certeza moderada — e diz o mesmo, com a mesma força e certeza, para a criança. O raciocínio: atraso hospitalar curto, no paciente estável com doença não complicada, não aumenta desfecho adverso — ultrapassar as 24 horas aumenta. Na prática, isso libera o serviço de operar de madrugada com equipe reduzida. E, porque a janela é de 24 horas, a mesma diretriz sugere contra manter antibiótico durante a espera na doença não complicada, além da dose única profilática.

WSES 2025, recomendações 9.1 (adulto) e 9.2 (criança), ambas recomendação forte com certeza moderada; e recomendação 15.1 quanto ao antibiótico durante a espera

O ensino cirúrgico clássico trata como urgência imediata

A tradição cirúrgica brasileira ensina apendicectomia precoce como regra, apoiada na progressão da doença: a operação é tecnicamente fácil nas primeiras 24 horas, torna-se mais complexa sobretudo depois das 48 horas, e a partir do terceiro dia a frequência de complicações muda a própria forma de tratar — de apendicectomia simples para drenagens percutâneas e, no extremo, ressecção do cólon direito.

Freitas RG et al., Apendicite aguda, Rev HUPE (UERJ) 2009;8(1):38-51

Na prova

As duas posições convergem no essencial — 24 horas é teto, não meta, e o relógio corre desde a admissão —, então a divergência real é de ênfase, e o enunciado revela qual ênfase está sendo cobrada. Paciente estável sob analgesia, doença não complicada, discussão de logística de centro cirúrgico: é a diretriz internacional, que respalda operar dentro de 24 horas da admissão como recomendação forte de certeza moderada. Enunciado que enfatiza a progressão da doença — operação tecnicamente fácil nas primeiras 24 horas, mais complexa após 48, complicações mudando a própria forma de tratar a partir do terceiro dia — fala a língua do ensino cirúrgico clássico brasileiro, da urgência imediata. Uma pegadinha nova: como a cirurgia sai dentro de 24 horas, a diretriz de 2025 sugere contra manter antibiótico durante essa espera na doença não complicada — na complicada, ao contrário, o antibiótico terapêutico começa já na espera. Perfuração, peritonite difusa ou instabilidade encerram a divergência nos dois corpos: cirurgia imediata.

Abscesso periapendicular: operar agora, operar depois ou não operar

A edição de 2025 partiu o grupo aos 35 anos

Abaixo de 35 anos, apendicectomia laparoscópica precoce é a sugestão — condicional, certeza moderada —, ficando o manejo não operatório seguido de apendicectomia de intervalo em 6 a 12 semanas como alternativa para serviços sem expertise ou recurso laparoscópico para a urgência; na criança vale o mesmo. De 35 anos para cima, a diretriz sugere contra operar na fase aguda, também como sugestão condicional de certeza moderada, por conta de neoplasia apendicular subjacente em até 14,3%. E, tratado sem cirurgia, esse adulto de 35 anos ou mais tem indicação de apendicectomia de intervalo entre 6 e 12 semanas como recomendação forte de certeza moderada, precedida de tomografia para conferir a resolução do abscesso e colonoscopia para descartar neoplasia de cólon direito. Na criança, sugestão condicional contra o intervalo de rotina, certeza baixa, com neoplasia em 0,5%.

WSES 2025, recomendações 13.1 e 13.2 (sugestão condicional, certeza moderada), 14.1 (recomendação forte, certeza moderada) e 14.2 (sugestão condicional, certeza baixa)

A prova brasileira ainda descreve a edição de 2020

A edição de 2020 tratava o abscesso periapendicular como caso de não operar na fase aguda, com antibiótico e, quando disponível, drenagem percutânea; trazia recomendação forte contra a apendicectomia de intervalo de rotina em adultos com menos de 40 anos e em crianças, reservando a apendicectomia a quem voltava a ter sintomas; e sugeria, dos 40 anos para cima, colonoscopia e tomografia de intervalo com contraste em dose plena, porque neoplasia de ceco ou de apêndice se apresenta exatamente assim. Investigar não era operar. É essa versão que a maioria das apostilas e das questões antigas reproduz, e ela continua sendo a resposta esperada em enunciado que cita explicitamente a edição de 2020 ou o corte de 40 anos.

Di Saverio S, Podda M, De Simone B, et al. Diagnosis and treatment of acute appendicitis: 2020 update of the WSES Jerusalem guidelines. World J Emerg Surg. 2020;15:27 — edição anterior, ainda reproduzida em material de cursinho

Na prova

Este é o ponto em que a edição de 2025 mais se afasta do que a maioria do material brasileiro ensina, e por isso é o que mais tende a aparecer em questão nova. O gatilho no enunciado é sempre o mesmo: cinco a sete dias de dor, massa palpável, coleção organizada na tomografia, sem peritonite difusa e sem instabilidade. O que decide a resposta é a idade que o enunciado escolheu dar ao paciente. Enunciado com paciente jovem e coleção bloqueada: pela diretriz atual, apendicectomia laparoscópica precoce; pelo padrão antigo, tratamento não operatório. Enunciado com paciente de 40, 55, 63 anos: a diretriz atual manda não operar agora e operar de intervalo depois, enquanto o padrão antigo mandava não operar nem agora nem depois, apenas investigar. Enquanto a banca não migrar, leia o vocabulário: alternativa que fala em “não realizar apendicectomia de intervalo de rotina” com corte de 40 anos está citando a edição de 2020; alternativa que fala em 35 anos, em 6 a 12 semanas ou em risco de neoplasia apendicular está citando a de 2025. Em criança as duas edições concordam — nada de intervalo de rotina —, e esse é o cenário seguro de responder em qualquer banca.

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Caso resolvido

Homem de 24 anos, previamente hígido, chega ao pronto-socorro com dor abdominal há 20 horas. Começou periumbilical, em cólica e mal localizada, e nas últimas 8 horas se fixou na fossa ilíaca direita, tornando-se contínua. Refere perda de apetite desde o início e dois episódios de vômito que começaram depois da dor. Ao exame: temperatura axilar 37,8 °C, PA 124 × 78 mmHg, FC 96 bpm. Dor à palpação do ponto de McBurney, descompressão brusca dolorosa localizada e sinal de Rovsing positivo, sem defesa involuntária e sem irritação peritoneal difusa. Leucócitos 14.800/mm³ com 84% de neutrófilos. Ultrassonografia: apêndice não compressível de 9 mm, com líquido periapendicular discreto e sem coleções organizadas.
achado
A dor migrou — periumbilical primeiro, fossa ilíaca direita depois. É a transição da dor visceral para a somática, e o achado de maior peso do tema. Repare também que o vômito veio DEPOIS da dor: o inverso puxaria para gastroenterite.
escore
Alvarado: migração 1, anorexia 1, náusea e vômito 1, dor em fossa ilíaca direita 2, descompressão dolorosa 1, febre 1, leucocitose 2, desvio à esquerda 1. Total de 10 — probabilidade altíssima. O Alvarado não é o escore que a edição de 2025 nomeia (lá são o AIR e o AAS no adulto), mas é o que a banca brasileira soma.
imagem
A ultrassonografia já resolveu: apêndice não compressível de 9 mm com líquido periapendicular, sem coleção nem plastrão. É apendicite não complicada. A edição de 2025 prefere a tomografia de baixa dose no adulto onde ela está disponível, mas essa preferência existe para resolver dúvida — com ultrassonografia conclusiva e quadro compatível, acrescentar radiação não muda a conduta. O que não existe mais é o atalho da edição de 2020 de pular a imagem por escore alto abaixo dos 40 anos.
conduta
Apendicectomia laparoscópica dentro de 24 horas da admissão — recomendação forte, certeza moderada —, com dose única de antibiótico profilático na indução anestésica, também recomendação forte de certeza moderada. E nada de antibiótico enquanto ele aguarda a sala: como a cirurgia sai dentro de 24 horas, a diretriz sugere contra manter antibiótico além dessa dose única.
pós-operatório
Nenhum antibiótico depois: na apendicite não complicada do adulto a edição de 2025 sugere contra mantê-lo — sugestão condicional, certeza baixa. É a alternativa que mais gente marca errado no tema. Na criança, repare, a diretriz simplesmente não faz recomendação, por certeza muito baixa da evidência.
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Agora feche você

Mulher de 63 anos, diabética, com dor em fossa ilíaca direita há 6 dias. Hoje apresenta febre de 38,5 °C e massa palpável dolorosa na fossa ilíaca direita. PA 118 × 72 mmHg, FC 98 bpm, abdome sem irritação peritoneal difusa e sem defesa generalizada. Leucócitos 17.400/mm³, proteína C reativa 190 mg/L. Tomografia de abdome com contraste: coleção organizada de 6 cm na fossa ilíaca direita, adjacente a apêndice espessado, sem pneumoperitônio e sem líquido livre difuso.
achado
Seis dias de evolução, massa palpável e coleção organizada de 6 cm. O quadro está bloqueado — não é apendicite aguda simples que chegou cedo.
exame
Sem peritonite difusa e sem instabilidade hemodinâmica. O bloqueio funcionou, e é isso que abre a porta para não operar agora.
classificação
conduta
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Onde a banca derruba

  1. 1Pedir imagem antes do beta-hCG na mulher em idade fértil Gravidez ectópica rota se apresenta como dor em fossa ilíaca com defesa e mata rápido. O beta-hCG vem antes da tomografia, sempre — e o resultado muda qual exame de imagem você pede.
  2. 2Ler apêndice não visualizado como ultrassonografia negativa É exame INCONCLUSIVO, não exame negativo. A ultrassonografia é operador-dependente. Com suspeita clínica intermediária ou alta, o passo seguinte é tomografia de baixa dose ou observação com reavaliação — nunca alta.
  3. 3Manter antibiótico no pós-operatório da apendicite não complicada A diretriz de 2025 sugere contra, como sugestão condicional de certeza baixa. Dose única profilática na indução e acabou — e nem antibiótico enquanto o paciente aguarda a sala, desde que a cirurgia saia dentro de 24 horas. Na complicada é o contrário: antibiótico terapêutico já na espera, mantido no pós-operatório, e agora por 2 a 3 dias em vez de 5 a 7 após controle adequado do foco. Quem responde “de 3 a 5 dias” está na edição de 2020.
  4. 4Descartar apendicite no idoso porque o abdome está pouco doloroso O idoso tem apresentação frustra e chega mais tarde. A mortalidade da perfuração no idoso chega a 15%, contra menos de 1% no quadro geral. Abdome pobre em paciente idoso com febre e leucocitose pede mais investigação, não menos.
  5. 5Pedir tomografia na gestante com ultrassonografia inconclusiva A escada na gestante é ultrassonografia e, quando ela é negativa ou inconclusiva com suspeita persistente, ressonância magnética — sugestão condicional de certeza moderada. E cuidado com o segundo passo dessa questão: a edição de 2020 desaconselhava o tratamento não operatório na gestação, enquanto a de 2025 prefere a apendicectomia laparoscópica — sugestão condicional de certeza muito baixa — e admite o antibiótico isolado como alternativa quando a cirurgia traz risco aumentado ou não está imediatamente disponível, deixando explícito que a evidência desse caminho é muito incerta.
  6. 6Colocar dreno e lavar a cavidade na apendicite complicada do adulto As duas condutas continuam desaconselhadas, mas a força caiu: na edição de 2025 são sugestões condicionais — aspiração isolada em vez de lavagem mais aspiração, com certeza moderada; evitar dreno de rotina, com certeza baixa no adulto e muito baixa na criança. O distrator parece cuidadoso e continua errado, mas quem cita “recomendação forte” está descrevendo a edição de 2020.
  7. 7Aceitar vômito que precede a dor como apendicite Na apendicite a dor vem primeiro, e o vômito depois. Quando o enunciado inverte a ordem de propósito, ele está sinalizando outro diagnóstico — na maioria das vezes, gastroenterite.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

O quadro é clássico de apendicite aguda não complicada: dor migratória para fossa ilíaca direita, anorexia, febre, taquicardia, sinais peritoneais localizados (McBurney com descompressão positiva) e leucocitose com desvio + PCR elevada. O escore de Alvarado é ≥ 7, o que, aliado ao quadro clínico típico em homem jovem, dispensa exame de imagem para confirmação — a conduta padrão é apendicectomia (via laparoscópica preferencialmente, conforme WSES 2020 e EAES) com antibioticoprofilaxia perioperatória de dose única. Errada: TC não é obrigatória em homens jovens com quadro clínico típico e alto escore preditivo; indica-se imagem em casos duvidosos, mulheres em idade fértil, idosos ou suspeita de complicação. Errada: o tratamento antibiótico exclusivo é uma alternativa possível em casos selecionados de apendicite não complicada, mas NÃO é o padrão-ouro; a cirurgia continua sendo o tratamento de escolha, com menor taxa de recorrência. Errada: postergar a cirurgia até peritonite difusa aumenta morbimortalidade; a indicação já está estabelecida. Errada: colonoscopia não faz parte da propedêutica da apendicite aguda e é contraindicada na vigência de abdome agudo inflamatório.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Os oito itens do Alvarado com os pesos certos — dor em fossa ilíaca direita e leucocitose valem 2, os outros seis valem 1 — e as faixas: abaixo de 5 exclui, 5 a 6 pede imagem, 7 no homem e 9 na mulher se aproximam do valor da tomografia. Ele não aparece na edição de 2025, que nomeia o AIR, o AAS e, na criança, o PAS — mas segue cobrado em prova brasileira. Junto, a escada de imagem redesenhada: no adulto, tomografia de baixa dose, abaixo de 2 a 3 mSv, como modalidade preferida onde disponível, e escore mais ultrassonografia como alternativa; ultrassonografia primeiro na criança; tomografia de baixa dose no obeso e no idoso; ressonância na gestante com ultrassonografia negativa ou inconclusiva.

em 30 dias

O corte de 35 anos no abscesso periapendicular, que é a virada da edição de 2025: abaixo dele, apendicectomia laparoscópica precoce como sugestão condicional; de 35 anos para cima, sugestão condicional contra operar na fase aguda (neoplasia apendicular em até 14,3%) e, depois do tratamento não operatório, apendicectomia de intervalo em 6 a 12 semanas como recomendação forte. Em criança, sem intervalo de rotina. Junto, o antibiótico dos dois lados da linha — dose única profilática sem manutenção na não complicada, antibiótico terapêutico já na espera e 2 a 3 dias no pós-operatório da complicada, em vez de 5 a 7 — e o teto de 24 horas da admissão até a cirurgia, recomendação forte.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Dor abdominal que migrou para a fossa ilíaca direita em homem de 22 anos — pronto-socorro — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.