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Cirurgia GeralUrologia

Câncer de bexiga: da hematúria à cistoscopia

Câncer de bexiga e hematúria (investigação)

Quem investigar, com qual exame, e a linha da muscular própria que parte o tratamento em dois

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 58 anos, tabagista de longa data, procura atendimento por hematúria macroscópica indolor, intermitente, sem coágulos, há 3 semanas, sem disúria, febre ou dor. Exame físico sem alterações. Urina tipo I confirma hematúria; urocultura negativa. Qual é a investigação prioritária para esse quadro?

02

Como esse tema cai

Este capítulo tem duas metades que a prova costuma cobrar juntas. A primeira é a hematúria: quem investiga, com quantas coletas, como separar o sangramento que vem do glomérulo do que vem da via urinária, e quem sai da unidade básica com pedido de urologia. A segunda é o câncer de bexiga propriamente dito, da cistoscopia ao tratamento, organizado por uma única linha anatômica — a muscular própria.

Fica de fora o que já tem endereço. A hematúria glomerular da criança e do adulto está nos capítulos de glomerulonefrite pós-estreptocócica e de síndromes nefrótica e nefrítica. A hematúria do trauma, com sangue no meato e próstata elevada, está no capítulo de trauma de pelve, e a regra ali é outra: uretrografia retrógrada antes da sonda. A hematúria da cólica nefrética está no capítulo de litíase urinária, e a hematúria macroscópica recorrente de origem prostática, que é indicação cirúrgica de hiperplasia, está no capítulo de hiperplasia prostática benigna. O capítulo de incontinência urinária diz que hematúria sem infecção obriga a investigar neoplasia e litíase, e para por aí — é aqui que essa frase se resolve.

O tamanho do problema fixa o lugar do tema. São 13.110 casos novos de câncer de bexiga estimados para cada ano do triênio de 2026 a 2028 no Brasil, com risco de 6,12 casos por 100 mil habitantes. Desses, 9.040 em homens (8,65 por 100 mil homens) e 4.070 em mulheres (3,71 por 100 mil mulheres) — sete em cada dez casos são masculinos, e a razão entre as taxas é de 2,3 para 1. Excluídos os tumores de pele não melanoma, é o décimo câncer mais incidente do país e o sexto entre os homens, com 3,5% dos casos masculinos. Em 2023 ocorreram 5.252 óbitos, 3.423 em homens e 1.829 em mulheres.

Um cuidado com esse par de números, porque a tentação é dividir um pelo outro. Óbitos de 2023 são contagem observada; casos novos de 2026 a 2028 são estimativa projetada. A razão entre eles não é letalidade, e lê-la assim mistura ano, método e denominador.

A régua brasileira do tema não é federal. O Ministério da Saúde publica Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas em oncologia para dezesseis situações — estômago, próstata, cabeça e pescoço, pulmão, rim, esôfago, fígado, ovário, melanoma, cérebro e as hematológicas —, e a bexiga não é uma delas. O documento nacional que ordena o tratamento é a diretriz da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica de 2026, escrita explicitamente para o que existe no Brasil, e o que ordena o encaminhamento é o protocolo de urologia do TelessaúdeRS-UFRGS adotado pela Secretaria Estadual da Saúde do Rio Grande do Sul. É desse par que sai quase tudo o que se cobra.

03

O que muda decisão

Hematúria macroscópica no adulto: o sintoma que não tem segunda chance

A frase que resolve a maioria das questões é curta: hematúria macroscópica em adulto, sem infecção que a explique, vai para a urologia — e vai com um único exame de urina, sem esperar segunda coleta e sem esperar segundo episódio. O que engana é o comportamento do sangramento urotelial, que é indolor, intermitente e cessa sozinho. Quem toma a urina limpa da semana seguinte como resolução perde meses, e o protocolo de encaminhamento foi escrito para impedir exatamente essa espera.

Antes de qualquer pedido, o protocolo manda descartar as causas benignas, e a lista é fechada: infecção urinária, febre, trauma e sangramento menstrual. Descartadas essas, a pergunta seguinte é de endereço, não de gravidade — o sangue vem do glomérulo ou da via urinária? Essa bifurcação decide se o paciente vai para a nefrologia ou para a urologia, e errá-la é o defeito mais comum do tema.

Os achados que apontam para doença glomerular estão num quadro só: pesquisa de hemácias dismórficas positiva, sobretudo com acantócitos descritos; acantócitos no exame de urina; proteinúria; cilindros hemáticos; insuficiência renal, isto é, elevação de creatinina e/ou ureia; e história familiar de nefrite hereditária ou de doença policística renal. Quando o laboratório informa a porcentagem de dismorfismo, a leitura tem três faixas: acima de 70% é tipicamente glomerular, abaixo de 30% é tipicamente não glomerular, e entre 30% e 70% a origem é indeterminada — e aí o paciente precisa das duas avaliações, urológica e nefrológica.

Com isso, o encaminhamento se escreve sozinho. Vai para urgência ou emergência a hematúria macroscópica que vem acompanhada de obstrução do trato urinário, instabilidade hemodinâmica, sepse urinária ou dor de difícil manejo. Vai para a urologia a hematúria macroscópica com coágulos na ausência de infecção, e também a hematúria macroscópica sem coágulos, confirmada em um exame de urina, sem evidência de doença glomerular. Vai para a nefrologia a hematúria macroscópica sem coágulos que sugere doença glomerular.

Repare no detalhe da contagem, porque ele cai: a hematúria macroscópica se confirma com um exame de urina. As duas coletas com intervalo são exigência da hematúria microscópica, não da macroscópica. Trocar as duas regras atrasa em seis semanas um paciente que deveria estar na fila da cistoscopia.

Árvore de decisão da hematúria: do achado urinário partem dois ramos, o glomerular com hemácias dismórficas, cilindros hemáticos e proteinúria terminando no rim, e o urológico com hemácias isomórficas, coágulos e lesão papilífera na parede vesical terminando na cistoscopia; ao lado, as causas benignas a descartar antes.
A bifurcação que decide o destino do paciente é de endereço, não de gravidade. Dismórficas, cilindros e proteinúria puxam para a nefrologia; coágulos, hemácias isomórficas e ausência de sinal glomerular puxam para a cistoscopia.

Hematúria microscópica: o número, as duas coletas e o fator de risco

Hematúria microscópica é definida por três hemácias ou mais por campo quando a urina é analisada por microscopia ou sedimentoscopia, ou por valor acima do limite de referência quando o método é quantitativo, como a citometria de fluxo. Não é uma fita reagente positiva: o dipstick detecta heme, e mioglobina e hemoglobina livre o positivam sem que haja hemácia nenhuma.

A confirmação exige dois exames de urina com intervalo de seis semanas entre eles, acompanhados da pesquisa de hemácias dismórficas. Confirmada a hematúria e negativa a pesquisa de dismórficas — ou seja, origem não glomerular —, a decisão seguinte não é sobre o número de hemácias. É sobre quem é o paciente.

A lista de fatores de risco para neoplasia urotelial é fechada e vale a pena decorá-la, porque é ela que separa quem vai ao urologista agora de quem vai ser reavaliado depois. São eles: mulheres com 50 anos ou mais, ou homens com 40 anos ou mais; história de tabagismo; sintomas miccionais irritativos ou cistite crônica/intersticial não justificados por infecção urinária; radioterapia pélvica prévia; cateterismo intermitente ou sondagem vesical de demora; e exposição ocupacional a carcinógenos — trabalhadores de fábrica de corantes, borracha, couro, têxteis, produtos de pintura e empresas de impressão, além de pintores, mecânicos, tipógrafos, cabeleireiros e motoristas de caminhão.

Note a assimetria de idade, que é onde a memória escorrega: cinquenta para mulheres, quarenta para homens. Não é erro de digitação: o corte é dez anos mais baixo no sexo em que a taxa de incidência é 2,3 vezes maior. O que a memória troca é a ordem — pede-se cinquenta para quem tem menos risco e quarenta para quem tem mais.

Com fator de risco, a hematúria microscópica assintomática confirmada e não glomerular vai para a urologia. Sem fator de risco, ela vai para a urologia apenas se persistir após 6 ou 12 meses — e o encaminhamento precisa trazer os exames de reavaliação, não só os dois primeiros. O conteúdo mínimo do encaminhamento também é cobrável: sinais e sintomas, creatinina sérica com data, os dois exames de urina com o intervalo respeitado, relação albuminúria/creatininúria ou proteinúria em amostra ou em 24 horas, a pesquisa de dismórficas, a declaração explícita de haver ou não fator de risco e, preferencialmente, o laudo da ecografia de vias urinárias.

Do outro lado da mesma decisão está a nefrologia: hematúria microscópica assintomática persistente com pesquisa de dismórficas positiva, ou com qualquer outro achado do quadro glomerular, confirmada em dois exames com seis semanas de intervalo.

A investigação urológica: a fase excretora, a cistoscopia e o que a citologia não faz

O urotélio é contínuo dos cálices renais à uretra proximal, e o carcinoma urotelial é doença de campo — quem tem tumor num ponto tem risco em toda a extensão. Essa é a razão pela qual a imagem da investigação não é uma ecografia de bexiga: o método de primeira linha para o estadiamento inicial e para o seguimento é a tomografia de tórax e abdome total com fase excretora, e a fase excretora é o que permite excluir tumores uroteliais do trato urinário superior, em ureteres e pelve renal. Sem ela, metade da superfície de risco fica fora do exame.

O preço está declarado: radiação ionizante e contraste iodado, com risco de alergia e de nefrotoxicidade — cautela em quem tem função renal comprometida ou alergia ao iodo. A alternativa nesses casos é a ressonância de pelve, que também é a escolha quando se precisa de melhor detalhamento das estruturas pélvicas. A ressonância multiparamétrica com leitura padronizada pelo VI-RADS tem um lugar próprio e estreito: idealmente antes da ressecção transuretral, nos casos em que distinguir tumor superficial de invasão muscular é crucial para a decisão terapêutica. A tomografia por emissão de pósitrons com FDG fica para situações selecionadas, com suspeita de metástase à distância ou dúvida específica no estadiamento — não é padrão universal no estadiamento inicial do tumor músculo-invasivo.

A cistoscopia com biópsia é o padrão-ouro da confirmação diagnóstica e deve ser sempre realizada diante de achados suspeitos. É invasiva, exige sedação ou anestesia e tem risco baixo de sangramento e de perfuração — e não substitui a avaliação sistêmica por imagem, do mesmo modo que a imagem não substitui a visão direta da mucosa.

A citologia urinária é o exame mais mal interpretado do tema. Ela tem grande sensibilidade para tumores de alto grau e para carcinoma in situ, e a especificidade chega a 90% com examinadores experientes. Mas — e é este o ponto — citologia urinária negativa não exclui a presença de tumor. Ela é útil onde a cistoscopia é fraca, que é a lesão plana do carcinoma in situ; é fraca onde a cistoscopia é forte, que é o tumor papilífero de baixo grau. O laudo segue o Sistema de Paris, atualizado em 2022, com quatro categorias: negativo para carcinoma urotelial de alto grau, células uroteliais atípicas, suspeito para carcinoma de alto grau e carcinoma urotelial de alto grau.

E não há marcador urinário específico para o diagnóstico do carcinoma invasivo de bexiga. Alternativa de prova que ofereça um marcador urinário no lugar da cistoscopia está errada por definição, não por indisponibilidade.

A ressecção transuretral: o procedimento que trata, estadia — e pode falhar nas duas coisas

A ressecção transuretral de lesão vesical remove a lesão e permite a avaliação histológica de todas as camadas. É diagnóstica e potencialmente terapêutica nos tumores superficiais, e é o exame que determina o grau de invasão muscular. Só que ela só cumpre esse papel se a amostra contiver a camada muscular — sem muscular própria na lâmina, o patologista não pode dizer se há ou não invasão, e o estadiamento fica em aberto.

O material de sítios diferentes vai ao patologista em recipientes separados, e o laudo tem conteúdo obrigatório: localização, número e tamanho das lesões, padrão morfológico — papilífero ou sólido — e presença de anormalidades na mucosa. Não é burocracia: é o que alimenta a classificação de risco que decide o tratamento.

A segunda ressecção transuretral, em 4 a 6 semanas, é recomendada em tumores de alto grau ou quando há suspeita de doença residual, e o número que justifica a conduta é grande: na doença de alto grau pode haver 33% a 53% de lesão residual após a primeira ressecção. Metade dos pacientes de alto grau, portanto, sai da primeira cirurgia com tumor dentro da bexiga.

A instilação intravesical única de quimioterápico logo após a ressecção é a outra metade do procedimento e tem regras de relógio. Deve ser feita em até 24 horas, com a droga mantida por cerca de 1 a 2 horas, e não pode ser realizada quando houve perfuração vesical. Três metanálises, com cerca de 1.476 a 3.103 pacientes, mostraram que a instilação após a ressecção reduziu a recorrência em até 13% em comparação com a cirurgia sem adjuvância. Nenhum quimioterápico se mostrou superior aos demais: mitomicina C, gencitabina e doxorrubicina apresentaram os mesmos resultados — o que a prova cobra é o momento e a contraindicação, não a molécula.

TNM: uma linha anatômica parte o tratamento em dois mundos

O estadiamento T do câncer de bexiga é uma descida por camadas, e o nome de cada uma importa. Ta é o carcinoma papilar não invasivo. Tis é o carcinoma in situ, o tumor plano. T1 invade o tecido conjuntivo subepitelial. T2 invade a camada muscular própria, subdividido em T2a, metade interna, e T2b, metade externa. T3 invade o tecido perivesical, microscopicamente em T3a e macroscopicamente em T3b. T4 invade órgão vizinho: T4a a próstata, vesículas seminais, vagina ou útero; T4b a parede pélvica ou abdominal.

A linha que organiza o capítulo inteiro está entre T1 e T2. Ta, Tis e T1 formam a doença não-músculo-invasiva, tratada por dentro da bexiga; T2 em diante é a doença músculo-invasiva, que muda de tratamento e de prognóstico. E aqui está a armadilha de vocabulário mais rentável do tema: T1 invade — invade o conjuntivo subepitelial — e mesmo assim é não-músculo-invasivo. A palavra 'invasão' no laudo não move o paciente para a cistectomia; o que move é a muscular própria.

No N, a divisão é topográfica e não numérica apenas: N1 é metástase em um linfonodo da pelve verdadeira — perivesical, obturatório, ilíaco interno ou externo, ou pré-sacral; N2 é metástase em múltiplos linfonodos da pelve verdadeira; N3 é metástase em linfonodo da cadeia ilíaca comum. Subir da pelve verdadeira para a ilíaca comum muda a categoria mesmo com um linfonodo só.

No M, a subdivisão nomeia o sítio: M1a é metástase à distância em linfonodo além da cadeia ilíaca comum, e M1b é metástase à distância não linfonodal. No agrupamento, T4b com qualquer N e M0 e qualquer doença com M1a compõem o estádio IVA, e M1b define o IVB — de modo que um tumor sem metástase à distância pode ser estádio IV apenas por invadir a parede pélvica ou abdominal.

Não-músculo-invasivo: o grupo de risco decide o que se instila

A classificação de risco dos tumores superficiais usa a graduação da Organização Mundial da Saúde de 2004/2016 e três fatores clínicos adicionais que se contam com os dedos: idade acima de 70 anos, tumores papilares múltiplos e diâmetro do tumor acima de 3 cm.

Baixo risco é o tumor primário, único, Ta ou T1 de baixo grau/G1, com diâmetro menor que 3 cm, sem carcinoma in situ, em paciente com até 70 anos; e também o tumor primário Ta de baixo grau/G1 sem carcinoma in situ com no máximo um fator clínico adicional. Risco intermediário é o grupo por exclusão: pacientes sem carcinoma in situ que não se encaixam nos grupos de baixo, alto ou muito alto risco. Alto risco reúne todos os T1 de alto grau/G3 sem carcinoma in situ, exceto os do grupo de muito alto risco, e todos os pacientes com carcinoma in situ, exceto os do muito alto risco — além de combinações definidas pelo número de fatores adicionais. Muito alto risco é onde a soma aperta: Ta de alto grau/G3 com carcinoma in situ e os três fatores; T1G2 com carcinoma in situ e pelo menos dois; T1 de alto grau/G3 com carcinoma in situ e pelo menos um; e T1 de alto grau/G3 sem carcinoma in situ com os três fatores.

Uma regra atravessa toda a tabela e é fácil de esquecer: paciente com tumor recorrente não é classificado como baixo risco. Ele é classificado nos grupos intermediário, alto ou muito alto, conforme os fatores prognósticos.

O tratamento sai direto do grupo. Baixo risco: instilação intravesical única de quimioterápico após a ressecção, e só. Risco intermediário: instilação intravesical de BCG por 1 ano. Alto risco: BCG por 1 a 3 anos, com a duração escolhida conforme custo e disponibilidade da BCG. Muito alto risco: considerar cistectomia radical imediata — e também considerá-la em caso de falha da adjuvância com BCG.

As quatro contraindicações absolutas à BCG intravesical são um bloco de prova por si só, e uma delas fecha o círculo com a primeira seção deste capítulo: nas duas primeiras semanas após a ressecção transuretral; em paciente com hematúria macroscópica; após cateterização uretral traumática; e em paciente com infecção do trato urinário sintomática. As três primeiras têm a mesma lógica — mucosa aberta ou sangrando é porta de entrada para a micobactéria viva que se está instilando.

Por fim, a cistectomia radical precoce no tumor não-músculo-invasivo tem indicações próprias: estadiamento subestimado na ressecção, situação nada rara, porque 27% a 51% dos pacientes são reclassificados como doença músculo-invasiva na peça de cistectomia; progressão para estádio músculo-invasivo; e tumores não responsivos à BCG. Feita antes da progressão, a cistectomia precoce alcança sobrevida livre de doença em 5 anos acima de 80%.

Músculo-invasivo: quem recebe cisplatina antes de perder a bexiga

O tratamento cirúrgico da doença músculo-invasiva é a cistectomia radical com linfadenectomia pélvica bilateral. O que a prova cobra ao redor dela é a sequência: pacientes com tumores T2 a T4a e/ou N1 que sejam elegíveis à cisplatina recebem tratamento neoadjuvante antes da cirurgia, com recomendação forte.

A elegibilidade à cisplatina é uma lista de exclusão com cinco entradas, e a presença de qualquer uma delas já torna o paciente inelegível: clearance de creatinina abaixo de 60 mL/min; insuficiência cardíaca em classe funcional III ou pior da New York Heart Association; ECOG 2 ou pior, ou Karnofsky de 60% a 70% ou menos; neuropatia periférica de grau 2 ou maior; e perda auditiva de grau 2 ou maior. Repare que três dessas cinco entradas descrevem exatamente as toxicidades da própria cisplatina — rim, nervo e ouvido —, o que torna a lista mais fácil de reter do que de decorar; as outras duas, insuficiência cardíaca e estado funcional, medem se o paciente aguenta o esquema.

Os esquemas neoadjuvantes recomendados são três: gencitabina com cisplatina e durvalumabe por 4 ciclos seguidos de 8 ciclos de durvalumabe adjuvante, o desenho do estudo Niagara; MVAC em dose densa por 3 a 6 ciclos; e gencitabina com cisplatina por 4 ciclos. Um alerta que a diretriz escreve com todas as letras: os benefícios demonstrados valem apenas para quem pode receber cisplatina, e os resultados não são intercambiáveis para esquemas baseados em carboplatina. Trocar cisplatina por carboplatina na neoadjuvância não é adaptação, é abandono do racional.

A evidência que sustenta a conduta tem uma nuance de leitura. O estudo de fase III com 317 pacientes que comparou MVAC neoadjuvante seguido de cirurgia contra cirurgia isolada mostrou sobrevida em 5 anos de 43% para 57%, com a sobrevida passando de 46 para 77 meses — e com p = 0,06, que não cruza o limiar convencional de significância. Quem sustenta a recomendação é a metanálise com 3.005 pacientes: a poliquimioterapia baseada em cisplatina aumenta a sobrevida em 5 anos em 5 pontos percentuais, de 45% para 50%, e reduz o risco de morte em 14% (HR 0,86; IC95% 0,77-0,95; p = 0,003). Um estudo de fase III com 976 pacientes usando cisplatina, metotrexato e vimblastina mostrou, em 8 anos de seguimento, redução de mortalidade de 16% (HR 0,84; IC95% 0,72-0,99) e sobrevida em 10 anos de 30% para 36%.

No adjuvante, a régua é mais estreita. Doença localizada pT2pN0 não tem indicação de tratamento adjuvante. Doença de alto risco — T3-4 e/ou N positivo — em quem não recebeu neoadjuvância é candidata a gencitabina com cisplatina por 4 ciclos ou MVAC em dose densa por 3 a 4 ciclos. Quem recebeu gencitabina, cisplatina e durvalumabe na neoadjuvância completa os 8 ciclos de durvalumabe, e quem tem doença residual músculo-invasiva após quimioterapia neoadjuvante pode receber nivolumabe por 1 ano.

Existe ainda o caminho que preserva o órgão. A terapia trimodal — ressecção transuretral máxima, seguida de quimiorradioterapia, com nova citologia urinária e nova ressecção após 40 a 45 Gy — é indicada a portadores de carcinoma urotelial músculo-invasivo localizado, idealmente T2 a T3a, sem metástase, que não sejam candidatos à cistectomia radical ou que a recusem. O cenário ideal soma ressecção completa na primeira cirurgia, ausência de hidronefrose e de alteração da função renal, ausência de carcinoma in situ extenso, tumor unifocal menor que 5 cm e bexiga com função preservada. Se há resposta completa ou parcial na reavaliação, prossegue-se até 60 a 64 Gy; se não há resposta ou há progressão, a conduta é cistectomia radical. Os números da estratégia estão publicados e não são escondidos: taxa de resposta em torno de 70%, 20% a 30% dos pacientes acabam precisando de cistectomia radical apesar do tratamento, e a sobrevida global em 5 anos é de aproximadamente 55%.

Seguimento: a cistoscopia que não acaba, e o vocabulário da falha à BCG

Doença de campo se acompanha por vigilância, e o instrumento da vigilância é a cistoscopia. No tumor não-músculo-invasivo de baixo risco, a cistoscopia é feita aos 3 meses; se negativa, repete-se após 9 meses e depois anualmente por 5 anos. No de alto risco, o esquema é outro: cistoscopia com citologia urinária aos 3 meses e, se negativa, a cada 3 meses por 2 anos, depois a cada 6 meses até completar 5 anos e, a partir daí, anualmente.

A força dessa recomendação merece atenção porque a prova gosta de perguntar sobre nível de evidência: o seguimento cistoscópico da doença não-músculo-invasiva é classificado com nível de evidência muito baixo e força de recomendação forte. Não é contradição — é o retrato de uma conduta cuja alternativa ninguém está disposto a testar.

Quando o paciente recidiva sob BCG, o vocabulário deixa de ser descritivo e vira classificação, com consequência terapêutica direta. Refratário à BCG é o T1 de alto grau/G3 presente aos 3 meses; o Ta de alto grau/G3 presente após 3 meses e/ou aos 6 meses depois de reindução ou do primeiro ciclo de manutenção; o carcinoma in situ isolado presente aos 3 meses e persistente aos 6, depois de reindução ou do primeiro ciclo de manutenção; e o tumor de alto grau que surge durante a manutenção. Recorrente à BCG é a recorrência de alto grau/G3 após o término da manutenção, apesar de resposta inicial.

A categoria que decide conduta é 'não responsivo à BCG': reúne todos os refratários e, além deles, quem recidiva com T1 ou Ta de alto grau em menos de 6 meses após concluir uma exposição adequada à BCG, ou quem desenvolve carcinoma in situ em menos de 12 meses após essa mesma exposição adequada. E 'exposição adequada' tem definição numérica: pelo menos 5 das 6 doses do ciclo inicial de indução, mais no mínimo 2 das 6 doses de um segundo ciclo de indução ou 2 das 3 doses da manutenção. Sem esse denominador cumprido, o rótulo de não responsivo não se aplica — o que falhou pode ter sido a exposição, não a droga.

Uma ressalva encerra o vocabulário e desarma um distrator frequente: recorrência de tumor de baixo grau após BCG não é considerada falha do tratamento.

04

Esquemas e tabelas

O caminho tem duas portas e uma linha. A primeira porta é a hematúria, que se resolve perguntando se há sinal glomerular e, se não houver, se o paciente tem fator de risco urotelial. A segunda é a cistoscopia com ressecção, que entrega grau, estádio e — se a amostra tiver muscular própria — a informação que parte o tratamento em dois. As tabelas trazem o destino de cada tipo de hematúria, o TNM por camada e o tratamento por grupo de risco.

  1. 1Diante de urina com sangue, primeiro descarte as causas benignas: infecção urinária, febre, trauma e sangramento menstrual.
  2. 2Classifique: macroscópica ou microscópica. Macroscópica confirma-se com UM exame de urina; microscópica exige dois, com 6 semanas de intervalo, e é definida por 3 ou mais hemácias por campo.
  3. 3Procure sinal glomerular: dismórficas positivas (sobretudo acantócitos), proteinúria, cilindros hemáticos, elevação de creatinina/ureia, história familiar de nefrite hereditária ou doença policística. Havendo, o destino é a nefrologia.
  4. 4Sem sinal glomerular e com hematúria macroscópica: urologia. Havendo obstrução, instabilidade, sepse urinária ou dor de difícil manejo, urgência.
  5. 5Sem sinal glomerular e com hematúria microscópica: pergunte pelo fator de risco urotelial. Havendo, urologia agora; não havendo, reavalie e encaminhe só se persistir após 6 ou 12 meses.
  6. 6Na urologia, a investigação é tomografia de tórax e abdome total COM FASE EXCRETORA mais cistoscopia; a citologia urinária entra como complemento, e negativa não exclui tumor.
  7. 7Achada lesão, faça a ressecção transuretral com muscular própria na amostra e instilação única de quimioterápico em até 24 horas — salvo perfuração vesical.
  8. 8Leia o laudo por camada: Ta, Tis e T1 são não-músculo-invasivos; T2 em diante é músculo-invasivo. Em alto grau ou ressecção incompleta, programe a segunda ressecção em 4 a 6 semanas.
  9. 9Não-músculo-invasivo: classifique em baixo, intermediário, alto ou muito alto risco e siga a tabela — instilação única, BCG por 1 ano, BCG por 1 a 3 anos, ou cistectomia imediata.
  10. 10Músculo-invasivo: teste a elegibilidade à cisplatina pelos cinco critérios e decida entre neoadjuvância seguida de cistectomia, cistectomia direta ou terapia trimodal.
  11. 11Programe o seguimento cistoscópico desde já: baixo risco aos 3 meses, depois 9 meses e anual até 5 anos; alto risco com citologia aos 3 meses, depois trimestral por 2 anos, semestral até 5 anos e anual depois.
SituaçãoConfirmação exigidaPara onde encaminhar
Hematúria macroscópica com obstrução, instabilidade hemodinâmica, sepse urinária ou dor de difícil manejoNenhuma — o quadro clínico bastaUrgência/emergência
Hematúria macroscópica com coágulos, sem infecçãoNenhuma coleta adicionalUrologia
Hematúria macroscópica sem coágulos, sem sinal glomerularUm exame de urinaUrologia
Hematúria macroscópica sem coágulos, com sinal glomerular (quadro glomerular)Um exame de urinaNefrologia
Hematúria microscópica assintomática não glomerular COM fator de risco urotelialDois exames de urina com 6 semanas de intervalo + dismórficas negativaUrologia
Hematúria microscópica assintomática não glomerular SEM fator de risco urotelialOs dois exames E persistência após 6 ou 12 mesesUrologia, somente se persistir
Hematúria microscópica assintomática persistente com sinal glomerularDois exames com 6 semanas de intervalo + dismórficas positivaNefrologia
Dismorfismo entre 30% e 70%Origem indeterminadaUrologia E nefrologia

TNM do câncer de bexiga: a camada dá o número, e o número dá o mundo

CategoriaO que está acometidoMundo terapêutico
TaCarcinoma papilar não invasivoNão-músculo-invasivo
TisCarcinoma in situ — tumor planoNão-músculo-invasivo
T1Tecido conjuntivo subepitelial (invade, mas não a muscular)Não-músculo-invasivo
T2a / T2bMuscular própria: metade interna / metade externaMúsculo-invasivo
T3a / T3bTecido perivesical: microscópico / macroscópicoMúsculo-invasivo
T4aPróstata, vesículas seminais, vagina ou úteroMúsculo-invasivo
T4bParede pélvica ou parede abdominalEstádio IV mesmo sem metástase à distância
N1 / N2 / N3Um linfonodo da pelve verdadeira / múltiplos da pelve verdadeira / cadeia ilíaca comum
M1a / M1bLinfonodo além da ilíaca comum / metástase não linfonodalIVA / IVB

Não-músculo-invasivo: grupo de risco e o que se instila

GrupoQuem éTratamento
Baixo riscoTumor primário, único, Ta/T1 de baixo grau ou G1, menor que 3 cm, sem carcinoma in situ, em paciente com até 70 anos; ou Ta de baixo grau/G1 sem carcinoma in situ com no máximo UM fator clínico adicionalInstilação intravesical única de quimioterápico após a ressecção
Risco intermediárioPacientes sem carcinoma in situ que não se encaixam nos grupos de baixo, alto ou muito alto riscoBCG intravesical por 1 ano
Alto riscoTodos os T1 de alto grau/G3 sem carcinoma in situ e todos os pacientes com carcinoma in situ, exceto os do muito alto risco; mais as combinações por número de fatores adicionaisBCG intravesical por 1 a 3 anos, conforme custo e disponibilidade
Muito alto riscoTa alto grau/G3 com carcinoma in situ e os 3 fatores; T1G2 com carcinoma in situ e ao menos 2; T1 alto grau/G3 com carcinoma in situ e ao menos 1; T1 alto grau/G3 sem carcinoma in situ com os 3Considerar cistectomia radical imediata
Tumor recorrenteNão pode ser classificado como baixo riscoIntermediário, alto ou muito alto, conforme os fatores prognósticos

Músculo-invasivo: as três estradas e quem entra em cada uma

CenárioCondutaDetalhe que cai
T2-T4a e/ou N1, elegível à cisplatinaQuimioterapia neoadjuvante e depois cistectomia radical com linfadenectomia pélvica bilateralEsquemas: gencitabina + cisplatina + durvalumabe (Niagara), MVAC dose densa 3-6 ciclos, ou gencitabina + cisplatina 4 ciclos
Inelegível à cisplatinaCistectomia radical com linfadenectomia pélvica bilateralOs resultados da neoadjuvância NÃO se transferem para esquemas com carboplatina
pT2 pN0 após cirurgiaSem tratamento adjuvanteSe ypT2N0 após neoadjuvância, nivolumabe pode ser considerado
pT3-4 e/ou pN+ sem neoadjuvânciaQuimioterapia adjuvante com cisplatinaGencitabina + cisplatina 4 ciclos ou MVAC dose densa 3-4 ciclos
Não candidato à cistectomia ou que a recusaTerapia trimodal: ressecção máxima + quimiorradioterapia, reavaliação após 40-45 GyResposta completa ou parcial: seguir até 60-64 Gy. Sem resposta ou progressão: cistectomia radical

A dose da BCG não é única. O esquema da EORTC usa dose plena, 120 mg, por 3 anos como padrão nos tumores de alto risco, e um terço da dose, 40 mg, por 1 ano nos de risco intermediário — sem diferença de toxicidade entre as duas. No alto risco, a dose plena por 3 anos apresentou menos recorrência que o esquema de um terço por 1 ano, porém sem melhora de progressão nem de sobrevida em seguimento mais longo.

O diâmetro de 3 cm aparece duas vezes na classificação de risco, e nas duas com desigualdade estrita: o baixo risco exige tumor MENOR que 3 cm, e o fator clínico adicional é diâmetro MAIOR que 3 cm. Um tumor de exatamente 3,0 cm, portanto, não conta como fator adicional, mas também não preenche o critério de tamanho do primeiro item de baixo risco.

Fita reagente positiva para sangue não é hematúria confirmada. O dipstick detecta heme, e mioglobina e hemoglobina livre o positivam sem hemácia no sedimento. A definição de hematúria microscópica é microscópica: 3 ou mais hemácias por campo na sedimentoscopia, ou valor acima da referência em método quantitativo como a citometria de fluxo.

O corte de idade dos fatores de risco urotelial é assimétrico e proposital: 50 anos ou mais para mulheres, 40 anos ou mais para homens.

O seguimento cistoscópico da doença não-músculo-invasiva carrega nível de evidência muito baixo e força de recomendação forte. Enunciado que pergunte pela qualidade da evidência dessa conduta está pedindo exatamente essa dissociação.

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Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Duração da BCG intravesical no tumor de alto risco: 1 ano ou 3 anos

Dose plena por 3 anos é o padrão no alto risco

A EORTC indica a dose plena de 120 mg durante 3 anos como padrão para os tumores de alto risco, e um terço da dose, 40 mg, durante 1 ano para os de risco intermediário — neste último caso porque não se observou superioridade de tratamento mais prolongado nesse grupo. Comparados os dois esquemas nos pacientes de alto risco, a dose plena por 3 anos apresentou menos recorrência, e não há diferença de toxicidade entre as duas doses.

Diretrizes de tratamentos oncológicos SBOC 2026, capítulo Bexiga, seção 'Considerações e bases científicas para recomendações' da doença não-músculo-invasiva.

A duração se escolhe por custo, disponibilidade e adesão

A recomendação brasileira para o alto risco é BCG por 1 a 3 anos, com a duração definida de acordo com custo e disponibilidade da BCG. O próprio documento registra que não há consenso sobre o melhor esquema quanto a número, manutenção, duração ou dose, e que a vantagem da dose plena por 3 anos no alto risco não se traduziu em melhora de progressão nem de sobrevida em seguimento mais longo — de modo que a escolha entre os dois esquemas deve considerar também custo, sensibilidade individual, acessibilidade ao tratamento e adesão.

Diretrizes de tratamentos oncológicos SBOC 2026, capítulo Bexiga, recomendação para alto risco e considerações sobre os esquemas de BCG.

Na prova

A causa do afastamento não é de evidência de eficácia, é de suprimento e de aderência — e a própria diretriz brasileira escreve isso na recomendação, ao mandar escolher a duração 'de acordo com custo e disponibilidade de BCG'. Enunciado que cite a EORTC, que fale em dose plena e um terço da dose, ou que ofereça alternativas com '120 mg' e '40 mg', está trabalhando no corpo do esquema clássico e espera 3 anos no alto risco. Enunciado que situe o paciente na rede pública, que mencione indisponibilidade do imunobiológico ou que ofereça a alternativa 'BCG por 1 a 3 anos' está no corpo brasileiro de 2026. E há um distrator que denuncia confusão: alternativa que atribua ao esquema de 3 anos ganho de sobrevida — o ganho medido foi de recorrência, não de progressão nem de sobrevida.

Tumor não responsivo à BCG: retirar a bexiga ou tentar preservá-la

Cistectomia radical é preferível

Para o tumor não responsivo à BCG, a tabela de manejo abre com a cistectomia radical marcada como preferível, e a mesma diretriz já havia listado os tumores não responsivos à BCG entre as indicações de cistectomia radical precoce no tumor não-músculo-invasivo. O argumento numérico está na seção anterior: 27% a 51% dos pacientes são reclassificados como doença músculo-invasiva na peça de cistectomia, e a cistectomia precoce, feita antes da progressão, alcança sobrevida livre de doença em 5 anos acima de 80%.

Diretrizes de tratamentos oncológicos SBOC 2026, capítulo Bexiga, tabela 'Recomendações de manejo de falha a BCG'.

Preservação vesical em quem recusa ou não pode operar

Para quem recusa a cistectomia ou é inelegível a ela, a diretriz lista pembrolizumabe por 24 meses, gencitabina intravesical isolada e a combinação sequencial de gencitabina com docetaxel. O estudo de fase II com 96 pacientes com carcinoma in situ não responsivo à BCG teve resposta completa de 41% (IC95% 31-51) com duração mediana de 16,2 meses, e 46% dos respondedores mantiveram a resposta por pelo menos 12 meses; em outro braço, com 132 pacientes de tumores papilíferos exclusivamente não invasivos sem carcinoma in situ, a sobrevida livre de doença em 12 meses foi de 42%. A aprovação em bula no Brasil, porém, restringe-se ao tumor não-músculo-invasivo de alto risco não responsivo à BCG com carcinoma in situ, com ou sem tumores papilares, em quem seja inelegível à cistectomia ou opte por não se submeter a ela.

Diretrizes de tratamentos oncológicos SBOC 2026, capítulo Bexiga, tratamentos sistêmicos e intravesicais na falha à BCG e nota sobre a aprovação em bula no Brasil.

Na prova

A causa do afastamento é de bula e de população estudada, não de opinião. Enunciado que descreva um paciente clinicamente apto, sem comorbidade que impeça cirurgia de grande porte, espera cistectomia radical — que a diretriz nomeia como preferível. Enunciado que diga explicitamente que o paciente recusa a cistectomia ou é inelegível a ela abre a porta das alternativas de preservação, e aí o recorte da bula importa: a aprovação brasileira do pembrolizumabe nessa situação alcança o carcinoma in situ com ou sem tumores papilares, e não o papilífero isolado. Alternativa que ofereça pembrolizumabe a um paciente com Ta de alto grau sem carcinoma in situ, sem dizer que ele recusou a cirurgia, está fora dos dois recortes ao mesmo tempo.

Enfortumabe vedotina com pembrolizumabe no perioperatório do músculo-invasivo

Resultados de fase III favoráveis no cenário curativo

Os estudos de fase III Keynote-B15 e Keynote-905 investigaram enfortumabe vedotina com pembrolizumabe no perioperatório do carcinoma urotelial músculo-invasivo não metastático em candidatos à cistectomia radical, incluindo populações elegíveis e inelegíveis à cisplatina. Os resultados apresentados demonstraram aumento significativo das taxas de resposta patológica completa e melhora de sobrevida livre de eventos e de sobrevida global, sugerindo elevado potencial da estratégia no cenário curativo.

Diretrizes de tratamentos oncológicos SBOC 2026, capítulo Bexiga, considerações sobre tratamento neoadjuvante (estudos Keynote-B15/EV-304 e Keynote-905/EV-303).

Sem registro na Anvisa, o uso fica restrito a pesquisa

A própria diretriz encerra a apresentação desses resultados com a ressalva de que, até o momento, a abordagem não possui aprovação regulatória pela Anvisa no Brasil, devendo sua utilização permanecer restrita ao contexto de pesquisa clínica ou aguardar avaliação pelas autoridades regulatórias nacionais. A mesma lógica aparece adiante para o atezolizumabe adjuvante guiado por DNA tumoral circulante do estudo IMvigor011: o teste de ctDNA já se encontra disponível no Brasil, mas o medicamento não tem aprovação da Anvisa para uso adjuvante em câncer de bexiga.

Diretrizes de tratamentos oncológicos SBOC 2026, capítulo Bexiga, ressalva regulatória que encerra a seção de tratamento neoadjuvante.

Na prova

A causa é de registro sanitário, com endereço nomeado: a combinação não tem aprovação da Anvisa para essa indicação, e a diretriz brasileira determina que o uso permaneça restrito a pesquisa clínica ou aguarde avaliação regulatória. Enunciado de congresso, de centro de pesquisa, ou que cite Keynote-B15/EV-304 e Keynote-905/EV-303 nominalmente, está no corpo internacional. Enunciado que situe o paciente numa fila de cistectomia no Brasil espera o padrão vigente: neoadjuvância baseada em cisplatina em quem é elegível, cistectomia direta em quem não é. A mesma régua vale para o atezolizumabe adjuvante guiado por DNA tumoral circulante — o teste já existe no Brasil, o medicamento não tem aprovação da Anvisa para uso adjuvante em bexiga.

06

Caso resolvido

Homem de 63 anos procura a unidade básica porque urinou sangue vivo, com coágulos, em duas micções na véspera; hoje a urina está clara. Nega dor, disúria, febre e trauma. Fumou um maço por dia dos 20 aos 60 anos. Trabalhou dezoito anos numa tinturaria têxtil. Não usa anticoagulante. Exame físico sem alterações, sem massa palpável, sem dor à punho-percussão lombar. O exame de urina mostra hemácias incontáveis, isomórficas, sem cilindros, sem proteinúria, e nitrito e leucócitos negativos. Creatinina de 0,9 mg/dL.
o que o quadro já é, antes de qualquer exame novo
Hematúria macroscópica com coágulos, na ausência de infecção, em adulto. As causas benignas que o protocolo manda descartar — infecção urinária, febre, trauma e sangramento menstrual — estão todas afastadas pela história e pelo exame de urina. Esta é a situação em que o encaminhamento à urologia não pede nenhuma coleta adicional.
de onde vem o sangue
Hemácias isomórficas, sem cilindros hemáticos, sem proteinúria e com creatinina normal: nada do quadro glomerular está presente. O destino é a urologia, não a nefrologia. E o fato de a urina estar clara hoje não muda nada — o sangramento do carcinoma urotelial é indolor e intermitente, e parar sozinho é o seu comportamento habitual, não sinal de resolução.
o peso dos antecedentes
Tabagismo de 40 maços-ano e exposição ocupacional a corantes em indústria têxtil são dois dos fatores de risco para neoplasia urotelial listados no protocolo — junto com a idade acima de 40 anos em homem. O tabagismo é o principal fator de risco do câncer de bexiga, e as aminas aromáticas e os corantes industriais estão entre as exposições ocupacionais reconhecidas.
quais exames pedir
Tomografia de tórax e abdome total com fase excretora, porque o urotélio é contínuo e a fase excretora é o que exclui tumor de ureter e pelve renal; cistoscopia, que é o padrão-ouro da confirmação; e citologia urinária como complemento — sabendo que, se vier negativa, não afasta o diagnóstico. Ecografia isolada não encerra a investigação.
achada a lesão, o que se faz no mesmo ato
A cistoscopia mostra lesão papilífera única de 2,5 cm na parede lateral direita. Faz-se ressecção transuretral com a camada muscular incluída na amostra, com o material de cada sítio em recipiente separado, e instilação intravesical única de quimioterápico em até 24 horas, mantida por 1 a 2 horas — exceto se houver perfuração vesical.
o laudo decide o resto
O anatomopatológico volta como Ta de alto grau, sem carcinoma in situ, com muscular própria presente e livre. Tumor primário, único, menor que 3 cm, paciente com 63 anos: nenhum dos três fatores clínicos adicionais está presente. Mas o alto grau tira o caso do baixo risco, que exige baixo grau/G1 — o paciente não é baixo nem muito alto risco, o que o coloca no grupo intermediário por exclusão. Além da instilação já feita, programa-se BCG intravesical por 1 ano — e a segunda ressecção em 4 a 6 semanas está recomendada, porque a doença é de alto grau.
seguimento combinado desde a alta
Cistoscopia de vigilância, porque doença de campo se acompanha por dentro. E uma checagem antes de cada instilação: BCG não se aplica nas duas primeiras semanas após a ressecção, nem em vigência de hematúria macroscópica, nem após cateterização uretral traumática, nem com infecção urinária sintomática.
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Agora feche você

Mulher de 58 anos, assintomática, traz exame de urina de rotina do check-up ocupacional com 5 hemácias por campo. Ex-tabagista, parou há seis anos, fumou dos 25 aos 52. Sem disúria, sem dor lombar, sem febre; última menstruação aos 51 anos. Pressão arterial de 122x78 mmHg. Creatinina de 0,8 mg/dL, sem proteinúria, sem cilindros; a pesquisa de hemácias dismórficas veio negativa. Um segundo exame de urina, colhido sete semanas depois, repete 4 hemácias por campo, com dismórficas novamente negativas.
achado
Cinco e depois quatro hemácias por campo, em dois exames separados por sete semanas, com pesquisa de hemácias dismórficas negativa nas duas coletas.
como se chama isso e o que já está confirmado
conduta e por quê
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Onde a banca derruba

  1. 1Tratar a hematúria macroscópica como infecção e não repetir o exame de urina O paciente chega com urina vermelha, recebe antibiótico e melhora — porque o sangramento é intermitente e para sozinho, não porque o antibiótico funcionou. A regra do protocolo é descartar as causas benignas, e infecção urinária é uma delas; mas descartar significa documentar a infecção e reavaliar a urina depois do tratamento, não presumir. Hematúria macroscópica em adulto, sem infecção que a explique, é indicação de encaminhamento urológico com um único exame de urina.
  2. 2Exigir duas coletas antes de encaminhar a hematúria macroscópica As duas coletas com 6 semanas de intervalo são a regra da hematúria MICROSCÓPICA, e existem porque um achado microscópico isolado pode ser transitório. Aplicá-las à hematúria macroscópica inverte a lógica do protocolo e adia por seis semanas justamente o paciente de maior risco. Macroscópica sem coágulos confirma-se com um exame de urina; macroscópica com coágulos, na ausência de infecção, nem isso exige.
  3. 3Pedir só a ecografia de vias urinárias e concluir a investigação A ecografia entra como exame que acompanha o encaminhamento, não como exame que fecha a investigação. O urotélio é contínuo dos cálices à uretra proximal, e o carcinoma urotelial é doença de campo: o método de primeira linha é a tomografia de tórax e abdome total COM FASE EXCRETORA, justamente porque a fase excretora é o que permite excluir tumor urotelial de ureter e pelve renal. E nenhuma imagem substitui a cistoscopia, que é o padrão-ouro da confirmação diagnóstica.
  4. 4Dar alta com citologia urinária negativa A citologia é boa onde a cistoscopia é fraca — carcinoma in situ e alto grau — e chega a 90% de especificidade com examinadores experientes. Mas a diretriz é explícita: citologia urinária negativa NÃO exclui a presença de tumor, e não há marcador urinário específico para o diagnóstico do carcinoma invasivo de bexiga. Alternativa que ofereça citologia ou marcador urinário no lugar da cistoscopia está errada por definição.
  5. 5Aceitar laudo de ressecção transuretral sem muscular própria Sem camada muscular na amostra, o patologista não pode afirmar nem afastar invasão muscular — e é essa a única informação que decide entre tratar por dentro da bexiga e retirar a bexiga. O mesmo laudo precisa trazer localização, número e tamanho das lesões, padrão morfológico e anormalidades da mucosa. E a conta que justifica a segunda ressecção em 4 a 6 semanas é dura: na doença de alto grau, 33% a 53% dos pacientes têm lesão residual após a primeira.
  6. 6Ler 'T1' como doença invasiva e indicar cistectomia T1 invade — invade o tecido conjuntivo subepitelial — e ainda assim pertence ao mundo não-músculo-invasivo, tratado por instilação intravesical. A linha que muda o tratamento é a muscular própria, que define T2. A exceção existe e tem nome próprio: o T1 de alto grau/G3 com os fatores adicionais cai no muito alto risco, onde se considera cistectomia imediata — mas por classificação de risco, não porque a palavra 'invasão' apareceu no laudo.
  7. 7Instilar BCG em quem está com hematúria macroscópica ou acabou de operar São quatro contraindicações absolutas, e três delas descrevem a mesma situação anatômica: mucosa aberta. Não se instila BCG nas duas primeiras semanas após a ressecção transuretral, nem em paciente com hematúria macroscópica, nem após cateterização uretral traumática — e tampouco em paciente com infecção urinária sintomática. A questão costuma colocar o paciente 'pronto para começar a BCG' com um desses detalhes escondido no enunciado.
  8. 8Substituir cisplatina por carboplatina na neoadjuvância A troca parece razoável diante de clearance baixo, e é justamente o que a diretriz proíbe: os benefícios do tratamento neoadjuvante e adjuvante foram demonstrados apenas em pacientes elegíveis à cisplatina, e os resultados não são intercambiáveis para esquemas baseados em carboplatina. Inelegível à cisplatina por qualquer um dos cinco critérios — clearance abaixo de 60 mL/min, insuficiência cardíaca classe III ou pior, ECOG 2 ou pior, neuropatia ou perda auditiva de grau 2 ou maior — vai direto à cistectomia radical, não a uma neoadjuvância de substituição.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Hematúria macroscópica INDOLOR em homem tabagista acima de 50 anos é câncer de bexiga (urotelial) até prova em contrário. A investigação prioritária é a CISTOSCOPIA (padrão para avaliar a bexiga) associada a imagem do trato superior (uro-TC). Repetir exame e adiar não é aceitável frente a fator de risco e hematuria visível. Antibiótico não se justifica com urocultura negativa e sem sintomas infecciosos. USG escrotal não avalia o trato urinário. Biópsia prostática investiga próstata, não a causa de hematúria vesical.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Três pares de números. Hematúria: macroscópica confirma-se com UM exame de urina, microscópica com DOIS separados por 6 semanas, e microscópica é 3 ou mais hemácias por campo. Fator de risco urotelial: 50 anos para mulheres, 40 para homens — com fator, urologia agora; sem fator, só se persistir após 6 ou 12 meses. Camadas: T1 é conjuntivo subepitelial e ainda é não-músculo-invasivo; T2 é muscular própria e muda de mundo.

em 30 dias

Refaça o caminho inteiro num paciente imaginário: descarte as causas benignas, decida glomerular ou urológico pelo quadro de dismórficas, encaminhe pelo destino certo, peça tomografia COM FASE EXCRETORA e cistoscopia, resseque com a muscular própria na amostra e instile em até 24 horas. Depois some as durações: BCG por 1 ano no risco intermediário, 1 a 3 anos no alto, cistectomia imediata a considerar no muito alto; segunda ressecção em 4 a 6 semanas no alto grau; e as quatro contraindicações absolutas da BCG. Feche recitando os cinco critérios que tornam o paciente inelegível à cisplatina — clearance abaixo de 60, insuficiência cardíaca classe III ou pior, ECOG 2 ou pior, neuropatia e perda auditiva de grau 2 ou maior — e lembrando que carboplatina não substitui cisplatina na neoadjuvância.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 67 anos chega ao ambulatório encaminhado pela unidade básica com um episódio único de hematúria macroscópica indolor há três semanas, já resolvido. Traz um exame de urina com hemácias incontáveis e nitrito negativo, e uma ecografia de vias urinárias descrita como normal. Ele quer saber se, como a urina voltou ao normal e o ultrassom não mostrou nada, ainda precisa de exame. Conduza a consulta: explique por que a ecografia normal não encerra a investigação, decida quais exames pedir, e prepare o paciente para a possibilidade da cistoscopia. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Câncer de bexiga e hematúria – Câncer de bexiga: da hematúria à cistoscopia — Preparatório para provas | OsceLabs