Fundamentos da Prática Clínica › Semiologia: exame segmentar
Abdome: palpação
Começar longe da dor, procurar de baixo para cima e saber o limite da palpação
A cena
O interno procura o fígado. Encosta os dedos logo abaixo do rebordo costal direito, pede para o paciente respirar fundo, não sente nada, e conclui: fígado não palpável. O preceptor recomeça na fossa ilíaca direita, bem longe do rebordo, e vai subindo um través de dedo a cada expiração. Na altura da cicatriz umbilical, a borda hepática vem ao encontro dos dedos. O fígado estava enorme — e justamente por isso o primeiro exame não o encontrou: a mão começou acima da borda e nunca passou por ela.
É a armadilha mais elegante do exame do abdome. Órgão muito aumentado é o que mais escapa de quem começa perto do lugar onde ele deveria estar. Palpação de fígado e baço começa embaixo, sempre.
De onde vem o sinal
A palpação do abdome tem duas etapas com objetivos diferentes. A superficial procura dor, defesa e alterações da parede, com pouca pressão. A profunda procura órgãos e massas e deve vir depois, quando a palpação superficial já mostrou quais áreas são dolorosas e devem ser examinadas por último.
O primeiro princípio é conseguir relaxamento da parede abdominal. Mão fria, dor inesperada, pressa, pernas estendidas ou medo do exame aumentam a tensão muscular e dificultam a palpação. Por isso, comece longe da dor, aumente a pressão gradualmente e avise o paciente sobre o que vai fazer.
Para fígado e baço, a respiração ajuda o exame. Durante a inspiração, o diafragma desloca esses órgãos para baixo, aproximando sua borda da mão do examinador. A busca deve começar abaixo de onde se espera encontrar a borda e avançar progressivamente em direção ao rebordo costal. Começar diretamente junto às costelas pode fazer uma grande visceromegalia passar despercebida.
O baço tem uma dificuldade adicional: normalmente não é palpável e, quando aumenta, sua detecção ainda pode ser prejudicada pelo tecido adiposo. Uma estratégia útil é combinar percussão e palpação: a macicez no espaço de Traube aumenta a suspeita de esplenomegalia e indica uma busca mais cuidadosa pela borda esplênica.
A aorta abdominal também pode ser avaliada pela palpação, geralmente na linha média acima da cicatriz umbilical. O objetivo não é apenas senti-la, mas perceber se sua largura parece aumentada. A capacidade do exame de detectar um aneurisma cresce conforme aumenta o diâmetro da aorta, por isso um exame normal não tem o mesmo peso em aneurismas pequenos e grandes.

O que perguntar
A palpação é dirigida pelo que a história já apontou.
“Onde exatamente dói? Pode apontar com um dedo?”
Define onde a palpação vai terminar, e não onde ela vai começar. Você começa no quadrante mais distante e deixa o ponto doloroso por último.
“A dor começou difusa e depois se localizou?”
Migração da dor é dado clássico e muda a hipótese antes de qualquer manobra. Orienta onde procurar defesa e sensibilidade.
“Percebeu aumento do abdome, caroço ou massa?”
Direciona a busca por massas e visceromegalias.
“Já teve cirurgia abdominal ou alguma doença abdominal importante?”
Pode modificar anatomia, sensibilidade e interpretação dos achados.
Antes de encostar
- Explique o que vai fazer
- Avise que vai tocar e depois aprofundar a palpação. Surpresa aumenta tensão da parede.
- Posicione para relaxar o abdome
- Paciente em decúbito dorsal, confortável, com cabeça apoiada e braços relaxados. Se necessário, leve flexão dos joelhos ajuda a reduzir tensão da parede.
- Exponha o abdome adequadamente
- Do apêndice xifoide à região suprapúbica, preservando a privacidade.
- Aqueça as mãos
- Mão fria provoca contração reflexa e dificulta o exame.
- Confirme onde dói antes de começar
- A palpação começa longe da área dolorosa e termina nela.
A técnica
Superficial antes de profunda, longe da dor antes de perto dela, embaixo antes de em cima.
- 1
Palpação superficial de todos os quadrantes
Com a mão espalmada e os dedos quase estendidos, faça pressão leve e percorra sistematicamente todos os quadrantes. Comece pelo mais distante do ponto de dor. Procure sensibilidade, defesa e alterações da parede.
Erro comum: Começar pelo ponto doloroso. A dor desencadeia contração que inutiliza o restante do exame.
- 2
Palpação profunda de todos os quadrantes
Repita o mesmo trajeto, agora com pressão progressivamente maior, procurando massas, visceromegalias e dor profunda. Se necessário, use uma mão sobre a outra para aumentar a pressão sem perder o controle do movimento.
Erro comum: Aprofundar de forma brusca. Além de causar dor, isso aumenta a defesa e reduz a qualidade da palpação.
- 3
Procurar a borda do fígado de baixo para cima
Comece abaixo de onde espera encontrar a borda hepática e avance gradualmente em direção ao rebordo costal direito. Mantenha os dedos voltados para a borda e peça uma inspiração profunda, tentando sentir o fígado descer ao encontro da mão.
Erro comum: Começar junto ao rebordo costal. Em uma hepatomegalia importante, a borda pode estar muito abaixo e passar despercebida.
- 4
Caracterizar o fígado quando palpável
Se encontrar a borda hepática, descreva sua distância do rebordo costal, regularidade, superfície, consistência e presença de dor à palpação.
Erro comum: Registrar apenas “fígado palpável”. Uma borda palpável isoladamente não informa se o achado é fisiológico ou patológico.
- 5
Procurar o baço de baixo para cima
Comece bem abaixo do hipocôndrio esquerdo e avance obliquamente em direção ao rebordo costal enquanto o paciente inspira profundamente. Se a palpação em decúbito dorsal for negativa e a suspeita permanecer, repita em decúbito lateral direito.
Erro comum: Procurar o baço apenas imediatamente abaixo das costelas. Quanto maior o baço, mais inferiormente sua borda pode estar.
- 6
Palpar os rins de forma bimanual
Coloque uma mão posteriormente no flanco e a outra na parede abdominal anterior. Durante a inspiração, aproxime as duas mãos tentando perceber o rim entre elas. Compare os dois lados.
Erro comum: Confundir rim palpável com uma massa fixa. O rim apresenta mobilidade própria, pode ser capturado entre as mãos e tem comportamento diferente do baço.
- 7
Avaliar a aorta abdominal
Palpe profundamente na linha média, geralmente acima da cicatriz umbilical, posicionando as mãos de cada lado da pulsação. Tente estimar a largura da aorta, e não apenas confirmar que ela pulsa.
Erro comum: Considerar qualquer pulsação abdominal como aneurisma. A aorta normal pode ser facilmente palpável, especialmente em pacientes magros.
- 8
Caracterizar qualquer massa encontrada
Defina localização, tamanho, forma, superfície, consistência, mobilidade, dor e relação com a respiração. Observe também se a massa transmite ou apresenta pulsação própria.
Erro comum: Encontrar uma massa e imediatamente nomear o órgão de origem. Primeiro descreva o que a mão realmente encontrou; depois interprete.
Padrão esperado, alterações e registro
- Abdome depressível, indolor à palpação superficial e profunda, sem defesa.
- Fígado não palpável ou com borda lisa, fina e indolor logo abaixo do rebordo costal.
- Baço habitualmente não palpável.
- Aorta pode ser palpável na linha média, especialmente em pacientes magros, sem alargamento.
- Ausência de massas.
- Exemplo de registro: abdome flácido, sem dor ou defesa; fígado palpável a 1 cm do rebordo, borda lisa e indolor; baço não palpável; sem massas.
- Rigidez involuntária que persiste ao longo de todo o ciclo respiratório
- Sugere irritação peritoneal. Diferente da defesa voluntária, que cede quando o paciente relaxa na expiração.
- Fígado palpável muito abaixo do rebordo, com borda romba e superfície lisa, doloroso
- Sugere hepatomegalia com distensão da cápsula; congestão e processos inflamatórios estão entre as possibilidades.
- Fígado de consistência endurecida, com borda fina e superfície irregular
- Sugere alteração estrutural crônica ou infiltrativa e merece investigação complementar.
- Baço palpável abaixo do rebordo costal esquerdo
- Em adultos, geralmente indica esplenomegalia, mas a palpação isolada não define sua causa.
- Massa pulsátil e alargada na linha média acima do umbigo
- Aumenta a suspeita de aneurisma de aorta abdominal, especialmente quando o contexto clínico é compatível, mas não confirma o diagnóstico.
- Massa no hipocôndrio esquerdo cuja borda superior pode ser alcançada por baixo do rebordo
- Argumenta contra baço e a favor de rim ou outra estrutura. A impossibilidade de alcançar a borda superior é uma das características do baço.
- Abdome tenso e doloroso difusamente em paciente com mão do examinador fria
- Antes de concluir peritonite, refaça o exame com a mão aquecida e o paciente relaxado. É a causa mais banal de falso positivo da palpação.
O que isso quer dizer
A palpação da aorta abdominal mostra bem uma regra geral do exame físico: o desempenho da manobra depende da intensidade do achado. Em meta-análise de 15 estudos, a sensibilidade aumentou conforme o aneurisma crescia: foi de 29% entre 3,0 e 3,9 cm e chegou a 76% quando o diâmetro era de 5,0 cm ou mais.
Um achado positivo tem peso: para aneurismas de 3,0 cm ou mais, a razão de verossimilhança positiva foi 12. Já um exame negativo ajuda pouco, com razão de verossimilhança negativa de 0,72. Em outras palavras, palpar uma aorta alargada aumenta bastante a suspeita; não palpá-la não exclui aneurisma, principalmente os menores. A obesidade abdominal também reduz o rendimento da manobra. Por isso, palpação normal não substitui o rastreamento por imagem quando ele está indicado.
No baço, a evidência ajuda principalmente a organizar a técnica. Em estudo comparado com ultrassonografia, a percussão do espaço de Traube e a palpação foram os achados de maior utilidade, favorecendo uma estratégia sequencial: percutir Traube e, se houver macicez, intensificar a busca pela borda esplênica à palpação. O rendimento é maior em pacientes magros.
No fígado, a principal lição é outra: não interprete apenas quantos centímetros a borda está abaixo do rebordo costal. Esse dado varia com a posição do diafragma, o formato do tórax e a anatomia individual. Quando o fígado é palpável, descreva também consistência, superfície, forma da borda e dor. Esses atributos aumentam a informação clínica do exame, mas não determinam, isoladamente, a etiologia.
| Sinal | Medida | Valor | Fonte |
|---|---|---|---|
| Palpação de aorta abdominal alargada | Razões de verossimilhança para aneurisma de aorta abdominal, em meta-análise de 15 estudos de rastreamento com ultrassonografia como referência. O valor preditivo positivo para 3,0 cm ou mais foi de 43%. | LR+ 12,0 (IC 95% 7,4–19,5) e LR- 0,72 (IC 95% 0,65–0,81) para aneurismas de 3,0 cm ou mais; LR+ 15,6 (IC 95% 8,6–28,5) e LR- 0,51 (IC 95% 0,38–0,67) para 4,0 cm ou mais | Lederle FA, Simel DL. The rational clinical examination. Does this patient have abdominal aortic aneurysm? JAMA. 1999;281(1):77-82. |
| Sensibilidade da palpação conforme o diâmetro do aneurisma | Sensibilidade da palpação abdominal por faixa de diâmetro. Aneurismas menores são justamente os que mais escapam, e a obesidade abdominal reduz ainda mais a sensibilidade — por isso o exame normal não substitui o rastreamento por imagem. | 29% para 3,0–3,9 cm; 50% para 4,0–4,9 cm; 76% para 5,0 cm ou mais | Lederle FA, Simel DL. The rational clinical examination. Does this patient have abdominal aortic aneurysm? JAMA. 1999;281(1):77-82. |
| Percussão do espaço de Traube seguida de palpação, na avaliação do baço | Desempenho contra ultrassonografia. O estudo de beira de leito concluiu que a avaliação ótima começa pela percussão de Traube e prossegue para a palpação apenas se o espaço estiver maciço, sendo mais acurada em pacientes magros. | Percussão de Traube: sensibilidade 0,62 (IC 95% 0,51–0,71) e especificidade 0,72 (IC 95% 0,65–0,80) | Barkun AN, Camus M, Meagher T, Green L, Coupal L, De Stempel J, Grover SA. Splenic enlargement and Traube's space: how useful is percussion? Am J Med. 1989;87(5):562-6. |
Baço ou rim? E o que a borda do fígado diz
Duas dúvidas frequentes da palpação profunda, resolvidas por características e não por impressão.
| Característica | Baço aumentado | Rim aumentado |
|---|---|---|
| Alcançar a borda superior por baixo do rebordo | Não é possível | Costuma ser possível |
| Incisura na borda | Presente | Ausente |
| Movimento com a inspiração | Desce nitidamente | Movimento menor |
| Palpação bimanual com apoio lombar | Pouco característica | Característica — órgão retroperitoneal |
| Percussão sobre a massa | Maciça, contínua com Traube | Pode haver timpanismo de cólon à frente |
| Borda hepática romba, superfície lisa, dolorosa | Sugere congestão | — |
| Borda hepática fina, consistência endurecida, superfície irregular | Sugere doença crônica avançada | — |
- Na busca por grandes visceromegalias, comece bem abaixo do rebordo costal e avance progressivamente em direção a ele.
- Aorta palpável e pulsátil não é sinônimo de aneurisma: em pessoa magra a aorta normal é facilmente sentida. A pergunta é sobre a largura.
Erros que custam o achado
- Começar a palpação pelo ponto doloroso
- A dor desencadeia contração da parede que inutiliza o restante do exame. Comece pelo quadrante mais distante e deixe o ponto de dor por último.
- Procurar o fígado sob o rebordo costal
- É o erro que faz perder exatamente as hepatomegalias grandes. Se a borda já desceu além do ponto onde a mão foi colocada, ela nunca será encontrada. Comece na fossa ilíaca direita.
- Ir direto à palpação do baço
- O baço só se torna palpável quando já está bastante aumentado. A sequência com melhor rendimento é percutir o espaço de Traube primeiro e palpar apenas se ele estiver maciço.
- Concluir peritonite com o paciente contraído por mão fria
- Mão fria, dor inesperada e pressa produzem tensão que não é peritoneal. Refaça com a mão aquecida, o paciente relaxado e observando se a parede cede na expiração.
- Concluir aneurisma por pulsação forte
- Em pessoa magra a aorta normal é facilmente palpável e pulsa com nitidez. O que caracteriza aneurisma é o alargamento estimado entre as duas mãos, não a intensidade da pulsação.
- Tratar palpação normal da aorta como rastreamento
- A sensibilidade é de 29% para aneurismas de 3,0 a 3,9 centímetros, e a razão de verossimilhança negativa é 0,72 — a probabilidade quase não cai. Exame normal não dispensa imagem em quem tem indicação de rastreamento.
Roteiro da estação
Palpação do abdome, última etapa do exame, depois da inspeção, ausculta e percussão.
- 01Higienizar e aquecer as mãos e explicar o exame
- 02Palpação superficial de todos os quadrantes, começando pelo mais distante da dor
- 03Avaliar se há defesa e se ela cede na expiração
- 04Palpação profunda sistemática, com pressão progressiva, quadrante a quadrante
- 05Palpar o fígado começando na fossa ilíaca direita e subindo a cada expiração
- 06Caracterizar a borda hepática: distância, consistência, superfície, forma e dor
- 07Percutir o espaço de Traube antes de palpar o baço
- 08Palpar o baço de baixo para cima, em direção ao hipocôndrio esquerdo, com apoio posterior da outra mão.
- 09Repetir a palpação do baço em decúbito lateral direito
- 10Palpar a aorta abdominal na linha média acima do umbigo, estimando a largura
- 11Diferenciar baço de rim quando houver massa à esquerda
- 12Registrar cada achado com seus atributos, não apenas com a conclusão
Teste-se
Agora faça no paciente
Homem de 47 anos está na enfermaria e, à beira do leito, a primeira coisa que você ouve é: "Doutor, tô fraco e a barriga do lado esquerdo anda inchada, dá pra sentir um caroço duro." Agora é sua vez: conduza a anamnese, examine e monte o seu raciocínio.
Revisão espaçada
Por que a palpação do fígado e do baço deve começar na fossa ilíaca? Qual é a sequência recomendada para avaliar o baço e por quê?
Ao encontrar fígado, baço, massa ou pulsação abdominal palpáveis, quais características devem ser descritas antes de interpretar o achado? Por que uma palpação normal da aorta não exclui aneurisma?
