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Cirurgia GeralUrologia

Câncer de testículo: a massa sólida que se retira sem biopsiar

Câncer de testículo e massas testiculares

Marcador antes da incisão, retroperitônio depois — e por que a virilha não estadia este tumor

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 24 anos procura atendimento por aumento indolor do testículo direito há 2 meses. Exame: massa endurecida, não transiluminável, no testículo direito. Ultrassonografia confirma massa sólida intratesticular. Marcadores tumorais: beta-hCG e alfafetoproteína elevados, DHL aumentada. Qual é a conduta cirúrgica inicial correta para diagnóstico e tratamento?

02

Como esse tema cai

O tumor de testículo é a neoplasia sólida mais comum do homem em idade reprodutiva — a faixa que o instituto federal de câncer descreve como de 15 a 50 anos — e uma das poucas em que a doença metastática ainda cura. Isso muda o que a prova cobra: o erro que ela persegue quase nunca é o esquema de quimioterapia, é o gesto diagnóstico que antecede tudo. Por isso o capítulo abre pela proibição e não pela epidemiologia.

Duas coisas este capítulo devolve a quem já as ensina, e não repete. A embriologia da drenagem — por que a linfa do testículo sobe para o retroperitônio enquanto a da pele do escroto desce para a virilha — está no capítulo de aparelho genital masculino do nível Iniciante, com figura própria; aqui ela entra já resolvida, e o que se acrescenta é o passo seguinte, o lado, que a régua básica não alcança. E a regra do acesso inguinal é enunciada de passagem no capítulo de escroto agudo desta mesma apostila, dentro do diferencial da dor. O que aquele capítulo nomeia sem responder é o que vem depois: ele manda usar a via inguinal na suspeita de tumor, encerra ali e devolve o paciente ao ambulatório de urologia. O ambulatório é este texto.

Um alerta de trilho, porque o vizinho erra a direção. O capítulo de escroto agudo lista o tumor entre as causas de dor testicular e observa, corretamente, que ele raramente dói — mas a leitura que sobra é que o tumor é uma hipótese de sala de emergência. Não é. A apresentação que responde por mais de nove em cada dez casos é aumento indolor e progressivo do volume, semanas a meses, sem febre e sem sintoma urinário. Quem só pensa em tumor quando dói perde a apresentação típica inteira e chega ao diagnóstico com meses de atraso — e a casuística brasileira mede exatamente o preço desse atraso.

Fica de fora deste capítulo o escroto agudo propriamente dito, o manejo da criptorquidia na infância e o câncer de próstata, todos com endereço próprio. Entram: a massa escrotal do adulto jovem, o gesto diagnóstico, os três marcadores, a divisão entre seminoma e não seminoma, o estadiamento com a letra extra, a decisão do estádio I e o que se faz com a massa que sobra depois da quimioterapia.

03

O que muda decisão

A regra que abre o capítulo: massa sólida intratesticular não se biopsia

A instrução da página técnica do instituto federal de câncer é de duas frases e não admite meio-termo: biópsias são contraindicadas, e a abordagem recomendada é orquiectomia inguinal com clampeamento precoce do cordão espermático. Não é preciosismo de escola. É a consequência direta de uma anatomia que o aluno já conhece: o testículo drena linfa para o retroterritório de onde ele veio, o retroperitônio, e a pele do escroto drena para a virilha. Furar o escroto para alcançar o testículo abre uma comunicação entre dois territórios que a doença, sozinha, não percorreria — e converte um tumor de estadiamento retroperitoneal num tumor com risco inguinal criado pelo médico.

A sequência correta cabe em três movimentos. Primeiro, exame físico que distinga massa intratesticular de massa paratesticular: o nódulo do tumor faz corpo com o testículo e não se separa dele à palpação, enquanto epidídimo, cordão e hidrocele têm plano de clivagem. Segundo, ultrassonografia da bolsa escrotal com Doppler, que na descrição do próprio instituto mostra nódulo hipoecoico dentro do parênquima. Terceiro, sangue: alfafetoproteína, fração beta da gonadotrofina coriônica e desidrogenase láctica, colhidas antes de qualquer procedimento. Só então a via inguinal, com o cordão pinçado no anel inguinal profundo antes de o testículo ser mobilizado.

A transiluminação merece um parágrafo próprio porque é a manobra que mais engana neste tema. Ela separa coleção líquida de massa sólida, e um escroto que se ilumina inteiro fala a favor de hidrocele. O problema é que a hidrocele pode ser reacional ao tumor: a revisão brasileira de tumores testiculares na infância registra, na literatura internacional que compila, associação entre hidrocele e tumor em 15 a 50% dos casos. Uma bolsa que transilumina, portanto, afasta a hipótese de a massa ser sólida, mas não afasta a de existir um tumor por trás do líquido — sobretudo quando a coleção é recente, unilateral e o polo superior do testículo não se delimita. A conduta que resolve não é escolher entre as duas hipóteses no consultório: é pedir a ultrassonografia.

Há uma tensão publicada dentro do próprio portal federal, e ela vale ser conhecida antes de a prova cobrar. A aba dirigida à população, atualizada três dias depois da técnica, imprime que, 'caso o nódulo seja pequeno e os marcadores tumorais sejam normais, pode-se optar por biópsia'. A leitura clínica que reconcilia as duas frases é que a segunda descreve a cirurgia conservadora do testículo em lesão pequena com marcadores negativos, feita pela via inguinal e com exame de congelação intraoperatório — e não punção percutânea nem acesso pela bolsa. A frase que a prova espera é a da versão técnica.

O lado decide onde a doença pousa

Que a linfa do testículo sobe para o retroperitônio é o primeiro andar do raciocínio, e ele já está ensinado no nível Iniciante. O segundo andar é o que interessa aqui: os dois testículos não pousam no mesmo lugar. A veia gonadal esquerda desemboca na veia renal esquerda; a direita desemboca diretamente na veia cava inferior. A linfa acompanha esse trajeto venoso, e daí sai uma assimetria que muda onde se procura a doença. O tumor esquerdo pousa primeiro nos linfonodos para-aórticos altos, à esquerda da aorta, junto ao hilo renal. O tumor direito pousa primeiro no espaço entre a aorta e a veia cava, o compartimento interaortocaval, e com frequência cruza para a esquerda — enquanto o esquerdo raramente cruza para a direita.

Esquema do retroperitônio mostrando aorta, veia cava e veias gonadais, com setas ascendentes de cada testículo até grupos de linfonodos distintos, e setas separadas da pele do escroto até linfonodos inguinais.
A veia gonadal define a estação de pouso: o testículo esquerdo drena para os para-aórticos altos junto ao hilo renal, o direito para o espaço interaortocaval, com cruzamento frequente para a esquerda. A pele do escroto drena para a virilha, por um caminho que não se comunica com o primeiro.

Três consequências práticas saem dessa figura, e todas as três já apareceram em enunciado. A primeira é que o exame de estadiamento é tomografia de tórax, abdome e pelve — não ultrassonografia de virilha. Uma virilha livre não exclui doença retroperitoneal volumosa, e o inverso também vale: um paciente com massa abdominal palpável, dor lombar ou edema de membro inferior por compressão venosa pode ter chegado ali por um tumor testicular pequeno, às vezes já regredido no testículo. Exame de escroto faz parte do exame físico de qualquer massa retroperitoneal em homem jovem.

A segunda é que o lado orienta a leitura da tomografia. Diante de um tumor direito com linfonodo interaortocaval, a doença está exatamente onde deveria estar. Diante de um tumor esquerdo com linfonodo apenas do lado direito, a leitura pede cautela, porque esse cruzamento é o menos esperado dos dois. Essa assimetria é a razão anatômica pela qual a linfadenectomia retroperitoneal, quando indicada, tem campo diferente conforme o lado do tumor primário.

A terceira é a mais cobrada: violação escrotal muda o problema. Uma punção, uma incisão pela bolsa ou uma orquiectomia feita por via escrotal expõem a drenagem inguinal e obrigam a considerar a virilha como território de risco no seguimento e no planejamento de tratamento. O paciente que chegou com o escroto já violado por outro serviço não volta a ser um paciente de estadiamento retroperitoneal puro — e o enunciado que menciona 'biópsia escrotal prévia' está cobrando exatamente essa mudança.

Três marcadores, três relógios

Os marcadores do tumor de testículo são três, e cada um cumpre função diferente: alfafetoproteína, fração beta da gonadotrofina coriônica e desidrogenase láctica. É a única situação da medicina do adulto em que essas três dosagens andam juntas, e é por isso que o aluno as conhece separadas e com outros donos — a gonadotrofina vive na obstetrícia, a alfafetoproteína no hepatocarcinoma e no rastreamento de defeito de fechamento do tubo neural, a desidrogenase láctica na análise do líquido pleural. Aqui elas são outra ferramenta.

O que cada uma proíbe importa mais do que o que cada uma indica. A alfafetoproteína não se eleva em seminoma puro. Essa é a trava mais consequente do capítulo: se o laudo do patologista disser seminoma e a alfafetoproteína pré-operatória estiver alta, quem manda é o marcador, e o tumor é tratado como não seminoma. A explicação é histológica — a alfafetoproteína vem de elementos de saco vitelino, que definem um componente não seminomatoso, esteja ele ou não amostrado no corte examinado. A gonadotrofina, ao contrário, pode subir no seminoma, porque células sinciciotrofoblásticas ocorrem nele; uma gonadotrofina elevada, sozinha, não reclassifica nada. A desidrogenase láctica não é específica de tecido: ela mede carga tumoral e proliferação, e entra no estadiamento como terceiro eixo, nunca como diagnóstico isolado.

O segundo relógio é a meia-vida, e é o que torna o marcador legível depois da cirurgia. A gonadotrofina coriônica cai com meia-vida de cerca de 24 a 36 horas; a alfafetoproteína, de cerca de 5 a 7 dias. Retirado o tumor, os marcadores devem descer segundo essas curvas. Marcador que não cai no ritmo previsto — ou que cai e volta a subir — significa doença residual em algum lugar, mesmo com tomografia sem achado. É esse raciocínio, e não uma imagem, que aciona o tratamento sistêmico em parte dos pacientes.

Daí a terceira regra operacional: colher antes e repetir depois. Os valores pré-orquiectomia dão a linha de base sem a qual a queda não se interpreta; os valores pós-orquiectomia é que entram no estadiamento. A prova gosta de enunciados que dão só um dos dois conjuntos, e a pergunta escondida costuma ser qual deles serve para estadiar.

A casuística brasileira de tumores testiculares em crianças e adolescentes dá a medida de quanto esses marcadores cobrem, e de quanto eles são de fato dosados. Entre os pacientes com tumor de células germinativas, a alfafetoproteína estava elevada ao diagnóstico em 21 de 28 (75,0%) e a gonadotrofina em 8 de 20 (40,0%). Os dois denominadores diferentes não são erro: o próprio artigo declara que em quatro pacientes com tumor germinativo a alfafetoproteína não foi dosada e em doze a gonadotrofina não foi dosada — e 32 menos 4 dá exatamente 28, 32 menos 12 dá exatamente 20. A reconciliação fecha, e o que ela ensina é menos sobre acurácia do que sobre prática: num serviço de referência, ao longo de dezessete anos, mais de um terço dos pacientes com tumor germinativo não teve a gonadotrofina medida.

Seminoma e não seminoma: uma divisão feita por duas perguntas

Cerca de 95% das neoplasias malignas do testículo são tumores de células germinativas, segundo a página técnica do instituto federal; o estudo brasileiro de bioinformática publicado em 2024 imprime cerca de 97%. A divergência entre as duas fontes nacionais é pequena e não muda conduta nenhuma, mas fica registrada porque o aluno vai encontrar os dois números.

Os germinativos se dividem em duas famílias com tratamento diferente. Seminoma é a família mais indolente, mais radiossensível, de pico etário mais tardio. Não seminoma reúne carcinoma embrionário, coriocarcinoma, tumor de saco vitelino e teratoma, isolados ou, mais frequentemente, misturados no mesmo tumor. Um tumor que contenha qualquer elemento não seminomatoso é tratado como não seminoma, por menor que seja a fatia.

A divisão, porém, não é feita só pelo patologista. Ela resulta de duas perguntas somadas: o que a histologia mostra e o que a alfafetoproteína diz. Histologia de seminoma com alfafetoproteína elevada é conduzida como não seminoma. Esse é o único ponto do capítulo em que um exame de sangue sobrepõe um laudo de anatomia patológica, e é justamente por isso que ele vira questão.

Vale o contraste com a doença da criança, porque ele explica por que este capítulo é do adulto. A revisão brasileira de tumores testiculares na infância registra que seminoma e coriocarcinoma não ocorrem na infância, que os tumores não germinativos, raros no adulto, chegam a 25 a 40% entre meninos, e que os germinativos representam 60 a 75% dos tumores testiculares da criança contra cerca de 95% no adulto. O tumor de saco vitelino, que no adulto é um componente entre outros, é o tumor maligno mais comum do menino — a mesma revisão imprime a fatia dele duas vezes, como 65% das neoplasias na introdução e como cerca de 70 a 80% do total no corpo, e as duas leituras não se conciliam com a fatia declarada dos germinativos, de modo que aqui ela vale como ordem de grandeza e não como número. São doenças com o mesmo endereço anatômico e biologias distintas, e um enunciado que dá a idade está dando a metade da resposta.

O estadiamento tem uma letra a mais

O tumor de testículo usa o sistema TNM como qualquer outro tumor sólido, com uma diferença que existe só aqui: um quarto eixo, a categoria S, que classifica os marcadores dosados depois da orquiectomia. A página técnica do instituto federal registra essa particularidade explicitamente. Nenhum outro tumor sólido tem o sangue dentro do próprio código de estádio.

A categoria S, cujo sufixo a página técnica do instituto federal nomeia sem publicar as faixas de corte, vai de S0 a S3 e é lida pelo pior dos três marcadores: basta um deles cair na faixa mais alta para o paciente ser classificado nela. Isso significa que um paciente pode ter doença radiologicamente modesta e categoria S alta, e é essa combinação — não o tamanho da massa — que o desloca para grupos de pior prognóstico e para quatro ciclos de quimioterapia em vez de três.

A consequência de calendário é a que a prova cobra. Marcador colhido antes da cirurgia não estadia; ele é a linha de base contra a qual a queda vai ser medida. Marcador colhido cedo demais depois da cirurgia também não estadia, porque a queda ainda está correndo dentro das meias-vidas já descritas, de cerca de um dia para a gonadotrofina e de quase uma semana para a alfafetoproteína — colher a gonadotrofina na manhã seguinte à orquiectomia e chamar aquele valor de categoria S é erro de método. O valor que entra no estádio é o que resta quando a curva de decaimento já teve tempo de correr.

Reunindo os três eixos: o T descreve o tumor no testículo e só é definitivo depois da peça cirúrgica; o N descreve o retroperitônio, com faixas de tamanho de linfonodo; o M separa doença fora do retroperitônio, com o pulmão como sítio mais comum; e o S é o sangue. Estádio I é doença confinada ao testículo; estádio II é doença retroperitoneal; estádio III é doença a distância ou marcador muito elevado. As tabelas do bloco seguinte separam essas réguas.

Estádio I: oitenta por cento já estão curados, e o problema é não saber quais

Este é o cenário mais frequente da prova e o mais desconfortável da clínica. Segundo a página técnica do instituto federal, cerca de 80% dos pacientes em estádio I são curados apenas com a orquiectomia. O tratamento já terminou para quatro em cada cinco no momento em que a peça sai. O problema é que não se sabe quais quatro.

As três saídas coexistem no mesmo documento, sem hierarquia declarada: vigilância ativa, carboplatina adjuvante no seminoma, ou poliquimioterapia no não seminoma. Vigiar significa aceitar que cerca de um em cada cinco vai recidivar e ser tratado então, com resgate de alta eficácia — ao preço de um calendário rigoroso de consultas, marcadores e tomografias. Tratar todo mundo significa expor quatro pacientes curados à toxicidade para beneficiar um.

O calendário da vigilância não é sugestão, é a própria condição de ela funcionar, e a diferença entre as duas histologias está publicada. No seminoma de estádio I, avaliação clínica a cada 3 a 6 meses no primeiro ano, semestral no segundo, anual do terceiro ao quarto, com tomografia entre o quarto e o sexto mês do primeiro ano e anual a partir do terceiro. No não seminoma de estádio I, o intervalo é mais apertado: marcadores e avaliação clínica a cada 2 meses no primeiro ano, a cada 3 meses no segundo, semestrais no terceiro e no quarto, anuais a partir do quinto, com tomografia semestral nos três primeiros anos e anual depois. O não seminoma recidiva mais cedo, e por isso é vigiado mais de perto.

Daí a leitura de enunciado que vale ouro: quando a questão descreve estádio I e acrescenta informação sobre adesão, distância do serviço, condição de retornar ou capacidade de fazer tomografia seriada, ela não está enfeitando o caso — está dando o dado que decide entre vigiar e tratar. Um enunciado que descreve paciente de área remota, sem transporte, e oferece vigilância como opção está sinalizando o contrário do que a leitura apressada sugere.

Bleomicina, etoposídeo e cisplatina — e a massa que sobra

Para doença avançada, o esquema é a combinação de bleomicina, etoposídeo e cisplatina. A régua de número de ciclos publicada pelo instituto federal é curta: três ciclos no bom prognóstico, quatro ciclos no intermediário e no de mau prognóstico, com taxas de cura que podem alcançar 90% conforme a classificação de risco. É esse patamar de cura que faz do tumor germinativo do testículo o exemplo clássico de neoplasia sólida metastática curável, e é por isso que o atraso diagnóstico dói tanto aqui: perde-se um desfecho que estava disponível.

A parte que a prova mais erra vem depois da quimioterapia, quando sobra massa no retroperitônio. As duas famílias têm réguas diferentes, e elas estão publicadas com número. No não seminoma, resseca-se massa residual acima de 1 cm, porque ali pode haver teratoma maduro — que não responde a quimioterapia, cresce, comprime e pode transformar-se — ou tumor viável. No seminoma, o corte é acima de 3 cm e ainda depende de captação em tomografia por emissão de pósitrons, porque massa residual de seminoma costuma ser fibrose e necrose, e operar fibrose é dano sem ganho.

Duas toxicidades pedem menção porque aparecem em enunciado. A bleomicina causa toxicidade pulmonar com fibrose, o que torna tosse seca e dispneia de esforço em paciente sob tratamento um sinal para investigar e não para tranquilizar. E a quimioterapia baseada em platina compromete a espermatogênese: a conversa sobre criopreservação de sêmen pertence ao período entre o diagnóstico e o início do tratamento sistêmico, não depois. Perder essa janela é um dano evitável num paciente que, em regra, vai viver décadas.

Uma última nota de conduta que costuma ser esquecida: o testículo contralateral permanece sob risco aumentado pelo resto da vida, e o paciente curado precisa sair com orientação de autoexame e com seguimento que não termine no quinto ano. Quem teve tumor de um lado é a população de maior risco para tumor do outro.

A casuística brasileira: o que ela mostra e o que ela não pode mostrar

A série brasileira mais completa disponível em acesso aberto é de um instituto de oncologia pediátrica e reuniu 60 pacientes admitidos entre janeiro de 1992 e julho de 2009, de 65 elegíveis: três iniciaram tratamento em outro serviço com prontuário insuficiente e dois tinham mais de 20 anos. Foram 34 crianças, de 3 meses a 9 anos, e 26 adolescentes, de 10 a 19 anos e meio. Ela não é uma série de adultos, e é preciso dizer isso antes de qualquer número — mas o que ela mede sobre tempo até o diagnóstico atravessa a idade e é o achado que este capítulo aproveita.

O tempo médio entre o início dos sintomas e o diagnóstico foi de 2,3 meses nas crianças e de 4,9 meses nos adolescentes, com medianas de 2 e de 4 meses e diferença estatisticamente significante. E o que veio junto do atraso: comprometimento de linfonodos regionais ao diagnóstico em 10 de 34 crianças contra 17 de 26 adolescentes. Convertidas, as duas frações dão 29,4% e 65,4%. O artigo imprime 24,4% para a primeira, e o número impresso é impossível: nenhum inteiro sobre 34 dá 24,4%. A fração, ao contrário, se corrobora por dentro — 8 dos 22 tumores germinativos mais 1 dos 8 rabdomiossarcomas somam 9, e só fecham os 10 se exatamente 1 dos 4 pacientes de outros tipos histológicos também tivesse linfonodo comprometido, número que o artigo nunca imprime e que se recupera por subtração. É a fração que vale, e é ela que é coerente com o valor de p publicado.

O eixo que sustenta o capítulo é esse: o adolescente demora mais que o dobro para chegar e apresenta mais que o dobro de doença linfonodal quando chega. A explicação que os próprios autores oferecem é a que interessa ao consultório — a criança é despida e higienizada por um adulto atento, e o adolescente não é examinado por ninguém, inclusive por ele mesmo. É a mesma dinâmica que o adulto jovem repete, com o agravante do constrangimento.

Duas leituras precisam ser barradas antes de virarem conclusão. A primeira: a série mede o atraso, não a incidência. O próprio artigo cita dados de registro segundo os quais, entre os cânceres de pacientes masculinos de até 18 anos no município de São Paulo, 30,3% das neoplasias gonadais malignas ocorreram entre 0 e 9 anos e 69,7% entre 10 e 18 — duas taxas que somam exatamente 100 e que dizem que o adolescente predomina. A própria série tem a proporção invertida, 34 crianças (56,7%) contra 26 adolescentes (43,3%), porque é a casuística de um instituto de oncologia pediátrica, para onde a criança pequena é referida com mais frequência que o adolescente. A comparação interna entre os dois grupos continua válida; o que não se transpõe é a proporção.

A segunda leitura barrada é a de sobrevida. A sobrevida global em 5 anos foi estimada em 85,5% para os tumores germinativos e 79,5% para os rabdomiossarcomas, e dentro dos rabdomiossarcomas a estimativa foi de 100% para crianças contra 65% para adolescentes. Cem por cento aqui repousa sobre 8 pacientes e nenhum óbito, e o próprio artigo trata o achado como indicativo, com p de 0,072. Zero evento em 8 não é uma taxa de zero: é uma amostra pequena demais para produzir o evento. Nos tumores germinativos a comparação aparente é de empate — dois óbitos entre crianças e dois entre adolescentes — mas os denominadores invertem a leitura: 2 de 22 são 9,1%, contra 2 de 10 que são 20,0%. A mesma contagem, dois de cada lado, aponta para o dobro de risco quando se olha de quem ela é.

Três outras impressões do mesmo artigo merecem registro porque ensinam a ler número em série de serviço. A lateralidade foi impressa como 61% à esquerda e 39% à direita: as duas somam exatamente 100, o que só é possível com denominador 59, e o artigo declara um prontuário sem essa informação sem nunca nomear o denominador reduzido. Os tumores assintomáticos foram 'cinco casos (8,6%)': 5 sobre 60 dá 8,33%, e só 5 sobre 58 dá 8,62% — a dízima denuncia que o denominador é 58, os pacientes com dados de apresentação clínica, e a discussão do próprio artigo confirma ao escrever 55/58 e 11/58 mais adiante. E as metástases a distância nos rabdomiossarcomas de adolescentes foram dadas por sítio — pulmão em 5 de 15, osso em 2 de 15, medula em 1 de 15 — nunca por paciente: o número de doentes com doença a distância só se recupera como intervalo, entre 5 e 8 dos 15, e por isso não foi usado como número neste capítulo.

Onde mora a régua deste tumor

Vale saber de onde vem cada afirmação deste capítulo, porque a origem explica por que ele tem menos números fechados que o capítulo de câncer de próstata ou o de câncer colorretal. O índice de Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas da comissão nacional de incorporação de tecnologias relaciona dezesseis documentos de oncologia, de adenocarcinoma de estômago a tumor cerebral no adulto, passando por próstata, pulmão, esôfago, rim, fígado, ovário, melanoma, mieloma, linfoma folicular e três de leucemia. O testículo fica fora dessa lista.

O segundo achado é independente do primeiro e aponta na mesma direção: a estimativa nacional de incidência de câncer publicada pelo instituto federal, um volume de 162 páginas, menciona próstata 143 vezes e mama 139 vezes, e não menciona testículo nenhuma vez. A estimativa modela as localizações com massa crítica de casos, e esta ficou de fora do modelo.

O que sobra como referência brasileira, então, são a página técnica do próprio instituto — que é de onde saem a proibição da biópsia, a via inguinal, os três marcadores, a letra S, os 80% do estádio I, os ciclos do esquema com platina e os dois cortes de massa residual — e o número de mortalidade da aba dirigida à população: 527 óbitos pelo código C62 em 2024, segundo o atlas nacional de mortalidade. É um tumor de baixa mortalidade absoluta num país de 200 milhões de habitantes, e é justamente essa raridade que explica tanto a falta de norma dedicada quanto o fato de o erro diagnóstico persistir.

A consequência para quem estuda é direta: neste tema a divergência entre condutas não é ruído, é a estrutura do assunto. Estádio I com três saídas legítimas no mesmo documento oficial, uma frase sobre biópsia que diverge entre duas abas do mesmo portal, e uma fatia de tumor germinativo impressa como 95% numa fonte nacional e 97% em outra. Quem espera um número único vai errar a leitura do enunciado; quem entende de onde vem cada régua identifica qual delas o avaliador está usando.

04

As três réguas que a prova mistura: o marcador, a letra S e o corte da massa residual

A primeira tabela responde à pergunta de biologia: o que cada marcador permite concluir e o que ele proíbe. A segunda organiza a categoria S, que é o eixo exclusivo deste tumor e o que mais confunde por depender do momento da coleta. Os cartões abaixo mostram a progressão ordinal dessa categoria: em cada um, as três barras representam desidrogenase láctica, gonadotrofina coriônica e alfafetoproteína, e a linha tracejada marca o limite superior do normal. Vale a regra do pior eixo: basta um marcador na faixa mais alta para classificar o paciente ali.

  1. 1Massa escrotal em homem entre 15 e 40 anos: separar, à palpação, o que faz corpo com o testículo do que tem plano de clivagem com ele.
  2. 2Colher alfafetoproteína, gonadotrofina coriônica beta e desidrogenase láctica ANTES de qualquer procedimento, e solicitar ultrassonografia da bolsa escrotal com Doppler.
  3. 3Nódulo sólido intratesticular: encaminhar para orquiectomia inguinal com clampeamento precoce do cordão. Sem punção, sem incisão pela bolsa, sem antibiótico de prova.
  4. 4Peça e histologia definem seminoma ou não seminoma; alfafetoproteína elevada vence o laudo de seminoma e o caso segue como não seminoma.
  5. 5Estadiar com tomografia de tórax, abdome e pelve e repetir os marcadores depois do tempo de decaimento — esse valor é a categoria S.
  6. 6Estádio I: discutir vigilância ativa contra adjuvância, pesando adesão e acesso a seguimento, e conversar sobre criopreservação de sêmen antes de qualquer tratamento sistêmico.
  7. 7Doença avançada: esquema com bleomicina, etoposídeo e cisplatina, três ciclos no bom prognóstico e quatro nos demais; reavaliar massa residual pelo corte da histologia correspondente.

S0 — os três dentro do normal

Nenhum dos três marcadores acima do limite superior. Após a orquiectomia e respeitado o tempo de decaimento, é o cenário esperado do estádio I e o que autoriza discutir vigilância ativa.

S1 — elevação discreta

Pelo menos um dos três acima do normal, em faixa baixa. Mantém a maior parte dos pacientes no grupo de bom prognóstico, que recebe três ciclos quando há indicação de tratamento sistêmico.

S2 — elevação intermediária

Pelo menos um dos três em faixa intermediária. Desloca o paciente para prognóstico intermediário e para quatro ciclos, mesmo quando a massa vista na imagem é modesta.

S3 — elevação acentuada

Pelo menos um dos três em faixa alta. Prognóstico ruim, quatro ciclos, e a possibilidade de o marcador estar apontando doença que a tomografia ainda não mostra.

Os três marcadores: o que cada um permite e o que proíbe

MarcadorMeia-vidaSobe em seminoma puro?O que muda na conduta
Alfafetoproteínacerca de 5 a 7 diasNão, nuncaElevada com laudo de seminoma, reclassifica o tumor como não seminoma e o tratamento passa a ser o do não seminoma
Gonadotrofina coriônica betacerca de 24 a 36 horasSim, pode subirElevada isoladamente não reclassifica; entra no estadiamento e é o marcador de queda mais rápida no pós-operatório
Desidrogenase lácticanão específica de tecidoSim, sem valor discriminanteReflete carga tumoral e proliferação; compõe a categoria S e nunca faz diagnóstico sozinha
Os três em conjunto, antes da cirurgialinha de baseDefine a curva de decaimento esperada; sem ela a queda pós-operatória não se interpreta
Os três em conjunto, depois da cirurgiaapós o tempo de decaimentoÉ o valor que entra no estádio como categoria S; queda mais lenta que o previsto indica doença residual mesmo com imagem limpa

A letra a mais: como se lê a categoria S

CategoriaLeituraMomento da coletaConsequência
S0Os três marcadores dentro da faixa normalApós a orquiectomia, respeitado o tempo de decaimentoCompatível com doença de bom prognóstico; no estádio I é o cenário habitual
S1Elevação discreta em pelo menos um dos trêsIdemMantém a maioria dos pacientes no grupo de bom prognóstico
S2Elevação intermediária em pelo menos um dos trêsIdemDesloca para prognóstico intermediário e para quatro ciclos de tratamento
S3Elevação acentuada em pelo menos um dos trêsIdemPrognóstico ruim; quatro ciclos, e o marcador pode indicar doença que a imagem não mostra
SXMarcadores não dosados ou indisponíveisImpede o agrupamento de estádio completo; é falha de processo, não categoria clínica

Massa residual depois da quimioterapia: dois cortes, duas lógicas

HistologiaCorte de tamanhoExame adicionalPor que o corte é esse
Não seminomaacima de 1 cmNão depende de captação em tomografia por emissão de pósitronsPode conter teratoma maduro, que não responde a quimioterapia, cresce e pode transformar-se
Seminomaacima de 3 cmDepende de captação em tomografia por emissão de pósitronsMassa residual de seminoma costuma ser fibrose e necrose; operar fibrose é dano sem ganho

A tabela dos marcadores responde à pergunta biológica; a da categoria S responde à pergunta de calendário. Misturar as duas é o que produz a alternativa que estadia com o sangue colhido antes da cirurgia.

A página técnica do instituto federal nomeia o sufixo S sem publicar as faixas numéricas que separam S1, S2 e S3, e essas faixas variam entre edições do sistema de estadiamento — por isso elas ficam de fora deste capítulo, como limite declarado. O que se cobra em prova é a lógica do pior eixo e o momento da coleta, não o valor de corte decorado.

Os dois cortes de massa residual, acima de 1 cm no não seminoma e acima de 3 cm no seminoma com captação, estão publicados na página técnica do instituto federal e são um dos poucos pares numéricos deste tema com origem nacional identificável.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

Pode-se biopsiar um nódulo testicular pequeno com marcadores normais?

Não: a biópsia é contraindicada

A abordagem recomendada é orquiectomia inguinal com clampeamento precoce do cordão espermático, e a biópsia está expressamente contraindicada. A razão é anatômica: qualquer acesso pela bolsa abre comunicação entre a drenagem retroperitoneal do testículo e a drenagem inguinal da pele do escroto.

Instituto Nacional de Câncer, página de câncer de testículo, versão para profissionais de saúde, gov.br/inca, atualizada em 12/12/2025.

Sim, em nódulo pequeno com marcadores normais

Publicado no mesmo portal, três dias depois: 'Caso o nódulo seja pequeno e os marcadores tumorais sejam normais, pode-se optar por biópsia', com retirada parcial ou total do testículo se o resultado for positivo. A leitura que reconcilia as duas frases é que esta descreve cirurgia conservadora por via inguinal com exame de congelação, e não punção percutânea ou acesso escrotal.

Instituto Nacional de Câncer, página de câncer de testículo, versão para população, gov.br/inca, atualizada em 15/12/2025.

Na prova

Se o enunciado descreve massa sólida intratesticular em adulto jovem e oferece alguma forma de punção, biópsia percutânea ou acesso pela bolsa entre as opções, a régua cobrada é a técnica: colher marcadores, pedir ultrassonografia e encaminhar para orquiectomia inguinal. A hipótese de cirurgia conservadora só aparece em enunciado que descreve lesão pequena, marcadores negativos, e que menciona explicitamente congelação intraoperatória ou testículo único — três sinais que raramente estão presentes. Identifique qual das duas situações o avaliador desenhou antes de escolher.

Uma bolsa escrotal que transilumina afasta tumor?

A hidrocele pode ser reacional ao tumor

A revisão brasileira de tumores testiculares na infância compila da literatura internacional que a hidrocele está associada ao tumor de testículo em 15 a 50% dos casos, o que faz da coleção líquida um achado que acompanha o tumor em parte relevante das vezes, e não um achado que o exclui.

Teixeira RL, Rossini A, Paim NP. Tumores testiculares na infância. Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões. 2009;36(1):85-89.

Na casuística brasileira medida, essa associação não apareceu

Na série de 60 pacientes de um instituto de oncologia pediátrica, nenhum caso teve hidrocele associada registrada, e os próprios autores atribuem o contraste ao desenho retrospectivo e ao número limitado de casos.

Nogueira Neto FB, Petrilli AS, Macedo CRPD, Caran EMM. Tumores de testículo em crianças e adolescentes. Jornal de Pediatria (Rio de Janeiro). 2012;88(1):87-92.

Na prova

A divergência não muda a conduta, e é isso que o aluno precisa perceber: com 15 a 50% ou com zero, a hidrocele nova e unilateral em adulto jovem exige ultrassonografia, porque a coleção pode esconder o tumor e a transiluminação não enxerga através dela. O enunciado que descreve escroto que transilumina e oferece 'tranquilizar e reavaliar em três meses' está cobrando essa cautela. Já o enunciado que descreve hidrocele de anos de evolução, estável, em homem mais velho e com testículo palpável e liso está desenhando outro cenário.

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Caso resolvido

Homem de 27 anos, previamente hígido, procura a unidade básica por aumento de volume do testículo direito percebido há cerca de dois meses, com sensação de peso na bolsa. Nega dor, febre, disúria, corrimento uretral e trauma. Ao exame, testículo direito aumentado, com massa endurecida que faz corpo com o parênquima e não se separa dele à palpação; epidídimo palpável e livre; sem sinais flogísticos; a bolsa não se ilumina à transiluminação. Cadeias inguinais sem linfonodos palpáveis. Abdome sem massas. Sem ginecomastia.
o que a história já resolve
Aumento indolor e progressivo por dois meses em homem de 27 anos, sem febre, sem sintoma urinário e sem trauma, é a apresentação típica do tumor de testículo — e não a de epididimite, que dói e costuma vir com disúria, nem a de torção, que é súbita e intensa. A ausência de dor não afasta o diagnóstico: é o que o sustenta.
o que o exame acrescenta
Massa que faz corpo com o testículo e não tem plano de clivagem é intratesticular, e essa é a distinção que separa tumor de hidrocele, espermatocele e nódulo de epidídimo. A transiluminação negativa reforça massa sólida. Cadeias inguinais livres não trazem informação sobre a doença: este tumor não drena para a virilha.
o que se colhe antes de qualquer coisa
Alfafetoproteína, fração beta da gonadotrofina coriônica e desidrogenase láctica, e ultrassonografia da bolsa escrotal com Doppler. Os três valores pré-operatórios são a linha de base sem a qual a queda posterior não se interpreta. Nenhum antibiótico de prova, nenhuma punção, nenhuma reavaliação em três meses.
o resultado e o encaminhamento
A ultrassonografia mostra nódulo sólido hipoecoico de 3,4 cm intratesticular à direita, com vascularização ao Doppler. Alfafetoproteína de 210 nanogramas por mililitro, gonadotrofina coriônica beta de 48 unidades internacionais por litro e desidrogenase láctica discretamente elevada. Encaminhamento imediato à urologia para orquiectomia inguinal com clampeamento precoce do cordão.
o que a alfafetoproteína já determinou
Alfafetoproteína elevada significa componente não seminomatoso, decisão que precede o laudo. Se a anatomia patológica vier como seminoma puro, é o marcador que prevalece, e o caso segue tratado como não seminoma. Esse é o ponto do capítulo em que o sangue vence o laudo, e ele já está definido antes de a peça ir para o patologista.
estadiamento e a conversa que não pode esperar
Tomografia de tórax, abdome e pelve, procurando o retroperitônio — num tumor direito, o compartimento entre a aorta e a veia cava é a primeira estação. Repetir os três marcadores depois do tempo de decaimento: esse valor é a categoria S. E, antes de qualquer tratamento sistêmico, conversar sobre criopreservação de sêmen, porque a platina compromete a espermatogênese e a janela fecha.
orientação de alta e seguimento
O paciente sai sabendo que o testículo contralateral permanece sob risco aumentado pelo resto da vida, com orientação de autoexame mensal, e com o calendário do não seminoma de estádio I explicado se for esse o estádio: marcadores e avaliação a cada 2 meses no primeiro ano, a cada 3 no segundo, com tomografia semestral nos três primeiros anos. Vigiar só funciona se o calendário for cumprido.
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Agora feche você

Homem de 31 anos chega ao ambulatório trazendo relatório de outro serviço. Há três semanas foi submetido, num hospital de outra cidade, a uma exploração cirúrgica por incisão na bolsa escrotal esquerda, indicada como 'drenagem de coleção'. O achado foi massa endurecida no testículo, e o cirurgião fez biópsia incisional pela mesma via e fechou. O laudo devolvido descreve carcinoma embrionário. O paciente traz também um exame de sangue colhido ontem: alfafetoproteína de 640 nanogramas por mililitro, gonadotrofina coriônica beta de 1.200 unidades internacionais por litro. Não há dosagem anterior à cirurgia. O testículo esquerdo continua no lugar. Ao exame, cicatriz escrotal recente, sem sinais de infecção; sem linfonodos inguinais palpáveis.
o que já foi perdido
Complete: dois danos distintos foram produzidos por essa cirurgia, e é preciso nomear os dois separadamente — um deles diz respeito ao território que agora está exposto, e o outro à informação que não existe mais e não pode ser recriada.
o que o exame de sangue de ontem vale
Complete: sem valor pré-operatório, o que essas duas dosagens conseguem e o que elas não conseguem informar? Lembre que já se passaram três semanas da cirurgia — e que essa cirurgia não retirou o tumor.
qual é o próximo ato cirúrgico
Complete: o testículo continua no lugar, com um tumor dentro dele e uma bolsa já aberta. Qual é a operação indicada agora, e por que a via de acesso continua sendo a mesma que teria sido indicada desde o começo?
o que muda no mapa de estadiamento
Complete: com o escroto violado, o estadiamento continua olhando para o mesmo território de sempre, ou ganha um segundo território? Diga qual, e o que isso muda no seguimento.
o que precisa ser conversado antes de tratar
Complete: carcinoma embrionário com marcadores nessa ordem de grandeza vai receber tratamento sistêmico. Que conversa precisa acontecer antes da primeira dose, e por que ela não pode ser adiada para depois do primeiro ciclo?
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Onde a banca derruba

  1. 1Puncionar ou biopsiar a massa 'para confirmar antes de operar' É o erro que o capítulo existe para impedir. A massa sólida intratesticular em adulto jovem é tumor até prova em contrário, e a prova é a peça cirúrgica retirada pela via inguinal. Furar o escroto expõe a drenagem inguinal e converte um problema retroperitoneal num problema de dois territórios.
  2. 2Só pensar em tumor quando dói A apresentação típica é aumento indolor e progressivo do volume, por semanas a meses. O capítulo de escroto agudo desta apostila cita o tumor no diferencial da dor, e essa citação, lida sozinha, sugere que o tumor é hipótese de pronto-socorro. Não é: quem espera a dor perde o quadro clássico inteiro.
  3. 3Colher os marcadores só depois da orquiectomia Sem o valor pré-operatório não há linha de base, e a queda posterior deixa de ser interpretável. Colher antes e repetir depois são dois atos distintos, com finalidades distintas: o primeiro define a curva esperada, o segundo entra no estádio como categoria S.
  4. 4Estadiar com marcador colhido cedo demais A gonadotrofina cai com meia-vida de cerca de 24 a 36 horas e a alfafetoproteína, de 5 a 7 dias. Um valor colhido no dia seguinte à cirurgia ainda está dentro do decaimento e não classifica nada. Categoria S se lê quando a curva já teve tempo de correr.
  5. 5Aceitar o laudo de seminoma com alfafetoproteína elevada A alfafetoproteína não sobe em seminoma puro. Elevada, ela indica componente não seminomatoso que pode não ter sido amostrado no corte examinado, e o tratamento passa a ser o do não seminoma. É o único ponto do capítulo em que o sangue vence a anatomia patológica.
  6. 6Procurar a doença na virilha A linfa do testículo sobe para o retroperitônio, não desce para a virilha, e o estadiamento é tomografia de tórax, abdome e pelve. Virilha livre não exclui massa retroperitoneal volumosa. A exceção é o escroto já violado por procedimento prévio, situação em que a virilha passa a ser território de risco criado pela intervenção.
  7. 7Tratar hidrocele nova de adulto jovem sem imagem A coleção pode ser reacional ao tumor, e a transiluminação não enxerga através do líquido. Coleção recente, unilateral, com polo superior do testículo mal delimitado, pede ultrassonografia antes de qualquer rótulo.
  8. 8Deixar a conversa sobre fertilidade para depois da quimioterapia A quimioterapia com platina compromete a espermatogênese, e a criopreservação de sêmen pertence ao intervalo entre o diagnóstico e o início do tratamento sistêmico. Num paciente que em regra vai viver décadas, perder essa janela é dano evitável.
  9. 9Achar que orquidopexia na infância zera o risco A correção da criptorquidia reduz o risco de tumor e, sobretudo, torna a gônada palpável e examinável — mas não o elimina. O adulto operado na infância continua sendo população de risco, e o testículo contralateral de quem já teve tumor de um lado também.
  10. 10Ler 'cem por cento de sobrevida' como certeza Na série brasileira, a sobrevida de 100% nos rabdomiossarcomas de crianças repousa sobre 8 pacientes e nenhum óbito, e o próprio artigo trata o achado como indicativo. Zero evento em amostra pequena não é taxa de zero — é ausência de oportunidade de o evento aparecer.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

O câncer de testículo é diagnosticado e tratado inicialmente com orquiectomia radical por via inguinal, com ligadura alta do cordão espermático, o que evita disseminação e permite estadiamento. A via escrotal (biópsia ou orquiectomia simples) é contraindicada por risco de disseminação linfática para linfonodos inguinais e recidiva local. Punção aspirativa não é indicada. Aguardar com marcadores elevados e massa sólida atrasa o tratamento de um tumor curável.

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Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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Plano de revisão

em 7 dias

Sete dias depois, recupere sem consultar: (1) a instrução em duas frases que abre o capítulo — biópsia contraindicada, orquiectomia inguinal com clampeamento precoce do cordão — e a razão anatômica dela; (2) a apresentação típica, que é aumento indolor e progressivo por semanas a meses, e não dor; (3) os três marcadores, e o que a alfafetoproteína proíbe; (4) as duas meias-vidas, cerca de 24 a 36 horas para a gonadotrofina e 5 a 7 dias para a alfafetoproteína, e por que elas definem quando se estadia; (5) o que é a categoria S e por que ela se lê depois da cirurgia; (6) por que o estadiamento procura o retroperitônio e não a virilha, e o que muda quando o escroto foi violado; (7) os 80% de estádio I curados só com a cirurgia, e as três saídas que coexistem a partir daí.

em 30 dias

Trinta dias depois, refaça o percurso inteiro em voz alta a partir de uma frase: homem de 26 anos com nódulo endurecido e indolor no testículo direito há dois meses. Diga, em ordem, o que examina, o que colhe, o que pede, para onde encaminha e o que jamais faz. Depois acrescente as bifurcações: se a alfafetoproteína vier elevada e o laudo disser seminoma, o que muda; se a tomografia mostrar linfonodo interaortocaval num tumor direito, se isso é esperado; se o paciente for de área remota e a opção for vigilância, o que pesa; se sobrar massa de 2 cm depois da quimioterapia, o que decide operar conforme a histologia; e o que precisa ter sido conversado antes de a primeira dose de platina entrar. Fecha o mês recuperando o lugar de onde vem a régua: dezesseis diretrizes de oncologia da comissão nacional, e o testículo fora delas.

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Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 24 anos entra no consultório da unidade básica constrangido, dizendo que veio por causa de um caroço que a namorada percebeu. Conta que notou o testículo direito mais pesado há uns dois meses, que não dói, e que não veio antes porque achou que era 'coisa de esforço'. Não tem febre, não tem ardência para urinar e nunca teve corrimento. Trabalha como entregador. Cabe a você conduzir a consulta: examinar sem apressar o constrangimento, decidir o que se colhe hoje, dizer com todas as letras o que não vai ser feito, e explicar o encaminhamento de um jeito que faça esse paciente comparecer. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Câncer de testículo e massas testiculares – Câncer de testículo: a massa sólida que se retira sem biopsiar — Preparatório para provas | OsceLabs