Cirurgia GeralUrgência e Emergência Cirúrgica

Obstrução intestinal

A banca não pergunta se há obstrução — pergunta quem espera e quem vai para a sala agora. Sinais de estrangulamento, o relógio de 72 horas e o contraste hidrossolúvel decidem quase toda vinheta.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 70 anos com parada de eliminação de gases e fezes há 2 dias, distensão abdominal progressiva, dor em cólica e vômitos. Antecedente de laparotomia por trauma há 10 anos. PA 126x78 mmHg, FC 98 bpm. Abdome distendido, timpânico, com ruídos hidroaéreos aumentados (timbre metálico). Radiografia mostra distensão de alças de delgado com níveis hidroaéreos. Qual é a causa mais provável da obstrução?

02

Como esse tema cai

Obstrução intestinal é o tema em que a banca separa quem sabe operar de quem sabe esperar. O diagnóstico costuma vir de graça na vinheta: dor em cólica, vômitos, distensão, parada de eliminação de gases e fezes, alças dilatadas na imagem. O que vale ponto é a linha seguinte — este paciente ganha sonda, soro e 72 horas, ou vai para o centro cirúrgico agora?

Duas perguntas organizam a resposta. A primeira é anatômica: delgado ou cólon? São causas diferentes, exames diferentes e condutas diferentes. A segunda é a que mata: há estrangulamento? Alça estrangulada não espera, não faz teste com contraste e não tem prazo de 72 horas.

O capítulo é construído nessas duas perguntas, e no contraste hidrossolúvel — o teste que diagnostica e trata ao mesmo tempo, e cuja parte terapêutica virou alvo de contestação recente.

03

O que muda decisão

Duas perguntas antes de qualquer conduta

Antes de escolher conduta, confirme que a obstrução é mecânica. O achado que define isso é o ponto de transição: um local onde a alça dilatada dá lugar à alça colabada. Dilatação difusa de delgado e cólon sem ponto de transição é íleo paralítico ou pseudo-obstrução — e o tratamento é clínico. A checagem parece burocrática até aparecer a vinheta em que a resposta errada é laparotomia.

A fisiopatologia decide a reanimação, não só a prova. A alça obstruída sequestra líquido na luz e na parede: é terceiro espaço dentro do abdome. O paciente chega hipovolêmico mesmo com pressão normal, e com alcalose hipoclorêmica se vomitou muito. Quando a alça começa a sofrer, o quadro inverte para acidose metabólica com lactato em elevação — gasometria e lactato confirmam gravidade, mas não servem para descartá-la.

Uma pista de exame que a vinheta usa: os ruídos hidroaéreos ficam aumentados e metálicos no começo e desaparecem depois. Silêncio abdominal em obstrução não é melhora — é alça exausta ou peritonite instalada.

Delgado: aderência até prova em contrário — mas só em quem já operou

As aderências pós-operatórias são a principal causa de obstrução de delgado e respondem por 60% dos casos. Isso muda como você lê a vinheta: em paciente com laparotomia prévia, brida é a hipótese até que algo aponte para outro lado.

Os números do curso natural justificam a paciência: entre 20 e 30% dos pacientes com obstrução por aderência precisam de tratamento operatório, ou seja, 70 a 80% resolvem sem cirurgia.

O contraponto é o abdome virgem. Sem cirurgia abdominal prévia, aderência vira diagnóstico de exclusão, e a lista muda: hérnia encarcerada em primeiro lugar, depois neoplasia, doença de Crohn, íleo biliar, intussuscepção do adulto — que quase sempre tem tumor como ponto de partida — e bezoar. A hérnia femoral da idosa magra é pequena, dói pouco, passa despercebida sob o lençol e é a que mais encarcera. E hérnia encarcerada com sinal de sofrimento de alça não entra em teste de 72 horas nem recebe contraste: vai para a sala, e a alça é inspecionada antes de qualquer redução.

Alças de delgado dilatadas e tensas até uma brida fibrosa que comprime um único ponto do íleo; logo depois da brida a alça está colabada e o cólon, vazio.
O ponto de transição é o achado que define obstrução mecânica: dilatado antes, colabado depois. Uma única brida basta — e é ela que a tomografia procura.

Estrangulamento: os sinais que cancelam o conservador

A regra da Bologna é escrita pela negativa: na ausência de sinais que exijam exploração cirúrgica imediata — peritonite, estrangulamento ou isquemia intestinal —, o manejo não operatório é a estratégia de escolha. A leitura útil para a prova é a inversa: qualquer um desses sinais encerra a discussão. Do lado clínico, os achados que tiram o paciente do conservador são dor que deixa de ser em cólica e passa a contínua, febre, taquicardia, leucocitose, acidose metabólica, defesa ou descompressão dolorosa e hérnia irredutível, valendo o conjunto mais que qualquer item isolado.

E aqui está o dado que muda a prática: o exame físico tem sensibilidade de apenas 48% para estrangulamento. Metade das alças em sofrimento tem abdome pouco impressionante, e quem libera o conservador confiando no exame acerta metade das vezes. Por isso a tomografia não é luxo — a helicoidal tem acurácia em torno de 90% para prever estrangulamento e necessidade de cirurgia urgente.

Os sinais tomográficos que pesam: alça fechada, isto é, dois pontos de transição adjacentes formando alça em C ou U; redemoinho do mesentério; realce parietal reduzido ou ausente, que é o achado mais específico de isquemia; espessamento de parede; edema e borramento da gordura mesentérica; líquido livre. A Bologna é direta: alça fechada, isquemia e líquido livre indicam cirurgia sem demora. Pneumatose intestinal e gás portal também são isquemia, mas tardia. Vale ainda o escore de Zielinski, em que edema mesentérico, ausência do sinal de fezes no delgado e obstipação predizem necessidade de cirurgia.

Contraste hidrossolúvel: o teste que responde em 24 horas

O protocolo é curto e cai literalmente: 50 a 150 mL de contraste hidrossolúvel, por via oral ou pela sonda nasogástrica, podendo ser administrado já na admissão ou depois de uma tentativa inicial de tratamento conservador de 48 horas (grau 1b/A).

O marco que decide é a radiografia simples de abdome 24 horas depois. Contraste que alcançou o cólon nesse prazo prevê a resolução do quadro (grau 1a/A); contraste parado em delgado prediz falha do manejo não operatório e antecipa a indicação cirúrgica. É um teste binário, barato e com resposta em um dia. O efeito terapêutico vem da osmolaridade: o contraste é hiperosmolar, puxa água para a luz, reduz o edema da parede e aumenta o gradiente de pressão através do ponto obstruído.

Quem não faz o teste: o paciente com sinais de estrangulamento ou peritonite. As diretrizes o excluem explicitamente do tratamento conservador, com ou sem contraste (grau 1a/A). Nele, o exame não acrescenta informação que mude a conduta e consome tempo de alça viável.

Um detalhe prático que a literatura internacional não resolve: a Gastrografina não é comercializada no Brasil. Série brasileira mostrou que os iodados à base de meglumina disponíveis aqui fazem o mesmo papel, com acurácia de 97,6% — o teste é o mesmo, o rótulo do frasco é outro. O bloco de divergências traz os números.

O relógio: 72 horas, e o que fazer dentro delas

Manejo não operatório não é observação passiva. É jejum, reposição volêmica de verdade — o paciente perdeu volume para dentro da própria alça —, correção de distúrbios hidroeletrolíticos, sonda nasogástrica para descompressão, analgesia e reavaliação clínica seriada. As sondas longas naso-intestinais são mais eficazes, mas exigem colocação endoscópica; na prova e na maioria dos serviços, a resposta é sonda nasogástrica.

O prazo: um teste de manejo não operatório pode ser continuado com segurança por 72 horas (nível IIb). A palavra que importa é teto — é o máximo, não uma espera obrigatória. Interrompem o conservador antes da hora: dor que vira contínua, taquicardia, febre, leucocitose, acidose, peritonite, piora da distensão, débito da sonda que não cai e contraste que não alcançou o cólon em 24 horas.

Quando a cirurgia é indicada, a via ainda é majoritariamente aberta. A adesiólise laparoscópica pode reduzir morbidade em casos selecionados (nível IIC), com candidatos bem definidos: até duas laparotomias prévias, apendicectomia como cirurgia anterior, ausência de incisão mediana e suspeita de brida única. O contrapeso é o risco de lesão intestinal, maior por laparoscopia — de 6,3% a 26,9% —, e lesão despercebida em alça distendida é um desastre no pós-operatório. Converter cedo não é fracasso.

Cólon: neoplasia até prova em contrário, e a válvula que fecha a alça

Na obstrução de cólon, a causa mais comum hoje é o câncer colorretal; volvo e estenose diverticular vêm depois. O raciocínio se inverte em relação ao delgado: lá a aposta é aderência e o caminho é conservador; aqui a aposta é tumor e o caminho quase sempre termina no centro cirúrgico.

O que torna a obstrução de cólon perigosa é a válvula ileocecal. Ela é competente em cerca de 75% das pessoas, e quando é, o cólon obstruído vira alça fechada: não descomprime para o delgado e a pressão só sobe. Por isso, nessas vinhetas, o delgado aparece de calibre normal enquanto o cólon está enorme.

A consequência é onde rompe. Pela lei de Laplace, a tensão da parede acompanha o raio, e o ceco tem o maior diâmetro e a parede mais fina de todo o cólon. É ele que perfura, mesmo com o tumor a meio metro dali, no sigmoide. O limiar clássico está entre 9 e 12 cm, com uma ressalva importante: a duração da distensão pesa mais que o número absoluto. Na prática, dor localizada em fossa ilíaca direita num paciente com obstrução de cólon esquerdo é o sinal de que acabou o tempo de preparo.

A tomografia é superior à ultrassonografia e à radiografia simples (nível 3, grau B); sem tomografia disponível, o enema com contraste hidrossolúvel é alternativa válida para identificar sítio e natureza da obstrução.

No cólon direito, a colectomia direita com anastomose primária é a opção preferida (nível 2, grau B), com ileostomia terminal como alternativa aceitável quando a anastomose for insegura. A cecostomia descompressiva deve ser abandonada — a diretriz usa essa palavra.

No cólon esquerdo, a ressecção com anastomose primária é a opção preferida na obstrução maligna não complicada, na ausência de outros fatores de risco (nível 3, grau B). O procedimento de Hartmann fica para o paciente de alto risco cirúrgico e é preferível à colostomia em alça isolada, que associa internação mais longa sem reduzir a morbidade perioperatória (nível 2, grau B). O stent metálico autoexpansível entra como ponte apenas em cenário selecionado — o bloco de divergências detalha por quê.

Volvo: torce, isquemia e recidiva

O sigmoide responde por 60 a 75% dos volvos; o ceco, por 25 a 40%; o transverso, por 1 a 4%; o ângulo esplênico, por 1%. O perfil do volvo de sigmoide é o idoso com constipação crônica, frequentemente institucionalizado, e o substrato é o cólon redundante com mesentério longo — no Brasil, o megacólon chagásico é causa clássica desse substrato.

A radiografia com o clássico grão de café dá o diagnóstico inicial (grau 1C). A tomografia entra quando o diagnóstico é incerto ou há suspeita de complicação, e ajuda a identificar isquemia colônica; o achado é o sinal do redemoinho, cólon e mesentério torcidos. No enema contrastado, o afilamento em bico de pássaro marca o ponto de torção.

Entre 5 e 25% dos pacientes chegam já com isquemia colônica, perfuração, peritonite ou choque séptico. Esses não passam pelo endoscópio: vão para ressecção de urgência. Sem isquemia nem perfuração, a endoscopia flexível é a primeira linha e obtém descompressão em 60 a 95% dos casos (grau 1C), deixando-se uma sonda no local para manter a redução. A ressecção urgente fica indicada quando a detorsão falha e quando o cólon é inviável ou está perfurado (grau 1C).

E aqui está o ponto que mais derruba candidato: a detorsão não é o tratamento. A recidiva após descompressão isolada é de 45 a 71%, chegando a 43-75% no seguimento longo. Por isso a sigmoidectomia deve ser oferecida o mais cedo possível, inclusive na própria internação-índice (grau 1C) — a ASCRS diz o mesmo. Procedimentos sem ressecção, como sigmoidopexia e mesossigmoidopexia, têm recidiva alta e devem ser evitados. Se houver megacólon associado, a operação é colectomia subtotal: a sigmoidectomia isolada nesse cenário recidiva em até 82%.

A escolha entre anastomose colorretal primária, anastomose protegida e colostomia terminal é individualizada, e o Hartmann segue comum no paciente instável, coagulopata ou acidótico; a colostomia endoscópica percutânea existe para o altíssimo risco cirúrgico, com recomendação fraca (2C).

O volvo de ceco tem outro perfil — pacientes mais jovens, com predomínio em mulheres com até 60 anos — e outro tratamento: a descompressão endoscópica raramente resolve, e a conduta é cirúrgica, com ressecção. A abordagem sem ressecção fica reservada a quem não tolera a ressecção.

Alça sigmoide gigante em U invertido saindo da pelve, com as duas pernas convergindo e torcendo-se sobre si mesmas numa base estreita, e os vasos do mesentério enrolados em espiral.
Volvo de sigmoide: a torção na base fecha a alça nas duas pontas e é ela que rouba o suprimento. Por isso a descompressão alivia o quadro agudo, mas não resolve a doença.

O que imita obstrução e não vai para a sala

Duas condições produzem a mesma vinheta e a mesma radiografia, e nenhuma delas se trata com laparotomia. O íleo paralítico dá dilatação difusa de delgado e cólon, sem ponto de transição, no contexto de pós-operatório, distúrbio eletrolítico, opioide ou sepse.

A pseudo-obstrução colônica aguda, ou síndrome de Ogilvie, dá dilatação colônica maciça sem lesão obstrutiva. O paciente típico está internado por outro motivo: idoso, pós-operatório ortopédico, doença neurológica, comorbidade grave, em uso de opioide, com distúrbio eletrolítico.

O tratamento começa pelo suporte — corrigir eletrólitos, suspender opioide e anticolinérgico, jejum, descompressão nasogástrica e retal. Se o suporte falha, entra a neostigmina, que resolve até 94% dos casos e exige monitorização cardíaca contínua pelo risco de bradicardia, com atropina à mão. Colonoscopia descompressiva e cirurgia ficam para quem falha à neostigmina ou perfura.

04

Da vinheta à conduta

Três perguntas em ordem. Pular a primeira faz operar um íleo; pular a segunda faz esperar uma alça necrosada.

  1. 1É mecânica? Procure o ponto de transição na tomografia. Dilatação difusa de delgado e cólon sem transição é íleo paralítico ou pseudo-obstrução colônica — e o tratamento é clínico.
  2. 2Há estrangulamento? Peritonite, dor que virou contínua, taquicardia, febre, leucocitose, acidose, hérnia irredutível; na tomografia, alça fechada, realce parietal reduzido e líquido livre. Qualquer um encerra a discussão: centro cirúrgico.
  3. 3Delgado ou cólon? Delgado com laparotomia prévia e sem estrangulamento é candidato a conservador. Obstrução de cólon é neoplasia até prova em contrário e quase sempre termina em sala; a exceção é o volvo de sigmoide sem isquemia, que começa pelo endoscópio.
  4. 4No delgado conservador: jejum, sonda nasogástrica, reposição volêmica, correção de eletrólitos e contraste hidrossolúvel de 50 a 150 mL. Radiografia simples em 24 horas — contraste no cólon prevê resolução, contraste parado prevê cirurgia.
  5. 572 horas é o teto, não a meta. Piora clínica a qualquer momento antecipa a cirurgia.

Delgado

Alças dilatadas centrais e empilhadas, com pregas que atravessam toda a largura da alça (válvulas coniventes), e ausência de gás no cólon.

Cólon

Dilatação periférica em moldura, com haustrações que não atravessam toda a largura, e o ceco como o segmento mais distendido e mais próximo de romper.

Volvo de sigmoide

Alça única gigante em grão de café, com a parede dupla central e a base estreita no ponto de torção — de onde vem a isquemia.

O que olharObstrução de delgadoObstrução de cólon
Causa mais comumAderência pós-operatória — 60% dos casos. Em abdome virgem, hérnia primeiro.Câncer colorretal; depois volvo e estenose diverticular.
VômitoPrecoce e abundante na obstrução alta; tardio e fecaloide na distal.Tardio, às vezes ausente.
DistensãoDiscreta na alta, importante na distal.Importante e precoce.
Parada de eliminaçãoPode demorar horas.Precoce.
RadiografiaAlças centrais empilhadas, pregas atravessando toda a largura, pouco ou nenhum gás no cólon.Moldura periférica com haustrações; grão de café no volvo.
Exame que decideTomografia com contraste. O contraste hidrossolúvel também trata.Tomografia, superior a ultrassonografia e radiografia. Enema hidrossolúvel se não houver tomografia.
Conduta sem estrangulamentoConservador por até 72 horas, com contraste e radiografia de 24 horas.Cirúrgica na maioria. Volvo de sigmoide começa por descompressão endoscópica.
Quem vai direto para a salaPeritonite, isquemia, alça fechada, hérnia encarcerada com sofrimento.Peritonite, perfuração, ceco em risco, falha da detorsão endoscópica.

Operar não previne recidiva tanto quanto se imagina: depois de obstrução por aderência, 12% dos tratados sem cirurgia reinternam em 1 ano e 20% em 5 anos, contra 8% e 16% dos operados. A diferença não sustenta indicar cirurgia com o argumento de evitar um novo episódio.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Contraste hidrossolúvel: trata ou apenas prevê?

As diretrizes tratam como diagnóstico E terapêutico

A Bologna afirma que o contraste reduz a necessidade de cirurgia, o tempo até a resolução e a internação, com grau 1b/A para o uso e 1a/A para o valor preditivo. Uma coorte de 2025 reforçou o lado prático: dos pacientes em manejo não operatório, só 17,2% recebem cuidado plenamente aderente à diretriz, e esses ficaram 4,1 dias internados contra 7,8 a 11,5 dias dos demais.

Bologna/WSES ASBO 2013 (graus 1b/A e 1a/A) e Kaplan et al., Br J Surg 2025;112(4):znaf080

Meta-análise de 2025 nega o efeito terapêutico

Meta-análise de ensaios randomizados não encontrou redução significativa de intervenção cirúrgica (OR 0,63; IC95% 0,39-1,01; p=0,053) e conclui que a revisão não apoia o uso terapêutico do contraste hidrossolúvel, preservando apenas sua utilidade diagnóstica na decisão cirúrgica pela radiografia de controle.

Gowell et al., BJS Open 2025;9(3):zraf049

Na prova

O terreno comum é o valor preditivo, que nenhuma das posições contesta: contraste no cólon em 24 horas prevê resolução, contraste parado prevê cirurgia — alternativa construída sobre isso se sustenta nos dois mundos. A divergência é sobre o efeito terapêutico: a Bologna/WSES afirma que o contraste reduz a necessidade de cirurgia, o tempo até a resolução e a internação (graus 1b/A e 1a/A), enquanto a meta-análise de Gowell (2025) não encontrou redução significativa de intervenção cirúrgica (OR 0,63; IC95% 0,39-1,01; p=0,053) e restringe o exame ao papel diagnóstico. O material de base da questão denuncia o recorte: enunciado ancorado na diretriz de Bologna trabalha o papel duplo, diagnóstico e terapêutico; questão que cite meta-análise recente ou pergunte pela evidência do efeito terapêutico está testando exatamente a contestação. A coorte de Kaplan (2025) acrescenta um dado transversal: só 17,2% dos pacientes em manejo não operatório recebem cuidado plenamente aderente à diretriz, com internação de 4,1 dias contra 7,8 a 11,5 dias nos demais.

Qual contraste, num país sem Gastrografina

A diretriz internacional nomeia a Gastrografina

O protocolo é escrito em cima da Gastrografina (diatrizoato de meglumina e sódio), 50 a 150 mL por via oral ou pela sonda.

Bologna/WSES ASBO 2013 (grau 1b/A)

A série brasileira usou o que existe aqui

A Gastrografina não é comercializada no Brasil. Série brasileira de 126 pacientes usou contrastes iodados à base de meglumina disponíveis no país e obteve sensibilidade de 91,9%, especificidade de 100% e acurácia de 97,6%, com taxa cirúrgica de 29,4% — dentro da faixa esperada de 20 a 30%.

Von-Diemen et al., ABCD Arq Bras Cir Dig 2023;36:e1777

Na prova

Esta divergência é de disponibilidade, não de conduta: o protocolo de Bologna foi escrito em cima da Gastrografina, que não é comercializada no Brasil, e a série brasileira de Von-Diemen (126 pacientes) mostrou que os contrastes iodados à base de meglumina vendidos aqui entregam o mesmo exame — sensibilidade de 91,9%, especificidade de 100%, acurácia de 97,6% e taxa cirúrgica de 29,4%, dentro da faixa esperada de 20 a 30%. Por isso os enunciados falam 'contraste hidrossolúvel', sem marca: a ausência do nome Gastrografina numa alternativa não diz nada contra ela, e a ideia de que o protocolo seria inviável no país não encontra apoio na literatura nacional — o exame é feito aqui, com outro rótulo. O que precisa estar tecnicamente correto na alternativa é a via, o volume (50 a 150 mL, oral ou pela sonda) e a radiografia de controle em 24 horas.

Obstrução maligna de cólon esquerdo: operar de uma vez ou colocar stent como ponte?

Cirurgia de uma vez, com anastomose primária quando possível

A ressecção com anastomose primária deve ser a opção preferida na obstrução maligna não complicada de cólon esquerdo, sem outros fatores de risco (nível 3, grau B). No alto risco cirúrgico a diretriz mantém o Hartmann, e o prefere à colostomia em alça isolada (nível 2, grau B).

WSES 2018 (Pisano et al.) — statements 3.2 e 3.1

Stent como ponte, com ressalva oncológica

O stent metálico autoexpansível como ponte oferece desfecho de curto prazo melhor que a cirurgia de urgência, com taxa de estoma bem menor — mas a mesma diretriz afirma que ele não pode ser considerado o tratamento de escolha, por incerteza oncológica de longo prazo. A perfuração relacionada ao stent chega a 13%, e quando ocorre a sobrevida livre de doença em 4 anos foi de 0%, contra 45% sem perfuração. É opção válida em centros terciários selecionados; na paliação, é preferível à colostomia (nível 1, grau A).

WSES 2018 (Pisano et al.) — statements 3.9 e 3.8

Na prova

As duas posições moram na mesma diretriz (WSES 2018), então a chave não é escolher documento, e sim ler qual cenário o enunciado montou. Paciente estável e sem fator de risco: o texto coloca a ressecção com anastomose primária como opção preferida (nível 3, grau B). Alto risco cirúrgico, instabilidade ou sepse: o mesmo documento mantém o Hartmann, preferindo-o à colostomia em alça isolada (nível 2, grau B). O stent como ponte aparece quando a questão constrói suas condições — centro terciário com endoscopia disponível, alto risco operatório ou paliação de doença metastática, em que tem nível 1, grau A frente à colostomia —, sempre com a ressalva oncológica que a própria diretriz registra: perfuração em até 13% dos casos e, quando ela ocorre, sobrevida livre de doença em 4 anos de 0%, contra 45% sem perfuração. Uso de antiangiogênico como o bevacizumabe fecha a porta do stent em qualquer leitura.

06

Caso resolvido

Homem de 62 anos, laparotomia por trauma há 8 anos, chega com dor abdominal em cólica há 18 horas, vômitos e parada de eliminação de gases. Abdome distendido e doloroso à palpação difusa, sem defesa. Orifícios herniários livres. PA 118x70 mmHg, FC 104 bpm, temperatura 37,6 °C. Leucócitos 15.600/mm³, lactato 2,4 mmol/L. Tomografia: alças de delgado dilatadas com dois pontos de transição adjacentes formando alça em U, redemoinho do mesentério, realce parietal reduzido no segmento acometido e líquido livre entre as alças.
achado
Obstrução mecânica de delgado, com laparotomia prévia e orifícios herniários livres: aderência é a causa provável. Mas o que define a conduta não é a causa.
estrangulamento
Presente. Na tomografia estão os três achados que a Bologna manda operar sem demora — alça fechada com dois pontos de transição, realce parietal reduzido e líquido livre —, e o clínico acompanha, com taquicardia, febre baixa, leucocitose e lactato em elevação.
o que NÃO fazer
Nada de contraste hidrossolúvel, nada de teste de 72 horas. O paciente com sinais de estrangulamento é explicitamente excluído do tratamento conservador (grau 1a/A): aqui o contraste só atrasaria a incisão.
conduta
Reposição volêmica, antibiótico e cirurgia agora. Compare com a questão de abertura: mesmo perfil de paciente, mesma causa provável, decisão oposta — o que muda é a tomografia.
07

Agora feche você

Mulher de 78 anos, institucionalizada, com constipação crônica, chega com distensão abdominal maciça há 3 dias e parada de eliminação de gases e fezes. Abdome muito timpânico e doloroso, sem defesa e sem peritonite. PA 132x80 mmHg, FC 88 bpm, temperatura 36,5 °C, leucócitos 11.100/mm³, lactato 1,4 mmol/L. Radiografia: alça colônica gigante em grão de café ocupando o abdome, apontando para o quadrante superior direito. Tomografia: sinal do redemoinho na raiz do mesocólon sigmoide, parede com realce preservado, sem líquido livre e sem pneumoperitônio.
achado
Volvo de sigmoide — grão de café na radiografia, redemoinho na tomografia. Perfil típico: idosa, institucionalizada, com constipação crônica.
estrangulamento
Ausente — ela não está entre os 5 a 25% que chegam já com isquemia, perfuração ou choque.
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Mandar hérnia encarcerada para o conservador A vinheta descreve obstrução de delgado e oferece sonda, soro e reavaliação. O detalhe que muda tudo está no exame físico: abaulamento inguinal ou femoral doloroso e irredutível. Hérnia encarcerada com sofrimento de alça é indicação cirúrgica, e a alça é inspecionada antes de qualquer redução.
  2. 2Descartar isquemia porque o exame físico está tranquilo O exame físico tem sensibilidade de 48% para estrangulamento: metade das alças em sofrimento tem abdome pouco impressionante. Por isso a tomografia entra mesmo no paciente que parece bem.
  3. 3Esperar pneumatose ou gás portal para indicar cirurgia São sinais de isquemia, mas tardios. Os que decidem vêm antes: alça fechada com dois pontos de transição, realce parietal reduzido ou ausente, líquido livre. Quem espera o sinal clássico opera necrose, não isquemia.
  4. 4Tratar volvo de sigmoide só com a descompressão A endoscopia resolve o quadro agudo em 60 a 95% dos casos, e é aí que a vinheta arma a pegadinha, oferecendo alta com orientação dietética. A recidiva sem ressecção é de 45 a 71%: a resposta completa inclui sigmoidectomia na mesma internação.
  5. 5Operar a síndrome de Ogilvie Paciente internado, idoso, cólon maciçamente dilatado — e tomografia sem ponto de transição. Não é obstrução mecânica. O caminho é suporte, correção de eletrólitos, suspensão de opioide e anticolinérgico, e neostigmina se o suporte falhar. Laparotomia aqui é a conduta de maior mortalidade nessa população.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Obstrução de intestino delgado (distensão de alças de delgado, ruídos metálicos, vômitos precoces) em paciente com cirurgia abdominal prévia tem como causa mais frequente as aderências/bridas. Hérnia encarcerada seria evidente ao exame das regiões inguinais. Neoplasia de cólon e volvo de sigmoide causam obstrução de intestino grosso, com distensão colônica. Íleo biliar é raro e cursa com aerobilia e cálculo ectópico à imagem.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Os sinais que cancelam o conservador — peritonite, dor que virou contínua, taquicardia, febre, leucocitose, acidose, hérnia irredutível e, na tomografia, alça fechada, realce parietal reduzido e líquido livre. Junto, o protocolo do contraste: 50 a 150 mL, radiografia em 24 horas, teto de 72 horas.

em 30 dias

A metade colônica: câncer como causa mais comum, a válvula ileocecal competente que transforma obstrução de cólon em alça fechada e faz o ceco romper, e as condutas por lado — anastomose primária à direita e também à esquerda no paciente sem fator de risco, Hartmann no alto risco, stent como ponte só em cenário selecionado. Mais o volvo inteiro: endoscopia primeiro, sigmoidectomia na mesma internação, colectomia subtotal se houver megacólon.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 68 anos com distensão abdominal e parada de eliminação de gases há 3 dias — pronto-socorro — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

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