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Cirurgia GeralUrologia

Câncer de próstata: do PSA alterado ao tratamento

Grupo de risco é a decisão: ele diz quem faz imagem de estadiamento, quem pode esperar e quem opera ou irradia. A régua brasileira é a Diretriz de 2016 e a castração de primeira linha nela é cirúrgica.

01

Responda antes de ler

Escolha uma alternativa agora, mesmo sem certeza. Errar aqui faz parte — é o que faz a resposta certa grudar depois.

Questão de abertura

Homem de 70 anos é atendido na UBS em consulta de rotina. Refere-se assintomático urinariamente. Ao toque retal, palpa-se nódulo endurecido, irregular, em lobo prostático direito. PSA total = 8,2 ng/mL. Qual a conduta mais apropriada?

02

Como esse tema cai

Este capítulo começa depois da suspeita. Se vale dosar PSA em homem assintomático, quem convocar e como conduzir a conversa é matéria de rastreamento, e está nos capítulos de níveis de prevenção e de prevenção quaternária. As regras de quando o PSA não deve ser medido — após retenção urinária, instrumentação, infecção ou biópsia — e o efeito do inibidor da 5-alfa-redutase sobre o valor estão no capítulo de hiperplasia prostática benigna. Aqui o ponto de partida é outro: já existe um PSA alterado, um toque retal anormal ou um sintoma, e as perguntas passam a ser como confirmar, como classificar e o que tratar.

O tamanho do problema justifica o espaço. O câncer de próstata é o mais frequente entre os homens brasileiros, com 30,5% dos casos masculinos quando se excluem os tumores de pele não melanoma: são 77.920 casos novos estimados para cada ano do triênio 2026-2028, taxa ajustada de 45,31 por 100 mil homens. A idade mediana ao diagnóstico é de 68 anos. E há um par de números que explica quase tudo o que vem a seguir: o risco de um homem receber esse diagnóstico ao longo da vida é de 16%, enquanto o risco de morrer da doença é de 3,4%. É essa distância entre diagnosticar e morrer que sustenta a existência da vigilância ativa e que torna o excesso de tratamento um desfecho ruim, e não um zelo.

A régua nacional é a Diretriz Diagnóstica e Terapêutica do adenocarcinoma de próstata, aprovada pela Portaria nº 498, de maio de 2016. Ela decide três coisas que caem em prova: estratifica o risco por D'Amico, restringe a imagem de estadiamento aos riscos intermediário e alto, e ordena a hormonioterapia paliativa em linhas, com a castração cirúrgica na primeira. Onde o documento de 2016 ficou para trás — grupos de grau, ressonância antes da biópsia, tomografia por emissão de pósitrons com PSMA, novos antiandrogênicos — o bloco de divergências mostra a régua de fora e nomeia a causa do afastamento.

03

O que muda decisão

O diagnóstico é histológico; o resto é suspeita

PSA elevado e toque retal alterado levantam a suspeita e não fecham nada. O que fecha é o laudo anatomopatológico do fragmento de biópsia. Mais de 95% dos casos são adenocarcinoma, e por isso 'câncer de próstata' e 'adenocarcinoma de próstata' são usados como sinônimos; o código é C61.

No documento brasileiro, a biópsia é guiada por ultrassonografia transretal, e o texto é explícito quanto à função do ultrassom: ele serve para posicionar a agulha nas diferentes zonas da próstata, não para enxergar o tumor. A ressonância magnética, ali, tem indicação em casos bastante selecionados, e a diretriz registra por que não confia nela para o estadiamento local: a metanálise que cita mostra acurácia de 50% a 92% para prever extensão extracapsular e comprometimento de vesículas seminais — uma faixa larga demais para decidir cirurgia.

A régua europeia de 2025 inverteu a ordem. Ressonância multiparamétrica antes da biópsia em todo paciente com suspeita de doença confinada ao órgão é recomendação forte; a aquisição e a leitura devem seguir o Pi-RADS; a biópsia dirigida ao alvo pode ser feita por fusão, por guia cognitiva ou dentro do próprio aparelho; e a via transperineal é preferida à transretal, também com recomendação forte. O motivo da via não é só oncológico: a complicação infecciosa é significativamente menor pela via transperineal, e a diretriz enquadra a escolha como política de uso de antimicrobianos. O ensaio translate, com 1.126 homens, mostrou detecção de câncer clinicamente significativo de 60% pela via transperineal contra 54% pela transretal, com menos eventos adversos graves.

Duas regras práticas atravessam os dois mundos. A primeira é o mínimo de doze fragmentos na amostragem sistemática, com os fragmentos de sítios diferentes enviados separadamente para processamento e laudo — recomendação forte, porque é o que permite dizer onde está o tumor. A segunda é a exceção pela qual a ressonância não muda nada: quem tem doença localmente avançada evidente já ao toque retal, ou quem não é candidato a tratamento curativo, faz biópsia limitada e sem ressonância. Ali o exame não vai escolher entre cirurgia e radioterapia; vai apenas produzir o diagnóstico histológico que autoriza o tratamento paliativo.

Há ainda o caso em que a conduta é não biopsiar. Com ressonância negativa, isto é, Pi-RADS 1 ou 2, e suspeita clínica baixa — densidade de PSA abaixo de 0,20 ng/mL por centímetro cúbico e sem história familiar —, a orientação europeia é omitir a biópsia e monitorar o PSA. Com ressonância indeterminada, Pi-RADS 3, o corte de densidade que autoriza a mesma conduta é mais exigente: 0,10 ng/mL por centímetro cúbico. Fora dessas duas janelas, biopsia-se o alvo com amostragem perilesional.

Corte sagital da pelve masculina com a próstata e suas zonas, a uretra, a bexiga, as vesículas seminais e o reto; duas linhas mostram o trajeto da agulha de biópsia pela parede anterior do reto e pelo períneo.
As duas vias de biópsia. Pela transretal a agulha atravessa a parede do reto; pela transperineal ela entra pela pele do períneo e sobe até a glândula, sem cruzar a mucosa colonizada — é daí que vem a diferença nas complicações infecciosas.

Gleason: por que 7 não é um número só

O escore de Gleason é uma soma de dois padrões arquiteturais vistos ao microscópio. O padrão primário é o que ocupa a maior parte do tumor; o secundário, a menor parte. Cada um recebe um grau de 1 a 5 conforme a diferenciação, e o escore é a soma dos dois. Daí vem a armadilha aritmética: 3+4 e 4+3 somam 7 e não significam a mesma coisa. No primeiro, o padrão pouco diferenciado é minoritário; no segundo, é predominante. O prognóstico segue a ordem, não a soma.

Foi para resolver essa colisão que a classificação por grupos de grau se impôs. Ela transforma o escore em cinco categorias ordinais: grupo 1 para Gleason até 6, grupo 2 para 3+4, grupo 3 para 4+3, grupo 4 para os oitos — 4+4, 3+5 e 5+3 — e grupo 5 para 9 e 10. Repare no que a tabela faz de uma vez só: separa os dois setes, que a soma confundia, e junta todos os oitos, que a soma distinguia sem motivo prognóstico. Nos ensaios contemporâneos de biópsia e imagem, 'câncer clinicamente significativo' quer dizer exatamente grupo de grau 2 ou maior — é esse o desfecho que a ressonância antes da biópsia se propõe a encontrar.

O documento brasileiro de 2016 não usa grupos de grau. Ele trabalha com o escore de Gleason direto e, para a graduação histopatológica da UICC, com uma régua ainda mais grossa: G1 para Gleason 2 a 4, G2 para 5 e 6, G3-4 para 7 a 10. Na tabela de risco de D'Amico que ele adota, 'Gleason 7' é uma casa única, no risco intermediário, e a distinção entre 3+4 e 4+3 simplesmente não aparece. Quem lê um laudo brasileiro precisa dos dois vocabulários.

TNM: o que o toque retal decide

O T clínico do câncer de próstata sai do toque retal, e essa é a razão pela qual o exame não saiu de cena mesmo depois do PSA. T1 é o tumor clinicamente inaparente, não palpável nem visível por imagem; dentro dele, T1a e T1b são achados histológicos incidentais em tecido ressecado — até 5% e acima de 5%, respectivamente — e T1c é o tumor identificado por biópsia por agulha motivada, por exemplo, por PSA elevado. T1c é a categoria mais comum na prática atual.

T2 é o tumor confinado à próstata, subdividido pelo que se palpa: T2a envolve metade de um lobo ou menos, T2b mais da metade de um lobo mas não os dois, T2c os dois lobos. Duas notas do próprio TNM caem em prova com frequência. A primeira: tumor encontrado em um ou nos dois lobos por biópsia por agulha, mas não palpável nem visível por imagem, é T1c e não T2. A segunda: a invasão do ápice prostático ou da cápsula, mas não além dela, é classificada como T2 e não como T3 — a palavra 'cápsula' no laudo não promove o estádio sozinha.

T3 é a extensão através da cápsula: T3a para a extensão extracapsular, incluindo o envolvimento microscópico do colo vesical, e T3b para a invasão de vesícula seminal. T4 é o tumor fixo ou que invade estruturas adjacentes que não as vesículas seminais — esfíncter externo, reto, elevador do ânus, parede pélvica. No N há só duas casas úteis: N0 e N1, ausência e presença de metástase em linfonodo regional. No M, a subdivisão importa porque nomeia o sítio: M1a para linfonodo não regional, M1b para osso e M1c para outras localizações. Ainda uma peculiaridade da classificação patológica: não existe pT1, porque não há tecido suficiente para determinar a categoria.

O grupo de risco é a decisão

Para o tumor localizado, o documento brasileiro adota a classificação de D'Amico, construída sobre três variáveis — estádio clínico, escore de Gleason e PSA — para estimar o risco de recidiva bioquímica em dez anos após tratamento local. A assimetria entre as duas pontas é o que a prova cobra: o risco baixo exige o preenchimento da totalidade dos critérios, enquanto um único critério de alto risco já basta para classificar o paciente ali. Um homem com Gleason 6 e T1c, mas PSA de 24, é alto risco — a maioria dos critérios favoráveis não desfaz o desfavorável.

A régua europeia de 2025 mantém a mesma lógica e refina o meio, porque era ali que a decisão terapêutica ficava indefinida. O intermediário foi partido em favorável e desfavorável, e a fronteira é o grupo de grau: grupo 2 com PSA abaixo de 10 e cT1-2 é favorável; grupo 3, ou grupo 2 com PSA entre 10 e 20, é desfavorável. Foi criada também uma categoria separada para o localmente avançado, cT3-4 ou cN positivo, qualquer que sejam o grau e o PSA. Essa divisão do intermediário não é cosmética: como se verá adiante, ela decide quem faz imagem de estadiamento.

Estadiamento por imagem: a pergunta é quem não faz

Aqui está o item mais frequentemente errado do tema, e o erro é sempre no mesmo sentido: pedir exame demais. A diretriz brasileira limita a avaliação de linfonodo por tomografia ou ressonância aos pacientes de alto risco, e mesmo neles registra que os métodos carecem de sensibilidade e especificidade. Para metástase à distância, especialmente do esqueleto axial, a investigação fica limitada aos pacientes de risco intermediário e alto, e o exame é a cintilografia óssea de corpo inteiro. A leitura pela contrapositiva é a que resolve a questão: o paciente de baixo risco não faz cintilografia óssea nem tomografia.

A régua europeia diz a mesma coisa com mais granularidade e transforma a omissão em recomendação forte. Baixo risco e intermediário favorável: não usar imagem adicional para estadiamento. Intermediário desfavorável: tomografia por emissão de pósitrons com PSMA, se disponível, ou ao menos imagem seccional de abdome e pelve mais cintilografia óssea — recomendação fraca. Alto risco e localmente avançado: rastreamento de metástase com PSMA, se disponível, ou ao menos a mesma dupla tomografia e cintilografia — recomendação forte. Note que a própria diretriz de fora escreve o plano B, e o plano B é a rotina brasileira.

A avaliação linfonodal que de fato decide não é de imagem: é a linfadenectomia das cadeias obturatórias e ilíacas no intraoperatório da prostatectomia radical. E o documento brasileiro é categórico quanto à extensão dela — quando indicada, nos pacientes de risco intermediário a alto, deve ser sempre estendida, sem papel para a linfadenectomia limitada.

Doença localizada: quatro caminhos e uma diferença de intenção

Observação e vigilância ativa parecem a mesma conduta e são opostas na intenção. A observação é oferecida ao tumor localizado não agressivo em paciente idoso ou com comorbidades relevantes, com expectativa de vida de até dez anos; espera-se o sintoma para então tratar, e a intenção é paliativa desde o primeiro dia. A vigilância ativa é reservada ao tumor de baixo risco de D'Amico em paciente com expectativa de vida de dez anos ou mais; nela não se inicia o tratamento curativo, mas ele continua na mesa — acompanha-se com PSA seriado, toque retal e biópsias, e trata-se de fato à primeira evidência de evolução. Na série que a diretriz cita, com 450 pacientes seguidos por 6,8 anos em média, os gatilhos para tratamento definitivo foram tempo de duplicação do PSA menor que três anos, progressão para Gleason 4+3 ou maior, ou progressão clínica inequívoca — e 30% dos pacientes acabaram tratados.

A prostatectomia radical remove a próstata inteira com a uretra prostática, as vesículas seminais e as ampolas dos ductos deferentes, associada ou não à linfadenectomia bilateral. É o tratamento com a evidência mais dura: no braço cirúrgico do estudo escandinavo, o benefício sobre a mortalidade específica se manteve aos quinze anos, com número necessário para tratar de 15 no grupo todo e de 7 entre os homens com menos de 65 anos. Quanto à via — retropúbica, perineal, laparoscópica ou assistida por robô —, a diretriz é explícita: as evidências disponíveis não permitem afirmar qual delas dá melhor controle tumoral ou melhor resultado funcional. E não há evidência que justifique hormonioterapia neoadjuvante ou adjuvante à prostatectomia.

A radioterapia externa pode ser indicada nos três grupos de D'Amico. A dose padrão é de 1,8 a 2 Gy por fração, totalizando 70 a 74 Gy em cinco frações semanais por sete a oito semanas; a escalada de dose para 76 a 80 Gy só é tolerável com técnica conformada, e a diretriz registra que ela melhora o controle bioquímico sem aumentar a sobrevida global. A braquiterapia de baixa taxa de dose como monoterapia tem critérios estreitos, e eles são cobráveis um a um: cT1-T2a N0M0, Gleason até 6, PSA até 10 ng/mL, menos de 50% dos fragmentos comprometidos, próstata com menos de 60 centímetros cúbicos e sintomas miccionais no máximo moderados pelo escore internacional de sintomas prostáticos — o mesmo instrumento do capítulo de hiperplasia prostática benigna, com corte em 12 pontos.

A hormonioterapia associada à radioterapia é o ponto em que grupo de risco vira prescrição. No risco intermediário, o análogo do hormônio liberador do hormônio luteinizante é usado por 4 a 6 meses, prévio ou concomitante e adjuvante. No risco alto, a duração é longa: 2 a 3 anos, também prévia e concomitante ou adjuvante — e é aí que está o ganho de sobrevida global sobre a radioterapia isolada, mostrado em mais de um ensaio randomizado. Nos tumores cT3-T4, quando se opta pela radioterapia, a hormonioterapia é de 3 anos. Independentemente do grupo de risco, é possível indicar hormonioterapia prévia por 3 meses apenas para reduzir o volume de uma próstata volumosa antes de irradiar.

Depois da cirurgia, a radioterapia adjuvante entra em cena diante de tumor pT3, margem cirúrgica comprometida ou invasão de vesícula seminal. Nos estudos que sustentam a conduta, a dose foi de até 66 Gy, e o número de pacientes com pT3 a irradiar para evitar uma morte em doze anos de seguimento foi calculado em 9,1.

Doença avançada: o eixo é a testosterona

O tratamento da doença metastática ou recidivada se organiza em torno de um único alvo: derrubar a testosterona a nível de castração, que é abaixo de 50 ng/dL, o mesmo valor que a diretriz também expressa como 1,7 nmol/L. Esse bloqueio se obtém cirurgicamente, pela orquiectomia bilateral, ou por medicamento — agonista ou antagonista do hormônio liberador do hormônio luteinizante. Chama-se bloqueio androgênico máximo a associação da castração, cirúrgica ou medicamentosa, com um antiandrogênio. O ganho do bloqueio máximo é pequeno e tardio: a revisão sistemática que a diretriz analisa encontrou melhora de sobrevida que só se torna significativa após cinco anos, com número necessário para tratar de 20,8, ao custo de mais eventos adversos e de cerca de 10% de má aderência.

A sequência brasileira é escrita em linhas, e a primeira delas surpreende quem estudou pela literatura internacional. Primeira linha: supressão androgênica por bloqueio hormonal cirúrgico; nos casos em que o procedimento cirúrgico for contraindicado, usa-se o bloqueio medicamentoso. Segunda linha, quando há progressão tumoral com a testosterona ainda acima do nível de castração: acrescenta-se à supressão um antiandrogênio de ação periférica, esteroidal ou não. E há uma nota que fecha o desenho: se o homem estava recebendo análogo como primeira linha, ao mudar de linha esta deve ser substituída pela supressão androgênica cirúrgica, salvo contraindicação. A progressão que autoriza a troca é atestada por aumento progressivo do PSA, piora de lesão óssea ou acometimento visceral.

Os efeitos adversos da castração formam um bloco previsível e cobrável: diminuição da libido, disfunção erétil, fogachos, osteopenia com risco de fratura não metastática, obesidade e síndrome metabólica, aumento do risco cardiovascular, fadiga e ginecomastia com mastodinia. A ginecomastia se previne e se trata com tamoxifeno ou com radioterapia das mamas, sendo o tamoxifeno superior; no sistema público, essa irradiação é codificada como radioterapia de doença ou condição benigna, porque não tem finalidade antineoplásica.

A doença resistente à castração tem definição fechada, e ela não é 'a testosterona subiu'. É progressão apesar da testosterona já estar em nível de castração, de uma de duas formas: progressão bioquímica em três medidas consecutivas do PSA, com PSA acima de 2 ng/mL; ou progressão radiológica, definida pelo aparecimento de duas ou mais lesões ósseas novas na cintilografia ou pelo aumento de lesões de partes moles segundo os critérios RECIST. Caracterizada a resistência, a quimioterapia com docetaxel a cada três semanas associado a prednisona é a escolha na doença metastática sintomática — e a hormonioterapia não se suspende quando a quimioterapia começa. Na progressão após o docetaxel, o cabazitaxel com prednisona aumentou a sobrevida global de 12,7 para 15,1 meses.

Do lado dos antiandrogênicos de nova geração, a decisão brasileira é recente e assimétrica. A portaria de agosto de 2024 incorporou a abiraterona, em monoterapia ou associada ao docetaxel, para o câncer de próstata sensível à castração e metastático, e na mesma decisão não incorporou enzalutamida, darolutamida e apalutamida para essa indicação.

Recidiva bioquímica: dois cortes, dois tratamentos

Recidiva bioquímica é a elevação isolada do PSA, sem lesão detectável, e o valor que a define depende do tratamento que veio antes — confundi-los é o erro clássico. Depois da prostatectomia radical, o corte mais aceito é PSA acima de 0,2 ng/mL; a lógica é que, retirada a glândula inteira, qualquer PSA mensurável denuncia tecido prostático remanescente. Depois da radioterapia, a próstata continua no lugar e continua produzindo PSA, de modo que o corte não pode ser absoluto: define-se recidiva pela elevação de 2 ng/mL ou mais acima do nadir, o menor valor alcançado após o tratamento. Entre 20% e 40% dos homens operados terão recidiva bioquímica em dez anos, e ela precede o aparecimento de metástase em cerca de oito anos.

O tempo de duplicação do PSA é o instrumento que separa recidiva local de sistêmica, e para calculá-lo é preciso um mínimo de três medidas consecutivas. Sugerem recidiva local, com cerca de 80% de probabilidade: PSA que sobe mais de três anos após a cirurgia, tempo de duplicação acima de 11 meses, Gleason até 6 e classificação abaixo de pT3a pN0. Sugerem recidiva sistêmica, com mais de 80% de acurácia: PSA que sobe antes de um ano, tempo de duplicação de 4 a 6 meses, Gleason 8 a 10 ou classificação pT3b ou pTx N1. Tempo de duplicação abaixo de três meses indica doença agressiva e alta probabilidade de já ser metastática.

O padrão compatível com recidiva local após prostatectomia tem indicação de radioterapia de salvamento do leito prostático e da anastomose, na dose de 66 a 70 Gy, com sucesso de controle bioquímico entre 40% e 60%. O momento importa: em pacientes com tempo de duplicação menor que seis meses, a radioterapia de salvamento aplicada antes de dois anos da recidiva aumentou a sobrevida específica em relação à aplicada depois. Já a recidiva após radioterapia primária costuma ser tratada com hormonioterapia, porque a prostatectomia de salvamento carrega complicações clínicas e cirúrgicas em 30% a 50% dos casos e incontinência que pode chegar a 50%.

O seguimento pós-tratamento curativo é feito quase só com PSA, porque em praticamente todos os casos de recidiva ele sobe antes de qualquer manifestação clínica. A cadência sugerida é PSA aos 3, aos 6 e aos 12 meses após o tratamento inicial, semestral até o terceiro ano e anual depois disso. Nos pacientes sob bloqueio medicamentoso, dosa-se também a testosterona, que precisa estar abaixo do nível de castração para que o bloqueio seja considerado efetivo.

04

Do fragmento ao grupo de risco: onde cada número entra

O caminho tem uma ordem fixa e cada etapa alimenta a seguinte: a biópsia entrega o Gleason, o Gleason mais o PSA mais o toque entregam o grupo de risco, e o grupo de risco decide sozinho duas coisas — se haverá imagem de estadiamento e qual o leque terapêutico. Os cartões abaixo mostram a arquitetura glandular que sustenta cada grupo de grau; as tabelas trazem as duas estratificações de risco em uso, o que pedir de imagem e o que se oferece em cada faixa.

  1. 1PSA alterado, toque retal anormal ou sintoma que levante suspeita. Confirme antes que o PSA foi medido em condição válida — as janelas após retenção, instrumentação, infecção e biópsia estão no capítulo de hiperplasia prostática benigna.
  2. 2Encaminhe para biópsia prostática. No Brasil, guiada por ultrassonografia transretal, com no mínimo doze fragmentos sistemáticos e os fragmentos de cada sítio enviados separadamente para o laudo.
  3. 3Leia o laudo pela ordem dos padrões, não pela soma: anote se o 7 é 3+4 ou 4+3, e converta para o grupo de grau. Anote também o percentual de fragmentos comprometidos, que é critério de braquiterapia.
  4. 4Estadie o T pelo toque retal e classifique o risco: pela tabela de D'Amico, a totalidade dos critérios define o baixo risco e um único critério define o alto.
  5. 5Baixo risco: nenhuma imagem de estadiamento. Risco intermediário e alto: cintilografia óssea de corpo inteiro; tomografia ou ressonância para linfonodo no alto risco.
  6. 6Baixo risco com expectativa de vida de dez anos ou mais: apresente as três opções de eficácia equivalente — prostatectomia radical, radioterapia externa em dose elevada e braquiterapia — e a vigilância ativa. Com expectativa de vida menor, observação.
  7. 7Risco intermediário: prostatectomia radical com linfadenectomia estendida, ou radioterapia externa em dose elevada com hormonioterapia de 4 a 6 meses.
  8. 8Risco alto e localmente avançado: prostatectomia radical com linfadenectomia estendida, ou radioterapia externa com escalada de dose e irradiação pélvica associada a hormonioterapia de 2 a 3 anos.
  9. 9Pós-tratamento: PSA aos 3, 6 e 12 meses, semestral até o terceiro ano, anual depois. Recidiva bioquímica é PSA acima de 0,2 ng/mL depois da cirurgia e nadir mais 2 ng/mL depois da radioterapia.

Grupo de grau 1 — Gleason até 6

Glândulas individuais, bem formadas e separadas umas das outras, cada uma com sua luz. É a única faixa em que a vigilância ativa entra como opção formal na diretriz brasileira, no paciente de baixo risco com expectativa de vida de dez anos ou mais.

Grupo de grau 2 — Gleason 3+4

A maior parte ainda é de glândulas bem formadas, com um componente minoritário de glândulas fundidas. É a partir daqui que o achado conta como câncer clinicamente significativo nos ensaios de biópsia e de imagem.

Grupo de grau 3 — Gleason 4+3

A relação se inverte: predominam as glândulas fundidas e mal formadas, e o componente bem formado é o minoritário. Mesma soma do grupo anterior, prognóstico pior — e, na régua europeia, o que joga o paciente do intermediário favorável para o desfavorável.

Grupo de grau 4 — Gleason 8

Só arquitetura mal formada, fundida ou cribriforme: as três combinações que somam 8 — 4+4, 3+5 e 5+3 — caem todas aqui. Junto com o grupo 5, define alto risco na régua europeia independentemente do PSA e do toque.

Grupo de grau 5 — Gleason 9 e 10

Ausência de formação glandular: lençóis sólidos, cordões e células isoladas. É a faixa com maior chance de doença já disseminada ao diagnóstico e a que mais motiva a busca ativa de metástase antes de qualquer tratamento local.

CritérioRisco baixoRisco intermediárioRisco alto
Estádio clínicoAté T2aT2bT2c a T3a
Escore de GleasonAté 67Acima de 7
PSA sérico (ng/mL)Abaixo de 10Entre 10 e 20Acima de 20
Como se classificaExige a totalidade dos critériosFaixa intermediária das três variáveisUm único critério presente já basta

Grupos de risco da EAU (2025): o intermediário partido em dois

CategoriaCritérios
Baixo riscoGrupo de grau 1 e PSA abaixo de 10 ng/mL e cT1-2
Intermediário favorávelGrupo de grau 2 com PSA abaixo de 10 ng/mL e cT1-2; ou grupo de grau 1 com PSA de 10 a 20 ng/mL e cT1-2
Intermediário desfavorávelGrupo de grau 2 com PSA de 10 a 20 ng/mL e cT1-2; ou grupo de grau 3 com cT1-2
Alto riscoGrupo de grau 4 ou 5; ou PSA acima de 20 ng/mL
Localmente avançadocT3-4 ou cN positivo, com qualquer grupo de grau e qualquer PSA

Imagem de estadiamento: o que pedir em cada grupo

GrupoRégua brasileira (Diretriz de 2016)Régua europeia (2025)
Baixo riscoNenhuma imagem de estadiamentoNão usar imagem adicional — recomendação forte
Intermediário favorávelCintilografia óssea de corpo inteiroNão usar imagem adicional — recomendação forte
Intermediário desfavorávelCintilografia óssea de corpo inteiroPSMA por tomografia por emissão de pósitrons, se disponível; ou ao menos tomografia de abdome e pelve mais cintilografia — recomendação fraca
Alto risco e localmente avançadoCintilografia óssea; tomografia ou ressonância para linfonodoPSMA por tomografia por emissão de pósitrons, se disponível; ou ao menos tomografia de abdome e pelve mais cintilografia — recomendação forte
Linfonodo, avaliação definitivaLinfadenectomia obturatória e ilíaca no intraoperatório, sempre estendidaMesma lógica: a imagem estima, a linfadenectomia estadia

Tratamento da doença localizada por grupo de risco, na régua brasileira

GrupoOpções de eficácia equivalenteHormonioterapia associada
Baixo risco, expectativa de vida menor que 10 anosObservação, com tratamento quando surgir sintomaNão se aplica
Baixo risco, expectativa de vida de 10 anos ou maisVigilância ativa; prostatectomia radical; radioterapia externa com 74 Gy ou mais; braquiterapia de baixa taxa nos casos que preenchem os critériosNão indicada
Risco intermediárioProstatectomia radical com linfadenectomia estendida; ou radioterapia externa em dose elevadaCom a radioterapia: análogo do LHRH por 4 a 6 meses
Risco altoProstatectomia radical com linfadenectomia estendida; ou radioterapia externa com escalada de dose e irradiação pélvicaCom a radioterapia: análogo do LHRH por 2 a 3 anos
Localmente avançado cT3-T4Radioterapia externa; prostatectomia radical em casos selecionadosCom a radioterapia: análogo do LHRH por 3 anos

O nível de castração da testosterona é 50 ng/dL, valor que corresponde a 1,7 nmol/L. A diretriz brasileira imprime esse limiar como '50 ng/mL' em todas as passagens em que ele aparece, mas o equivalente molar que o próprio documento traz ao lado resolve a dúvida: 1,7 nmol/L equivale a cerca de 49 ng/dL, e não a 50 ng/mL, que seria cem vezes maior e nem sequer é alcançável em homem adulto.

Hormonioterapia neoadjuvante ou adjuvante à prostatectomia radical não tem indicação. O que existe com evidência é a hormonioterapia associada à radioterapia, e a radioterapia adjuvante após a cirurgia em pT3 ou margem comprometida.

A hormonioterapia paliativa também é autorizada na recidiva bioquímica sem metástase visível e no estádio III, porque nos dois casos existe doença ativa mesmo sem lesão detectável por imagem.

Os antineoplásicos do câncer de próstata não são padronizados nem fornecidos pelo Ministério da Saúde: os hospitais habilitados em oncologia é que padronizam, adquirem e fornecem, e o ressarcimento se dá por procedimento, não por medicamento. Só uma lista fechada de fármacos foge a essa regra, e nenhum deles é de próstata.

05

Onde as fontes divergem

Nestes pontos as fontes não dizem a mesma coisa. Cada posição vem com quem a sustenta — e com o que fazer diante de uma vinheta de prova.

O Gleason 7: uma casa só ou duas categorias distintas

Gleason 7 é uma casa única do risco intermediário

A tabela de risco de D'Amico adotada pela diretriz brasileira tem três linhas — estádio clínico, escore de Gleason e PSA — e o escore entra como número: até 6 no baixo risco, 7 no intermediário, acima de 7 no alto. A ordem dos padrões não aparece em lugar nenhum do documento, e a graduação histopatológica da UICC que ele reproduz é ainda mais grossa, com uma faixa única G3-4 cobrindo de Gleason 7 a 10.

Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas do Adenocarcinoma de Próstata, Portaria SAS/MS nº 498, de 11 de maio de 2016, Tabela 1 e item 4.2.1.

3+4 e 4+3 são grupos de grau diferentes

A classificação por grupos de grau da ISUP, adotada pela diretriz europeia, coloca Gleason 3+4 no grupo 2 e Gleason 4+3 no grupo 3, e reúne todos os oitos — 4+4, 3+5 e 5+3 — no grupo 4. Nos grupos de risco da EAU de 2025, essa distinção tem consequência direta: grupo de grau 2 com PSA abaixo de 10 e cT1-2 é intermediário favorável, ao passo que grupo de grau 3 já é intermediário desfavorável, e é o desfavorável que ganha imagem de estadiamento.

EAU-EANM-ESTRO-ESUR-ISUP-SIOG Guidelines on Prostate Cancer, edição 2025, capítulo Classification and staging systems.

Na prova

A causa do afastamento é de data e de desenho da ferramenta: o documento brasileiro é de 2016 e foi construído sobre uma classificação de risco de 1998, enquanto a divisão por grupos de grau se consolidou depois e foi desenhada justamente para desfazer a ambiguidade do 7. Um enunciado que informa apenas 'Gleason 7', sem dizer a ordem dos padrões, está trabalhando na régua brasileira e espera a classificação de D'Amico. Um enunciado que escreve '4+3', que fala em 'grupo de grau' ou 'ISUP', ou que oferece alternativas separando intermediário favorável de desfavorável, está no vocabulário europeu. Repare também no distrator: alternativa que trata 'Gleason 8' como pior que 'Gleason 3+5' denuncia confusão, porque as duas coisas são o mesmo grupo de grau 4.

Ressonância antes da biópsia e via de punção

Biópsia guiada por ultrassonografia transretal, ressonância em casos selecionados

A diretriz brasileira define a ultrassonografia transretal como o método de escolha para a realização da biópsia, com a função explícita de orientar o posicionamento da agulha nas diferentes zonas da próstata. A ressonância magnética tem indicação em casos bastante selecionados, e o documento justifica a reserva: a metanálise que cita mostra acurácia de 50% a 92% para prever extensão extracapsular e comprometimento de vesículas seminais.

Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas do Adenocarcinoma de Próstata, Portaria SAS/MS nº 498/2016, item 4.2.

Ressonância antes de toda biópsia e via transperineal preferida

A diretriz europeia recomenda com força realizar ressonância antes da biópsia em todo paciente com suspeita de doença confinada ao órgão, seguindo o PI-RADS na aquisição e na leitura, e recomenda com força a via transperineal em lugar da transretal. Os fundamentos são dois. O ensaio TRANSLATE, com 1.126 homens randomizados, encontrou câncer clinicamente significativo em 60% pela via transperineal contra 54% pela transretal, com menos eventos adversos graves; e uma metanálise de treze estudos com 4.516 pacientes mostrou redução significativa das complicações infecciosas pela via transperineal, com séries descrevendo sepse em 0,1% contra 0,9%. A mesma diretriz autoriza omitir a biópsia quando a ressonância é negativa e a suspeita clínica é baixa.

EAU-EANM-ESTRO-ESUR-ISUP-SIOG Guidelines on Prostate Cancer, edição 2025, capítulo Diagnostic evaluation, itens 5.4 a 5.6.

Na prova

São três causas somadas: data, disponibilidade de parque tecnológico — ressonância multiparamétrica com laudo padronizado e mesa de biópsia transperineal não estão distribuídas de forma homogênea na rede pública — e política de uso de antimicrobianos, que é o argumento com que a diretriz de fora sustenta a mudança de via. Enunciado que cita PI-RADS, densidade de PSA ou biópsia por fusão está no vocabulário europeu, e nele existe a alternativa 'não biopsiar e monitorar o PSA', que na régua brasileira nem é oferecida. Enunciado que descreve encaminhamento pela rede pública, ou que já traz o resultado de uma biópsia transretal por doze fragmentos, está no corpo brasileiro. Prova oficial do Ministério da Educação tende à conduta do sistema público.

Estadiamento por imagem no risco intermediário e alto

Cintilografia óssea e imagem seccional

A diretriz brasileira limita a investigação de metástase à distância, em especial do esqueleto axial, aos pacientes de risco intermediário e alto, e o exame indicado é a cintilografia óssea de corpo inteiro. A avaliação de linfonodo por tomografia ou ressonância fica restrita ao alto risco, e o próprio documento registra que esses exames carecem de sensibilidade e especificidade para essa finalidade.

Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas do Adenocarcinoma de Próstata, Portaria SAS/MS nº 498/2016, item 4.2.

PSMA por tomografia por emissão de pósitrons, quando disponível

A diretriz europeia recomenda o rastreamento de metástase com PSMA por tomografia por emissão de pósitrons no alto risco e no localmente avançado — recomendação forte — e no intermediário desfavorável, com recomendação fraca, sempre com a condicionante 'se disponível'. Nos dois casos a própria diretriz escreve a alternativa: ao menos imagem seccional de abdome e pelve associada à cintilografia óssea. Para o baixo risco e o intermediário favorável, a recomendação é forte no sentido oposto — não usar imagem adicional.

EAU-EANM-ESTRO-ESUR-ISUP-SIOG Guidelines on Prostate Cancer, edição 2025, item 5.8.5, recomendações para estadiamento.

Na prova

A causa é de data e de disponibilidade da tecnologia, e a divergência é menor do que parece, porque a diretriz de fora condiciona a indicação à disponibilidade e nomeia como alternativa exatamente a dupla brasileira. As duas réguas convergem em dois pontos que resolvem a maior parte das questões: os alvos são osso e linfonodo, e no baixo risco não se pede imagem alguma. Enunciado que menciona PSMA, radiofármaco ou tomografia por emissão de pósitrons trabalha no corpo internacional; enunciado com cintilografia óssea e tomografia de abdome e pelve, com paciente vindo da rede pública, trabalha no brasileiro. Quando as alternativas trazem 'nenhum exame de imagem adicional' num paciente de baixo risco, as duas réguas dizem a mesma coisa.

A primeira linha de castração na doença avançada: cirúrgica ou medicamentosa

Primeira linha é a supressão androgênica cirúrgica

A diretriz brasileira ordena a hormonioterapia paliativa em linhas e escreve a primeira sem margem: supressão androgênica por bloqueio hormonal cirúrgico, isto é, orquiectomia bilateral; nos casos em que o procedimento cirúrgico for contraindicado, utiliza-se o bloqueio medicamentoso com agonista ou antagonista do hormônio liberador do hormônio luteinizante. E acrescenta uma regra para a mudança de linha: se o homem estiver recebendo o análogo como primeira linha, esta deve ser substituída pela supressão androgênica cirúrgica ao passar para a segunda, salvo contraindicação.

Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas do Adenocarcinoma de Próstata, Portaria SAS/MS nº 498/2016, seção de regulação, controle e avaliação pelo gestor.

Orquiectomia e análogo do LHRH são equivalentes, e a escolha é do paciente

O mesmo documento brasileiro reconhece, na revisão de evidência, que a orquiectomia bilateral e o uso de análogo do LHRH são equivalentes como primeira escolha no câncer de próstata avançado, sem diferença entre as duas modalidades. A prática internacional herda dessa equivalência a preferência pela castração medicamentosa, por ser reversível, por não exigir procedimento cirúrgico e por poder ser administrada de forma intermitente — modalidade que revisões mais recentes citadas no próprio documento consideram equivalente em sobrevida e melhor em qualidade de vida.

Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas do Adenocarcinoma de Próstata, Portaria SAS/MS nº 498/2016, item 5.3, e as metanálises ali referidas.

Na prova

A causa não é de evidência: o próprio documento brasileiro diz que as duas modalidades se equivalem em desfecho. A causa é de exequibilidade e de endereço de política. Os antineoplásicos do câncer de próstata não são padronizados nem fornecidos pelo Ministério da Saúde — quem padroniza, adquire e fornece é o hospital habilitado em oncologia, ressarcido por procedimento e não por medicamento — enquanto a orquiectomia é um procedimento cirúrgico próprio, de custo definido e não recorrente. Enunciado que descreve o fluxo do sistema público, cita a diretriz nacional ou pergunta pela sequência de linhas está no corpo brasileiro; enunciado ambulatorial que já parte de um paciente em uso de análogo, ou que discute bloqueio intermitente, está no corpo internacional. Nos dois mundos vale a mesma checagem final: o bloqueio só é efetivo com testosterona abaixo de 50 ng/dL.

Antiandrogênicos de nova geração no câncer sensível à castração metastático

Abiraterona incorporada; os outros três, não

A decisão brasileira de agosto de 2024 incorporou ao sistema público a abiraterona, em monoterapia ou associada ao docetaxel, para o tratamento de pacientes com câncer de próstata sensível à castração e metastático, conforme protocolo do Ministério da Saúde. Na mesma portaria, e para a mesma indicação, ficaram de fora enzalutamida, darolutamida e apalutamida.

Portaria SECTICS/MS nº 32, de 22 de agosto de 2024, Conitec.

Qualquer inibidor da via do receptor androgênico associado à castração

Fora do sistema público brasileiro, as quatro moléculas são tratadas como alternativas de uma mesma classe no câncer sensível à castração metastático, associadas à castração em dupla ou em tripla com docetaxel, e a escolha se faz por perfil de efeito adverso, interação medicamentosa e comodidade posológica, não por hierarquia de eficácia. A diretriz brasileira de 2016 é anterior a todo esse bloco de evidência: ela sequer contempla essa indicação e remete cada um desses medicamentos à análise da Conitec.

Portaria SECTICS/MS nº 32/2024 (lista das quatro tecnologias avaliadas na mesma indicação) e Diretrizes Diagnósticas e Terapêuticas do Adenocarcinoma de Próstata, Portaria SAS/MS nº 498/2016, itens 5.3 e 5.4.

Na prova

A causa é de não incorporação, com endereço e data conhecidos: quatro tecnologias foram avaliadas juntas na mesma indicação e apenas uma entrou. É uma divergência de disponibilidade, não de mérito clínico das outras três. Enunciado que situe o paciente na rede pública, que cite a Conitec ou que ofereça alternativas com nomes comerciais e genéricos misturados está pedindo o que existe no sistema; enunciado de centro terciário, com recurso ilimitado, ou que fale em terapia dupla e tripla como conceito, está no corpo internacional. Há ainda um par que caduca junto: a diretriz de 2016 diz que a quimioterapia se restringe à doença resistente à castração, e a associação de docetaxel na doença ainda sensível à castração só entrou no sistema público pela portaria de 2024.

06

Caso resolvido

Homem de 66 anos, hipertenso, sem sintomas urinários, procura a unidade básica com um PSA de 12 ng/mL colhido há dois meses num exame de rotina do trabalho. Não usou nenhum medicamento para a próstata, não teve infecção urinária nem foi sondado no último ano. Ao toque retal, próstata de volume moderado, com nódulo endurecido ocupando cerca de dois terços do lobo direito, sem acometimento do lobo esquerdo. Encaminhado, faz biópsia transretal por doze fragmentos: adenocarcinoma em quatro fragmentos do lobo direito, escore de Gleason 4+3 = 7.
o que já está decidido antes de qualquer exame novo
O diagnóstico está feito: é histológico e veio no laudo. O PSA foi colhido em condição válida — sem retenção, instrumentação, infecção ou inibidor da 5-alfa-redutase —, então o valor de 12 ng/mL entra na conta sem correção.
estádio clínico pelo toque
Nódulo palpável em mais da metade de um lobo, sem acometimento do outro: cT2b. O toque, e não a biópsia nem o PSA, é o que define o T clínico.
grupo de risco nas duas réguas
Por D'Amico: cT2b, Gleason 7 e PSA entre 10 e 20 — as três variáveis caem no intermediário, e nenhum critério de alto risco está presente. Risco intermediário. Pela régua europeia, o 4+3 é grupo de grau 3, o que já basta para classificá-lo como intermediário desfavorável — a mesma faixa, com um recorte mais fino.
imagem de estadiamento
Risco intermediário entra na faixa que estadia por imagem: cintilografia óssea de corpo inteiro. A avaliação linfonodal por tomografia ou ressonância é reservada ao alto risco na régua brasileira; na europeia, um intermediário desfavorável faria PSMA por tomografia por emissão de pósitrons se disponível, ou a mesma dupla de tomografia e cintilografia.
conduta
Sem metástase, as opções são duas e de eficácia equivalente: prostatectomia radical com linfadenectomia estendida, ou radioterapia externa em dose elevada associada a hormonioterapia curta, de 4 a 6 meses. Vigilância ativa não entra — ela é reservada ao baixo risco. E, se a escolha for a cirurgia, não se prescreve hormonioterapia neoadjuvante nem adjuvante a ela.
seguimento combinado desde já
PSA aos 3, 6 e 12 meses, semestral até o terceiro ano e anual depois. Se operado, recidiva bioquímica será PSA acima de 0,2 ng/mL; se irradiado, será o nadir mais 2 ng/mL. O paciente sai da consulta sabendo qual dos dois números vai valer para ele.
07

Agora feche você

Homem de 71 anos, submetido a prostatectomia radical há quatro anos por adenocarcinoma cT2a, Gleason 3+4 = 7, PSA pré-operatório de 8,2 ng/mL. O anatomopatológico mostrou pT2c com margens livres. O PSA ficou indetectável nos dois primeiros anos. No controle anual atual, o PSA é de 0,42 ng/mL; repetido com seis semanas de intervalo, vem 0,51 ng/mL. Está assintomático, sem dor óssea, e a cintilografia óssea e a tomografia de abdome e pelve não mostram lesão.
achado
PSA de 0,42 subindo para 0,51 ng/mL quatro anos depois de uma prostatectomia radical que havia zerado o marcador, sem lesão detectável em cintilografia ou tomografia.
o que este número significa
conduta
08

Onde a banca derruba

  1. 1Pedir cintilografia óssea para todo mundo que recebeu o diagnóstico O reflexo de estadiar por imagem qualquer câncer recém-diagnosticado atropela a regra do tema, que é restritiva nas duas réguas: no baixo risco não se pede imagem de estadiamento, e a diretriz europeia coloca essa omissão como recomendação forte, e não como economia. O paciente típico da armadilha é o Gleason 6, PSA 6, T1c, que sai do consultório com um pedido de cintilografia e de tomografia que só vão render achado incidental e ansiedade.
  2. 2Somar o Gleason e parar por aí O 7 atrai porque é um número redondo e a soma é a operação que o nome do escore sugere. Só que 3+4 e 4+3 descrevem tumores diferentes — no segundo, o padrão pouco diferenciado é o predominante — e essa diferença muda o grupo de grau, muda a faixa de risco na régua europeia e é um dos gatilhos de tratamento definitivo em quem está sob vigilância ativa. Ler o laudo pela soma é perder metade da informação que o patologista escreveu.
  3. 3Tratar observação e vigilância ativa como sinônimos As duas condutas se parecem porque em nenhuma delas se opera hoje, e é isso que faz a armadilha funcionar. A observação é para expectativa de vida de até dez anos e tem intenção paliativa desde o início: espera-se o sintoma. A vigilância ativa é para o baixo risco com expectativa de dez anos ou mais e mantém a intenção curativa em suspenso: acompanha-se com PSA, toque e biópsias, e trata-se de verdade ao primeiro sinal de progressão. Trocar uma pela outra troca o objetivo do cuidado.
  4. 4Achar que resistência à castração significa testosterona que voltou a subir O nome sugere falha do bloqueio, e o candidato procura na questão um valor de testosterona alto. É o contrário: a definição exige que a testosterona esteja em nível de castração e que, ainda assim, a doença progrida — por PSA subindo em três medidas consecutivas com valor acima de 2 ng/mL, ou por progressão radiológica com duas ou mais lesões ósseas novas. E, uma vez caracterizada, a hormonioterapia não é suspensa quando a quimioterapia começa.
  5. 5Trocar os dois cortes de recidiva bioquímica São dois números para a mesma palavra, e a memória mistura. Depois da prostatectomia, o corte é PSA acima de 0,2 ng/mL, porque não deveria sobrar tecido produzindo o marcador. Depois da radioterapia, a próstata continua lá e continua produzindo: o corte é relativo, nadir mais 2 ng/mL. Aplicar o corte da radioterapia num paciente operado deixa passar meses de recidiva; aplicar o corte da cirurgia num paciente irradiado inventa recidiva onde não há.
  6. 6Ler 'invasão da cápsula' no laudo e promover para T3 A palavra cápsula puxa a mão para o T3, mas a nota do próprio TNM diz o oposto: a invasão do ápice prostático ou da cápsula, mas não além dela, é classificada como T2. O que define T3a é a extensão através da cápsula, para fora. A mesma família de erro aparece com o tumor achado nos dois lobos apenas na biópsia por agulha, sem nada palpável nem visível: isso é T1c, não T2c.
  7. 7Prescrever hormonioterapia junto com a prostatectomia radical A associação de hormonioterapia com tratamento local é verdadeira, e por isso a armadilha cola — só que ela vale para a radioterapia, com duração que muda conforme o grupo de risco, e não para a cirurgia. Para a prostatectomia radical, a diretriz é explícita ao dizer que inexiste evidência que justifique hormonioterapia neoadjuvante ou adjuvante, apesar de o resultado patológico melhorar. O que existe depois da cirurgia é radioterapia adjuvante, diante de pT3 ou margem comprometida.
Gabarito da questão de abertura
Comentário

Nódulo prostático endurecido e irregular ao toque retal é achado suspeito de câncer de próstata, independentemente do valor do PSA, e por si só indica encaminhamento ao especialista para investigação com biópsia. Associado a PSA elevado (8,2), a suspeita se reforça. Iniciar finasterida (que reduz o PSA e mascara a interpretação) ou apenas repetir exames adiaria o diagnóstico. Antibiótico não altera um nódulo neoplásico. A APS deve identificar o sinal de alarme e referenciar oportunamente.

09

Recuperação

Responda as 10 — o gabarito e o comentário de cada uma abrem a cada questão ou só no fim, como você preferir.

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10

Plano de revisão

em 7 dias

Três pares de números. Risco de D'Amico: baixo exige todos os critérios (até T2a, Gleason até 6, PSA abaixo de 10), alto basta um (T2c-T3a, Gleason acima de 7, PSA acima de 20). Imagem: baixo risco não faz nenhuma; intermediário e alto fazem cintilografia óssea. Recidiva bioquímica: acima de 0,2 ng/mL depois da cirurgia, nadir mais 2 ng/mL depois da radioterapia.

em 30 dias

Reconstrua o caminho inteiro num paciente imaginário: toque define o T, biópsia define o Gleason e a ordem dos padrões, os três juntos definem o grupo de risco, o grupo de risco decide a imagem e o leque terapêutico. Depois some as durações de hormonioterapia com radioterapia — 4 a 6 meses no intermediário, 2 a 3 anos no alto, 3 anos no cT3-T4 — e a definição de resistência à castração: progressão com testosterona já abaixo de 50 ng/dL.

11

Agora atenda

Você sabe decidir com a tomografia na mão. A prova prática, e a vida, pedem outra coisa: chegar lá a partir de um paciente que ainda não tem exame nenhum.

Caso do acervo

Homem de 68 anos chega ao ambulatório de urologia com laudo de biópsia prostática na mão: adenocarcinoma em três de doze fragmentos, escore de Gleason 3+3 = 6. Traz também um PSA de 7,4 ng/mL. Ao toque retal, próstata fibroelástica, sem nódulos. Está assistindo o filho conversar com ele em voz baixa e diz que quer 'tirar isso logo'. Conduza a consulta: estadie, classifique o risco, decida se há exame de imagem a pedir e apresente as opções de tratamento, incluindo a que não envolve tratar agora. — você conduz anamnese, exame físico e conduta; o paciente responde em tempo real e o feedback vem no fim.

Câncer de próstata: do PSA alterado ao tratamento — Preparatório para provas | OsceLabs